A FAMLIA FORSYTE


JOHN GALSWORTHY


Volume primeiro - O Proprietrio


Coleco Dois Mundos


Livros do Brasil


Digitalizao e Arranjo


Agostinho Costa


Este livro foi digitalizado para
ser lido por Deficientes Visuais


O nome de John Galsworthy era j mundialmente clebre e entre as suas obras j conhecidas figura, precisamente, A Famlia Forsyte, editada em todo o mundo como um
"best-seller". O seu autor, galardoado com o Prmio Nobel, , pois, uma glria indiscutvel na literatura mundial, e a base do seu talento, na apreciao de Joseph
Conrad, "est no seu poder de introspeco irnica, combinada com um olhar extremamente penetrante e fiel para todos os fenmenos da vida externa das suas personagens.
Esses so os poderes da sua imaginao, cujo servo  um estilo claro, directo, so, iluminado por uma sinceridade inteiramente despida de afectao.  o estilo de
um homem cuja simpatia pelo gnero humano  por de mais genuna para lhe permitir qualquer complacncia com a prpria vaidade,  custa dos seus semelhantes... e
suficientemente aguado para levar bem fundo a sua ironia impiedosa, e grave bastante para representar o digno veculo da sua profunda compaixo".
Estes ingredientes bastariam para celebrizar um romancista, e por isso Joseph Conrad o assinalou. Mas, como se isso no bastasse, a televiso veio apropriar-se dessa
obra e apresent-la em novos parmetros.
Crnica familiar intensamente dramtica, A Famlia Forsyte constitui um xito sem precedentes nos pases em que foi adaptada para a televiso: nada menos que 55!
Na Inglaterra, Frana, Espanha, Itlia e Rssia, por cinco vezes esteve presente no vdeo para empolgar milhes de telespectadores. Em Portugal, ser igualmente
apresentada na Radioteleviso Portuguesa, e certamente ir empolgar tambm o pblico portugus. O seu valor literrio, porm, nem por isso  menor: pelo contrrio,
o confronto permite fazer ressaltar os mltiplos valores que impem este romance  admirao universal.



COLECO DOIS MUNDOS


JOHN GALSWORTHY


PRMIO NOBEL


A FAMLIA FORSYTE


I - O PROPRIETRIO


TRADUO DE RACHEL DE QUEIROZ


EDIO "LIVROS DO BRASIL"

Rua dos Caetanos,


 LISBOA


A FAMLIA FO RSYTE


JOHN GALSWORTHY


Ttulo da edio original: THE FORSYTE SAGA


 MINHA MULHER
dedico "A Famlia Forsyte", na crena de que, entre todos os meus trabalhos,  o menos indigno daquela cujo estmulo, simpatia e crtica fizeram de mim um escritor
- o que eu nunca teria sido sem o seu auxlio.


Nota: Neste livro a paginao  inferior


 NDICE

Prefcio ............................................ 7

PRIMEIRA PARTE

I - A recepo em casa do velho Jolyon ......... 13
II - O velho Jolyon vai  pera ............... 35
III - O jantar em casa de Swithin ............... 49
IV - Projecto de construo .................... 65
V - O lar de um Forsyte ........................ 76
VI - Onde se v James por inteiro ...... ......... 83
VII - O pecadilho do velho Jolyon ............... 94
VIII - A planta da casa ........................... 103
IX - Morte da tia Ann ......................... 113

SEGUNDA PARTE

I - Progresso da construo ..................... 123
II - A tentativa de June ........................ 132
III - Passeio com Swithin ........................ 141
IV - James vai verificar pessoalmente ............ 153
V - Correspondncia entre Soames e Bosinney ... 164
VI - O velho Jolyon no Jardim Zoolgico ......... 181
VII - Uma tarde em casa de Timothy ............ 188
VIII - O baile em casa de Roger .................. 203
IX - Uma noite em Richmond..................... 213
X - Definio de um Forsyte..................... 225
XI - Bosinney sob palavra ........................ 236
XII - June faz algumas visitas ......... ............ 242
XIII - Concluso da casa ........................... 252
XIV - Soames senta-se nos degraus da escada......... 261

TERCEIRA PARTE

I - O testemunho de Mrs. Mac Ander ............ 267
II - A noite no parque ........................ ... 279
III - Encontro no Jardim Botnico ............... 284
IV - Viagem aos infernos ........................ 299
V - O processo ................................. 311
VI - Soames d a notcia ........................ 321
VII - A vitria de June ........................... 333
VIII - A partida de Bosinney ..................... 342
IX - A volta de Irene ........................... 352
Histria de Vero................................. 359


PREFCIO


"The Forsyte Saga" (A Famlia Forsyte) era o ttulo originalmente destinado a esta parte, a que depois chamei "The Man of Property" (O Proprietrio). E se o adoptei 
para toda a crnica da famlia Forsyte, foi cedendo quela tenacidade forsytiana que existe em todos ns. A palavra "saga" pode suscitar objeces, sob a alegao 
de que sugere coisas hericas, e que h muito pouco herosmo nestas pginas. Mas  empregada apenas com a ironia compatvel com a histria; e, afinal de contas, 
esta longa narrativa, refira-se embora a gente de sobrecasaca e trajos de seda e a um perodo dourado, no  despida do contedo essencial de um conflito. Fazendo 
o desconto das propores gigantescas e da sede de sangue dos velhos tempos - tais como chegaram at ns atravs das histrias de fadas e das lendas-, as personagens 
das antigas sagas tambm eram Forsyte, arraigados ao seu instinto de propriedade e pouco resistentes contra os assaltos da beleza e da paixo, tais como Swithin, 
Soames, e mesmo jolyon filho. E se as hericas figuras de tempos legendrios ressaltavam do seu ambiente de uma forma que seria considerada indecente para um Forsyte 
da era vitoriana, ns poderemos estar certos, entretanto, de que o instinto tribal era, ento como agora, a fora primeira, e que esta famlia, com o seu instinto 
de propriedade e de lar, espalhado numa lenda, "levaria longe a sua fama".
Tanta gente escreveu e proclamou que as suas famlias eram os ancestrais dos Forsyte que quase fomos obrigados a acreditar na realidade dessas figuras imaginrias. 
As maneiras mudam, as
modas evoluem, e a "casa de Timothy, em Bayswater Road", transformou-se num ninho de coisas inacreditveis, excepto no essencial; no encontraremos agora nada que 
se lhe assemelhe, nem talvez nada que se assemelhe a James ou ao velho Jolyon. E embora os algarismos das companhias de seguros e as sentenas dos juzes nos garantam 
diariamente que o nosso paraso terrestre ainda  um local de riqueza e segurana, quando os selvagens bandoleiros chamados Beleza e paixo se introduzem nele, sentimos 
que a segurana nos foge sob o nariz. E, igual a um co que no pode deixar de ladrar  passagem de uma charanga, aquela essncia de Soames que h na natureza humana 
sempre se alerta contra esses inimigos que rondam em torno dos seus redis de proprietrio.
"Deixai mortas as coisas mortas do passado" - isso significaria muito se o passado realmente morresse. A persistncia do passado  uma dessas tragicmicas bnos 
que cada nova Idade renega, certa de estar a afirmar uma perfeita novidade. Porm no existe nenhuma Era to nova assim! A natureza humana, sob as suas mutveis 
pretenses e roupas, foi e ser sempre grandemente Forsyte, e poderia, afinal de contas, ser um animal muito pior.
Olhando para trs, para a era vitoriana, cujo dilaceramento, declnio e queda  de certo modo descrito em "A Famlia Forsyte", vemos agora que saltamos de uma frigideira 
para o fogo. Seria difcil demonstrar que o caso da Inglaterra era melhor em 1913 do que o era em 1886, quando os Forsyte se reuniram em casa do velho Jolyon, para 
comemorarem o noivado de June com Philip Bosinney. E ainda em 1920, quando o cl se reuniu todo para celebrar o casamento de Fleur com Michael Mont, o estado da 
Inglaterra estava decerto to debilitado e falido quanto nos anos 80 estava congelado e com as rendas em baixo nvel.
Se esta crnica fosse realmente um estudo cientfico daquela transio, naturalmente teriam sido levados em conta os factores representados pela bicicleta, o carro 
a motor e a mquina voadora; o aparecimento da imprensa popular; o declnio da vida do campo e o aumento das cidades; o nascimento do cinema. Os homens so, na verdade, 
realmente inbeis para controlar as suas prprias invenes; o que mais facilmente desenvolvem  a adaptabilidade s novas condies que essas invenes criam.

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Porm esta longa histria no  o estudo cientfico de um perodo,  antes a encarnao dos distrbios que a Beleza produz na vida dos homens. A figura de Irene, 
que, segundo o leitor possivelmente observou, nunca se apresenta seno atravs dos sentidos das outras personagens,  a concretizao da perturbadora Beleza imiscuindo-se 
num mundo que s cuida da propriedade.
Algum h-de perceber que os leitores, quando se adiantam atravs das guas da saga, sentem-se cada vez mais inclinados a apiedar-se por Soames, e pensam que, procedendo 
assim, esto em desacordo com as disposies do seu criador. Longe disso! Ele tambm se apieda de Soames - cuja tragdia  muito simples, a incontrolvel tragdia 
de no se fazer amar sem possuir uma pele bastante grossa que o torne inconsciente disso. Nem mesmo Fleur ama Soames como ele sente que deveria ser amado. Porm, 
ao apiedarem-se de Soames, os leitores inclinam-se talvez a ficar contra Irene. Afinal de contas, pensam eles, Soames no era mau, nada foi culpa dele; ela deveria 
ter-lhe perdoado e agido em consequncia. Porm, tomando partido, os leitores perdem a noo da simples verdade que faz o entrelaamento de toda a histria - isto 
, quando a atraco dos sexos falta definitivamente a uma unio, no h piedade, nem razo, nem dever, ou o quer que seja capaz de vencer a repulsa implcita da 
Natureza. No adianta discutir se aqueles factores deveriam vencer ou no; porque isso nunca acontece. E quando Irene parece dura e cruel - como no Bois de Boulogne, 
na Groupenor Galery -, ela  apenas completamente realista, sabendo que a menor concesso  a polegada que precede o impossvel, o repulsivo limite.
H uma crtica que pode tambm ser feita, na ltima fase da saga, contra Jolyon e Irene - dois rebeldes  propriedade que alegam propriedade espiritual sobre o filho, 
Jon. Porm, do modo como  contada a histria, dizer isso seria hipercriticismo. Nenhum pai, nenhuma me, consentiria que o filho se casasse com Fleur sem prvio 
conhecimento dos factos, e so os factos que determinam Jon, no a persuaso tentada pelos pais. E, alm disso, a persuaso tentada por Jolyon no  por sua causa, 
mas sim pela de Irene, e Irene apenas repete: "No pense em mim, pense em si!" E o tacto de Jon, sabedor de tudo, compreender os sentimentos
da me - isso dificilmente pode ser alegado como prova de que ela, afinal, tambm era uma Forsyte.
Porm, alm de contar a interferncia da Beleza e dos protestos da Liberdade num mundo de proprietrios - que so os principais objectivos de "A Famlia Forsyte" 
-, ela no pode ser absolvida da acusao de ter pretendido embalsamar a "upper-middle class". Tal como os antigos egpcios, que punham ao lado das suas mmias as 
coisas necessrias para uma existncia futura, assim eu tentei pr ao lado das figuras das tias Ann, Juley e Hester, de Timothy e Swithin, do velho jolyon e de James 
e dos seus filhos algo que lhes pudesse garantir uma pequena vida, mais tarde - um pouco de blsamo que os protegesse na desenfreada corrida de um "progresso" dissolvente.
Se a "upper-middle class" est destinada a desaparecer no amorfismo junto a outras classes, aqui, picada nestas pginas, ficar como numa vitrina,  disposio dos 
pesquisadores do amplo e mal arranjado Museu das Letras. Aqui ela descansa, conservada no seu prprio caldo: o senso da propriedade.

1922 - JOHN GALSWORTHY

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"You will answer The slaves are ours...

(O Mercador de Veneza)


PRIMEIRA PARTE


CAPTULO I.

A RECEPO EM CASA DO VELHO JOLYON.

Todas as pessoas privilegiadas que assistiram a uma das festas de famlia realizadas em casa dos Forsyte gozaram de um espectculo ao mesmo tempo encantador e instrutivo: 
o de uma famlia da alta burguesia em grande gala. Mas, se algum desses eleitos fosse dotado de agudeza psicolgica - qualidade sem nenhum valor monetrio e devidamente 
ignorada pelos Forsyte-, seria testemunha de uma cena que, embora sem nada de especialmente agradvel, ilustraria um obscuro problema humano.
Noutros termos: da reunio dessa famlia - da qual entretanto no se poderiam designar trs membros ligados por um sentimento que merecesse ao menos o nome de simpatia 
- o nosso observador concluiria pela evidncia da misteriosa e concreta coeso que faz da famlia uma to formidvel unidade social, uma to exacta miniatura da 
sociedade. Sentir-se-ia admitido aos confusos caminhos trilhados pelo progresso social, compreenderia alguma coisa da vida patriarcal, desde o enxamear das hordas 
selvagens ao alvorecer e  queda das naes. Seria como algum que, tendo assistido  plantao e ao crescimento de uma rvore - modelo de tenacidade, de isolamento 
e de xito -, no meio de centenas de outras plantas, que, mais pobres de fibra, de seiva e de resistncia, houvessem sucumbido, visse essa rvore frondejar um
dia, em toda a sua folhagem espessa e pacfica, numa prosperidade quase repulsiva, no ponto mximo da sua vitalidade.
Pois, no dia 18 de Junho de 1886, pelas quatro horas da tarde, um observador que se encontrasse na residncia do velho Jolyon Forsyte, em Stanhope Gate, teria podido 
contemplar a suprema florescncia dos Forsyte.
Celebrava-se o noivado de Miss June Forsyte, neta do velho Jolyon, com Mr. Philip Bosinney. Com os seus trajos de luxo, luvas claras, coletes de plo de camelo, 
emplumada e encasacada, toda a famlia estava presente.
At a tia Ann comparecera, ela que raramente abandonava o canto da sala do seu irmo Timothy, onde, sob um penacho colorido de pampas grass que emergia de um vaso 
azul-claro, passava os dias a ler ou a tricotar, cercada pelas efgies de trs geraes de Forsyte. At a tia Ann estava pois ali: e o seu torso inflexvel, a calma 
dignidade da sua face, personificavam aquele rgido esprito de posse que era a alma da famlia.
Quando um Forsyte nascia, ficava noivo ou casava, todos os Forsyte estavam presentes; quando um Forsyte morria... mas a verdade  que nenhum Forsyte morrera ainda. 
Eles nunca morriam, a morte era contrria aos seus princpios, e tomavam precaues contra ela, as precaues instintivas de uma vitalidade poderosa contra qualquer 
atentado  sua propriedade.
Os Forsyte que naquele dia se misturavam  turba dos convidados pareciam mais bem tratados e vivazes que de ordinrio. Tinham uma segurana alerta, um ar de brilhante 
respeitabilidade. Dir-se-ia que se haviam preparado para desafiar qualquer coisa. O ar de desdm, caracterstico de Soames Forsyte, atingira a famlia inteira: parecia 
que todos estavam em guarda. E essa atitude inconscientemente agressiva da famlia, por ocasio da festa em casa do velho Jolyon, assinalla um momento psicolgico 
da sua histria e  o preldio do seu drama.
Sentia-se que estavam hostis a qualquer coisa, no individualmente, mas em grupo, e esse ressentimento exprimia-se pela perfeio requintada dos trajos, por uma 
exuberncia da cordialidade familiar, por um exagero da importncia da famlia e por uma imperceptvel expresso de desconfiana e desdm.
O perigo - factor indispensvel ao aparecimento da qualidade fundamental de qualquer sociedade, grupo ou indivduo - era o que os forsyte sentiam no ar. E era a 
premonio do perigo que os punha em guarda. Pela primeira vez, a famlia parecia ter a intuio de que entrava em contacto com algo de estranho e inquietante.
Encostado ao piano, via-se a possante figura de um homem. ostentando um colete duplo sobre o seu vasto peito - colete duplo e um alfinete de rubi na gravata, em 
vez do simples colete de cetim e do alfinete de brilhantes que usava habitualmente.
O rosto barbeado, quadrado, envelhecido, cor de couro, plido, com olhos plidos, exibia, sobre a gola de cetim, a sua expresso mais digna. Era Swithin Forsyte. 
Junto  janela, onde poderia absorver mais que o seu quinho de ar puro, via-se o seu irmo gmeo, James. Tinha tambm mais de um metro e oitenta de altura, sendo 
porm magrssimo, como se desde o nascimento fosse destinado a restabelecer o equilbrio da balana numa boa mdia; o velho Jolyon chamava aos gmeos "o gordo e 
o magro".
James, sempre curvo, meditava no que via; os seus olhos cinzentos, que pareciam fixamente absorvidos em qualquer terror secreto, faziam de vez em quando um exame 
rpido e furtivo ao que se passava em torno. A face, cortada por duas rugas paralelas, e o lbio superior, longo e raspado, emolduravam-se em suas. Na mo, James 
virava e revirava um bibelot de porcelana.
Perto dali, ouvindo o que lhe dizia uma senhora de vestido castanho, seu filho Soames, plido e inteiramente barbeado, moreno, um pouco calvo, erguia obliquamente 
o queixo e o nariz, com aquele ar de desdm desconfiado j aludido acima, como se escarnecesse de um ovo que sabia bem no poder digerir.
Atrs dele, o primo, o grande George, filho de Roger, o quinto Forsyte, preparava, com um ar sonso no rosto gordo, um dos seus sardnicos gracejos.
Algo de inerente  circunstncia os afectava a todos.
Sentadas em fila, muito prximas umas das outras, viam-se trs senhoras idosas: tia Ann, tia Hester - as duas solteironas da famlia Forsyte - e Juley - diminutivo 
de Jlia -, que tempos atrs, vendo que j no estava na primeira juventude,

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cometera a leviandade de casar com Septimus Small - um homem de constituio dbil. H longos anos que lhe sobrevivia. Junto com a irm mais velha e a irm mais 
nova, vivia em Bayswater Road, na casa do mano Timothy, o sexto e o mais novo dos seus irmos.
Cada uma das senhoras trazia um Jeque na mo, uma nota colorida no trajo, um broche ou uma pluma evidentes, atestando a solenidade do momento.
No centro da sala, debaixo do lustre, como convinha ao dono da casa, estava o chefe da famlia, o velho Jolyon em pessoa. Com os seus oitenta anos, os belos cabelos 
brancos, a testa alta, os olhos pequenos, cinzento-escuros, e o enorme bigode branco cado que ultrapassava a forte maxila, tinha um ar de patriarca; e, apesar das 
faces magras e das tmporas encovadas, parecia gozar da eterna juventude. Mantinha-se extremamente erecto e o seu olhar sagaz e firme nada perdera do brilho antigo. 
Dava a impresso de estar acima das dvidas e das averses que agitam os homens de menor tamanho; tendo, desde anos cuja memria j se perdera, executado sempre 
as suas vontades, conquistara como que um direito imprescritvel ao mando. Nunca ocorreria ao esprito do velho Jolyon a necessidade de assumir uma atitude de inquietao 
ou desafio.
Entre ele e os seus quatro irmos presentes - James, Swithin, Nicholas e Roger - havia muitas diferenas e muitas analogias. E, por sua vez, cada um dos quatro irmos, 
entre si, eram profundamente diferentes, embora assemelhando-se muito.
Atravs dos traos e das expresses diversas daqueles cinco rostos, poder-se-ia notar uma certa fora particular na maxila; e esse trao, apesar das dissemelhanas 
superficiais, era uma caracterstica de raa por de mais remota para que se lhe pudesse pesquisar a origem e muito persistente para que se pudesse discuti-la- era 
como a marca registada da famlia e a garantia dos seus xitos. Na jovem gerao - no grande George, com o seu aspecto taurino, no plido e voluntarioso Anchibald, 
em Nicholas filho, suave e prudentemente obstinado, no grave Eustace, resoluto e ftuo - sempre se encontrava o mesmo trao, menos acentuado talvez; entretanto, 
no seria possvel um engano: aquilo era a marca de qualquer coisa indestrutvel na alma familiar.

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Num ou noutro momento daquela tarde, todas essas caras, to semelhantes e to diversas, haviam exibido a mesma expresso de desconfiana - cujo objectivo era, sem 
qualquer dvida, o homem para cuja apresentao se tinham reunido ali.
Sabia-se a respeito de Philip Bosinney que no era rico; mas j antes disso raparigas da famlia Forsyte se haviam comprometido com rapazes pobres e chegaram a casar 
com eles. No era portanto essa a razo da inquietude que se insinuava pelo esprito dos Forsyte. E eles no teriam podido mesmo explicar a origem de um pressentimento 
que as tagarelices da famlia s haviam obscurecido mais. Contava-se,  verdade, que o rapaz fizera a primeira visita s tias Ann, Hester e Juley com um chapu mole 
de feltro cinzento - um feltro mole, nem ao menos novo -, poeirento e informe. "To extraordinrio, minha querida, to esquisito." A tia Hester, que era mope, ao 
atravessar o pequeno hall, tomara-o por um gato estranho e mal tratado e tentara enxot-lo. "Tommy tinha amigos inconfessveis!" E ficara desconfiada, porque a coisa 
no se movia.
Como um artista que procura sempre descobrir os pequenos nadas significativos que resumem o carcter de uma cena, de um lugar, de uma pessoa, os Forsyte, artistas 
inconscientes, fixaram a ateno, instintivamente, no tal chapu.
Aquilo foi para eles um ndice nfimo, por onde penetra entretanto todo o sentido real de uma situao. Porque cada um deles perguntara a si prprio: "Vejamos, por 
exemplo: seria eu capaz de fazer uma visita com tal chapu?" E todos haviam respondido: "No!" Os mais imaginativos acrescentavam ainda: "Nunca me ocorreria tal 
ideia!"
George, ao ouvir a histria, fez uma careta: aquele chapu era decerto uma boa pilhria! Ele entendia do assunto.
- Muito altivo, o "Pirata Selvagem"! - comentou ele. E a palavra "Pirata" circulou de boca em boca, acabando todos por adopt-la para designar Bosinney.
As tias fizeram a June algumas censuras a propsito do chapu.
"Na nossa opinio, no devia perdoar-lhe isso, querida!" Mas June respondera-lhes com o seu modo imperioso e vivo,

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tal como a pequena encarnao da vontade que representava. "Que mal pode fazer isso? Phil nunca sabe o que veste!)
Ningum respondera a rplica to chocante. Um homem que no sabe o que veste? No, no!
Quem era pois esse rapaz que, tornando-se noivo de June, a herdeira reconhecida do velho Jolyon, arranjara to bem a sua vida? Arquitecto? Isso no bastava para 
lhe desculpar o chapu. Nenhum dos Forsyte era arquitecto, mas nenhum deles conhecia arquitecto algum capaz de fazer uma visita de cerimnia de chapu mole. em plena 
season, em Londres. Era um perigo! Ah, um perigo!
June, naturalmente, no via esse perigo, mas, alm de ainda no ter completado dezanove anos, era uma original. No dissera ela um dia a Mrs. Soames - sempre to 
bem vestida - que era vulgar usar plumas? E Mrs. Soames desde ento renunciara s plumas. A boa June era to peremptria!
Tais dvidas, tais censuras, tal desconfiana, perfeitamente sinceras, no haviam impedido entretanto os Forsyte de se reunirem, atendendo ao convite do velho Jolyon. 
Era coisa rara uma recepo em Stanhope Gate; j h doze anos no havia l nenhuma, desde a morte de Mrs. Jolyon.
Nunca os Forsyte se tinham concentrado em to grande nmero, porque, misteriosamente unidos a despeito de todas as suas divergncias, tomavam armas contra um perigo 
comum. Como um rebanho que v um co estranho entrar no redil, mantinham-se cabea com cabea, ombro contra ombro, prontos a investir contra o intruso e a pis-lo 
at  morte. Tinham acorrido tambm, decerto, para fazerem uma avaliao do presente de npcias que se esperava deles. E, embora a escolha de um presente de noivado 
fosse em geral preparada por perguntas deste gnero: "Que  que voc vai dar? Nicholas deu um faqueiro", a escolha dependia muito do noivo. Se ele tinha boa cara, 
cabelos penteados, ar prspero, impunha-se um presente bonito; decerto o noivo contaria com isso. E no fim, por uma espcie de acordo de famlia a que se chegava 
por um processo idntico  fixao dos preos num mercado, cada um dava exactamente o que era justo e conveniente. As ltimas avaliaes operavam-se na casa de tijolos 
vermelhos

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onde morava Timothy, confortvel habitao com vista para o parque, onde viviam as tias Ann, Juley e Hester.
Bastava o incidente do chapu para justificar a inquietao da famlia Forsyte. E seria muito difcil, seria talvez impossvel a qualquer outra famlia em cujo seio 
vive esse respeito das aparncias que deve caracterizar a alta burguesia, no se ressentir de tal inquietao!
O autor do incidente conversava com June, em p, junto  porta do fundo. Dentro da desordem dos seus cabelos crespos, parecia sentir-se num meio inslito. E parecia 
tambm divertir-se, mau grado seu.
George disse baixinho a seu irmo Eustace:
- O Pirata Selvagem est com cara de quem quer fugir! Aquele "homem de aparncia singular", como lhe chamaria
depois Mrs. Small, era de estatura mediana e fortemente constitudo; tinha o rosto moreno e plido, bigodes de um castanho claro, mas salientes e faces fundas. 
A testa inclinava-se para o alto da cabea, formando porm bossas acima dos olhos, como as frontes de leo que se vem nas jaulas do jardim zoolgico. Tinha as pupilas 
de um pardo lquido e dourado e o seu olhar era por vezes to desatento que desconcertava. O cocheiro do velho Jolyon, depois de conduzir June e Bosinney ao teatro, 
dissera ao mordomo: .
- No se sabe o que pensar dele: deu-me a impresso de um leopardo meio selvagem.
De tempos a tempos chegava um Forsyte at  porta onde conversavam os noivos, rodava em torno, olhando Bosinney. June mantinha-se  frente, como para repelir aquela 
ociosa curiosidade. Era frgil, "uma centelha de cabelos e de energia", dissera algum - com olhos azuis intrpidos, o queixo firmemente desenhado, a pele brilhante; 
o corpo e o rosto pareciam pequenos de mais para a coroa que lhe formavam os bastos cabelos de ouro avermelhado.
Uma mulher alta, de corpo admirvel, que um membro da famlia comparara certa vez a uma deusa pag, mantinha-se em p,

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contemplando os noivos com um sorriso sombreado de tristeza. As mos, caladas em luvas cinzentas, cruzavam-se uma
sobre a outra, e o rosto, grave e encantador, inclinava-se um pouco de lado, prendendo os olhares de todos os homens. Tinha o talhe to mvel, de um equilbrio to 
exacto e to leve, que o prprio ar parecia p-lo em movimento. As faces eram quentes, embora plidas, e tinha uma doura aveludada nos grandes olhos sombrios; mas 
eram os lbios - fazendo uma pergunta, dando uma resposta, com aquele sorriso velado por uma sombra - que prendiam os olhares dos homens: lbios sensveis, ternos, 
suaves, por entre os quais, como de uma flor, parecia evolar-se calor e perfume.
Os noivos que ela observava no sentiam a presena daquela deusa passiva. Foi Bosinney que a notou primeiro e perguntou o nome. June encaminhou o noivo  presena 
da linda rapariga.
- Irene  minha amiga inseparvel - disse ela. - Peo que sejam bons amigos, vocs dois!
Diante da ordem da pequena, os trs sorriram, e, enquanto sorriam, Soames Forsyte apareceu silenciosamente ao lado da deusa, de quem era o marido, e disse:
- Ah! Apresente-me tambm!
Raramente o viam longe de Irene, durante uma reunio, e mesmo quando as exigncias da conversa o afastavam dela, seguia-a sempre com a vista, e os seus olhos tinham 
uma estranha expresso de vigilncia e desejo.
Na janela, James, pai de Soames, no cessava de examinar a marca do bibelot de porcelana.
- Admira-me que Jolyon tenha aprovado esse noivado - disse ele  tia Ann. - Disseram-me que eles no tm nenhuma probabilidade de se casarem antes de vrios anos. 
Esse rapaz Bosinney - e pronunciava o o de Bosinney de uma maneira peculiar-, esse rapaz Bosinney no possui nada. Quando Dartie casou com Winifred, eu fiz que ele 
colocasse tudo em nome da mulher, e foi uma sorte! Actualmente, j no teriam um vintm!
Sentada na sua poltrona de veludo, a tia Ann ergueu a cabea, Caracis grisalhos rodeavam-lhe a testa, caracis que, no tendo mudado de cor h dezenas de anos, 
haviam abolido todo o sentido do tempo na famlia. Ela no respondeu, porque raramente falava, poupando a sua velha voz. Mas para James, cuja conscincia no estava 
tranquila, aquele olhar equivalia a uma resposta.

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- Bem sei - disse ele - que Irene no tinha um real, mas que poderia eu fazer? Soames estava to apaixonado! Emagreceu enquanto a namorava. - Depondo, irritado, 
o vaso de porcelana sobre o piano, deixou errar o olhar pelo grupo que se formara junto  porta: - E, na minha opinio - acrescentou inesperadamente-, tudo est 
muito bem.
A tia Ann no lhe pediu explicaes por essa frase singular. Ela conhecia-lhe o pensamento. Irene, j que no tinha fortuna, no cometeria a tolice de faltar aos 
seus deveres. Porque dizia-se - dizia-se! - que ela pedira para ter quarto separado. Mas, naturalmente, Soames no tinha...
James interrompeu-lhe a cisma.
- Mas onde est Timothy? No veio com vocs?
Um sorriso terno distendeu os lbios cerrados da tia Ann.
- No, pensou que seria imprudente, em vista dessa difteria que grassa por a. Ele contamina-se to facilmente!
- Pois , ele cuida bem de si - respondeu James. - Eu  que no posso proporcionar a mim mesmo tais cuidados.
E seria difcil escolher o elemento dominante dessa observao: se a admirao, a inveja ou o desdm.
Raramente se avistava Timothy. O benjamim da famlia, editor de profisso, h alguns anos atrs, em pleno apogeu dos negcios, pressentira a crise que, na verdade, 
no se revelara ainda, mas que, na opinio de todos, seria inevitvel.
Vendendo a sua parte na editora, que publicava principalmente livros de moral, aplicara em valores consolidados o considervel produto dessa venda. E com isso constitura 
para si um lugar especial dentro da famlia, porque qualquer outro Forsyte exigiria do seu dinheiro um rendimento de quatro por cento. Esse isolamento atrofiara 
lenta e seguramente a energia de uma alma prudente de mais. Timothy tornara-se quase um mito, uma espcie de encarnao do esprito da Segurana, sempre no ltimo 
plano do universo dos Forsyte. Nunca cometera a imprudncia de casar e de se sobrecarregar com filhos.
James voltou a agarrar o vaso de porcelana.
- Isto no  Worcester antigo, legtimo, segundo penso, Jolyon disse-lhe alguma coisa a respeito do rapaz?

21


Tudo que consegui saber foi que ele no tem trabalho, no tem fortuna, no tem famlia que valha a pena nomear... mas, alm disso, no sei mais nada.., Nunca ningum 
me diz nada.
A tia Ann abanou a cabea. Passou um tremor pelo seu velho rosto de traos aquilinos e queixo quadrado; os dedos, como patas de aranha, apertavam-se e entrelaavam-se; 
dir-se-ia que por tal sistema ela misteriosamente fortificava a prpria vontade.
Sendo a mais velha de todos os Forsyte, muitos anos mais velha, gozava entre eles de uma situao especial. Oportunistas e individualistas - sem alis o serem mais 
que os seus vizinhos -, eles tremiam todos diante daquele rosto incorruptvel, e, quando as boas ocasies de pecar contra a alma da famlia se tornavam por de mais 
tentadoras, escondiam-se da velha.
E retorcendo sempre as longas pernas magras, James continuou:
- Jolyon no ouve ningum. No tem filhos...-James estacou de sbito, lembrando-se de que o pai de June vivia ainda, Jolyon filho, e arruinara a sua vida abandonando 
mulher e filha para fugir com uma governanta estrangeira. - Pois  - continuou rapidamente -. se ele sente prazer em fazer as coisas desse modo, creio que tem meios 
para isso. Qual  o dote que vai dar  pequena? Creio bem que uma renda de mil libras esterlinas, j que no tem ningum a quem deixar o dinheiro.
E estendeu a mo para apertar a de um homem baixo, bem barbeado, quase inteiramente calvo, com um longo nariz quebrado, lbios cheios, olhos cinzentos e frios sob 
sobrancelhas rectangulares.
- Ento, Nick - murmurou -, como vai?
Nicholas Forsyte, com uma rapidez de pssaro e um ar de colegial bem comportado - fizera uma grande fortuna por meios absolutamente legtimos, em vrias companhias 
das quais era director -, colocou na mo fria de James a ponta dos seus dedos mais frios ainda e retirou-os logo.
- No vou bem - disse com uma careta. - Passei mal toda a semana: no consigo dormir, e o meu mdico no sabe dizer-me porqu.  um rapaz inteligente... de outro 
modo no o teria consultado... mas no pude obter dele seno a conta.

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- Mdicos! - exclamou James, tomando o assunto com vivacidade.- Eu j vi todos os mdicos de Londres chamados para uma ou outra pessoa da casa. Nunca servem para 
nada, dizem sempre qualquer coisa. Olhe Swithin, por exemplo. Que bem lhe fizeram eles? Est ali, mais gordo que nunca, enorme. Os mdicos no conseguiram faz-lo 
perder um quilo! Olhe para ele!
Swithin Forsyte, alto, largo, quadrado de ombros, o peito inchado como o de um grande pombo dentro da plumagem do seu colete reluzente, aproximou-se, pavoneando-se.
- Eh, como vai isso? - disse no seu tom mais dandy. - Como vai isso?
Cada um dos irmos olhava vexado para os dois outros, sabendo, por experincia, que no lhe seria permitido ser o mais doente de todos.
- Ns estvamos justamente a dizer - respondeu James - que voc no emagrece.
Os plidos olhos redondos de Swithin ressaltaram, no esforo que fez para compreender.
- No emagreo? Mas sinto-me muito bem - disse ele, avanando a cabea. - No sou uma vara como voc. - No entanto, receando diminuir a bela expanso do peito, imobilizou-se, 
porque apreciava acima de tudo as atitudes distintas.
A tia Ann mudava de um para outro o seu velho olhar, com uma expresso austera e entretanto indulgente. Por seu lado, os trs irmos contemplavam Ann. Ela comeava 
a parecer abatida. Que mulher espantosa! Oitenta e seis anos bem contados; poderia viver ainda dez anos, e nunca tivera muita sade. Swithin e James, os gmeos, 
tinham apenas setenta e cinco anos. Nicholas setenta - uma criana! Todos tinham boa constituio, e o aspecto da tia Ann era animador. De todas as formas de propriedade, 
eram as suas sades respectivas o que eles, naturalmente, mais prezavam.
- Eu passo sempre muito bem, fisicamente - comeou James. - Os nervos  que andam mal. Qualquer aborrecimento abate-me horrivelmente. Preciso de uma cura em Bath.

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- Bath! - exclamou Nicholas. - Eu tentei Harrogate. Aquilo  que no vale nada. Eu, por mim, preciso  do ar do mar. Para
mim no h nada como Yarmouth. Pelo menos quando estou l durmo bem.
- O meu fgado anda pssimo - interrompeu Swithin, com voz lenta. - Di-me horrivelmente aqui. - E ps a mo no lado direito.
- Falta de exerccio - resmungou James, com os olhos fixos no vaso de porcelana. E acrescentou rapidamente: - Eu tambm tenho uma dor a.
Swithin corou e pelo seu velho rosto passou uma vaga semelhana com um peru.
- Exerccio! - exclamou ele. - Mas fao muito exerccio! No clube, nunca subi de elevador.
- No sabia - disse James rapidamente. - Nunca sei nada sobre ningum. Ningum me diz nada, nunca.
Swithin encarou-o, esgazeando os olhos, e perguntou:
- Que  que voc faz quando tem uma dor de lado? O rosto de James clareou:
- Tomo uma poo...
- Como vai, tio? - June estava diante dele, com a mo estendida, e levantava para a alta estatura do velho a sua cabecinha, resoluta.
O claro de alegria extinguiu-se na face de James.
- Como est? - perguntou o tio, inclinando-se sobre a rapariga com ar absorto.- Ento embarca amanh para o Pas de Gales? Vai visitar as tias do rapaz? H-de chover 
muito l. Isto no  Worcester antigo, legtimo - continuou, batendo no vaso de porcelana. - O servio que eu dei  sua me, quando ela casou, era legtimo.
June apertou a mo a cada um dos seus tios-avs e voltou-se para a tia Ann. Uma expresso muito suave aparecera no rosto da velha senhora, que beijou o rosto da 
pequena com um fervor trmulo.
- E ento, pequerrucha, vai passar fora um ms inteiro?
A rapariga afastou-se e a tia Ann acompanhou-a com o olhar. Os seus olhos redondos, olhos cinzentos de ao, sobre os quais uma escama semelhante a uma plpebra de 
pssaro comeava a estender-se, seguiam pensativamente, atravs dos grupos em movimento,

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a silhueta esbelta da rapariga; e ao mesmo tempo apertava mais as mos, comprimindo uma contra a outra as extremidades dos dedos, parecendo assim procurar reaver 
foras para resistir  grande partida inevitvel.
"Sim"', pensava a tia, "toda a gente foi muito amvel. Tanta gente que veio felicit-la! Ela deve estar contente."
Na onda de gente que se apertava contra a porta - multido bem vestida extrada das famlias de advogados, de mdicos, de financeiros, de tudo o que brilhava nas 
inmeras carreiras da grande burguesia - no havia seno vinte por cento de Forsyte; porm  tia Ann todos pareciam Forsyte, e alis no havia grande diferena entre 
uns e outros: e a velha apenas via os da sua carne e do seu sangue. A famlia era o seu universo, o nico, talvez, que conhecera. Todos os segredos, as doenas, 
os noivados, os casamentos, as promoes, os lucros - tudo aquilo era propriedade da tia Ann. a sua alegria, a sua vida. Afora isso, no existia seno um vago nevoeiro 
de factos e criaturas sem existncia real. Seria isso que teria de abandonar quando chegasse a sua vez de morrer; era aquilo que lhe dava importncia - importncia 
secreta contraposta a si mesma, sem a qual nenhum de ns pode suportar viver. Era quilo que a velha se agarrava pensativamente, com uma avidez que diariamente crescia: 
e, se a vida se lhe escapava imperceptivelmente. aquilo, ao menos, ela guardaria at ao fim.
Pensava no pai de June, Jolyon filho, que fugira com uma rapariga estrangeira. Ah! Um golpe duro para Jolyon e para todos. Um rapaz de tanto futuro! Que golpe, embora 
no se houvesse dado escndalo, pois felizmente a mulher de Jo no requereu o divrcio. Havia j tanto tempo. E quando a me de June morrera, oito anos atrs, Jo 
casara com aquela mulher; dizia-se que tinham dois filhos. E afinal ele perdera o seu direito de estar ali; por sua causa, a tia Ann no podia repousar na plenitude 
do orgulho familiar; privara-a da alegria legtima de o ver e de o abraar, alegria de que se envaidecia muito, pois o rapaz tinha tanto futuro! E esse pensamento 
envenenava-se com todo o amargor de uma afronta durante muito tempo sofrida no seu velho corao tenaz. Algumas lgrimas marejaram-lhe os olhos, que a tia Ann enxugou 
furtivamente, com um leno de cambraia finssima.

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- Ento, tia Ann?-disse algum por trs dela.
Soames Forsyte, com o rosto escanhoado, as faces achatadas, os ombros achatados, o talhe achatado, tendo entretanto em roda da sua pessoa algo de fugitivo e secreto, 
baixava sobre a velha um olhar oblquo, como se procurasse ver atravs do seu prprio nariz. - E que pensa a senhora deste casamento? - perguntou ele.
Os olhos da tia Anm pousaram em Soames com altivez.
Era o mais velho dos seus sobrinhos, uma vez que Jolyon abandonara o crculo da famlia, e era actualmente o seu predilecto, porque a velha adivinhava nele um seguro 
depositrio da alma familiar, cuja tutela ela em breve abandonaria.
- O rapaz tem sorte - disse ela. - Alis,  simptico. Mas pergunto a mim mesma se  realmente o noivo ideal para a nossa June.
Soames tacteava o alto de um lustre dourado. - Ela o domesticar - disse ele, humedecendo furtivamente o dedo para o passar sobre os dourados do lustre. - Dourado 
antigo, legtimo. Hoje j no se encontra disto. Num leilo, na casa do Jobson, daria dinheiro. - Punha um certo calor nessas palavras, como se as destinasse a reconfortar 
a velha tia; ele tambm raramente se mostrava assim to inclinado s confidncias, - Palavra que eu gostaria de possuir este lustre; o dourado antigo vende-se pelo 
preo que se quer.
- Entende tanto dessas coisas - disse a tia Ann. - E como vai a nossa querida Irene?
O sorriso de Soames apagou-se.
- Vai indo. Queixa-se de insnias; e, em todo o caso, dorme muito melhor que eu.
Olhou para a mulher, que conversava com Bosinney, junto  porta. A tia Ann suspirou e disse:
- Talvez no fosse mau para ela conviver menos com June. A nossa querida June tem um carcter to decidido!
Soames corou. Nesses momentos o sangue atravessava-lhe rapidamente as faces murchas, fixando-se entre as sobrancelhas, e ali ficava, atestando pensamentos perturbadores.
- No sei o que lhe agrada naquela maluquinha - explodiu
ele. Mas notou que j no estava s com a tia e, voltando-se, ps-se de novo a examinar o lustre.
- Dizem que Jolyon comprou uma casa nova - dizia a voz do pai. -  preciso que tenha muito dinheiro e no saiba o que fazer dele! Uma casa em Montpellier Square, 
parece, perto da de Soames! No me tinham dito. Irene nunca me diz nada!
- ptima localizao, a oito minutos de minha casa - replicava a voz de Swithin. - E de minha casa, em carruagem, chego ao clube em oito minutos.
A localizao das suas residncias era de importncia vital para os Forsyte, coisa que no  para admirar: toda a filosofia do seu xito resumia-se nisso.
Oriundos de camponeses, o pai deles viera do Dorsetshire nos comeos do sculo. Superior Dosset Forsyte, como lhe chamavam os ntimos. Pedreiro de ofcio, elevara-se 
 posio de empreiteiro. No fim da vida estabelecera-se em Londres, onde, depois de ter construdo at ao ltimo dia de vida, foi enterrado no cemitrio de Highgate. 
Deixara mais de trinta mil libras esterlinas a serem repartidas entre os seus dez filhos. Dizia o velho Jolyon, falando do pai: "Um homem rude, de pele grossa. Naquele 
no havia nenhum requinte." A segunda gerao dos Forsyte sentia, na verdade, que aquele ascendente no a honrava excessivamente. O nico trao aristocrtico que 
lhe encontravam era o hbito de beber vinho da Madeira.
A tia Hester, que era autoridade em assuntos de histria da famlia, descrevia-o assim: "No me lembro que ele fizesse mais nada, pelo menos no meu tempo. Era, bem, 
era... proprietrio de casas. Tinha os cabelos mais ou menos da cor dos do seu tio Swithin e os ombros mais quadrados. Se era alto? Eh! No muito alto. (Tinha um 
metro e setenta e a cara congestionada.) Era bem rosado; lembro-me que estava sempre a beber vinho da Madeira; mas pergunte  tia Ann. Que  que fazia o pai dele?. 
Cultivava a terra no Dorsetshire, no litoral."
Certo dia, James quisera saber por si prprio que lugar era aquele donde eles provinham. Encontrara duas velhas granjas, um caminho de carroa aberto na terra rsea 
que levava a um moinho prximo  praia; uma igrejinha cinzenta,

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cujas paredes externas se aguentavam em escoras, e uma capelinha menor e mais cinzenta ainda.
O riacho que movia o moinho dispersava-se numa dzia de riachinhos brancos de espuma e em torno desse esturio em miniatura foavam porcos, em procura de alimento. 
Um pouco de nvoa flutuava sobre a paisagem. Provavelmente, naquele buraco, de domingo a domingo, durante centenas de anos, os Forsyte primitivos nada tinham de 
melhor a fazer seno passear, com os ps mergulhados na alma e o rosto voltado para o mar.
E tivesse ou no acariciado a esperana de descobrir ali alguma herana aprecivel, James voltou  cidade decepcionado, fazendo entretanto o possvel por tirar o 
melhor partido do empreendimento. " pequeno de mais para se fazer qualquer coisa ali", disse ele. "Aquilo  velho como o cho!" E aquela velhice parecia-lhe um 
consolo. O velho Jolyon, no qual uma invencvel sinceridade irrompia s vezes, falava assim dos seus antepassados:
- Eram yeomen(1), cerveja ordinria, creio eu. - E entretanto repetia a palavra yeomen como se nela encontrasse um
reconforto.
Tinham governado to bem a vida, todos os Forsyte, que hoje gozavam do que se costuma chamar "uma certa posio". Possuam aces em toda a espcie de negcios, 
embora nenhuma - salvo Timothy - em consolidados, porque tinham todos horror a empregos de capital a trs por cento. Alm disso, coleccionavam quadros e subsidiavam 
algumas instituies filantrpicas de que os criados pudessem beneficiar, em caso de doena. Do pai, o mestre-de-obras, haviam herdado um talento especial para o 
manejo do tijolo e da argamassa. Talvez, de incio, houvessem pertencido a alguma seita de doutrina singela: agora, porm, seguindo o curso natural das coisas, eram 
membros da Igreja da Inglaterra e faziam que as mulheres e os filhos frequentassem regularmente os templos elegantes da metrpole. Se algum mostrasse dvidas a respeito 
da sinceridade da sua f, decerto os haveria de surpreender e magoar.

*1. Yeoman - pequeno proprietrio de terra na Inglaterra, lavrador. (N. da T.)

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Alguns pagavam o aluguel de bancos reservados, exprimindo assim de modo prtico a sua simpatia pela doutrina crist. As suas residncias alternavam-se em volta do 
parque, a intervalos regulares, como sentinelas. Em Stanhope Place morava o velho Jolyon; em Park Lane, os James; Swithin em Hyde Park Mansions, no esplendor solitrio 
de um apartamento decorado de azul e alaranjado. - esse nunca casara, ah, no! - Os Soames tinham o seu ninho prximo a Knightsbridge, os Rogers haviam-se fixado 
em Princes Gardens. (Roger era aquele Forsyte excepcional que concebera e realizara o projecto de encaminhar os seus quatro filhos numa profisso nova.)
- Comprem e dirijam casas, no h negcio melhor - dizia sempre ele. - Eu nunca fiz seno isso!
Havia ainda os Haymann - Mrs. Haymann era a nica me de famlia entre as irms Forsyte -. numa casa situada no alto de Campden Hill, casa desmesurada como uma girafa, 
to alta que era preciso torcer o pescoo para lhe avistar o telhado. Os Nicholas moravam em Ladbroke Grove, numa grande casa, e por fim o ltimo, mas no o menor 
deles - Timothy-, residia em Bayswater Road, onde Ann, Hester e Juley viviam sob a sua proteco.
James, entretanto, depois de mergulhar em cisma algum tempo, perguntara ao seu irmo e hospedeiro quanto pagara pela casa nova de Montpellier Square. Ele prprio 
havia muitos anos que estava interessado numa casa por aqueles lados, mas pediam-lhe um preo to absurdo! O velho Jolyon deu-lhe os pormenores da compra.
- Vinte e dois anos de arrendamento! - repetiu James. - Era justamente a casa que eu pretendia. Pagou caro de mais! - O velho Jolyon franziu o cenho. - No  que 
eu a queira - continuou James rapidamente. - Por esse preo, ela no me convinha. Soames conhece bem essa casa e vai dizer-lhe se  cara ou no. A opinio dele tem 
o seu valor.

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- Pouco me importo com a opinio dele - disse o velho Jolyon.
- Como queira - resmungou James. - Mas pode ficar certo de que  uma opinio sria. At logo. Vamos tomar o carro para
Hurlingham. Disseram-me que June est de viagem para o Pas de Gales, e nesse caso voc amanh deve estar muito s. Que  que vai fazer? Devia ir jantar connosco.
O velho Jolyon recusou; depois dirigiu-se at  porta de entrada para acompanhar os James e v-los subir ao carro. J esquecera o seu spleen e os olhos sorriam maliciosamente 
fitando Mrs. James, sentada ao fundo da carruagem, alta e majestosa, com os seus cabelos castanhos:  esquerda, Irene, e diante deles os dois maridos - pai e filho 
-, inclinados para a frente, como se esperassem alguma coisa. Balouados nos coxins de molas, soerguidos a cada movimento do veculo, o velho Jolyon viu-os afastarem-se 
dentro de um raio de sol.
Durante o percurso, o silncio foi quebrado por Mrs. James:
- Vocs j viram maior coleco de gente provinciana? Soames olhou-a sob as plpebras, fez um gesto de aprovao
com a cabea e viu que Irene lhe lanava um dos seus olhares insondveis. E  muitssimo provvel que cada um dos ramos da famlia Forsyte tenha feito idntica observao 
ao voltar para casa, depois da recepo do velho Jolyon.
Os ltimos convidados que se retiraram foram o quarto e o quinto irmos. Nicholas e Rogers; atravessaram juntos Hyde Park, at chegarem a Praed Street Station, onde 
apanhariam o metropolitano. Como todos os outros Forsyte, depois de uma certa idade, cada um tinha o seu carro e s apanhavam um cab quando no podiam evit-lo.
O dia estava lindo e as rvores do parque exibiam a sua soberba folhagem de Junho; os dois irmos no pareciam atentar nesses fenmenos de ordem exterior, que contribuam 
entretanto para lhes alegrar o passeio e a conversa.
-  bonita, realmente, a mulher de Soames - dizia Roger. - Segundo soube, o casal no vive bem.
Roger tinha a testa alta e a pele mais clara que qualquer outro dos Forsyte. Os seus olhos cinzentos mediam, ao passar, a fachada das casas, e de tempos a tempos 
tirava uma medida com o guarda-chuva, para lhes calcular a altura.
- Ela no tem dinheiro - replicou Nicholas.
Nicholas casara com uma grande herdeira, na idade de ouro
que precedeu o Married Woman's Property Act - lei de defesa dos bens das mulheres casadas -e fizera do dote da mulher um emprego dos mais rendosos.
- Quem era o pai dela?
- Chamava-se Heron; era professor, segundo me disseram. Roger abanou a cabea.
- No  coisa que d dinheiro - disse.
- Diz-se que o av materno negociava em cimento. - O rosto de Roger iluminou-se. - Mas faliu - continuou Nicholas.
- Ah! - exclamou Roger. - Soames vai ter desgostos com ela. Escute o que lhe digo: h-de ter desgostos. Ela tem um ar de estrangeira.
Nicholas lambeu os lbios.
-  uma mulher linda - disse, afastando com a mo um varredor de rua.
- Como foi que ele a arranjou? - perguntou Roger, depois de um instante. - Deve sair-lhe por uma fortuna em toilettes.
- Ann disse-me que ele  louco pela mulher - retorquiu Nicholas. - Ela recusou-o cinco vezes. V-se que James est nervoso a esse respeito.
- Ah! - exclamou ainda Roger. - Sinto muito por James. Ele j teve bastantes desgostos com Dartie.
A sua cor natural rosara-se mais com a caminhada e cada vez com mais frequncia ele balanava o guarda-chuva diante do olho. No rosto de Nicholas tambm se expandia 
uma expresso agradvel.
- Plida de mais para o meu gosto. Mas o corpo  soberbo. Roger no respondeu.
- Acho que ela tem um aspecto distinto - disse por fim. Aquilo representava, no vocabulrio dos Forsyte, o elogio mximo.- Aquele rapaz Bosinney nunca h-de ter 
juzo. Diz-se em casa de Burkitt que ele  um desses tipos sonhadores do gnero artista. Pensa em modificar a arquitectura da Inglaterra. No h-de ganhar dinheiro 
com isso! Gostaria de saber o que Timothy pensa a esse respeito.
Chegaram  estao.
- Em que classe vai? Eu vou em segunda.

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- Eu no ando em segunda - disse Nicholas. - Nunca se sabe o que se pode apanhar por a. - E comprou uma passagem de primeira para Notting Hill Gate e Roger uma 
para South Kensington. E como o comboio chegasse um minuto depois, os dois irmos separaram-se, dirigindo-se aos respectivos compartimentos. Ambos se sentiam magoados 
por o outro no ter alterado os seus hbitos a fim de ficarem mais tempo juntos. E Roger pensava: "Sempre cabeudo, o Nick", enquanto Nicholas dizia de si para si: 
"Aquele Roger  sempre desagradvel!"
No havia muito sentimentalismo entre os Forsyte. Naquela vasta Londres que eles haviam conquistado e que os absorvera, disporiam de tempo, por acaso, para se tornarem 
sentimentais?

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CAPTULO II.

O VELHO JOLYON VAI  PERA.

No dia seguinte, por volta das cinco horas, o velho Jolyon sentou-se s, com um charuto entre os lbios, junto a uma mesinha onde fumegava uma xcara de ch.
Sentia-se cansado, e antes de findar o charuto adormeceu. Uma mosca pousou-lhe nos cabelos. A sua respirao, no silncio sonolento, fazia um rudo pesado, e a cada 
sopro o lbio superior erguia-se sob o bigode branco. A mo enrugada e encordoada de veias largara o charuto, que ficou a arder sozinho na lareira vazia.
O pequeno gabinete sombrio, de janelas de vidro fosco que impediam a vista, era guarnecido de veludo verde-escuro e mveis de mogno, pesadamente esculpidos, a respeito 
dos quais o velho Jolyon dizia habitualmente: "No me admirara se qualquer dia isto der bom dinheiro."
Era-lhe agradvel pensar que, de futuro, poderia revender ainda com lucro as coisas que comprara antes.
Na rica e velada atmosfera peculiar aos compartimentos internos das residncias de um Forsyte, o efeito  Rembrandt da sua grande cabea encanecida, contra o estofo 
do alto espaldar da caldeira, era comprometido pelos bigodes, que lhe davam  fisionomia qualquer coisa de militar. Um relgio antigo, comprado antes do seu casamento, 
h mais de cinquenta anos, e que nunca mais o deixara,

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contava zelosamente, com o seu tiquetaque, os segundos que fugiam para sempre ao seu velho dono.
Jolyon nunca estimara aquela sala, onde s entrava uma vez ou outra, salvo para procurar charutos no mvel japons do canto. E o gabinete agora desforrava-se.
As tmporas do velho Jolyon, curvas como um tecto sobre as faces cavadas, as mas do rosto, o queixo, todos os seus traos se aguavam no sono, como uma confisso 
de velhice que lhe subisse  face.
Acordou. June partira! James bem lhe predissera que se sentiria s. Lembrou-se com satisfao que "sobrara" uma casa a James. Bem feito. Para que se obstinava no 
preo que fixara? S pensava em dinheiro! Mas, realmente, no a pagara ele prprio caro de mais? Precisava de muitos consertos... Sabia que iria precisar de todo 
o seu dinheiro, antes de liquidar o assunto de June. No devia ter consentido naquele noivado. June encontrara esse tal Bosinney na casa de Baynes, Baynes e Billdeboy, 
arquitectos. Baynes, que ele conhecia bem - um velho mexeriqueiro-, devia ser tio afim do rapaz. Desde esse dia, ela no deixara de andar atrs do seu Bosinney; 
e guando metia uma coisa na cabea, nada mais a detinha. Passava a vida a interessar-se por qualquer estropeado que encontrasse. O rapaz no tinha um vintm, logo 
ela haveria de casar com ele; um sujeito do mundo da Lua, sem esprito prtico, capaz de se meter em complicaes infindveis.
June viera procur-lo certo dia, repentinamente, para lhe dar a notcia, e, como se aquilo fosse uma consolao, acrescentara:
- Ele  admirvel! j passou uma semana inteira a comer apenas chocolate!
- E quer tambm que voc v viver de chocolate?
- Oh, no. Agora j encontrou a boa veia.
O velho Jolyon retirara o charuto de sob o bigode branco, de pontas cor de caf, e ps-se a olh-la - aquela garotinha que lhe tomara conta do corao. Sabia mais 
do que ela a respeito da "boa veia". Mas a pequena, juntando as mos sobre os joelhos do av, esfregava o queixo contra ele, com o leve rudo de um gatinho que ronrona. 
E, sacudindo a cinza do charuto, o velho terminara nervosamente:

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- Vocs so todas iguais. Querem fazer sempre como entendem. Se for para sua infelicidade, tanto pior! Eu lavo as mos.
E realmente lavara as mos do caso, exigindo apenas que o casamento no se realizasse antes que Bosinney ganhasse pelo menos quatrocentas libras por ano.
- Eu no posso dar-lhe muita coisa -dissera ele, frmula essa que no era novidade para June. - Ser que o cavalheiro entrar com o chocolate?
Mal avistava a neta depois que aquela histria comeara. Pssimo negcio! No tinha a mnima inteno de lhe dar um grande dote, que pelo menos permitisse quele 
rapaz desconhecido viver de braos cruzados. J vira dessas coisas, e sabia que no davam em nada de bom. O pior  que no esperava mudar as ideias de June, teimosa 
como um burro desde pequenina! Ningum sabia como aquilo acabaria. E eles que se arranjassem como pudessem.
No cederia antes de ver o jovem Bosinney de posse de um rendimento prprio. Era claro como gua que June iria ter aborrecimentos com aquele rapaz, pois ele percebia 
tanto de dinheiro como uma vaca. E aquela ideia da pequena de correr ao Pas de Gales, para visitar as tias do noivo... Ora, estava bem certo de que essas tais tias 
no passavam de umas gatas velhas...
Sem se mexer, o velho Jolyon olhava fixamente a parede. Pareceria adormecido, se no fossem os olhos bem abertos... Imagine-se aquele Soames, aquela cria de urso, 
dar-lhe conselhos! Sempre fora um urso, com o seu focinho para cima. E agora ia fazer-se proprietrio, com a sua casa de campo! Proprietrio! Bolas! Igual ao pai, 
vivia a farejar bons negcios. Um calculista, um espertalho!
O velho Jolyon ergueu-se, e, abrindo o armrio japons, tirou uma nova proviso de charutos, com que guarneceu metodicamente a charuteira No eram maus, para o que 
custavam, mas a verdade  que j no havia; bons charutos, nada que se comparasse aos velhos Superfinos de Hanson and Bridger"s. Aquilo era um charuto!
Essa ideia, como um perfume respirado de sbito, trouxe-lhe  memria as maravilhosas noites de Richmond, quando, depois do jantar, fumava no terrao do Crown and 
Sceptre, com Nicholas Treffry, Tracquair, Jack Herring, Anthony Thornworthy. Como eram bons os charutos naquele tempo! Pobre Nick! Morrera.

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E Jack Herring morrera. E Tracquair e a mulher morreram. E Thornworthy vivia por a terrivelmente trmulo: tambm no era de admirar, um gluto daquela marca!
De todos os amigos de outrora apenas ele ficara; ele e Swithin, naturalmente Mas Swithin tornara-se to monstruosamente gordo que no prestava para nada.
Era difcil conceber que tudo aquilo j estivesse to longe! Ainda se sentia to joVem! De todos os pensamentos que lhe ocorriam enquanto tirava os charutos, o mais 
pungente, o mais amargo, era justamente este: apesar dos cabelos brancos e da solido em que vivia, sentia-se ainda jovem, de corpo e de corao. E naquelas tardes 
de domingo, em Hampested Heath, quando ele e o seu pequeno Jolyon caminhavam por Spaniand Road at Highgate e Childs Hill, jantando depois em Jack Straw's Castle... 
Como os charutos eram deliciosos ento! E que dias lindos! Hoje j no havia dias assim.
Quando June era uma garotinha de cinco anos, saltando-lhe na mo, e ele a levava de dois em dois domingos ao jardim zoolgico, longe da me e da av, e do alto do 
fosso dos ursos pendurava no guarda-chuva guloseimas para os favoritos da garota... Como os charutos eram bons ento!
Charutos! Pois at o seu refinamento de conhecedor resistira  idade, aquele refinamento de paladar proverbial em 1850, do qual se dizia: "Forsyte: o primeiro provador 
de Londres." O paladar que, de certo modo, fizera a sua fortuna, a fortuna dos clebres importadores de ch Forsyte e Treffry, cujos produtos eram superiores a todas 
as outras marcas por no se saber que romntico aroma, no se sabe que encanto de fina e misteriosa origem. Corriam boatos acerca dos seus escritrios na City, falava-se 
em empresas secretas, em transaces especiais, navios especiais, de portos especiais, com chineses especiais. Como ele trabalhara naquele negcio! Os homens sabiam 
trabalhar, naquele tempo! No eram como esses rapazes de agora, que no sabem o que quer dizer essa palavra. Entrara nos mnimos pormenores do negcio, mantendo-se 
ao corrente de tudo, muitas vezes dedicando-lhe as noites. E sempre escolhera ele prprio os seus agentes: tinha a glria disso. O golpe de vista, dizia sempre, 
era o segredo do seu triunfo, e o exerccio dessa autoritria faculdade de seleco fora o nico blsamo do trabalho: um ofcio abaixo das suas capacidades. Agora 
mesmo, que o negcio fora tomado pela Limited Liability Company e declinava, o velho Jolyon sentia uma amarga tristeza ao recordar esse passado. Quantas coisas poderia 
ter feito! Como teria brilhado esplendidamente na advocacia! Chegara mesmo a pensar em candidatar-se ao Parlamento.
Quantas vezes lhe dissera Nicholas Treffry: "Voc poderia fazer o que quisesse, Jo, se no fosse o diabo dessa sua prudncia!" Querido Nick, amigo velho, to bom 
rapaz e to maluco! O maluco Treffry! Aquele, realmente, no tinha a mnima dose de prudncia! Agora estava morto. O velho Jolyon contava os charutos com mo firme, 
quando lhe ocorreu perguntar a si prprio se realmente no levara a vida com excessiva prudncia.
Ps a charuteira no bolso, reabotoou o casaco e subiu as compridas escadas que levavam ao seu quarto, pisando fortemente em cada degrau e agarrando-se ao corrimo. 
A casa era grande de mais. Depois do casamento de June, se ela casasse realmente com aquele rapaz - o que parecia provvel -, alugaria o solar e iria instalar-se 
num apartamento. Para que conservar uma meia dzia de criados que custam os olhos da cara e no se ocupam em nada?
O mordomo atendeu a campainha: um enorme homem barbado e de passos macios, que possua uma singular faculdade de silncio. O velho Jolyon ordenou-lhe que preparasse 
a casaca: iria jantar no clube.
- A que horas voltou o carro, depois de ter levado Miss June  estao? Duas horas? Muito bem: mande que esteja pronto s seis e meia.
O clube em que, s sete em ponto, o velho Jolyon entrou, era uma daquelas instituies polticas da alta burguesia que j conheceram dias melhores. Mas a despeito 
desses comentrios pblicos, ou talvez por causa deles, manifestava uma vitalidade desconcertante. J toda a gente se cansara de dizer que aquela "Unio" a que j 
chamavam "Desunio" estava moribunda. O velho Jolyon tambm dizia o mesmo, mas negligenciava o facto de maneira irritante para qualquer legtimo clubman.
- Porque consente ainda que eles usem o seu nome?

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- perguntava-lhe frequentemente Swithin, profundamente vexado. - Porque no entra para o Poliglota? Em toda a Londres no  possvel encontrar vinho nenhum que se 
compare ao nosso Heilsieck a vinte shillings a garrafa. - E, baixando a voz, acrescentava: - Restam apenas cinco mil dzias e eu bebo todas as noites uma garrafa, 
a vida inteira.
- Vou pensar nisso - respondia o velho Jolyon. E quando pensava naquilo, havia sempre o problema dos cinquenta guinus de jia e dos quatro ou cinco anos de espera 
provvel. Continuava pois a pensar.
Velho de mais para ser liberal, abandonara as opinies do seu clube; j ouvira mesmo chamar-lhes pilhrias, mas comprazia-se em continuar como scio de um clube 
cujos princpios eram diametralmente opostos aos seus. Alis, sempre tivera um certo desdm por aquela instituio, onde entrara h muitos anos, depois de lhe ter 
sido negada admisso no Hotch Potch sob a alegao de que era "do comrcio". Como se ele no os valesse todos! E naturalmente experimentava um certo desprezo pelo 
clube que o recebera. Era gente sem importncia, a maioria trabalhando na City - corretores de cmbios, advogados, leiloeiros que sei mais! Como a maioria dos homens 
de carcter forte, mas de precria originalidade, o velho Jolyon fazia pouco caso da classe a que pertencia. Seguia-lhe fielmente os costumes, tanto os sociais como 
os outros, mas no seu foro ntimo julgava-a de espcie muito comum. Os anos - segundo uma certa filosofia de que no era carecido- haviam-lhe atenuado a lembrana 
da desfeita sofrida no Hotch Potch. que ficara sagrado, no seu ntimo, como o rei dos clubes. Havia muito tempo que poderia ser membro dele. mas o seu padrinho, 
Jack Herring, apresentara-o de maneira to negligente que haviam-no recusado sem perfeita noo do que faziam. Seu filho Jo entrara l imediatamente, e sem dvida 
l permanecia ainda. No havia ainda oito anos que lhe escrevera uma carta com cabealho do clube.
J h muitos meses que o velho Jolyon no punha os ps no Desunio, e a casa fora vtima de uma dessas decoraes de superfcie que se infligem aos velhos prdios 
e aos velhos navios quando se quer vend-los.
"Que cor horrenda a do hall", pensou o velho. -A sala de refeies est bem." A pintura era de um tom esbatido de chocolate. com toques de verde, que lhe agradou.
Pediu o jantar e sentou-se no mesmo recanto, talvez at na mesma mesa - eram todos conservadores, naquele clube radical - onde se instalava uns vinte anos atrs, 
com o filho, quando o levava  pera, nos dias feriados.
O pequeno adorava o teatro, e o velho Jolyon recordava-se bem dele. Sentado  sua frente, escondendo a excitao sob uma negligncia cuidadosamente afectada, mas 
que no enganava ningum.
E o velho escolheu a ementa que o pequeno pedia sempre: sopa, peixe frito, costeletas de carneiro e uma torta. Ah, se ao menos Jo estivesse  sua frente! J havia 
quinze anos que no se viam, e no era aquela a primeira vez, depois de quinze anos, que o velho Jolyon perguntava a si mesmo se procedera bem em relao ao filho. 
Uma histria de amor infeliz com aquela incrvel namoradeira Danae Thornworthy - hoje Danae Bellevy, filha de Anthony Thornworthy - levara-o ao casamento com a rapariga 
que foi a me de June. Talvez o pai devesse ter-se oposto a tal casamento: eram jovens de mais. Mas, verificada que fora a fraqueza sentimental de Jo, a sua maior 
pressa fora cas-lo Passados quatro anos, acontecera o desastre. Fora-lhe impossvel ento aprovar a conduta do filho; o bom senso e a disciplina em que se formara, 
esses poderosos factores cuja combinao nele exercia as funes de princpios, proibiam-lho, mas o seu corao sangrava. O assunto todo desenrolara-se como impelido 
por uma fatalidade inexorvel. Havia June, pequenina criatura de cabelos cor de chama, apegada, incrustada s suas fibras mais ntimas, agarrada ao seu corao, 
feito para ser o joguete e o refgio querido dos entesinhos indefesos. Com uma clarividncia caracterstica, compreendera que era mister separar-se de uma ou de 
outro, e que no havia meia medida possvel. Nisso residia a tragdia. E a coisinha indefesa venceu. O velho no quis ficar entre os dois, e foi ao filho que disse 
adeus.
Esse adeus durava at agora. Propusera ao filho dar-lhe uma pequena mesada, mas o rapaz recusara, e essa recusa ferira-o mais que todo o resto,

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porque fechara a ltima sada que lhe restava a um sentimento que se reprimia e fornecia-lhe uma prova tangvel e slida da ruptura - prova que apenas poderia ser 
dada por um acto relativo a dinheiro, uma oferta e uma recusa.
O jantar no tinha sabor, o champanhe estava amargo e seco, j no era o Veuve Clicquot dos velhos tempos.
Ao tomar o caf, ocorreu-lhe que poderia passar a noite na pera. E por isso foi procurar no Times - qualquer outro jornal lhe parecia suspeito - os anncios da 
noite. Levavam Fidelio.
Graas a Deus, no eram aquelas novidades alems, como as tais pantomimas de Wagner!
Pondo na cabea a sua velha cartola de cerimnia, que, com a aba achatada pelo uso e o seu amplo volume, parecia o emblema da grandeza passada, tirando do bolso 
um velho par de luvas de cabrito, finssimas, cheirando fortemente a couro da Rssia, devido ao contacto constante com a charuteira no bolso do sobretudo, subiu 
a um cab.
O carro rodou alegremente ao longo das ruas. onde o velho Jolyon notou uma animao pouco habitual. "Esse negcio de hotis vai transformar-se numa coisa extraordinria", 
pensava ele. H poucos anos atrs eram raros os grandes hotis. E recordou com satisfao um prdio que possua nas vizinhanas. "Deve estar a valorizar aos pulos! 
Que circulao!"
Foi esse o ponto de partida de uma das suas cismas singulares e impessoais, to pouco compatveis com a natureza dos Forsyte, e que faziam do velho Jolyon uma criatura 
 parte entre os seus. Que formigas so os homens e em que multides se juntam! Que ser feito deles todos?
Tropeou ao descer do carro, pagou a corrida, dirigiu-se  bilheteira a fim de comprar a entrada e parou ali. com a bolsinha na mo. (Usava o dinheiro numa bolsa, 
porque sempre desaprovara o costume da gente jovem de deixar o dinheiro a rolar pelos bolsos.) O empregado inclinou-se como um co velho que avana a cabea fora 
do canil.
- Ora vejam! - exclamou, surpreso. - Pois no  Mr. Jolyon Forsyte! Ora sim senhor! H anos que no  visto por aqui! Os
tempos j no so os mesmos, Mr. Forsyte! O senhor e seu irmo, e Mr. Tracquair, e Mr. Nicholas Treffry, reservavam sempre seis ou sete cadeiras para cada temporada. 
E como tem passado o senhor? Parece que no estamos a ficar mais jovens!
Os olhos do velho Jolyon brilharam com uma luz mais intensa e pagou o seu guinu. No o haviam esquecido. Fez a sua entrada ao som da ouverture, como um velho cavalo 
de guerra que entra em campo. Dobrando a claque, sentou-se, descalou as luvas cor de prola, levantou o binculo e passeou um longo olhar em torno da sala. Depois 
fixou os olhos no palco. Sentia,, com mais acuidade que nunca, que estava acabado. Onde estavam as mulheres, as lindas mulheres que outrora enchiam a plateia? E 
aquela emoo da espera, antes da entrada dos grandes cantores? E aquela embriaguez de viver e a fora que lhe dava gozar essa embriaguez? Ele, outrora o assinante 
mais assduo da pera! O tal Wagner destrura tudo. J no havia melodias... nem vozes para as cantar! Ah, as maravilhosas vozes! Destrudas! E olhava no palco as 
cenas que lhe eram to familiares, sentindo o corao adormecido.
Desde a madeixa prateada que lhe ondulava sobre a orelha esquerda at ao movimento do p, calado em botina envernizada, de elstico, nada havia, no velho Jolyon, 
de pesado ou de fraco. Era to rijo, ou quase to rijo, como nos tempos longnquos em que vinha  pera todas as noites. A sua vista era to boa como ento. No entanto, 
que sensao de desiluso e fadiga!
Durante toda a sua vida soubera gozar as coisas, mesmo as imperfeitas, porque muitas coisas imperfeitas encontrara. Gozara mesmo com moderao, a fim de se conservar 
jovem. Mas actualmente essa faculdade de gozar de tudo, e at mesmo a sua filosofia, haviam desaparecido: restava-lhe apenas o terrvel sentimento de que tudo para 
ele acabara. Nem o "Coro dos Prisioneiros", nem a "Cano de Florian" tiveram o poder de dissipar a sua melancolia e a sua solido.
Se ao menos Jo lhe fizesse companhia! Devia ter agora os seus quarenta anos, o rapaz. E perdera quinze anos da vida do seu filho nico! E Jo no era um pria da 
sociedade, casara-se. O velho Jolyon, que no pudera deixar de se sentir feliz com o acontecimento,

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celebrara-o mandando ao filho um cheque de quinhentas libras. Mas o cheque foi-lhe devolvido, numa carta em papel do Hotch Potch. nestes termos:

Meu caro pai:
O seu generoso presente foi bem-vindo, pois deu-me a entender que o senhor poderia ter uma pior opinio de mim. Devolvo-o; porm, se lhe parecer oportuno colocar 
esse dinheiro em nome do garoto (ns chamamos-lhe Jolly) que usa o seu nome e, por cortesia, o nosso nome de famlia, ficar-lhe-ei muito grato.
Desejo de todo o corao que a sua sade v melhor que nunca.
Seu filho afeioado,

Jo


A carta era caracterstica do rapaz, pois ele sempre fora amvel. E o velho Jolyon respondera assim:

.Meu caro Jo:
A soma de quinhentas libras foi inscrita nos meus livros em benefcio do seu rapazinho, sob o nome de Jolyon Forsyte. Figura a crdito dele, com juros de cinco por 
cento. Espero que goze de boa sade. Eu passo bem, actualmente.
Do corao, sou seu pai afectuoso,

Jolyon Forsyte


E todos os anos, no dia 1 de Janeiro, o velho acrescentava aos juros a soma de cem libras. E o depsito crescia. No prximo dia de Ano Bom j haveria umas mil quinhentas 
e tantas libras. Seria difcil dizer a satisfao que proporcionava ao velho Jolyon aquela operao anual. Mas a correspondncia terminara.
Apesar da sua ternura pelo filho, apesar do instinto - em
parte natural e em parte cultivado por ele, como por tantos outros da sua classe, graas ao manejo e  observao constante dos negcios-, instinto que o levava 
a julgar as coisas mais pelos seus resultados do que de acordo com um princpio, havia algo que o desconcertava. Naquele caso, o filho deveria cair na misria. Essa 
lei era observada em todos os romances, sermes e peas teatrais que lera ou ouvira.
Quando o seu cheque foi devolvido, pareceu-lhe que qualquer coisa no estava em ordem. Porque no cara o filho na misria? E, afinal, quem sabia?
Ouvira dizer - na verdade fora ele prprio que se encarregara de descobrir - que Jo vivia em Saimt-John's Wood; que possua uma casinha com jardim na Wistaria Avenue; 
que frequentava a sociedade com a mulher--uma sociedade curiosa, na verdade - e que eles tinham dois filhos: o garoto, chamado Jolly filho(1) - ele via uma espcie 
de desafio cnico na escolha desse nome, dadas as circunstncias, e o velho Jolyon odiava o cinismo e temia-o - e uma menina chamada Holly, nascida depois do casamemto. 
Qual poderia ser a situao real do seu filho? Jo capitalizara o rendimento que herdara do av materno; entrara na firma Lloyds como subescriturrio; pintava tambm 
um pouco, fazia aguarelas. O velho Jolyon sabia disso, porque sub- repticiamente comprara algumas, de longe em longe, quando por acaso via na vitrina de um vendedor 
de quadros a assinatura do filho sobre uma paisagem do Tamisa. Julgava-as ms e no as punha na parede por causa da assinatura: guardava-as fechadas numa gaveta.
Na imensa sala da pera, foi assaltado por uma necessidade intensa e dolorosa de rever o filho. Vinha-lhe a lembrana do tempo em que o garotinho se lhe sentava 
nas pernas, vestido na roupinha de fusto: do tempo em que lhe ensinava a montar a cavalo e corria ao lado do pnei; do dia em que o levara  escola pela primeira 
vez. Era um rapazinho to meigo, to carinhoso! Quando voltara de Eton, trazia, talvez um pouco em excesso, aquelas maneiras invejveis


*(1) Jolly, empregado aqui como diminutivo de Jolyon, significa alegre, vivaz, contente. (N. da T.)

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que - o velho Jolyon sabia-o bem - s se adquirem l, e muito caro. Porm, o rapaz continuara a ser sempre ptimo companheiro, mesmo depois de ter vindo de Cambridge, 
embora se mantivesse um pouco distante, em razo mesmo das vantagens que l recebera. O sentimento do velho Jolyon em relao s escolas universitrias e s Varsities 
(1) nunca variara: conservava, com uma comovedora fidelidade, a sua atitude de admirao e desconfiana em relao ao sistema apropriado s altas classes do pas 
e cujos benefcios no lhe fora dado desfrutar.
Agora, que June se ia embora, que quase o abandonava j, haveria de lhe fazer bem rever o filho. Sentindo-se culpado por aquela traio contra a famlia, os seus 
princpios e a sua classe, o velho Jolyon fixou o olhar na cantora. Era pssima, na verdade! Detestvel! E quanto a Florian, um canastro!
O pano caiu. Actualmente, aquela gente contentava-se com pouca coisa!
Na rua atravancada, apoderou-se de um cab mesmo no nariz de um senhor gordo, muito mais novo que ele, que se dirigia para o carro. No canto de PaM Mall, o cocheiro, 
em vez de atravessar Green Park, deu a volta para subir Saint James Street. O velho Jolyon ps a mo na portinhola - no podia suportar que no se tomasse o caminho 
mais curto-, mas, voltando-se, viu defronte o Hotch Potch, e a saudade que latejara nele durante toda a noite dominou-o de sbito. Fez o carro parar. Entraria e 
perguntaria se Jo ainda era membro do clube.
Entrou. O hall ainda era o mesmo dos tempos em que vinha jantar ali, em companhia de Jack Herring - o tempo em que o clube possua o melhor cozinheiro de Londres. 
Olhou em torno de si com aquele olhar experimentado e firme graas ao qual, durante a vida inteira, fora mais bem servido do que a maioria dos homens.
- Mr. Jolyon Forsyte ainda  membro do clube?
- Sim senhor. Est aqui, no momento. Que nome devo anunciar?
O velho Jolyon hesitou.
- O pai dele.


*1. Universidades.

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E, depois de falar, esperou, de p, apoiado  lareira.
Jolyon filho saa do clube e j atravessava o hall, de chapu na cabea, quando o porteiro o encontrou. J no era o mesmo jovem, o cabelo encanecia-lhe; o rosto, 
rplica menor do do pai, tinha os mesmos grandes bigodes cados, parecia realmente bem marcado. Empalideceu. Aquele encontro era terrvel, depois de tantos anos. 
pois nada no mundo era mais terrvel do que uma cena.
Defrontaram-se e apertaram as mos sem uma palavra. Depois, com um tremor na voz, o pai disse:
- Como vai, meu filho? E o filho respondeu:
- E o pai como est?
A mo do velho Jolyon tremia na sua luva fina.
- Se segue o meu caminho, poderemos andar juntos um pedao.
E, como se tivessem o hbito de acompanhar um ao outro todas as noites, saram e subiram ao cab.
O velho Jolyon tinha a impresso de que o filho crescera.
"Est mais homem", dizia de si para si.
A amabilidade natural  fisionomia de Jo cobrira-se com uma mscara levemente sardnica, como se as circunstncias da vida o houvessem posto na necessidade de se 
armar. Os seus traos eram os dos Forsyte, mas tinha um olhar meio perdido, como o de um filsofo ou um Homem de estudos. Decerto fora obrigado a olhar para si mesmo 
muitas vezes, durante esses quinze anos.
Ao primeiro olhar que lanara ao pai, sentira um golpe no corao: estava to velho, to gasto! Mas, no fiacre, o velho pareceu-lhe quase o mesmo, porque tinha aquele 
antigo ar calmo que Jo recordava to bem, a mesma postura firme, o mesmo olhar preciso.
- O pai est bem disposto.
- Vou indo - respondeu o velho Jolyon.
Sentia-se presa de uma inquietao que lhe era indispensvel formular. Tendo reencontrado o filho, carecia saber como iam as suas finanas.
- Jo, gostaria que me dissesse como vo os seus negcios. Decerto tem dvidas, no?

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Fez a pergunta assim para que o outro respondesse com mais facilidade. Jolyon filho informou com a sua voz irnica:
- No, no tenho dvidas!
O velho Jolyon compreendeu que o filho estava magoado e tocou-lhe a mo. Correra um risco; mas valera a pena, e Jo nunca lhe guardaria rancor. Sem dizerem uma palavra 
mais, chegaram a Stanhope Gate. O velho Jolyon convidou o filho a entrar, mas Jo abanou a cabea.
- June no est em casa-disse rapidamente o velho Jolyon. - Foi fazer uma visita no campo. Creio que soube do noivado dela?
- J? - murmurou o rapaz.
O velho Jolyon desceu do carro, e, pela primeira vez na vida, deu por engano ao cocheiro um soberano em vez de um shilling. O cocheiro meteu a moeda no canto da 
boca, chicoteou suavemente o cavalo e desapareceu.
O velho Jolyon rodou 'lentamente a chave na fechadura, abriu a porta e fez sinal a Jo para que entrasse. Jo viu-o pendurar gravemente o capote, tendo no rosto a 
expresso de um garoto que vai roubar cerejas.
A porta da sala de jantar estava aberta, a luz do gs baixa. A chaleira assobiava numa bandeja de ch e, ao lado, um gato de focinho cnico adormecera sobre a mesa. 
O velho Jolyon enxotou-o imediatamente. O incidente aliviava-o e ele perseguia o animal batendo com a claque na mo.
- Tem pulgas - disse, acompanhando o gato at fora da sala. E, diante da escada que do vestbulo descia para o subsolo,
fez vrias vezes "Hsst!", como para ajudar a fuga do gato, at que finalmente, como por uma coincidncia, o mordomo apareceu nos primeiros degraus.
- Pode ir deitar-se, Parfitt - disse o velho Jolyon. - Eu fecho a porta e apago as luzes.
Quando voltou  sala de jantar, o gato, desgraadamente, precedia-o com a cauda erguida, proclamando que compreendera desde o primeiro momento a manobra do seu dono 
para suprimir o mordomo.
Uma fatalidade encarniava-se sempre contra todos os estratagemas domsticos do velho Jolyon.
Jolyon filho no pde deixar de sorrir. Era muito versado em matria de ironia, e tudo, naquela noite, lhe parecia irnico: o episdio do gato, a notcia do noivado 
da sua prpria filha. Tinha pois sobre ela tantos direitos como sobre aquele gato. Havia naquilo uma justia que ele compreendia bem.
- Com quem se parece June actualmente? - perguntou.
- Dizem que se parece comigo, mas  uma tolice; parece-se antes com a av: tem os mesmos olhos, os mesmos cabelos.
- Ah, e  bonita?
O velho Jolyon tinha muito do carcter Forsyte para se permitir um elogio directo, sobretudo quando se tratava de algo que lhe inspirava uma admirao real.
- No  feia: tem um queixo de Forsyte. Isto aqui vai ficar muito vazio, Jo, quando ela se for embora.
A expresso que lhe passou no rosto fez que Jolyon filho sentisse novamente o mesmo choque que o ferira por ocasio do encontro.
- Que ser de si, pai? Naturalmente ela s v o rapaz.
- Que ser de mim? - repetiu o velho Jolyon com um tom irritado na sua voz.-No ser divertido viver aqui sozinho. No sei o que farei... - Calou-se, e depois acrescentou: 
- A questo  saber o que farei a esta casa.
Jolyon filho correu o olhar pela sala. Era singularmente vasta e triste, decorada com imensas naturezas-mortas que recordava ter visto em pequenino, ces adormecidos 
que apoiavam o focinho em montes de cenouras, de cebolas e cachos de uvas. Aquela casa era um "elefante branco", mas ele no podia imaginar o pai instalado com menos 
largueza; e isso tambm parecia cheio de ironia.
Na sua grande poltrona, estava agora sentado o velho Jolyon, perfeito representante da sua famlia, da sua classe, dos seus dogmas, personificando a ordem, a moderao 
e o esprito da propriedade: um velho to solitrio como no haveria outro mais solitrio em Londres.
Sentava-se ali, na sombra rica da sala, fantoche nas mos das foras imensas que no cuidam nem em famlias, nem em classes,

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nem em crenas, que avanam como mquinas, levadas por um movimento fatal para fins incompreensveis,
Tal era, naquele momento, a impresso do Jolyon jovem, que sabia olhar para as coisas do lado de fora delas.
Pobre pai velho! Tal seria pois o seu fim, o alvo que ele visara ao conduzir a sua vida com to magnfica moderao: ficar s, envelhecer cada dia mais, sem ter 
um cristo com quem falar!
Por sua vez, o velho Jolyon olhou o filho. Tinha tantas coisas para lhe dizer, coisas que no pudera dizer durante anos. Ser-lhe-ia impossvel confiar a June que 
os terrenos do Soho iam subir de valor; a sua inquietao a respeito do extraordinrio silncio de Pippin, o superintendente da New ColiMery Company, cujo conselho 
ele prprio presidia havia tantos anos; ou mesmo examinar em companhia dela um arranjo que evitasse aos seus herdeiros o pagamento do imposto de sucesso. Sob a 
influncia de uma xcara de ch, que remexia com a colher, indefinidamente, ps-se enfim a falar. Abria-se diante dele um novo horizonte. Esperanas de conversa, 
um refgio onde, nas suas horas de pnico ou de tristeza, encontraria o pio das longas palestras sobre o meio de aumentar a sua fortuna, de tornar eterna a nica 
parte de si mesmo que subsistiria neste mundo.
Jolyon filho sabia escutar: era a sua grande qualidade. Mantinha os olhos fixos no rosto do pai, fazendo de longe em longe uma pergunta.
O velho Jolyon no acabara de falar quando o relgio de parede, batendo uma hora, lhe lembrou os seus princpios. Puxou o seu relgio de bolso com ar espantado:
- Preciso ir-me deitar, Jo.
Jolyon filho ergueu-se, estendeu a mo ao pai para o ajudar. De novo o velho rosto lhe parecia gasto, sulcado de rugas, os olhos desviados.
- Adeus, meu filho, tenha cuidado consigo.
Passou um instante, e Jo, girando sobre os calcanhares, dirigiu-se para a porta. Mal podia ver e o seu sorriso tremia. Desde quando, h vinte anos, descobrira que 
a vida no  simples, nunca ela lhe tinha parecido to estranhamente complicada.

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CAPTULO III.

O JANTAR EM CASA DE SWITHIN.

Na sala de jantar, em casa de Swithin, pintada de azul-plido e laranja, com janelas para o parque, a mesa estava posta com doze talheres.
Um lustre de cristal, cheio de velas acesas, pendia por sobre a mesa como uma estalactite gigantesca e iluminava os grandes espelhos de moldura dourada, as consoles 
de mrmore, as pesadas cadeiras, tambm douradas e estofadas com tapearia. Tudo na sala atestava o amor pelas coisas belas, to profundamente enraizado naquela 
famlia que precisara abrir o seu prprio caminho dentro da sociedade, fora do vulgar corao da Natureza.
Swithin no tolerava a simplicidade; amara sempre o dourado, qualidade que o tornara conhecido entre os amigos como homem de extraordinrio bom gosto, embora s 
vezes luxuoso de mais. E o seu maior e o mais duradouro prazer era a certeza em que vivia de que ningum lhe poderia entrar em casa sem se aperceber logo quo rico 
ele era.
Fora agente de propriedades imobilirias, profisso deplorvel, a seu ver, principalmente no tocante aos leiles. Desde que se retirara dos negcios, abandonara-se 
s suas tendncias naturalmente aristocrticas. E enterrava-se no luxo perfeito com que soubera cercar a sua velhice, como uma mosca se enterra no acar. O seu 
esprito, onde, de manh  noite, poucas coisas passavam,

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era uma confluncia de duas emoes singularmente contraditrias: uma permanente e vigorosa satisfao por ter sabido abrir caminho na vida e constituir a sua fortuna 
e a ntima convico de que um homem to refinado como ele nunca deveria ter sido constrangido a macular o esprito trabalhando.
Estava em p, junto ao aparador, de colete branco com grandes botes de nix e ouro. e vigiava o criado, que enterrava mais profundamente nos baldes de gelo trs 
garrafas de champanhe Por entre as duas altas pontas do seu colarinho engomado, cujo formato ele no alteraria por nada no mundo, embora lhe tornasse penoso qualquer 
movimento, o seu queixo gordo mantinha-se imutvel. Os olhos passeavam de garrafa em garrafa. E Swithin deliberava: "Jolyon bebe um copo, talvez dois, no mais. 
Poupa-se tanto! James, esse no bebe, Ncholas e Fanny, esses dois vo encher-se de gua, como sempre. Soames tambm no conta. Essa rapaziada (Soames tinha trinta 
e oito anos) no sabe beber. Mas Bosinney?" Encontrando no nome desse estranho algo que saa dos quadros da sua filosofia, Swithin parou. Elevava-se nele uma dvida: 
"No se pode saber o que  que Bosinney beber! June no passa de uma menina apaixonada! Emily (Mrs. James) aprecia a sua taa de champanhe. Mas para Juley, champanhe 
 seco de mais; coitada, no tem paladar! Quanto a Hatty Chessmann...-A lembrana dessa velha amiga veio obscurecer com uma nuvem de pensamentos o vidro transparente 
dos seus olhos: "Ela  bem capaz de beber a sua meia garrafa.)-
Quando pensou, porm, na ltima convidada, uma expresso semelhante  de um gato que ronrona passou-lhe pelo velho rosto: "Mrs. Soames! Talvez no beba muito, mas 
saber apreciar o que bebe.  um prazer oferecer um vinho fino quela rapariga. Rapariga linda e simptica! Basta evoc-la para se sentir a sensao de beber um 
bom champanhe. Realmente,  um prazer oferecer bons vinhos a uma mulher to agradvel de se ver, que veste to bem, que tem maneiras to encantadoras, to distintas. 
 um prazer receb-la!-
Entre as pontas do colarinho, que o incomodavam, fez pela primeira vez, com a cabea, um leve movimento: - Adolf, ponha mais uma garrafa no gelo. - Ele prprio tambm 
poderia beber um pouco, porque, graas quela receita de Blight, sentia-se muito
bem e tomara o cuidado de no almoar. Havia semanas que no se sentia to bem. E, erguendo o lbio inferior, deu as suas ltimas instrues: - Adolf, traga um pouco 
de vinho das Antilhas quando se estiver a servir o presunto.
Passando pela antecmara, sentou-se na beira de uma cadeira com os joelhos afastados; e a sua estatura enorme e macia imobilizou-se imediatamente numa atitude de 
espera estranha e primitiva. Estava pronto para se erguer a qualquer momento. Havia j muitos meses que no dava um jantar. E aquele jantar, em comemorao do noivado 
de June, parecera-lhe a princpio uma maada. (O costume de comemorar os noivados com jantares de cerimnia era religiosamente observado pelos Forsyte.) Mas depois 
de findo o aborrecimento de fazer os convites e encomendar o cardpio, sentia-se agradavelmente estimulado.
E sentado, tendo na mo o relgio, gordo, liso e dourado como uma bola de manteiga, ficou ali, sem pensar em nada.
Um homem alto, de suas, que estivera outrora ao servio de Swithin e era agora verdureiro, entrou e anunciou:
- Mrs. Chessmann, Mrs. Septimus Small!
Duas senhoras adiantaram-se. A da frente, toda vestida de vermelho, tinha nas faces duas placas fixas da mesma cor e um olhar duro e audacioso. Dirigiu-se para Swithin, 
estendendo-lhe a mo apertada numa luva cor de junquilho.
- Ento, Swithin, h sculos que ningum o v. Como vai? Mas como tem engordado, rapaz!
Apenas a fixidez do olhar de Swithin lhe traa a emoo. Uma clera muda rugia-lhe por dentro. Era vulgar estar gordo, falar em gordura. Ele era forte, mais nada. 
Voltando-se para a irm, apertou-lhe a mo e disse num tom de autoridade:
- E ento, Juley?
Mrs. Septimus Small era a mais alta das trs irms: a sua velha face amvel tornara-se um pouco dura e um emaranhado de rugas cortava-lhe o rosto, como se ela o 
tivesse encerrado at quela noite numa mscara de arame, e, tirando-a subitamente, ficasse assim toda marcada de verges de carne indcil. Os prprios olhos pregueavam-se 
nas dobras das plpebras franzidas.

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Era aquela a sua maneira de mostrar tristeza pela morte de Septimus Small.
Era clebre pelas suas gafes e tenaz como todos do seu sangue; sempre que dizia uma inconvenincia agarrava-se a ela, e muitas vezes acrescentava-lhe outra. Depois 
da morte do marido, a obstinao da famlia, o senso prtico tinham sido nela feridos de esterilidade. Generosamente tagarela, era capaz, se a deixassem, de falar 
durante horas seguidas, sem a menor animao, relatando com uma monotonia pica os inumerveis malefcios que lhe fizera a Fortuna, sem se aperceber de que os seus 
auditores simpatizavam com a Fortuna porque ela tinha bom corao.
A pobre de Cristo, depois de velar durante anos  cabeceira de Small (homem de sade precria), tomara o costume desse devotamento, e depois disso, em vrias ocasies, 
durante perodos interminveis, fizera companhia a doentes, a crianas e a outros incapazes. Nunca pudera desfazer-se do sentimento de que o mundo era o lugar mais 
infestado de ingratido que seria possvel encontrar. Domingo aps domingo sentava-se aos ps do engenhoso pregador reverendo Thomas Scoles, que exercia uma grande 
influncia sobre a sua alma; e conseguiu convencer toda a gente de que aquilo era tambm um novo infortnio. Tornara-se proverbial na famlia, onde, para se definir 
algum que estivesse particularmente deprimido, dizia-se: "Uma Juley perfeita." A qualquer pessoa que no pertencesse  raa dos Forsyte tais tendncias seriam fatais 
logo aos quarenta anos. Ela entretanto tinha setenta e quatro e passava optimamente de sade. E sentia-se que alimentava ainda apetites de prazer bastante slidos. 
Possua trs canrios, o gato Tommy e metade de um papagaio cuja propriedade partilhava com a irm Hester; e os pobres bichos (cuidadosamente mantidos longe de Timothy, 
a quem os animais irritavam), mais equitativos que os seres humanos, sabendo embora que Juley no podia deixar de ser triste e apagada, eram-lhe apaixonadamente 
apegados.
Naquela noite, ela estava de uma sombria magnificncia, vestida de bombazina preta, com uma frente lils timidamente decotada em tringulo. Uma fita de veludo preto 
apertava-lhe o pescoo franzino. A combinao de preto e lils, para os vestidos
de noite, era considerada quase unanimemente pelos Forsyte como uma prova de sbria distino.
E ela disse a Swithin,, com um trejeito na face:
- Ann perguntou por si. H sculos que no vai visitar-nos. Swithin enfiou os polegares na cava do colete e respondeu:
- Ann est a ficar meio trmula; devia procurar um mdico.
- Mr. e Mrs. Nicholas Forsyte!
Nicholas Forsyte, erguendo as sobrancelhas rectangulares, exibia um sorriso. Conseguira durante o dia fazer vigorar um projecto destinado a empregar uma tribo do 
Norte da ndia nas minas de ouro de Ceilo. Um projecto favorito, levado a bom termo, contrariando grandes dificuldades, valia um sorriso. Tal operao duplicaria 
a produo das suas minas, e j que, como ele francamente o demonstrava, a experincia universal tende a provar que todos os homens devem morrer, tanto faz morrer 
de velhice miservel, na sua terra, ou prematuramente, levado pela humidade no fundo de uma mina em pas estranho; isso pouco importa, uma vez que essa mudana de 
condio resulte em benefcio do Imprio Britnico.
As suas capacidades eram notrias. Erguendo o nariz quebrado para o auditor, gostava de dizer:
- Por falta de algumas centenas desses pobres diabos  que no pagamos os dividendos h muitos anos; olhe agora o valor das aces. No do mais dez shillings.
Alm disso, estivera em Yarmouth e voltara de l com o sentimento de que acrescentara pelo menos uns dez anos  sua vida. Agarrou a mo de Swithin e exclamou em 
voz jovial:
- Ento, ento! C estamos de novo!
Mrs. Nicholas, uma senhora abatida, sorria por trs do marido. com uma alegria falsa e assustadia.
- Mr. e Mrs. James Forsyte.
- Mr. e Mrs. Soames Forsyte.
Swithin juntou os calcanhares, sempre admirvel de porte:
- E ento, James? E ento, Emily? Como vai isso, Soames? Como vai? - A sua mo fechou-se sobre a mo de Irene e os seus olhos arredondaram-se.

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Linda mulher! Talvez um pouco plida,
mas que corpo, que olhos, que dentes! Realmente, era boa de mais para esse garoto do Soames!
Os deuses haviam dado a Irene sombrias pupilas castanhas e cabelos dourados, combinao singular que atrai o olhar dos homens e passa por sinal certo de fraqueza 
de carcter. A palidez ampla e suave do pescoo e dos ombros, sobre o vestido cor de ouro, davam-lhe uma atraente estranheza.
Soames estava de p, por trs dela, com os olhos postos na nuca da mulher. Swithin segurava sempre o relgio, que marcava mais de oito horas. Tinha o hbito de jantar 
meia hora antes, no almoara, e uma estranha e violenta impacincia subia do seu fundo primitivo.
- No  coisa prpria de Jolyon atrasar-se assim - disse ele a Irene, sem poder dominar o mau humor. - Creio que  June que o retm.
- Os namorados andam sempre atrasados - respondeu a rapariga.
Swithin encarou-a e uma onda de sangue veio aquecer-lhe o amarelo bilioso da face.
- No sei porqu.   uma elegncia de mau gosto.
E, sob aquela exploso, a violncia inarticulada das geraes primitivas parecia murmurar e rugir.
- D a sua opinio sobre a minha nova estrela de brilhantes, tio Swithin - disse docemente Irene.
No seu colo, entre as rendas, brilhava uma estrela de cinco pontas feita de onze diamantes. Swithin olhou a estrela. Era entendido em pedras preciosas, e nenhum 
outro assunto poderia servir melhor para lhe distrair a ateno.
- Quem lhe deu isso? - perguntou ele.
- Soames.
A moa pronunciou esse nome sem alterar as feies: entretanto os olhos plidos de Swithin arregalaram-se, como se uma intuio sbita acabasse de o ferir.
- Voc decerto aborrece-se em casa - disse ele. - Se lhe der na vontade de vir um dia jantar comigo, sirvo-lhe uma garrafa de vinho como h poucas em Londres.
- Miss June Forsyte, Mr. Jolyon Forsyte, Mr. Bosinney.

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Swithin avanou o brao e disse em voz estentrica:
- Para a mesa, agora! Para a mesa!
E Swithin tomou o brao de Irene, pretextando que ela, desde que se casara, ainda no jantara em sua casa. June coube a Bosinney, que tomou lugar  mesa entre Irene 
e a noiva. Do outro lado de June, James, Mrs. Nicholas, depois o velho Jolyon com Mrs. James, Nicholas com Hatty Chessmann, Soames com Mrs. Small, que fechava o 
crculo  esquerda de Swithin.
Os jantares de famlia em casa dos Forsyte obedeciam a certas tradies. Por exemplo, no se serviam hors d'oeuvres. A razo de tal costume era ignorada. Os jovens 
da famlia atribuam-no ao preo exorbitante das ostras; porm  mais provvel que tal absteno fosse devida  impacincia de chegar ao essencial, a um excelente 
senso prtico que teria decidido logo que os hors d'oeuvres carecem de substncia.
Apenas os James, incapazes de resistir a um costume quase geral em Park Lane, faziam excepo  regra da famlia.
Nesses jantares, uma indiferena muda e quase sombria de cada conviva para com o seu vizinho seguia-se ao movimento de sentar  mesa; e esse silncio durava at 
 primeira entrada. Era cortado aqui e ali por algumas observaes: "Tom est doente de novo; no consigo descobrir o que ele tem." "Creio que Ann j no sai de 
manh?" "Como se chama o seu mdico, Fanny?" "Stubbs?" " um charlato!" "Winifred? Tem filhos de mais." "Quatro, no ?" "E est magra como uma ripa!" "Quanto paga 
voc por este sherry. Swithin? Seco de mais para mim."
Com o segundo copo de champanhe, elevava-se uma espcie de rudo cujo elemento fundamental parecia ser a voz de James a contar uma anedota. E a anedota arrastava-se 
at ao momento em que aparecia o prato culminante de um jantar Forsyte: um lombo de carneiro.
Nunca um Forsyte deu um jantar sem fazer figurar nele um assado de carneiro. H qualquer coisa na suculenta solidez dessa carne que a designa s pessoas "de uma 
certa posio".  um prato nutritivo e saboroso, e que a gente no esquece quando o come. Tem um passado e um futuro, tal como um depsito num banco. E, alm disso, 
d pretexto a discusses.

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Cada ramo da famlia louvava obstinadamente o local de provenincia do "seu" carneiro. O velho Jolyon fazia questo de Dartmoor, James, do Pas de Gales, Swithin 
no acreditava seno no South Down, Nicholas sustentava que, "digam o que disserem, nada equivale ao carneiro da Nova Zelndia". Quanto a Roger, o "original)' entre 
os irmos, fazia questo de descobrir uma procedncia especial para si: com o engenho digno do homem que inventou uma profisso nova para os filhos, descobriu um 
aougue onde se vende carne originria da Alemanha. E como estranhassem o facto, naquele dia, ele confirmou o que afirmara exibindo uma factura do aougue, provando 
que pagava o seu lombo de carneiro, mais caro do que os outros. Foi nessa ocasio que o velho Jolyon, voltando-se para June, lhe disse num dos seus acessos de filosofia:
- Pode acreditar, minha querida, quando lhe digo que os Forsyte tm um parafuso errado. Com os anos, acabar por aperceber-se disso.
Apenas Timothy se mantinha  parte. Porque, embora gostasse de lombo de carneiro, dizia que tinha medo dele.
Para todas as pessoas curiosas da psicologia dos Forsyte, esse trao do assado de carneiro  de capital importncia: no s lhes manifesta a tenacidade, como grupo 
de indivduos, como os caracteriza como pertencentes, em fibra e em instinto, quela classe de homens que prezam, antes de tudo, o que  substancial e saboroso, 
e se defendem contra qualquer seduo frvola.
Na verdade, decerto alguns membros jovens da famlia dispensariam de bom grado a carne, preferindo uma galinha-d'angola ou uma salada de lagosta, qualquer coisa 
de menos nutritivo e que falasse mais  imaginao. Mas eram mulheres, ou ento rapazes corrompidos pelas mulheres ou pelas mes, que, sendo obrigadas a comer lombo 
de carneiro durante toda a sua vida matrimonial, tinham transmitido ao sangue dos filhos a sua hostilidade secreta contra tal iguaria.
Finda a grande controvrsia do assado de carneiro, passou-se ao presunto de Tewkersbury, acompanhado de uma gota de vinho das Antilhas: Swithin demorou-se tanto 
tempo nesse prato que atrasou a marcha do jantar,

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e, para se entregar mais inteiramente a ele, fez parar a conversa.
Do seu lugar, ao lado de Mrs. Septimus Small, Soames vigiava. Tinha uma razo pessoal para observar Bosinney. O jovem arquitecto talvez lhe servisse para um projecto 
que acariciava h muito: o de construir uma casa. Tinha o ar inteligente e, inclinado para trs, na cadeira, construa sonhadoramente uma muralha de migalhas de 
po. Soames notou que o seu fato era de bom talhe, mas um pouco apertado, como se datasse de alguns anos. Viu-o voltar-se para Irene e dizer-lhe qualquer coisa. 
Viu o rosto de Irene iluminar-se, como frequentemente se iluminava para outros, nunca para ele. Tentou apanhar o que diziam, mas a tia Juley dizia-lhe: "Soames no 
achava tambm extraordinrio? Ainda no ltimo domingo o prezado Mr. Scoles parecera to espirituoso no seu sermo, to sarcstico!" "Para que serve", dizia ele, 
"para que serve a um homem ganhar a sua alma se lhe sucede perder todos os seus bens?" Era essa, na opinio de Mr. Scoles, a divisa da burguesia. E que quereria 
ele realmente dizer com isso?
Soames respondeu distrado:
- Como  que a senhora quer que eu saiba? Scoles no ser um mistificador?
Porque Bosinney circulava a mesa com o olhar, como se fizesse comentrios a respeito de cada conviva, e Soames perguntava a si mesmo o que estaria ele a dizer. O 
sorriso de Irene aprovava-lhe evidentemente as observaes. Ela tinha sempre o ar de aprovar os outros, volveu o olhar para Soames, que imediatamente baixou o seu: 
a rapariga perdera o seu sorriso.
- Um mistificador?
Afinal, que queria dizer Soames? Se Mr. Scoles, um pastor, um sacerdote, era um mistificador, quem no o seria, ento? Era horrvel.
- Pois bem, toda a gente o ! - disse Soames.
Durante o silncio horrorizado da tia Juley, apanhou algumas palavras de Irene e sups perceber: "Perdei toda a esperana,  vs que entrais."
Swithin, afinal, acabara o presunto.
- Onde  que voc costuma comprar cogumelos? - perguntou ele a Irene,

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com um tom galante na voz. - Procure Snileybob: l vendem-lhe cogumelos frescos. Esses pequenos vendedores no vo dar-se ao trabalho...
Irene voltou-se para responder e Soames viu que Bosinney a olhava sorrindo para si mesmo. Singular sorriso tinha aquele rapaz: um sorriso simples, como o de um menino 
que sorri porque est contente. Quanto ao apelido inventado por George, o pirata, no lhe achava nenhuma graa. Vendo Bosinney voltar-se para June. Soames por sua 
vez sorriu, sardnico: no gostava de June e ela no parecia contente.
Coisa alis natural, pois a pequena acabava de ter com James a seguinte conversa:
- Estive algum tempo na margem do Tamisa, tio James, quando voltei do Pas de Gales. E vi l um local esplndido para fazer uma casa.
James, gastrnomo lento e convicto, parou de mastigar.
- Ah - disse ele. - E onde?
- Perto de Pangbourne.
James ps na boca um naco de presunto e June esperou.
- Voc no sabe, talvez, se esse terreno est  venda? - disse o tio afinal. - No sabe nada sobre o preo desses terrenos?
- Sei. Informei-me.
O seu rostinho resoluto, sob a chama dos cabelos, brilhava com um ardor que fez que James desconfiasse. E o velho encarou-a com um olhar inquisidor.
- O qu? Ser que voc pensa em comprar esses terrenos?- exclamou, deixando cair o garfo.
june tomou coragem, vendo-o to interessado. H muito tempo alimentava a esperana de que os tios servissem aos seus interesses e aos de Bosinney mandando construir 
casas de campo.
- Naturalmente no - falou ele. - Mas achei o lugar maravilhoso para o senhor ou qualquer outra pessoa construir uma casa de campo!
James olhou-a de vis e levou  boca um segundo pedao de presunto.
- Os terrenos devem ser muito caros por ali - disse ele.

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O que June tomara por interesse pessoal no era seno a excitao que qualquer Forsyte sentia ante a ideia de um objecto desejvel que corre o risco de ir para outras 
mos. Porm a pequena no quis admitir que a ocasio estava perdida e insistiu:
- O senhor devia instalar-se no campo, tio James. Ah, como eu queria ter muito dinheiro! No viveria nem mais um dia em Londres!
James sentiu-se abalado at ao mais ntimo da sua longa e magra pessoa. No desconfiava que a sobrinha tivesse ideias to
positivas.
- Porque o senhor no se fixa no campo? - insistia ela. - Havia de lhe fazer tanto bem!
- Porqu? - perguntou James, agitado. - Comprar um terreno? E que interesse teria eu em construir uma casa? S obteria quatro por cento do capital!
- E que mal faz isso? Mas gozaria do ar puro!
- Ora, ar puro! - exclamou James. - No tenho necessidade
de ar puro!
- Pensei que toda a gente gostasse de ar puro - disse a
moa com desprezo.
James passou o guardanapo na boca.
- Voc no sabe o valor do dinheiro - disse, evitando o olhar da rapariga.
- No. e espero no o saber nunca.
E mordendo os lbios, mortificada, a pobre June calou-se.
Porque eram os seus parentes to ricos, enquanto o pobre Phil nunca sabia onde arranjaria o tabaco para o cachimbo, no dia seguinte? Seria que o no poderiam ajudar? 
Mas eram to egostas! Porque no mandavam construir casas de campo? Ela tinha aquele dogmatismo ingnuo e pattico que s vezes realiza tantas coisas grandes.
Bosinney, para quem se voltava no seu desapontamento, conversava com Irene, e qualquer coisa lhe paralisou o impulso do corao. Os seus olhos imobilizaram-se de 
clera, como os do velho Jolyon quando o contrariavam.
James tambm estava profundamente perturbado. Parecia-lhe que lhe haviam ameaado o direito de colocar o seu dinheiro a cinco por cento.

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Jolyon estragara de mimos aquela garota. No seria uma das suas filhas que diria semelhantes palavras! James sempre fora muito generoso com os filhos, e a conscincia 
desse facto ainda o tornava mais sensvel  inconvenincia de June. Com um ar absorto, o velho remexia os seus morangos, depois, inundando-os de creme, comeu-os 
rapidamente: aquilo pelo menos no lhe escaparia.
E tinha motivo para se escandalizar. H cinquenta e quatro anos - comeara a vida como solicitador (1) na idade legal -, ocupava-se em combinar hipotecas, em manter 
capitais numa taxa de juros alta e segura, em negociar conforme o grande princpio de tirar dos outros o mximo possvel, sem comprometer a segurana dos seus clientes 
nem a sua, em calcular com exactido as repercusses financeiras provveis de todos os acontecimentos da vida, e j no sabia pensar seno em termos de finana. 
O dinheiro era como a sua luz. o seu meio de viso, uma coisa fora da qual era incapaz de perceber fosse o que fosse. E ouvir dizer, nas suas barbas: "Espero no 
saber nunca o que vale o dinheiro!", havia-o horripilado. Sabia bem que fora uma inconsequncia, de contrrio teria medo. Para onde ia o mundo? De sbito, lembrando-se 
da histria de Jolyon filho, sentiu-se um pouco reconfortado. Que esperar da filha de tal pai? Porm essa lembrana arrastou-lhe os pensamentos por um caminho ainda 
mais penoso. Que significavam os boatos que corriam a propsito de Soames e de Irene? Como em toda a famlia que se respeita, havia, entre os Forsyte, uma espcie 
de Bolsa onde circulavam os segredos e onde se cotavam as situaes respectivas dos diferentes membros da famlia. E era corrente na praa dos Forsyte que Irene 
lamentava o seu casamento. Censurava-se esse sentimento. Irene devia ter sabido o que queria, uma mulher sria no comete tais enganos. James, aborrecido, reflectia 
que eles tinham uma linda instalao, talvez um pouco pequena, mas bem situada, sem filhos, sem problemas econmicos. A este ltimo respeito, Soames sempre fora 
muito reservado,

*1. Solicitador profissional legalmente qualificado para agir por outra pessoa perante as autoridades judicirias, espcie de personagem intermediria entre o procurador 
e o advogado. (N. da T.)

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mas devia estar bem encaminhado no arranjo do seu p-de-meia. Recebia um bom rendimento da firma, pois Soames, como o pai, pertencia ao famoso escritrio de advogados-solicitadores
 Forsyte-Bustaford-Forsyte, onde sempre se mostrara muito cauteloso. Tirara bom partido de vrias hipotecas resgatadas no momento oportuno, golpes na verdade muitssimo 
bem dados.
No se via nenhuma razo para que Irene no se sentisse feliz, e no entanto contava-se que pedira para ter quarto separado. E James sabia em que dava isso.
Se ela ao menos se pudesse queixar de que Soames bebia!
James volveu os olhos para a nora. Aquele olhar despercebido era frio e cheio de dvidas. Interrogava, exprimia receio e um sentimento de ofensa pessoal. Porque 
o atormentavam assim? Coisa insensata, coisa de mulher. So to loucas as mulheres, exageram tudo. A gente nunca sabe em que deve pensar, e depois nunca lhe diziam 
nada, a ele. Tinha de descobrir tudo sozinho. De novo lanou para Irene um olhar furtivo, depois espiou Soames, no outro lado da mesa. Este ltimo, enquanto escutava 
a tia Juley, olhava, de cabea baixa, na direco de Bosinney. "Ele  louco por ela, tenho a certeza", pensava James. "Basta ver os presentes que lhe d."
E a loucura de Irene, desligando-se de Soames, apareceu-lhe com uma nova fora. E era pena, tambm, porque a moa tinha um encanto especial, e ele, James, ter-lhe-ia 
amizade se ela o quisesse. Irene ligara-se muito a June, ultimamente, e isso no lhe fazia bem, no lhe fazia bem absolutamente! Por isso  que andava a querer mostrar 
esprito independente. De que carecia? Tinha uma casa linda e tudo que lhe fosse possvel desejar. O que era mister  que o marido soubesse escolher melhor os amigos. 
Irene estava num caminho perigoso.
O facto  que June, campe dos desventurados, arrancara de Irene uma confisso e, em pagamento, pregara-lhe um sermo sobre a necessidade de enfrentar o mal, ainda 
que devesse chegar  separao. E Irene respondera a essas exortaes com um silncio absorto, como se a esmagasse a perspectiva dessa luta a sangue-frio. "Nunca 
Soames a largaria", disse ela a June.

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- No importa - gritara a pequena. - Faa o que quiser. Voc precisa de se manter firme.
E June no hesitara em falar da mesma maneira na casa de Timothy. James, informado disso, horrorizou-se.
Se Irene metesse na cabea... mal ele ousava dizer a palavra... deixar Soames? O pensamento foi-lhe to intolervel que o afastou imediatamente. Quantas imagens 
srdidas lhe sugeria! Ouviu em torno de si o zumbido de todas as lnguas da famlia. e, depois, o horror de um tal acontecimento, sucedendo to prximo a ele. James, 
na casa de um dos seus prprios filhos! Feliz mente Irene no tinha dinheiro: apenas uma miservel renda de cinquenta libras. E pensou com desprezo no defunto Heron, 
que nada tivera para deixar  filha. Assim ruminando, o nariz no copo, as longas pernas retorcidas sob a mesa, descuidou-se de se erguer quando as senhoras deixaram 
a sala de jantar. Precisava falar a Soames, preveni-lo, aquilo no podia continuar assim, agora que entrevira tais possibilidades. E notou, com acre malevolncia, 
que June deixara os seus copos cheios de vinho.
"Essa pequena est no fundo disso tudo", pensava ele. "Irene nunca teria tais ideias sozinha."
James era, a seu modo, um homem de imaginao. A voz de Swithin tirou-o da sua cisma.
- Dei por ele quatrocentas libras - dizia Swithin. - Note-se que  uma verdadeira obra de arte.
- Quatrocentas! Hum!  muito dinheiro! - exclamava Nicholas.
O objecto em questo era um grupo de mrmore italiano, posto sobre um soco elevado, igualmente de mrmore, destinado a realar a sala e dar-lhe um toque artstico. 
Seis figuras nuas de mulher, de um estilo sobrecarregado, apontavam todas com o dedo a figura central, feminina e nua tambm, que se designava a si prpria com o 
mesmo gesto: o espectador ficava possudo pelo sentimento agradvel do extremo valor daquela figura. A tia Juley, sentada quase defronte do grupo, sofrera os maiores 
incmodos para no o olhar durante o jantar inteiro.
O velho Jolyon falou. Fora ele que lanara a discusso.

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- Quatrocentas libras? Voc no vai dizer-me que deu quatrocemtas libras por isso?
Entre as pontas duras do colarinho, o queixo de Swithin fez a sua segunda penosa oscilao da noite.
- Quatrocentas libras de bom dinheiro britnico, nem um vintm menos. E no o lamento, no  um trabalho ingls qualquer.  legtimo italiano moderno!
Soames teve um sorriso que lhe ergueu o canto do lbio e procurou o olhar de Bosinney. O arquitecto contraa o rosto sob o fumo do cigarro. Agora, mais que nunca, 
tinha a sua cara de pirata.
- H realmente muito trabalho a - notou James, que estava sinceramente impressionado pelas propores do grupo. - Daria um bom dinheiro no Jobson.
- O coitado do italiano que o fez - continuou Swithin - pediu-me quinhentas libras. Dei-lhe quatrocentas. Vale oitocentas. O pobre diabo parecia estar a morrer de 
fome.
Nicholas disse a sua palavra:
- Ah. so uma gente sempre esfarrapada, esses artistas! Tinha vontade de saber como  que eles fazem para viver. Por exemplo aquele rapaz Flageoletti que Fanny e 
minhas filhas costumam chamar para tocar violino, quando apura cem libras por ano,  um fim de mundo!
James abanou a cabea:
- Ah, como  que eles fazem para viver,  que eu no sei! O velho Jolyon erguera-se, de charuto na boca, e examinava
o grupo de perto.
- Eu no daria duas libras por isso - disse enfim. Soames viu que o pai e Nicholas trocavam um olhar inquieto.
do outro lado de Swithin, Bosinney continuava envolto em fumo.
"Gostaria de saber o que ele pensa disto", cogitava Soames, que sabia muito bem que o grupo de mrmore era desesperadamente vieux jeu. J no se vendiam no Jobson 
objectos daquele estilo.
A resposta de Swithin veio afinal.
- Voc nunca percebeu de escultura. Comprou os seus quadros, e pronto!

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O velho Jolyon voltou para o seu lugar, soprando o fumo do charuto. Era pouco provvel que entrasse em discusso com aquele teimoso do Swithin, obstinado como uma 
mula, e que nunca fora capaz de distinguir entre uma esttua... e um chapu de palha.
- Estuque! - disse ele apenas.
J h muito tempo era fisicamente impossvel a Swithin fazer qualquer gesto de emoo, mas daquela vez o seu punho abateu-se sobre a mesa.
- Estuque! Eu queria saber se na sua casa voc tem qualquer coisa que valha a metade deste grupo!
E sob as suas palavras sentia-se novamente rugir a violncia das geraes primitivas.
Foi James quem salvou a situao.
- Muito bem, mas que diz disto o senhor, Mr. Bosinney? O senhor  arquitecto, deve ser muito entendido em esttuas e em todas essas coisas!
Todos os olhos se volveram para Bosinney, todos lhe esperaram a resposta com um estranho olhar suspeitoso.
E Soames, tomando pela primeira vez a palavra, perguntou:
- Sim, Bosinney, que  que voc diz disto? Bosinney respondeu friamente:
- A obra  notvel.
Falava a Swithin, porm os seus olhos sorriam imperceptivelmente ao velho Jolyon. Soames no se sentiu satisfeito:
- Notvel porqu?
- Pela sua subtileza.
A resposta foi seguida de um silncio impressionante, e s Swithin no soube ao certo se deveria tom-la como um cumprimento.

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CAPTULO IV.

PROJECTO DE CONSTRUO.

Trs dias depois do jantar de Swithin, Soames Forsyte saa de casa, pela porta verde da fachada, depois de atravessar a praa, voltou-se para olhar a casa, e confirmou 
a sua impresso de que precisava de pintura nova. Deixara a mulher sentada no sof do salo, com as mos unidas sobre os joelhos, esperando evidentemente que ele 
sasse. Essa atitude no era rara em Irene, diariamente a tomava.
Soames no compreendia o que descobria ela para o censurar. Imaginem se ele bebesse! Por acaso fazia dvidas? Jogava? Praguejava? Era violento? Tinha amigos desregrados? 
Passava as noites fora? No! Era exactamente o contrrio disso tudo.
A profunda e muda averso que sentia na mulher, contra si, era um motivo de constante irritao. Que ela se tivesse enganado, que no o amasse, que houvesse tentado 
am-lo sem o conseguir, evidentemente isso no eram razes. Um marido capaz de pensar em tais motivos para um desentendimento instalado no seu lar no seria um Forsyte.
Soames via-se pois forado a lanar toda a culpa sobre Irene. Nunca encontrara outra mulher to capaz de inspirar amor. No podiam ir a lugar nenhum sem que visse 
os homens sofrendo-lhe o encanto: isso traa-se nos olhares deles, nos gestos, na voz. E ela sempre guardara, diante de tantas homenagens, uma linha irrepreensvel.

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O que nunca ocorreria a Soames era que ela fosse uma dessas mulheres, to raras na raa anglo-saxnia, nascidas para amar e serem amadas. O poder de atraco que 
emanava de Irene era encarado pelo marido como um elementto a mais num valor - o valor que ela tinha a seus olhos como uma das suas propriedades. Mas, por causa 
mesmo desse poder, ele suspeitava que Irene tanto saberia dar como receber, e entretanto no lhe dava nada! "Ento porque casou comigo?", perguntava a si prprio 
continuamente. Esquecia a corte que lhe fizera, os dezoito meses de cerco com que a assediara, no cessando de inventar novos divertimentos para Irene, de lhe fazer 
presentes, renovando periodicamente o seu pedido, afastando os outros admiradores pela sua prpria presena. Esquecera o dia em que, aproveitando um perodo de averso 
aguda que ela sentia pelos que a rodeavam, ele vira enfim os seus esforos coroados de xito.
Se recordava alguma coisa, era a maneira como o tratara a rapariga de cabelos de ouro e olhos escuros. Decerto j no recordava a expresso estranha, passiva e suplicante 
com que um dia, subitamente, a moa cedera e concordara em casar com ele.
O assdio que Soames fez a Irene foi desses que toda a gente, na vida real e nos romances, est acorde em louvar: uma corte de todos os momentos, ao fim da qual 
o apaixonado recebe a recompensa por ter malhado o ferro at torn-lo malevel, e que deve preparar para todo o futuro dias to alegres como os sinos de noivado.
Soames trotava alegremente em direco  City, caminhando do lado sombreado da rua. Precisava reformar a casa, a menos que resolvesse emigrar para o campo e construir 
l uma moradia. Pela centsima vez, nesse ms, revolvia o problema. No se ganha nada em fazer precipitadamente as coisas! Tinha uma situao confortvel: os seus 
rendimentos aumentavam e em breve atingiriam as trs mil libras, porm o seu capital no era to grande quanto o supunha o pai. James acreditava serem os filhos 
mais ricos do que na realidade o eram. 
"Posso dispor muito facilmente de oito mil libras", pensava Soames, "e isto sem pensar no dinheiro que emprestei sobre a hipoteca a Robertson e Nicholl."
Parara diante da vitrina de um vendedor de quadros, porque era amante de pintura e tinha, no nmero 62 de Montpellier Square, uma salinha cheia de quadros, que encostava 
 parede,  falta de lugar para os pendurar. Trazia-os quando voltava da City, em geral j noite escura. E nos domingos  tarde gostava de se instalar na salinha 
e passava horas a voltar um aps outro os quadros contra a luz, examinava as marcas que eles traziam no verso da tela e tomava notas. Eram quase sempre paisagens, 
com figuras no primeiro plano, que ele escolhia num obscuro sentimento de revolta contra Londres, as casas altas, as ruas interminveis, onde a sua vida decorria, 
onde decorriam as vidas de todos os da sua espcie e da sua classe. De tempos a tempos carregava no cab uma ou duas dessas telas e parava na loja do Jobson, de caminho 
para a City.
Irene, cuja opinio Soames respeitava em segredo, e que, talvez por esse motivo, nunca solicitava, s raramente entrava na tal sala quando carecia absolutamente 
de falar, ao marido. Ningum lhe pedia que olhasse os quadros, e ela no o fazia,. Para Soames, isso representava nova ofensa. Ele odiava aquele orgulho e, no fundo, 
temia-o.
No espelho da vitrina a sua imagem estava de p e encarava-o. Os cabelos lisos, sob a borda do chapu alto, tinha o mesmo lustro da seda da cartola, as faces plidas 
e chatas, a linha dos lbios bem barbeados, o queixo firme e de um cinzento glabro, a gravidade abotoada da sua sobrecasaca negra, compunham-lhe uma aparncia de 
reserva, de discrio, de calma voluntria e imperturbvel, mas os olhos frios, cinzentos, de olhar tenso, separados por uma ruga vertical, examinavam-no longamente, 
como se lhe conhecessem uma secreta fraqueza.
Ele anotou o assunto dos quadros expostos, o nome dos pintores, calculou o preo possvel de cada tela, porm sem sentir a satisfao que de ordinrio gozava com 
essa avaliao interior, e continuou o caminho.
A casa de Montpellier Square ainda aguentaria um ano, se se resolvesse construir a casa nova. Os tempos eram favorveis para isso. H muito que a moeda no andava 
to alta, e o local que ele vira, em Robin Hill, quando l fora durante a Primavera para examinar a hipoteca de Nicholl,

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no era uma perfeio? A doze milhas de Hyde Park Corner, o valor do terreno subiria infalivelmente. Podia-se ter a certeza de revender com lucro, de maneira que 
uma casa construda l, se fosse realmente bem feita, constituiria uma colocao de capital de primeira ordem.
A ideia de ser o nico da famlia a possuir uma casa de campo no pesava muito nos clculos de Soames. Todo o Forsyte legtimo considera qualquer sentimento, mesmo 
o de uma superioridade social, um luxo que no se pode permitir seno depois de ter satisfeito o apetite em vantagens mais tangveis.
Mas tirar Irene de Londres, arranc-la s possibilidades de sair e de ver estranhos, afast-la de toda a gente que lhe metia coisas na cabea! Era isso o que precisava 
de fazer! Ela estava ligada de mais a June. E June tinha antipatia por Soames, antipatia que ele lhe retribua. Ambos eram do mesmo sangue.
Tudo ficaria resolvido com a sada de Irene da cidade. Ela apreciaria a casa, e, com o seu gosto ipelas coisas de arte, haveria de se divertir em decor-la.
A casa tinha de ser de bom estilo, que lhe garantisse valor econmico real numa possvel venda. Algo de excepcional, como a casa nova de Parkes, que tinha uma torre. 
Porm o prprio Parkes queixara-se do arquitecto carneiro. A gente nunca sabe onde vai, com tais homens. Se so conhecidos, arrastam o pobre proprietrio a despesas 
infinitas, e ainda se fazem importantes. E contratar um arquitecto de segunda ordem  mau negcio! A lembrana da torre de Parkes exclua a possibilidade de escolha 
de um arquitecto de segunda classe.
Eis porque Soames pensava em Bosinney. Depois do jantar na casa de Swithin tomara informaes, o resultado fora pequeno, mas animador: "Um adepto da escola nova."
- Bom?
- De primeira fora. Mas um pouco... um pouco areo! No pde descobrir as casas que Bosinney j construra, nem
quais eram os seus preos. Porm tinha a impresso de que poderia impor as suas condies. Quanto mais cogitava nela, mais a ideia lhe agradava. O negcio ficava 
assim em famlia - o que  quase um instinto nos Forsyte, beneficiaria de uma tarifa preferencial,

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se, de qualquer modo, no obtivesse preos inteiramente pr-forma, coisa justa, afinal de contas, pois dava a Bosinney uma oportunidade de mostrar as suas possibilidades, 
uma vez que a casa no seria uma construo vulgar.
Soames pensava satisfeito em todas as encomendas que ele necessariamente faria aflurem para o rapaz, como todos os Forsyte, sabia ser profundamente optimista, quando 
as vantagens estavam do seu lado.
O escritrio de Bosinney era em Sloane Street, pertinho da casa dele, Soames, o que lhe permitia estar sempre com os planos de construo debaixo da vista.
Outra considerao: Irene aceitaria mais facilmente sair de Londres se a construo da casa de campo fosse confiada ao noivo da sua melhor amiga. O casamento de 
June dependeria disso, talvez. E Irene no poderia, decentemente, opor obstculos ao casamento de June, jamais faria tal coisa. Ele conhecia-a. E June ficaria contente: 
nisso tambm Soames via uma vantagem.
Bosinney parecia inteligente, porm tinha - e esse era um dos seus encantos - o ar do homem que no sabe bem o que vale. Deveria ser fcil de levar em questes de 
dinheiro. Soames fez esta reflexo sem inteno de explorar o arquitecto, apenas tal reflexo estava de acordo com a sua atitude de esprito mais natural - a de 
todo o legtimo homem de negcios entre os quais ele ia abrindo o seu caminho na City. Era a lei mais secreta da sua classe e da prpria natureza  qual obedecia 
quando pensava com uma impresso de conforto que "Bosinney deveria ser fcil de levar em questes de dinheiro".
Enquanto prosseguia caminho, abrindo passagem com os cotovelos, o olhar que de hbito trazia fixado ao solo, adiante dos ps, levantou-se para a torre de Saint Paul. 
Aquela velha torre exercia em Soames uma fascinao singular. No era uma vez, mas duas ou trs vezes por semana que interrompia o seu trajecto quotidiano para entrar 
sob a cpula e durante cinco ou dez minutos sob as alas laterais decifrar os nomes e os epitfios das lpides funerrias. Inexplicvel a atraco da grande igreja 
sobre Soames. salvo se ela lhe ajudava a concentrar os pensamentos na tarefa diria. Se qualquer negcio importante, que lhe exigisse ateno

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ou habilidade particular, lhe pesava no esprito, invariavelmente entrava sob a abbada e errava de epitfio em epitfio, com uma ateno de rato. Depois, saindo 
no mesmo passo silencioso, continuava o seu caminho directo para Cheapside, com um pouco mais de deciso no andar, como se houvesse visto algum objecto que decidisse 
adquirir.
Nessa manh, pois, entrou em Saint Paul. Mas, em vez de andar entre um tmulo e outro, ergueu os olhos para as colunas, para os grandes espaos de muralha, e ficou 
imvel. O seu rosto voltado para cima, com a expresso solenemente respeitosa e compenetrada que o rosto de toda a gente toma espontaneamente numa igreja, tornara-se, 
na imensidade da nave, de um branco de giz. As mos juntas estavam unidas  frente no casto do guarda-chuva. Soames elevou-as. Que inspirao religiosa lhe viera 
de repente?
"Sim", pensou, "tenho necessidade de espao para pendurar os meus quadros."
Na mesma noite, quando voltou da City, foi bater no escritrio de Bosinney. Encontrou o arquitecto em mangas de camisa, fumando cachimbo e traando, com uma rgua, 
linhas rectas sobre uma planta. Soames recusou um whisky e foi direito ao assunto.
- Se no tem coisa melhor a fazer no prximo domingo, venha comigo a Robin Hill, para me dar o seu juzo sobre um terreno para construo.
- E vai construir?
- Talvez - disse Soames-, mas no fale nisso a ningum. Quero apenas a sua opinio sobre o terreno.
- Perfeitamente - falou o arquitecto. Soames correu a sala com os olhos.
- Est bem alto aqui - observou ele. Qualquer informao que pudesse recolher relativa  extenso e  natureza dos negcios de Bosinney ser-lhe-ia til.
- Isto basta-me, por enquanto - respondeu o arquitecto. - Voc est habituado a grandezas.
Bateu a cinza do cachimbo e recolocou-o rpido entre os dentes, talvez lhe ajudasse a manter a conversa. Soames viu que
o moo tinha uma cova em cada face, como se as chupasse por dentro.
- Qual  o aluguel de um escritrio como este? - perguntou.
- O dobro daquilo que ele vale - respondeu Bosinney.
E essa resposta produziu uma impresso favorvel em Soames
- Suponho que  caro, com efeito. Virei busc-lo no domingo s onze horas.
No domingo seguinte, veio num cab buscar Bosinney e levou-o  estao. Em Robin Hill no encontraram carro, e o local que iam visitar distava uma milha e meia da 
estao: foram a p.
Era o primeiro de Agosto e o dia estava lindo: o sol ardia, e no se via nem uma nuvem no cu, ao longo do caminho estreito e rectilneo que subia a colina, os ps 
dos visitantes levantavam pequenas nuvens de poeira amarela.
- Terreno arenoso! - notou Soames. E lanou um olhar de vis ao sobretudo de Bosinney. O moo enfiara maos de papis nos bolsos e levava sob o brao uma bengala 
de aspecto bizarro. Soames notou essas singularidades e mais algumas outras.
S um homem inteligente, ou na verdade um pirata como lhe chamavam os outros, poderia cuidar to pouco da sua aparncia, e embora fossem profundamente chocantes 
para Soames, tais excentricidades davam-lhe certa satisfao, porque via nelas a marca de qualidade que deveria inevitavelmente resultar em seu proveito. Se o rapaz 
sabia construir uma casa, que importava a sua roupa?
- J lhe disse que a casa deve ser uma surpresa. Por isso, no conte nada a ningum. Nunca falo dos meus negcios antes de os concluir.
Bosinney fez um sinal afirmativo com a cabea.
- Ponha mulheres a par dos seus projectos - continuou Soames - e nunca h-de saber onde isso o levar.
- Ah - disse Bosinney -, as mulheres so o diabo!
Era esse um sentimento que Soames h muito tempo trazia no fundo do corao sem nunca o ter formulado.
- Oh - murmurou ele -, voc j comea a... - Parou de sbito, porm, acrescentou num movimento irresistvel de antipatia:- June tem um carcter especial: sempre 
o teve assim.

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Num anjo, um carcter especial no  coisa m. Soames nunca falara de Irene como de um anjo. No poderia
violar at esse ponto os seus instintos mais caros, confiar a outrem o valor que atribua a sua mulher e, desse modo, desvendar-se a si mesmo. No respondeu nada.
Chegaram a uma estrada ainda por acabar, que atravessava um campo. Cortando-a em ngulo recto, um caminho de carros levava a uma lea ensaibrada, atrs da qual se 
elevavam as chamins de uma casa pequena no meio de um tufo de arvoredo e  margem de um bosque espesso. Moitas de erva veludosa cobriam o cho rude, viam-se cotovias 
que levantavam voo, e subiam, planando numa bruma de luz. No horizonte longnquo, para alm da infinita sucesso de campos e de sebes, aparecia uma linha de colinas.
Soames caminhava  frente. No outro extremo do terreno, parou. Era ali o stio escolhido. Porm, tendo de o revelar a algum, sentia-se pouco  vontade.
- O agente mora nesta casinha - disse ele. - Vai oferecer-nos o almoo, e  melhor que almocemos antes de albardar o negcio.
Ps-se de novo a caminhar  frente, at  casa onde os acolheu o agente, que se chamava Olivier - um homenzarro de grande estatura, de rosto pesado e barba grisalha. 
Durante o almoo, Soames, que mal comia, no deixou de olhar para Bosinney, e, uma ou duas vezes, passou furtivamente o seu leno de seda pela testa. Terminada enfim 
a refeio. Bosinney ergueu-se:
- Tenho a certeza de que os senhores pretendem conversar a respeito de negcios. Vou dar uma volta e ver um pouco o terreno.
E, sem esperar resposta, saiu.
Soames, de quem os proprietrios do terreno eram clientes, passou uma hora com o agente, examinando planos, discutindo a hipoteca Nicholl e outras. Afinal, quando 
abordou o assunto da compra, foi como se a ideia lhe houvesse ocorrido ocasionalmente.
- Os seus patres deveriam baixar o preo para mim. j que serei o primeiro a construir aqui.
Olivier abanou a cabea.
- O local que o senhor escolheu  o mais barato que ns temos. J faz grande diferena dos preos dos terrenos l do alto.
- Note bem - disse Soames - que ainda no estou resolvido. E  bem possvel que desista da construo. O terreno  muito caro.
- Pois, Mr. Forsyte, se o senhor desistir eu lament-lo-ei e creio que cometer um erro. No h nenhum terreno prximo de Londres que tenha uma vista como esta, 
nem que seja, afinal de contas, to barato. Basta que ns faamos um pouco de publicidade, e ver-nos-emos cheios de pedidos de compra.
Olharam-se. Os seus rostos diziam claramente: "Respeito-o como homem de negcios, e o senhor decerto no pensa que acredito numa nica palavra do que diz."
- Pois  - repetiu Soames -, ainda no me decidi,  muito provvel que o negcio no se faa.
Dizendo estas palavras, ergueu-se, apanhou o guarda-chuva, ps a mo fria na mo do agente, retirou-a sem lhe haver imprimido a menor presso e saiu para o sol.
Mergulhado nos seus pensamentos, dirigiu-se lentamente para o local escolhido. O seu instinto dizia-lhe que o agente falara verdade: o terreno no era caro. E o 
melhor da histria  que ele sabia muito bem que o agente o julgava caro, de maneira que a sua intuio levava de vencida a sapincia do agente.
"Caro ou barato, preciso dele", pensou Soames.
As cotovias erguiam voo  sua frente, o ar estava cheio de borboletas e um perfume suave exalava-se das ervas selvagens. Do fundo do bosque, onde os pombos bravos 
arrulhavam, escondidos nas sombras, subia o cheiro dos fetos, e a brisa tpida trazia de longe o badalar ritmado dos sinos.
Soames caminhava com os olhos fixos no cho, como se saboreasse em pensamento qualquer coisa deliciosa. Porm, quando chegou ao local que escolhera, no encontrou 
Bosinney. Depois de esperar algum tempo, atravessou o campo cercado e subiu a colina. Teria gritado, se no tivesse medo de ouvir o som da sua voz. O campo estava 
solitrio como uma estepe, o silncio era quebrado apenas pelo rumor de algum coelho fugitivo, correndo para a toca, ou pelo canto das cotovias.
Soames, pioneiro do grande exrcito dos Forsyte que avanava para civilizar aquele deserto,

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sentiu que o seu gnio se intimidava ante aquela solido, aqueles cantos invisveis, a suavidade do ar ardente. J voltava sobre os seus passos quando afinal percebeu 
Bosinney.
O arquitecto estava deitado ao comprido sob um grande carvalho que estendia amplamente a ramagem poderosa e cujo tronco, devastado pelos anos, se elevava  margem 
da encosta.
Soames teve de lhe tocar no ombro para o fazer erguer a cabea.
- Ah, Forsyte, encontrei o verdadeiro lugar para a sua casa! Veja isto!
Soames, imvel, olhou, depois respondeu friamente:
- Talvez voc tenha bom gosto, mas este terreno custar-me- o dobro do outro.
- No pense no preo, homem! Olhe esta vista!
O trigo maduro ondulava-lhes aos ps at um bosquezinho sombrio, a cuja orla se encostava. Os campos, riscados de sebes, estendiam-se at s colinas azuladas. O 
riacho desenhava-se  direita, num risco de prata.
O cu era to azul, o sol to claro, que se poderia supor eterno o Vero que reinava naquela paisagem. O calor danava sobre os trigais, e, penetrando em todas as 
coisas, um leve e imperceptvel zumbido flutuava como o murmrio de minutos luminosos em festa, entre o cu e a terra.
Soames olhava. A despeito de si mesmo, qualquer coisa se lhe dilatava no peito. Viver ali, diante daquele horizonte, mostr-lo aos amigos, falar dele, possu-lo! 
O sangue avermelhava-lhe a face. O calor, o radioso brilho da paisagem, penetrava-lhe os sentidos, tal como a beleza de Irene quatro anos atrs, excitando-lhe o 
desejo. Lanou um olhar enviesado a Bosinney, cujos olhos - aquele olhar de leopardo meio domesticado, na frase do cocheiro - pareciam percorrer o campo com uma 
espcie de liberdade selvagem. O Pirata! O sol marcava-lhe as salincias da face, as mas ossudas, o queixo proeminente, as bossas verticais que lhe encimavam as 
rbitas, e Soames, olhando aquela cara poderosa, descuidada e entusistica, sentia uma impresso desagradvel.

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O vento passou sobre o trigo, numa ondulao longa e suave, extraindo-lhe um bafo tpido.
- Eu poderia construir-lhe aqui uma casa extraordinria - disse Bosinney, quebrando afinal o silncio.
- No duvido - replicou secamente Soames -, mas no seria voc quem deveria pag-la.
- Com mais ou menos oito mil libras, fao-lhe um palcio. Soames tornara-se muito plido. Travava-se nele um combate. Baixou os olhos e disse rapidamente:
- No est nas minhas posses.
Lentamente, no seu passo absorto, conduziu Bosinney at ao local primitivo. L passaram algum tempo a precisar os pormenores da futura casa, depois Soames voltou 
at ao cottage do agente.
Saiu de l uma meia hora depois, e, reunindo-se a Bosinney, puseram-se a caminho para a estao.
- Pois  - disse ele, mal descerrando os lbios -, afinal, o que eu comprei foi o terreno escolhido por si.
E recaiu no seu silncio, perguntando confusamente a si mesmo como fora que aquele indivduo, que por instinto ele desprezava, pudera dominar a sua prpria deciso.

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CAPTULO V.

O LAR DE UM FORSYTE.

Como milhares de londrinos, representantes preclaros da sua classe e da sua gerao, que j no acreditam nas cadeiras de veludo vermelho e sabem que os grupos modernos 
de mrmore italiano so vieux jeu, Soames morava numa casa onde se afirmava uma pretenso de arte.
A porta era decorada com uma aldraba de cobre de forma original, as janelas, expressamente modificadas, abriam-se  francesa, tinha jardineiras suspensas, cheias 
de fucsias, e atrs da casa (pormenor importante) abria-se um pequeno ptio, coberto com telhas verde-jade e circulado de hortnsias cor- de-rosa, em caixas pintadas 
de azul-pavo.
L, sob um toldo japons cor de pergaminho, que cobria todo o fundo do trio, os moradores da casa ou as visitas podiam, ao abrigo de olhares curiosos, tomar ch 
ou examinar  vontade as ltimas caixinhas de prata que Soames coleccionava.
A decorao interior misturava ao estilo Imprio a influncia de William Morris. Graas a isto, as dimenses da casa eram agradveis. Viam-se por toda a parte pequenos 
recantos, espcies de ninhos, onde bibelots de prata eram depositados, como ovos. Nessa perfeio de conjunto, duas espcies de requinte estavam em luta. Havia ali 
uma dona de casa que poderia sobreviver refinadamente numa ilha deserta, e um dono de casa cujo requinte era de certa maneira um valor,

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que ele utilizava para o seu progresso social, de acordo com as leis da concorrncia. Esse desejo de elegncia mostrara-se precocemente em Soames. Ainda colegial, 
em Marborough, j exibia colete branco no Vero e colete de veludo no Inverno. Nunca seria capaz de aparecer em pblico com uma gravata subindo para o colarinho 
e havia quem se recordasse de o ter visto, num dia de distribuio de prmios, diante de uma grande assembleia reunida para o ouvir recitar Malire, bater com o 
leno, j sobre o estrado, a poeira das suas botinas de verniz.
Como vrios londrinos, Soames tinha o aspecto de quem acabava de sair de uma caixa. Seria impossvel conceb-lo com um cabelo fora do lugar, a gravata afastada da 
perpendicular, ainda que fosse um quanto de centmetro, e um colarinho mal engomado! Por nada no mundo dispensaria o seu banho dirio, os banhos estavam ento em 
moda. E com que desprezo esmagava as pessoas que o omitiam! Mas poder-se-ia imaginar Irene banhando-se como uma ninfa num regato  beira de um caminho, para gozar 
a frescura da gua e a alegria de mirar o seu lindo corpo.
O conflito travado naquele interior terminara com a derrota da mulher. Como a luta do saxo e do celta, que ainda hoje perdura no corao da nao, o temperamento 
mais impressionvel, mais sensvel, tivera de receber o peso de uma montanha de convenes.
E, desse modo, a casa chegara a assemelhar-se a centenas de outras casas onde reinam as mesmas aspiraes superiores e tornara-se "a deliciosa casinha de Soames 
Forsyte, absolutamente original, minha querida, realmente elegante"!
No lugar de Soames Forsyte, pode-se ler James Peabedy, ou Thomas Atkins, ou Emmanuel Spagnoletti, o nome no importa, a frase aplica-se bem a qualquer ingls da 
alta burguesia londrina que tenha pretenses artsticas, seja qual for o estilo do mobilirio.
Na noite de 8 de Agosto, uma semana depois da expedio a Robin Hill, na sala de jantar daquela casa "absolutamente original, minha querida, realmente elegante" 
Soames e Irene jantavam. Um jantar quente, aos domingos, era um trao distinto de elegncia,, comum quela casa e a muitas outras. Muito pouco tempo depois do casamento, 
Soames estabelecera esta regra:

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" preciso que os criados nos sirvam um jantar quente aos domingos. Eles no tm nada a fazer, alm de tocar concertina."
O hbito fora tomado sem revoluo. Porque - sinal lamentvel, aos olhos de Soames - os criados gostavam de Irene, que, desafiando toda a salutar tradio, parecia 
reconhecer-lhes o direito a uma parte das fraquezas da natureza humana.
Estavam sentados no defronte um do outro, mas em ngulo recto, na bela mesa de pau-rosa, jantavam sem toalha, outra elegncia distinta, e no tinham ainda dito 
uma palavra.
Soames gostava, durante o jantar, de falar dos seus negcios e das suas compras e, enquanto discorria, o silncio de Irene no o tornava infeliz. Mas naquela noite 
era-lhe impossvel falar. A deciso de construir a casa pesara-lhe no esprito durante a semana inteira: decidira agora particip-la a Irene.
Irritava-o profundamente aquele nervosismo que o tomava ante a ideia de falar  mulher. Porque lhe fazia ela sentir tal constrangimento, j que marido e mulher so 
uma nica e a mesma pessoa? No o olhara nem uma vez, depois que estavam sentados, e ele perguntava a si prprio em que coisas pensaria Irene. Era duro para um marido 
que trabalhava para lhe ganhar dinheiro (pensava, com uma tristeza no corao), era duro encontr-la muda, com aquele olhar, um olhar que parecia ver as paredes 
da sala dobrarem-se sobre si para a aprisionarem.
A claridade que caa do quebra-luz banhava-lhe o pescoo e os 'braos. Soames fazia questo de que ela jantasse decotada, isso dava-lhe uma inexplicvel impresso 
de superioridade sobre os amigos, cujas esposas se contentavam em jantar em casa com um vestido de dia ou com um teagown. Sob a luz rosada, os cabelos de mbar e 
a pele branca de Irene faziam um estranho contraste com os sombrios olhos castanhos. Que poderia ele desejar de mais encantador do que aquela mesa, em tons ricos 
e fundidos, com as rosas de ptalas de seda, os copos cor de rubi, o tom argnteo da prataria, mais requintado do que a mulher que l estava sentada? Mas a gratido 
no era uma virtude dos Forsyte, que, positivos e arrivistas, nunca tinham oportunidade de a exercerem.
Soames sentia apenas uma exasperao que ia at ao sofrimento por no possuir aquela mulher com toda a fora do seu direito,
por no poder fazer, como o faria com aquela rosa, se o quisesse, estender apenas a mo, colh-la e respirar os seus perfumes mais ntimos.
Todas as suas outras propriedades, todos os objectos que adquirira, os bibelots de prata, os quadros, as casas, as aces davam-lhe uma ntima e secreta volpia. 
Ela no lhe dava nada.
E sobre aquela casa pesava algo semelhante a uma obscura ameaa de infelicidade.
O seu temperamento de homem de negcios protestava contra o sentimento secreto de que aquela mulher no fora feita para ele. Desposara-a, conquistara-a, fizera-a 
sua, e parecia-lhe contrrio  mais fundamental de todas as leis, ao direito de propriedade, no poder possuir dela seno o corpo, a supor que o possusse, porque 
at disso comeava a duvidar. Se algum lhe perguntasse se tambm lhe quereria possuir a alma, ele teria considerado a pergunta ridcula e sentimental. E, no entanto, 
era realmente a alma de Irene que Soames queria, e sentia que nunca a possuiria.
Ela era sempre silenciosa, passiva e, apesar de toda a sua graa, hostil, como se receasse por uma palavra, por um gesto, por um sinal qualquer, deix-lo crer que 
o amava. E ele perguntava a si prprio: "Ser que esta vida vai durar para sempre?"
Como quase todos os leitores de romances da sua gerao (e Soames era grande ledor de romances) via a vida atravs dos livros, e persuadira-se de que tudo era apenas 
uma questo de tempo. O marido acaba sempre por conquistar o corao da esposa. E mesmo nesses livros que terminam em tragdia - livros que ele no apreciava - a 
mulher morria sempre com um pungente arrependimento nos lbios, ou, se era o marido que morria - essa ideia era-lhe desagradvel - ela atirava-se sobre o corpo dele 
numa agonia de remorsos.
Levava frequentemente Irene ao teatro, escolhendo instintivamente as peas modernas e elegantes onde se debate o actual problema conjugal, felizmente to diverso 
do problema conjugal da vida quotidiana. Via que essas peas terminavam como os romances, mesmo quando no drama havia um amante. Enquanto se representava a pea, 
Soames frequentemente interessava-se pelo amante, mas, ao voltar para casa, sentado no carro, junto de Irene, voltava a si

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e rejubilava-se por a pea ter findado bem. Havia um novo gnero de marido que acabava de ser posto em moda: o homem forte, s vezes rude, muito slido, em favor 
de quem se resolvia sempre o desenlace da pea. Soames no sentia seno antipatia por tal personagem, e t-la-ia exprimido se no fosse a sua situao pessoal. Mas 
tinha to perfeita conscincia da necessidade vital que se lhe impunha de triunfar como marido, e mesmo de ser marido "forte", que jamais confessaria aquela averso 
que talvez - a natureza tem dessas reviravoltas perversas - nascesse nele de um fundo secreto de brutalidade.
Mas o silncio de Irene, naquela noite, era mais obstinado que de ordinrio. Nunca ele lhe vira antes tal expresso no rosto. E, j que  sempre o desconhecido que 
alarma, Soames sentiu-se alarmado. Acabou o prato, e, como a criada tirasse as migalhas com uma escova de prata, ele disse-lhe que se apressasse. Quando a criada 
saiu da sala, Soames encheu um copo de vinho e perguntou:
- No veio ningum hoje  tarde?
- June.
- Que  que ela veio fazer? - Era axiomtico, entre os Forsyte, que no se fazia uma visita sem fim determinado. - Falar do noivo, suponho?
Irene no respondeu.
- Tenho a impresso - continuou o marido - de que ela gosta muito mais dele do que ele dela. Anda sempre atrs do rapaz.
Os olhos de Irene faziam-no sentir-se mal.
- Voc no tem o direito de dizer uma coisa dessas! - exclamou ela.
- Porque no? Toda a gente pode ver isso.
- No  verdade. E, se o fosse, seria uma vergonha diz-lo. Soames perdeu o controle.
-  um encanto ser seu marido!-disse ele. Mas ao mesmo tempo espantava-se da vivacidade de Irene, aquilo no parecia dela. - Voc anda louca por June. Pois digo-lhe 
uma coisa: agora que ela anda com o pirata a reboque, liga tanto a voc como  primeira camisa que vestiu, e voc sente isso. De futuro, porm, no a ver tanto 
como agora: vamos morar no campo.
Ele gostara de atirar a sua novidade no meio de um rompante.

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Esperava um grito de espanto, e inquietou-se com o silncio que lhe acolheu as palavras.
- Isso no lhe interessa? - teve de acrescentar.
- Eu j o sabia.
- Quem lhe disse?
- June.
- Como o soube ela?
Irene no respondeu. Frustrado, descontente, Soames disse:
-  um ptimo negcio para Bosinney. Vai ser lanado com essa construo. Ela disse-lhe tudo?
- Sim.
Houve um novo silncio, depois Soames falou:
- Ser que voc no deseja ir para o campo? Irene no respondeu.
- Bem, no sei o que voc quer. Aqui nunca parece estar satisfeita:.
- Os meus desejos valem para alguma coisa?
Ela apanhou o vaso de rosas e saiu. Soames no se mexeu. Fora ento para aquilo que assinara a compra? Era para aquilo que iria despender dez mil libras? A frase 
de Bosinney voltou-lhe  memria: "As mulheres so o diabo!"
Em seguida acalmou-se. A coisa poderia ter decorrido pior. Ela poderia ter-se revoltado. Ele esperara algo mais. Em suma, era melhor por June houvesse quebrado o 
gelo. Naturalmente a pequena arrancara a notcia de Bosinney, era coisa de prever.
Acendeu um cigarro. Afinal de contas Irene no fizera nenhuma cena! Era o que havia de bom nela: era fria, mas no geniosa. E, soprando o fumo do cigarro sobre um 
insecto que caminhava atravs da mesa lustrosa, ps-se a sonhar com a casa nova.
No valia a pena aborrecer-se. Da a pouco iria procurar a mulher e fariam as pazes. Encontr-la-ia l fora, no escuro, tricotando sob o toldo japons. A noite estava 
bela e quente...
" Na verdade, June chegara  tarde, com os olhos brilhantes, gritando:
- Soames  formidvel!  uma maravilha para Phil! Exactamente o que ele precisava!

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Como o rosto de Irene continuasse sombrio e espantado, ela explicara:
- A sua casa nova em Robin Hill, naturalmente! Como? Voc no sabia?
Irene no sabia.
- Oh, ento creio que no deveria ter dito nada! - E, olhando impaciente a amiga, gritou: - Parece at que voc no se incomoda!  que eu desejei-o tanto, compreende? 
 a oportunidade que ele h tanto tempo esperava. Agora vocs vo ver do que Phil  capaz!
E, aps dizer isto, June contara a histria toda.
Depois do seu noivado, a pequena parecera no se interessar muito pela situao da amiga, as horas que passava com Irene eram consagradas apenas s suas prprias 
confidncias, e durante momentos, apesar de toda a sua afectuosa piedade, era- lhe impossvel impedir que lhe transparecesse no sorriso uma espcie de desdm compassivo 
pela mulher que cometera tal erro na vida - um to vasto e ridculo erro.
- Ele vai ficar encarregado tambm da decorao. Carta branca! Foi perfeito... - E June ps-se de sbito a rir, o seu rostinho fremia de alegria, erguendo a mo, 
dera uma pancada na cortina de musselina: - Imagine voc que cheguei quase a pedir ao tio James...
Mas de sbito foi-lhe desagradvel mencionar esse incidente e ela parou, e depois, encontrando to pouco aplauso da parte da amiga, foi-se embora. Da rua voltou-se, 
Irene ainda estava em p,  porta. Em resposta ao gesto de adeus de June, levou a mo  fronte. e lentamente fechou a porta.
Soames entrou no salo e olhou-a curiosamente atravs da vidraa. Sob a sombra do toldo japons, ela estava sentada, imvel, e sobre os seus ombros brancos a renda 
da charpe erguia-se e caa ao ritmo do seio.
Porm da criatura silenciosa que estava sentada ali, to tranquila na escurido, emanava um calor, um secreto fervor de sentimento, como se todo o seu ser acabasse 
de ser revolvido, como se uma transformao se produzisse nas suas profundezas mais ntimas.

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CAPTULO VI.

ONDE SE V JAMES POR INTEIRO.

No demorou muito tempo para que a resoluo de Soames desse a volta na famlia, excitando a emoo que toda a deciso referente s questes de propriedade desperta 
entre os Forsyte.
No foi por culpa dele, estava sinceramente resolvido a que ningum soubesse de nada. June, na plenitude do seu corao,  que confiara o segredo a Mrs. Small, permitindo-lhe 
que o repetisse  sua tia Ann- apenas - para alegrar a pobre e querida velhinha! - porque a tia Ann estava de cama havia vrios dias.
Mrs. Small imediatamente contara o caso  tia Ann, que, com a cabea nos travesseiros, sorrira, murmurando com a sua velha voz, clara e trmula:
-  uma sorte para a querida June. Porm espero que eles sejam prudentes: talvez seja perigoso!
E quando se viu de novo s, uma sombra severa passou-lhe pelo rosto como uma nuvem que anuncia um dia de chuva.
Durante os longos dias em que esteve na cama, a tia Ann repetia sem cessar o gesto de apertar os dedos, com o que procurava recarregar a vontade, o esforo traduzia-se-lhe 
no rosto, cerrando-lhe a cada momento os cantos dos lbios.
A criada de quarto, Smither, que estava ao seu servio havia quase trinta anos e de quem se dizia: "Smither, boa rapariga, mas to vagarosa!"

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- Smither realizava todas as manhs, com um cuidado religioso, a cerimnia culminante daquela toilette antiquada: tirando das profundidades imaculadas de uma caixa 
de papelo umas madeixas chatas, cinzentas, insignes de dignidade, punha-as entre as mos da patroa e respeitosamente virava as costas.
E diariamente a tia Juley e a tia Hester eram convocadas para informarem a irm mais velha sobre a sade de Timothy, para lhe darem notcias de Nicholas, dizerem-llhe 
se a querida June obtivera de Jolyon a antecipao da data do casamento, agora que Bosinney estava a construir a casa de Soames, se reallmente a mulher de Roger 
estava  espera... se a operao do pequeno Archie fora bem sucedida, qual a resoluo de Swithin a respeito daquela casa desocupada de Wigmore Street, cujo locatrio 
se arruinara e fora to incorrecto, e sobretudo queria saber a respeito de Soames: seria que Irene... insistiria sempre... em dormir em quarto separado? E todas 
as manhs Smither ouvia: "Hoje  tarde, pelas duas horas, irei at l baixo, Smither. E vou precisar que voc me d o brao, depois de tantos dias de cama!"
Depois de ter comunicado a notcia  tia Ann, Mrs. Small, sob garantia do mais absoluto sigilo, transmitira-a tambm a Mrs. Nicholas, que, por sua vez, pedira confirmao 
do facto a Winifred Dartie, certa de que esta, naturalmente, irm que era de Soames, estaria ao corrente de tudo. Atravs de Winifred, o boato chegara at aos ouvidos 
de James: e isso agitara-o muito.
- Ningum - dizia ele -, ningum me conta nada, - E em vez de se dirigir directamente a Soames, cujo gnio taciturno lhe fazia medo, agarrou o guarda-chuva e foi 
at  casa de Timothy.
L encontrou Mrs. Septimus Small e Hester, que tambm j tinha entrado no segredo (ela  calada, tem medo de se cansar a falar: "loucas para comentar a novidade". 
"O nosso querido Soames mostra com isso uma grande bondade, mas", notavam elas, referindo-se a Mr. Bosinney, "no ser um pouco arriscado?" Como era que George o 
alcunhara? Pirata! Alcunha engraada!  verdade que George era sempre engraado! O caso  que, assim, o negcio ficaria em famlia... porque, realmente, eram obrigados 
a considerar Mr. Bosinney como membro da famlia, embora a coisa ainda parecesse estranha.
A, James interrompeu:
- Ningum sabe nada dele. E no sei porque Soames vai servir-se de um estreante. No me admiro se Irene houver contribudo um pouco para isso... Vou falar a...
A tia Juley interrompeu-o:
- Soames disse a Mr. Bosinney que a coisa no deveria transpirar. Com certeza no quer que ningum saiba, e se Timothy souber, Soames decerto ficar contrariado, 
e eu...
James ps a mo atrs da orelha.
- O qu?:- disse ele. - Estou a ficar meio surdo. Creio que no ouo bem, quando me falam. Emily est com um p doente, acho que no poderemos ir para o Pas de 
Gales no fim do ms. Sempre aparece uma atrapalhao.
E, satisfeito com o que ouvira, agarrou o chapu e saiu. Fazia uma linda tarde, e ele atravessou o parque em direco a Mont-pellier Square, com a inteno de jantar 
em casa de Soames, porque Emily estava de cama, devido ao p doente, e Rachel e Cecily andavam no campo, a passeio. Tomou um caminho de vis que levava a Knightsbridge 
atravs de um prado de erva curta e queimada, semeada de ovelhas pretas, onde se viam, aqui e ali, pares sentados e estranhos mendigos deitados no cho, de face 
contra a terra, como cadveres sobre um campo por onde passou a onda de uma batalha.
Caminhava depressa, com a cabea baixa, no olhando nem  direita nem  esquerda. A viso daquele parque, centro do seu prprio campo de batalha, onde combatera 
a vida inteira, no lhe excitava nem o pensamento nem a especulao. Aqueles corpos estirados, fora do tumulto e do burburinho da luta, aqueles namorados sentados 
face contra face, fugitivos por uma hora paradisaca da monotonia do trabalho dirio, no lhe despertavam nenhuma cisma. Ele j ultrapassara a idade desse gnero 
de evocaes, e o seu nariz, como o focinho de um carneiro, nunca abandonava a pastagem onde comia.
J h algum tempo que um dos seus locatrios mostrava disposio de esquecer a data dos alugueres, e para James tornara-se um problema resolver se o despejaria imediatamente, 
apesar da dificuldade que h em arranjar inquilino antes do Natal. Alis, o culpado era ele prprio, que tivera pacincia de mais.

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Ruminava a questo, enquanto continuava o seu caminho, segurando cuidadosamente o guarda-chuva um pouco abaixo do casto, de modo a no bater com a ponteira no cho, 
nem amarrotar a seda. Com os seus ombros magros, altos e curvos, as pernas longas de movimentos rpidos e de preciso mecnica, James atravessava o parque, onde 
o sol brilhava com uma chama clara sobre tanta ociosidade - sobre tantos seres, testemunhas vivas da luta impiedosa pela posse do dinheiro, a batalha que se encarnia 
l fora do recinto daqueles relvados - e a passagem dele por ali semelhava o voo de um pssaro terrestre perdido sobre o mar.
Ao sair de Albert Gate, sentiu a mo de algum no brao.
Era Soames, que, voltando do escritrio, ao longo de Piccadily, do lado da sombra, atravessara subitamente a rua para vir ao encontro do pai.
- A sua me est de cama - disse James - e eu ia para a vossa casa. No sei se vou atrapalh-los.
As relaes exteriores de James e do filho distinguiam-se por uma ausncia de sentimento particularmente forsytiana, embora eles fossem, no fundo, muito ligados 
um ao outro. Talvez se considerassem reciprocamente como um capital, e, sem nenhuma dvida, ambos eram muito solcitos pela prosperidade respectiva e apreciavam 
estar juntos. Nunca haviam trocado duas palavras sobre os seus problemas ntimos, nem nunca houvera entre pai e filho a menor demonstrao de um sentimento mais 
profundo.
Eram unidos por laos fora do alcance de qualquer anlise verbal, por uma determinada fibra que faz parte da substncia ntima das naes e das famlias. Pelo sangue, 
diziam eles, que  mais denso que a gua, e nenhum dos dois era homem de sangue gelado e insensvel. At mesmo, em James, o pensamento nos filhos tornara-se o mbil 
constante da sua vida, a ideia desses seres, prolongamentos dele prprio, a quem ia deixar todo o dinheiro que punha de parte, era o imperativo real da sua necessidade 
de economia. Com setenta e cinco anos, que prazer lhe restava mais no mundo seno economizar? A sua vida j no tinha outra razo de ser.
Se o instinto de conservao , como o pretendem, o primeiro trao de sade moral (embora sem dvida nenhuma Timothy o levasse longe de mais)

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no se poderia encontrar um homem mais so do que James Forsyte, apesar de todas as suas jeremiadas, nenhum outro o venceria em toda aquela vasta Londres, que ele 
amava com to profundo amor, como o centro que era de todas as suas actividades. Tinha aquele maravilhoso instinto da sade que caracteriza a classe mdia inglesa. 
Nele, mais do que em Jolyon, com a sua vontade dominadora, os seus momentos de ternura e de filosofia, mais do que em Swithin, mrtir do seu amor pela distino, 
mais do que em Nicholas, por de mais activo, mais do que em Roger, excessivamente atirado, encarnava-se o esprito do oportunismo.
De entre todos os irmos, ele era o menos notvel pelo esprito e pela personalidade, e por tal razo parecia destinado a viver indefinidamente.
Mais do que para nenhum outro, a famlia era, para James, uma poderosa realidade. E a ela se entregava com uma espcie de ingenuidade, de bonomia primitiva. Amava-a 
- era a famlia, o "lar" -, amava-lhe at os mexericos e as queixas. Todas as suas decises lhe nasciam do senso colectivo da famlia, e, atravs desse sentimento, 
do senso de milhares de outras famlias da mesma substncia. Ano aps ano, semana aps semana, ia regularmente  casa de Timothy. e l, na sala do irmo, de pernas 
cruzadas, as longas suas brancas emoldurando-lhe a boca raspada, assistia ao que se poderia chamar "a fervura da panela familiar", assistia ao cozimento daquela 
sopa de que o seu esprito vivia, e saa dali dessalterado, consolado, com um sentimento indefinvel de bem-estar e de segurana.
Sob o ao do seu instinto de conservao, James no era entretanto desprovido de fraqueza humana, uma visita a Timothy representava para ele uma hora passada no 
regao materno. E era essa profunda necessidade do conchego familiar que inspirava o seu modo de sentir em relao aos filhos, era-lhe um pesadelo imagin-los expostos 
aos infortnios da vida, a riscos de dinheiro, de sade e de reputao. Quando o filho do seu velho amigo John Street se engajou para combater a revolta armada de 
uma das colnias inglesas, James sacudiu tristemente a cabea, perguntando a si mesmo onde andaria o juzo de John Street: e quando o rapaz morreu, de um golpe de 
azagaia, a coisa impressionou-o tanto

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que se sentiu obrigado a bater  porta de todos os amigos para lhes dizer: "Eu sabia muito bem o que ia acontecer, essa gente tira-me a pacincia!..
Quando o seu genro Dartie, vtima de uma especulao infeliz com leos, atravessou a sua crise financeira, James adoeceu de pesar, parecia-lhe que soava o fim de 
toda a prosperidade. Foram-lhe precisos trs meses e uma estao de cura em Baden-Baden para sarar. Havia qualquer coisa, de terrfico na ideia de que, sem o auxlio 
do seu dinheiro - dele, James -, o nome de Dartie teria aparecido na lista dos falidos.
To naturalmente sadio que se julgava moribundo quando tinha dor de ouvidos, James considerava as doenas ocasionais da mulher e dos filhos como ofensas pessoais, 
como intervenes particulares da Providncia destinadas a destruir-lhe a tranquilidade de esprito. Porm no acreditava absolutamente nos males das criaturas que 
no pertenciam  sua famlia e atribua-os invariavelmente a um fgado mal tratado. Para quallquer caso, tinha apenas um comentrio: "Era de esperar, isso. Acontece 
at a mim, quando no me cuido!"
Caminhando para a casa de Soames, naquela tarde, sentia-se maltratado pela vida: Emily com o p doente e Rachel viajando pelo campo. Ningum reservava para ele uma 
nica palavra de simpatia, e, ainda mais, Ann estava doente, receava que ela no atravessasse o Vero, j trs vezes que ia  casa de Timothy, sem a poder ver! E 
essa ideia de Soames, ele construa uma casa: mais uma coisa a exigir-lhe vigilncia. Quanto aos receios relativos a Irene, sabia-se l em que poderiam resultar? 
Tudo era possvel!
E entrou no nmero 62 de MontpelHer Square absolutamente decidido a sentir-se desgraado.
Acabavam de soar sete horas e meia. Irene, pronta para o jantar, estava sentada no salo. Trajava um vestido cor de ouro, que, j tendo aparecido num jantar de cerimnia 
e num baile, deveria agora servir para casa. A moa enfeitara o corpete com uma cascata de rendas, sobre a qual os olhos de James se fixaram logo.
- Onde  que faz as suas compras? - perguntou, em voz descontente. - Nunca vejo Rachel nem Cecily to bem vestidas como voc!

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Essa renda cor-de-rosa, por exemplo, ser legtima? No  possvel!
Irene aproximou-se para lhe rectificar o engano.
E, a despeito de si prprio, James foi sensvel  deferncia que a moa lhe mostrava, ao leve perfume que se exalava dela. Porm um Forsyte que se respeita no se 
rende  primeira investida, e ele disse simplesmente:
- No sei, mas creio que as suas toilettes no lhe saem por dois vintns.
O gongo soou. e Irene, enfiando o seu alvo brao por sob o do sogro, levou-o at  sala de jantar. L, instalou-o no lugar habitualmente ocupado por Soames. A luz 
caa docemente sobre eles e o sol que se punha no o incomodaria. E Irene ps-se a falar-lhe dele prprio.
Pouco a pouco operou-se uma mudana em James, algo semelhante a um fruto que amadurece e doura sob as influncias do Vero. Sentia-se acarinhado, lisonjeado, mimado, 
e isso tudo sem ter recebido nenhuma carcia, nem uma palavra especial de louvor. Tinha a impresso de que as coisas que comia eram exactamente as que estavam a 
apetecer-lhe. Nunca conseguira obter essa sensao na sua prxima casa! J no se lembrava desde quando uma taa de champanhe lhe dera tanto prazer, e quando indagou 
a marca e o preo, espantou-se por saber que se tratava de um vinho do qual ele prprio tinha em casa um grande sortimento, e que nunca suportara beber. E tomou 
imediatamente a resoluo de comunicar ao seu fornecedor de vinhos que se considerava roubado.
Levantando os olhos do prato, notou:
- Voc tem aqui uma poro de lindas coisas, Quanto  que deu por esta concha para acar? No me admiro que tenha custado caro!
Apreciou especialmente um quadro pendente da parede,  sua frente, e que ele prprio lhes havia dado.
- Nunca pensei que fosse to bom - notou.
Quando se levantaram para irem ao salo, James acompanhou Irene de perto.
-  isto que eu chamo um ptimo jantarzinho! - -murmurou, respirando-lhe agradavelmente no ombro. - Nada de pesado,

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nada dessas complicaes  francesa. Mas l em casa, no h maneira de se obter isto. Pago sessenta libras por ano  minha cozinheira, porm ela  incapaz de me 
fazer um jantar como o de hoje!
Ele ainda no dissera uma palavra a respeito do projecto de construo, quando Soames, sob pretexto de trabalho, se retirou para a sala do andar de cima onde guardava 
os quadros.
James ficou s com a nora. Animava-o ainda o calor do vinho e de um licor excelente. Sentia um impulso de afeio pela moa. Na verdade, ela era muito gentil.
Tinha um modo todo seu de escutar, um ar de compreenso e, enquanto falava, James no parava de a examinar, desde os sapatos cor de bronze at s ondas douradas 
da cabeleira. Recortava-se numa poltrona Imprio, tocando levemente os ombros no espaldar, a cada um dos seus movimentos o corpo flexvel parecia dobrar-se nos braos 
de um amante. Tinha os lbios sorridentes e os olhos semicerrados.
Seria por ter farejado um perigo no encanto daquela atitude, ou devido a qualquer perturbao digestiva, que James tombou num sbito mutismo? No se recordava de 
ter estado jamais a ss com Irene. E, ao olh-la, sentiu-se invadido por uma sensao bizarra, como se acabasse de chocar com algo de estranho e desconhecido.
Em que pensaria ela, sentada daquele modo?
E quando ele lhe falou, f-lo numa voz um pouco brusca, como se o houvessem arrancado a alguma cisma agradvel.
- Que  que voc faz durante o dia inteiro? Nunca ningum a v em Park Lane!
Pareceu-lhe que ela dava desculpas mal arranjadas, e no a olhou. Queria acreditar realmente que Irene no evitava a famlia. Seria significativo de mais.
- Creio, na verdade, que voc no tem tempo: est sempre com June. E suponho que lhe  muito til, acompanhando-?, e ao noivo: um dia uma coisa, outro dia outra. 
Segundo soube, ela j no pra em casa actualmente: e no deve ser agradvel para o seu tio Jolyon viver sempre abandonado, sozinho: d a impresso de que June corre 
atrs desse moo Bosinney. Provavelmente ele vem aqui diariamente? E. a est. gostava de saber: que  que voc pensa dele? Acha que  um homem que sabe o que quer? 
A mim no me parece que seja grande coisa. Creio que June  que vai ser a cabea-de-casal.
Irene corou. James observava-a suspeitoso.
- Talvez o senhor no compreenda bem Mr. Bosinney - disse ela.
- No o compreendo? - exclamou James. - E porqu? V-se muito bem que  um desses camaradas metidos a artistas. Dizem que  inteligente, essa gente sempre se supe 
inteligente. Mas voc conhece-o melhor do que eu. - E o olhar suspeitoso do sogro demorou-se de novo sobre a moa.
- Ele est a desenhar a planta de uma casa para Soames - disse Irene tranquilamente, com um evidente desejo de evitar uma discusso,
--Era justamente nisso que eu queria falar - continuou James. - No sei onde Soames estava com a cabea quando foi procurar um homem desses. Porque no procurou 
um arquitecto de valor?
- Talvez Mr. Bosinney seja um arquitecto de valor.
James ergueu-se e deu uma volta pela sala, de cabea baixa.
- A verdade  esta: vocs, moos, apoiam-se sempre uns aos outros- pensam todos que entendem melhor de tudo!
Parando o grande corpo magro em frente da nora, ergueu um dedo e apontou-o para o colo dela, como se levantasse uma acusao contra a sua beleza:
- Tudo o que posso dizer-lhe  que esses chamados artistas - ou chame-lhes o que quiser - so a coisa menos segura deste mundo, e quanto a voc, tenho um conselho 
a dar-lhe: evite aproximar-se muito dele!
Irene sorriu, e havia na curva dos seus lbios uma singular provocao. Pareceu a James que ela abandonara a sua deferncia. O seu colo subia e descia como agitado 
por uma clera secreta. Retirou as mos que apoiava no brao da poltrona e juntou as pontas dos dedos: fixou em James o olhar escuro e insondvel.
O velho, sombrio, parecia perscrutar o soalho.
- - Vou dizer-lhe o que penso - continuou. -  pena que voc no tenha um filho para lhe encher o tempo.

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O rosto de Irene tomou imediatamente uma expresso profunda, e James teve conscincia da rigidez que a possua, sob o leve vestido de seda e renda.
Assustou-se com o efeito que produzira, e como quase todos os homens de precria coragem procurou imediatamente justificar-se, acusando-a.
- Voc nunca d sinal de querer sair de casa. Porque no vem dar connosco um passeio de carro em Hurlingham? E porque no vai ao teatro, uma vez ou outra? Na sua 
idade, devia interessar-se por tudo isso: voc  uma moa!
O rosto de Irene, cada vez mais absorto, ia-se ensombrecendo, e ele comeou a ficar nervoso:
- Bem, nunca sei de nada, ningum me diz nada. Soames pode muito bem cuidar sozinho dos seus negcios, e se no for capaz disso, no conte comigo, a est...
Mordendo um canto do indicador, James lanou um olhar frio e descontente  nora. Encontrou os olhos de Irene fixos nos seus, to sombrios e profundos que parou a 
meio. Um pouco de suor porejou-lhe na fronte.
- Est bem, tenho de ir-me embora-disse depois de um rpido silncio.
Ao cabo de um instante ergueu-se, com um ar levemente surpreso, como se houvesse esperado que o retivessem. Estendendo a mo a Irene, deixou que ela o conduzisse 
at  porta da rua, que a moa abriu. Recusou um carro - preferia caminhar. Irene que desse as boas-noites a Soames, da sua parte, e, se queria divertir-se um pouco, 
lev-la-ia a Richmond no dia que marcasse.
Voltou para casa a p, subiu a escada, despertou Emily do primeiro sono que ela conseguira conciliar havia vinte e quatro horas, para lhe dizer que tivera m impresso 
da vida ntima de Soames e Irene. Durante uma meia hora discorreu sobre esse tema, e, declarando enfim que no fecharia os olhos, virou-se para o lado e ps-se imediatamente 
a roncar.
No nmero 62 de Montpellier Square, Soames sara da sala dos quadros e ficara invisvel no alto da escada, observando Irene que escolhia a correspondncia trazida 
pelo ltimo correio. A moa voltou ao salo, porm ao cabo de um instante saiu e ficou imvel.
como se escutasse. Depois subiu sem rudo a escada, levando no colo um gatinho. Soames via-lhe a cabea inclinada para o animalzinho que lhe ronronava junto ao pescoo. 
Porque nunca lhe mostrava ela aquele rosto meigo?
De sbito Irene apercebeu-se dele e a sua expresso mudou.
- Nenhuma carta para mim? - perguntou o marido.
- Trs.
Ele deixou-a passar, sem mais uma palavra, e ela entrou no quarto de dormir.

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CAPTULO VII.

O PECADILHO DO VELHO JOLYON.

O velho Jolyon deixara o campo de Cricket, naquela mesma tarde, com a inteno de voltar para casa. Antes de chegar ao Hamilton Terrace, mudara porm de ideia, chamando 
um cab, deu ao cocheiro um endereo da Wistaria Avenue. Tomara uma resoluo.
Durante a semana inteira mal avistara June em casa, ela abandonava-o havia algum tempo, e na verdade, depois do noivado com Bosinney, nunca mais o av lhe pedira 
que ficasse ao seu lado. Ele no estava habituado a pedir! A pequena s tinha uma coisa na cabea: Bosinney e os seus negcios. E deixava o velho s, perdido na 
grande casa, com alguns criados apenas, sem uma criatura a quem falar, desde manh at  noite.
O seu clube estava fechado por causa da reforma, o seu escritrio vazio, e nada o atraa na City. June quisera que o av fosse para o campo, porm ela prpria recusara-se 
a acompanh-lo, porque Bosinney estava em Londres.
Para onde iria sozinho? Para o estrangeiro, no. O mar rebentava-lhe o fgado. E ele detestava a vida do hotel. Roger ia sempre para um estabelecimento hidroterpico, 
porm o velho Jolyon no iria comear tais experincias na sua idade! Essas estaes da moda so armadilhas para tolos!
Disfarava perante si prprio, com tais frmulas,

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a desolao do seu esprito. As rugas do rosto afundavam-se-lhe mais, nos olhos, dia aps dia, a mesma melancolia mostrava-se estranha no rosto que sempre exprimira 
a fora e a tranquilidade.
Naquele dia, pois, ele iniciou a viagem por Saint John's Wood, atravs da claridade dourada que banhava os ramos de accia redondos e verdes,  porta das casinhas 
modestas, num irradiar estival que parecia celebrar uma festa por sobre os pequenos jardins, olhava com interesse em torno de si, porque atravessava uma zona de 
bomia na qual nenhum Forsyte jamais penetraria sem uma manifesta hostilidade e uma curiosidade secreta.
O cab parou diante de uma casinha cuja fachada desbotada atestava uma longa absteno de pintura, era de aspecto rstico e tinha uma grade exterior.
O velho Jolyon desceu do carro, inteiramente senhor de si, a cabea macia, os bigodes cados, as madeixas brancas emoldurando a testa, mantinham-se muito rijos 
sob a cartola, o olhar firme, um pouco irritado. Haviam-no levado at ali!
- Mrs. Jolyon Forsyte est em casa?
- Oh, est, sir! Quer dizer por obsquio o nome que devo anunciar?
O velho Jolyon no pde impedir que os seus olhos sorrissem  criadinha, enquanto lhe dava o seu nome. Parecia uma rzinha engraada! Seguiu-a atravs do hall escuro, 
at um pequeno salo dividido em dois compartimentos, cujos mveis estavam recobertos de cretone. A criadinha indicou-lhe uma poltrona.
- Esto todos no jardim, sir. Se quiser ter a bondade de esperar um pouco, irei prevenir.
O velho Jolyon sentou-se na poltrona de cretone e olhou em torno de si. O arranjo da sala. diria ele, era mesquinho. Em tudo - sem que o pudesse definir - sentia 
uma impresso de pobreza - tudo indicava que o oramento do casal mal dava para cobrir as despesas. Tanto quanto poderia julgar, nem um nico daqueles mveis valeria 
uma nota de cinco libras. A velha pintura das paredes estava coberta de aguarelas, uma grande rachadura serpeava no tecto.
Aquelas casinholas eram todas velhas e ordinrias, segundo a sua estimativa, o aluguel no passaria de cem libras,

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e o velho sentia-Se ferido - muito mais do que o poderia exprimir - ao verificar que um Forsyte - e seu prprio filho - habitava tal pardieiro.
A criadinha voltou: "Queria ter a bondade de ir at ao jardim?"
O velho Jolyon transps a porta envidraada. Ao descer os degraus, notou que eles careciam de pintura.
Jolyon filho, a mulher, os dois garotos e o co Baltasar reuniam-se todos no jardim, sob uma pereira.
Aquela caminhada em direco ao grupo foi o acto mais corajoso que o velho Jolyon realizou em toda a sua vida. Porm nenhum msculo se lhe moveu no rosto, nem um 
nico gesto de nervosismo o traiu. Os seus olhos profundos fixavam resolutamente o inimigo.
E nesses dois minutos demonstrou quo perfeita  a sade inconsciente, a rija vitalidade que fazia dele e de muitos outros da sua classe o prprio cerne da nao. 
Na discreta conduta dos seus negcios, sem nada negligenciar, ele simbolizava o individualismo essencial, nativo em todo o ingls, que decorre do isoladonismo natural 
da sua vida como nao.
O co Balthazar cheirou-lhe as dobras das calas. Era um mestio, amigvel e cnico fruto dos amores de uma cadela russa e de um fox-terrier, que sabia muito bem 
farejar as coisas extraordinrias.
Feitas as constrangidas apresentaes, o velho Jolyon sentou-se numa poltrona de vime, e os dois netos, um de cada lado dos seus joelhos, olhavam-no em silncio, 
pois nunca tinham visto um homem assim to velho.
Os pequenos no se assemelhavam um ao outro, como para marcar a diferena que o nascimento estabelecera entre ambos. Jolyon, o filho do pecado, com a carinha redonda, 
os cabelos cor de estopa escovados para trs, uma covinha no queixo, tinha um ar de amabilidade obstinada e os olhos dos Forsyte, Holly, filha do casamento, era 
morena, tinha os olhos cinzentos e pensativos da me e uma alminha solene.
O co Balthasar, depois de ter dado a volta aos trs pequenos canteiros, a fim de testemunhar o seu absoluto desdm por todas as coisas em geral,

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tambm tomara assento junto  cadeira do velho Jolyon, e, balanando uma cauda que a Natureza lhe enrolara por sobre as costas, olhava para o ar, com os olhos que 
no piscavam.
At mesmo no jardim, uma impresso de pobreza obcecava o velho Jolyon. A cadeira de palha gemia sob o seu peso, os canteiros eram ralos. No fim do jardim, junto 
ao muro manchado, via-se um trilho feito pelos gatos.
Enquanto o av e os netos se examinavam com essa ateno particular, curiosa, e no entanto confiante, que trocam entre si as criaturas muito velhas e muito moas, 
Jolyon filho observava a mulher.
O seu fino rosto oval corara fortemente, ela tinha sobrancelhas rectas e grandes olhos cinzentos, os cabelos, erguidos para a testa em altas curvas delicadas, iam-se 
tornando grisalhos como os do marido, e por causa mesmo desses cabelos grisalhos, o rubor vivo e sbito das faces era penosamente comovedor. O marido nunca lhe vira 
a expresso que ela mostrava agora, cheia de ressentimentos secretos, de desejos e receios, ela sempre os escondera. Sob as sobrancelhas frementes, os olhos muito 
abertos tinham uma fixidez dolorosa. Mantinham-se em silncio.
Jolly, sozinho, sustentava a conversa, possua muitas coisas, e gostava de comunicar isso ao amigo desconhecido, dono de to grandes bigodes, de mos cobertas de 
veias azuis, que cruzava as pernas exactamente como o fazia seu pai, e como ele prprio tentava fazer, mas, como legtimo Forsyte, embora no houvesse ainda feito 
oito anos, no mencionou a coisa que era ento a mais querida ao seu corao: um batalho de soldados de chumbo visto na montra de uma loja e que o pai lhe prometera 
comprar. Sem dvida, aquilo parecia-lhe por de mais precioso, e seria tentar a Providncia falar nisso desde logo.
O sol brincava atravs das folhas sobre o grupo tranquilo que, debaixo da pereira h muito tempo estril, reunia trs geraes.
O rosto enrugado do velho Jolyon corava em placas irregulares, tal como coram ao sol os rostos de todos os velhos, ele segurou nas suas as mos de Jolly, o rapazinho 
trepou-lhe ao joelho,

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e Holly, fascinada por esse espectculo, deslizou para junto deles. Ouvia-se o barulho ritmado que Balthasar fazia ao coar-se.
De sbito Mrs. Jolyon ergueu-se e entrou precipitadamente em casa. Um minuto depois o marido balbuciou uma desculpa e acompanhou-a. O velho Jolyon ficou s com os 
netos.
E a Natureza, com a sua ironia subtil, prosseguiu o acabamento do seu ciclo no corao do velho e ps-se a operar nele uma estranha revoluo. Aquela ternura pelos 
pequeninos, aquela paixo pelos comeos da vida que outrora lhe fizera abandonar o filho para se dedicar a June, levava-o agora a abandonar June para se ligar queles 
pequerruchos. A juventude vibrava ainda nele. Voltava-se para as crianas, para os bracinhos rolios to descuidosos, que tinham necessidade de cuidados, para as 
carinhas redondas to desarrazoadamente solenes ou excitadas, para as vozes agudas, o riso penetrante que se abafa ou estala, as mozinhas que insistem ou que tombam. 
Sentindo os corpinhos das crianas junto s pernas, reanimava-se. E os seus olhos adoavam-se, adoavam-se a sua voz e as suas magras mos riscadas de veias, adoava-se 
o corao, l dentro. E imediatamente o velho se tornou um abrigo cheio de segurana para aqueles pequeninos. um lugar de felicidade, um stio onde eles sentiam 
que podiam falar, rir, brincar. E logo, na poltrona de vime onde se sentara o velho Jolyon, a alegria perfeita de trs coraes irradiava como o sol.
No acontecia o mesmo com Jolyon filho, que acompanhara a mulher at ao quarto. Encontrou-a sentada numa cadeira, diante do toucador, com as mos no rosto. Os soluos 
sacudiam-lhe os ombros. A paixo de que ela sofria era misteriosa para ele, j vira cem crises idnticas. Como sobrevivera a elas, ele ignorava-o, porque nunca se 
habituara a torn-las como meras crises, nunca deixara de supor que soara a hora derradeira da sua vida comum.
Decerto, logo  noite, ela lanar-lhe-ia os braos ao pescoo e diria: "Ah, Jo, como eu te fao sofrer!"
Estendeu a mo, e, sem que ela o visse, escondeu a sua navalha no bolso.

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"No posso ficar com ela" -, pensava Jolyon. "Tenho de ir para o jardim!" E, sem uma palavra, saiu e voltou ao relvado.
O velho Jolyon estava com Holly sobre o joelho: a pequena apoderara-se-lhe do relgio, Jolly, com a cara rubra, procurava demonstrar que sabia ficar de pernas para 
o ar. O co Balthasar, to prximo quanto o ousava estar da mesa de ch, olhava cobioso os doces.
Jolyon filho sentiu o desejo maligno de interromper aquela felicidade. Que necessidade tinha o pai de chegar e perturbar sua mulher de tal maneira? Depois de tantos 
anos, era realmente um golpe. Deveria ter pensado nisso, preveni-los. Mas alguma vez um Forsyte imagina que a sua conduta possa perturbar algum? E, nos seus pensamentos, 
o filho era injusto para com o velho Jolyon.
Dirigiu-se rudemente s crianas e ordenou-lhes que voltassem para tomar o ch. Espantados, pois o pai no os habituara quele tom, os pequenos foram-se embora de 
mos dadas, .enquanto a pequena Holly virava a cabea, para olhar para trs.
Jolyon filho serviu o ch.
- Minha mulher no est bem hoje - disse ele. Mas sabia bem que o pai compreendera o motivo daquela retirada brusca, e no fundo de si mesmo quase detestava o velho, 
vendo a calma com que ele se mantinha sentado.
-  bonitinha a vossa casa - disse o velho Jolyon com um olhar agudo. - Segundo creio,  de aluguel?
Jolyon filho fez sinal que sim.
- No gosto da vizinhana. Uma gentinha bem esquisita! Jolyon filho respondeu:
-  verdade, ns somos uma gentinha esquisita.
O silncio no era interrompido seno por Balthazar, que se coava.
O velho Jolyon disse simplesmente:
- Talvez eu no devesse vir, Jo, mas estou to s, agora! A estas palavras, Jolyon filho ergueu-se e ps a mo no
ombro do pai.
Na casa vizinha algum tocava e retocava La Donna  mobile num piano desconjuntado. O jardinzinho estava mergulhado na sombra,

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o sol no aflorava seno o muro do fundo, sobre o qual um gato se agachara, virando languidamente os olhos amarelos para o co Balthasar. Ouvia-se o surdo murmrio 
que vinha das ruas longnquas, o muro de trepadeiras que cercava o jardim isolava-o de tudo, afora o cu, a casa e a pereira, cujos ramos mais altos ainda se douravam 
ao sol.
Os dois ficaram assim, algum tempo, falando pouco.
Depois o velho Jolyon ergueu-se para partir e no se aludiu  sua volta.
E foi-se embora tristemente. Que casinha pobre! Pensava na grande casa vazia de Stanhope Gate, legtima residncia de Forsyte, com a sua vasta sala de bilhar e o 
salo onde ningum entrava durante semanas inteiras.
Aquela mulher, cujo rosto lhe agradara muito, tinha os nervos  flor da pele, Jo devia passar maus bocados com ela! E os garotos eram deliciosos! Ah, que louca e 
deplorvel aventura!
Caminhava para Edgware Road, entre filas de casinholas que lhe sugeriam (erradamente, sem dvida, mas os preconceitos de um Forsyte so sagrados) toda a sorte de 
histrias suspeitas.
A sociedade - um bando de megeras e macaquinhos falantes - erguera-se para condenar a sua carne e o seu sangue! Bando de frias velhas! Batia no cho com o guardachuva. 
Dir-se-ia que o queria enterrar at ao corao daquele desgraado corpo social que lanara ao ostracismo o seu filho e o filho do seu filho, em quem ele poderia 
reviver.
Batia impetuosamente no cho com o guarda-chuva. E entretanto ele prprio, durante quinze anos, obedecera ao julgamento da sociedade, e pela primeira vez lhe fazia 
uma infidelidade.
Pensou em June e em sua me morta, em toda a velha histria, com o seu velho amargor. Um assunto lamentvel!
Gastou muito tempo para atingir Stanhope Gate, porque, com o esprito de contradio que lhe era natural, fizera a p todo o trajecto.
Depois de ter lavado as mos em baixo, no lavatrio, passou para a sala de refeies,  espera do jantar. Era a nica sala que habitava quando June no estava em 
casa, sentia-se ali menos solitrio. O jornal da noite no chegara ainda, acabara de ler o Times e no tinha nada a fazer.


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A sala tinha janelas para uma rua retirada, afastada da onda de circulao, extremamente silenciosa. Ele no gostava de ces, mas at mesmo um co lhe teria feito 
companhia. O seu olhar, explorando a parede, parou num quadro intitulado Barcos de pesca Holandeses ao pr-do-Sol, a obra-prima da sua coleco. Mas no sentiu prazer 
em olh-lo. Fechou os olhos. Estava s! No deveria queixar-se, sabia-o bem. Mas no se podia dominar, era uma pobre criatura, sempre fora uma pobre criatura. Pouca 
fibra! Assim pensava o velho.
O mordomo entrou para preparar a mesa. e, vendo que o patro parecia adormecido, vigiava prudentemente os prprios movimentos. Esse criado, alm da barba, ainda 
usava bigodes que haviam suscitado graves crticas da parte de vrios membros da famlia, sobretudo os que, como Soames, havia passado por uma public school (1) 
e eram meticulosos em tais assuntos. Poder-se-ia na verdade consider-lo como um mordomo? George, o engraado da famlia, apelidara-o: O No Conformista do Tio Jolyon.
Ele ia e vinha em passos macios, num silncio inimitvel, da mesa lisa e brilhante at ao grande aparador envernizado.
O velho Jolyon observava-o, fingindo dormir.
Aquele sujeito - ele sempre o pensara - era um camarada hipcrita, que no se importava com coisa alguma, seno em acabar ligeiro o servio, e ir passear, correr 
para o jogo ou para a casa da sua pequena, ou Deus sabe para onde! Um malandro! E estava a engordar bem! Ligava tanto ao patro como  primeira camisa que vestiu!
Porm ocorreu ao velho Jolyon, mau grado seu, um daqueles acessos de filosofia que o distinguiam entre os Forsyte: afinal de contas, porque se preocuparia o homem 
com o patro? No era pago para isso: como o esperar, pois? Neste mundo ningum deve contar com uma afeio se ela no  paga. No outro mundo talvez seja diferente, 
ningum sabe, ningum o pode dizer! E tornou a fechar os olhos.
Inflexvel e silencioso, o mordomo continuava o seu trabalho.

*1. Escola aristocrtica, onde estudam os filhos da gentry britnica.
(N. da T.)

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tirando os objectos dos diversos compartimentos do aparador. Arranjava-se de modo a voltar as costas ao velho Jolyon e assim encobrir a impropriedade daquelas operaes 
realizadas em presena do patro. De tempos a tempos, soprava furtivamente sobre uma pea de prata e limpava-a com uma flanela. Depois considerou atentamente as 
quantidades de vinho que havia nas garrafas, que ele transportava com cuidado, bem alto, deixando a barba pender por sobre elas, num ar protector. Quando acabou, 
parou um instante para contemplar o patro que dormia, e nos seus olhos esverdeados luziu um claro de desprezo: "Afinal de contas, o patro no passava de um velhote, 
j nas ltimas."
Silencioso como um gato, atravessou a sala para tocar a campainha. Recebera esta ordem: "Jantar s sete horas." Que importa se o patro dormitava! Depressa acordaria. 
Quem quer dormir tem a noite para isso! E ele tinha os seus negcios a cuidar: s oito e meia esperavam-no no clube.
Em resposta  campainha apareceu um jovem copeiro, com uma sopeira de prata. O mordomo tomou-a e p-la sobre a mesa, depois, endireitando-se junto  porta, como 
se fosse introduzir convidados, disse em voz solene:
- O jantar est servido!
Lentamente, o velho Jolyon ergueu-se da poltrona e ps-se  mesa para comer o seu jantar.

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CAPTULO VIII.

A PLANTA DA CASA.

Todos os Forsyte, segundo conveno universalmente admitida, tm, como o caracol, a sua casca, por outras palavras, no poderiam ser reconhecidos sem o seu habitat 
composto de negcios, de propriedades, de relaes e esposas, e esse habitat parece mover-se com eles atravs de um mundo composto de milhares de outros Forsyte, 
cada um munido do seu habitat idntico. Sem a sua casca, um Forsyte  inconcebvel, seria como um romance sem enredo, o que  reconhecido como anomalia. Aos olhos 
dos Forsyte, Bosinney aparecia como despido de tal habitat, parecia um desses raros indivduos, dignos de lstima, que atravessam a vida rodeados por negcios, propriedades, 
relaes e mulheres que no lhes pertencem.
A sua instalao em Sloane Street, no ltimo andar de um edifcio onde a placa "Philip Bosinney, arquitecto" aparecia: sobre a porta, no era a instalao de um 
Forsyte. O escritrio servia-lhe de quarto e de sala, ao fundo, atrs de um biombo, dissimulavam-se os objectos indispensveis  vida: uma cama articulada, uma preguiceira, 
cachimbos, uma licoreira. alguns romances e chinelas. A parte da sala que servia de gabinete de trabalho tinha o mobilirio clssico: um grande classificador, uma 
mesa redonda de carvalho, um pequeno toucador porttil, algumas cadeiras sem estofo, uma vasta mesa de desenho coberta de riscos e plantas.

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Acompanhada pela tia de Bosinney, June fora l duas vezes tomar ch.
Supunha-se que havia um quarto de dormir por trs.
Segundo as informaes colhidas pela famlia, os rendimentos de Bosinney consistiam em dois ordenados de conselheiro arquitecto, de vinte libras cada, aos quais 
a sorte podia acrescentar, uma vez ou outra, algumas comisses, e, pormenor menos desprezvel, uma renda pessoal de cento e cinquenta libras que o pai lhe deixara 
em testamento.
O que se pudera descobrir sobre esse pai no era porm to tranquilizador. Sabia-se que era originrio de Cornwall, que fora mdico de aldeia no Lincolnshire, que 
era homem de rosto impressionante e tendncias byronianas, e, na realidade, uma figura conhecidssima no condado inteiro. O tio afim de Bosinney. Baynes, da casa 
Baynes &. Bildeboi - um Forsyte de instinto, se no de nome - tinha pouco a dizer a respeito do seu finado cunhado.
- Um camarada esquisito! - contava ele.-Tratava os trs filhos mais velhos de "bons sujeitos, mas burros". e entretanto os trs venceram na vida, no servio colonial 
na ndia. Philip era o nico que lhe agradava. Dizia coisas estranhas, uma vez aconselhou-me: "Meu caro, nunca deixe a sua pobre mulher saber o que voc pensa!" 
Eu  que no era homem para lhe seguir os conselhos. Um original! E dizia a Phil: "Meu filho, viva como quiser, mas arranje-se para morrer como um gentleman." E 
ele prprio fez-se embalsamar de sobrecasaca, plastro de cetim preto, alfinete de gravata de brilhantes. Ah, sim, era um excntrico, podem crer!
Sobre o prprio Bosinney, Baynes exprimia-se calorosamente, com uma nuance de compaixo.
- Herdou um pouquinho do byronismo do pai. Vejam como deu um pontap na sorte quando deixou o meu escritrio, e partiu por seis meses, levando um saco de viagem. 
Para qu? Para estudar arquitectura estrangeira... estrangeira!  por isso que est a - um rapaz inteligente - e no faz cem libras por ano. No lhe podia acontecer 
nada melhor que esse noivado. Vai assentar.  um desses camaradas capazes de passar o dia inteiro na cama e ficar acordado toda a noite, s por falta de mtodo, 
simplesmente.

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Mas no tem nenhum vcio, nem a sombra de um vcio. E o velho Forsyte  rico!
Mr. Baynes procurava ser muito agradvel a June, que nessa ocasio aparecia frequentemente na sua casa de Lowndes Square.
- Essa casa de seu primo Soames - que homem de negcios que ele ! - era justamente o que Phil precisava - dizia-lhe o tio. - E voc no deve esperar v-lo muito, 
actualmente, minha flor.  preciso juzo, juzo!  preciso que todo o rapaz faa o seu caminho. Quando eu tinha a idade dele, trabalhava dia e noite. Minha mulher 
dizia-me sempre: "Bobby, no trabalhe de mais! Pense na sua sade!" Mas eu nunca me poupei.
June queixara-se de que o noivo no arranjava tempo para a visitar.
Na primeira vez em que ele apareceu, os noivos no conversavam ainda h um quarto de hora quando, por uma dessas coincidncias de que parecia ter o segredo, Mrs. 
Septimus Small chegou. E Bosinney, segundo combinara com a noiva, foi esconder-se num pequeno gabinete ao lado, para esperar o fim da visita.
- Minha querida - disse a tia Juley -, como ele  magro! J notei isso muitas vezes, em noivos, mas voc no deve deix-lo continuar assim. Aconselhe-o a tomar extracto 
de carne de Barlow, deu ptimo resultado com o seu tio Swithin.
June, erecta diante da lareira, o rostinho trmulo de irritao contida - porque tomava a visita intempestiva da tia Juley como uma injustia que lhe era feita -, 
replicou com desdm:
-  porque ele trabalha! Quem  capaz de fazer alguma coisa no engorda nunca!
A tia Juley amuou. Sempre fora magra, mas o seu nico prazer derivava das queixas que fazia por no engordar.
- Na minha opinio - continuou ela -. voc no deveria consentir que lhe chamassem pirata. Talvez no fique bem, agora que ele vai construir a casa de Soames. Espero 
que o seu noivo trabalhe nela o melhor que possa:  to importante para ele. e Soames tem to bom gosto!
- Bom gosto! - explodiu subitamente June. - No dou um vintm pelo bom gosto dele, nem pelo de toda a famlia!
Mrs. Small ficou interdita.

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- O seu tio Swithin - disse ela - sempre teve um bom gosto admirvel. E a casa de Soames  um amor: voc no pode negar isso.
- Hum - fez June. - Graas a Irene!
A tia Juley procurou dizer qualquer coisa amvel:
- E a nossa querida Irene gostar de viver no campo?
June fitou intensamente a tia, como se a conscincia lhe saltasse de repente nos olhos, essa expresso passou, depois deu lugar a um olhar ainda mais intenso, como 
se a sua prpria conscincia se houvesse assustado com o que vira. E respondeu imperiosamente:
- Naturalmente que vai gostar. Porque no gostaria? Mrs. Small comeou a ficar nervosa.
- No sabia... Pensei que fosse ter saudade dos amigos. O seu tio James diz que ela no toma interesse bastante pela vida. E ns achamos - isto , Timothy acha - 
que ela devia sair mais. Creio que voc vai sentir muito a falta de Irene!
June cruzou as mos sob a nuca.
- Como eu gostaria que o tio Timothy s tratasse do que  da conta dele!
A tia Juley ergueu-se em toda a sua altura.
- Timothy nunca cuida, seno do que  da conta dele.
June arrependeu-se logo: chegou-se para junto da tia e beijou-a.
- Desculpe, tia, mas eu tinha tanta vontade que deixassem Irene em paz!
A tia Juley, que procurava em vo descobrir o que seria conveniente dizer, guardou silncio e disps-se a partir. Abotoou a capinha de seda preta e apanhou a bolsa 
verde.
- Como vai o seu avozinho? - perguntou, no hall. - Creio que ele agora vive muito s, depois que voc dedica todo o seu Tempo a Mr. Bosinney.
Curvou-se para beijar avidamente a sobrinha e foi-se embora, no seu passinho mido.
Os olhos de June encheram-se de gua: correndo para o pequeno gabinete onde Bosinney esperava, desenhando pssaros nas costas de um envelope, a pequena deixou-se 
cair perto dele, exclamando:

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- Oh, Phill, como isto tudo  horroroso!
Tinha o corao to ardente quanto a cor dos seus cabelos.
Na manh do domingo seguinte, enquanto Soames fazia a barba, vieram-lhe anunciar que Mr. Bosinney esperava l em baixo. Abrindo a porta que dava para o quarto da 
mulher, Soames falou:
- Bosinney est l em baixo. Quer fazer-lhe um pouco de companhia enquanto eu me barbeio?  s um minuto. Na certa veio por causa da planta.
Irene encarou-o sem responder, e depois, dando o ltimo retoque no trajo, desceu.
Soames no conseguira decifrar-lhe os sentimentos a respeito daquela casa. Irene no dissera uma palavra de oposio, e, no que se referia a Bosinney, mostrava-se 
sempre muito amigvel.
Pela janela do seu quarto de vestir, Soames via-os a conversar l em baixo, no hall. Barbeou-se  pressa, cortando-se duas vezes no queixo. Ouviu-os rir e pensou: 
"Em todo o caso do-se bem."
Como pensara, Bosinney viera procur-lo para lhe mostrar a planta. E Soames tomou o chapu e partiu com ele.
As plantas estavam espalhadas sobre a mesa de carvalho, no escritrio do arquitecto, plido, imperturbvel, perscrutando, Soames ficou longo tempo inclinado sobre 
os desenhos, sem dizer nada.
Enfim, num tom perplexo, notou:
-  esquisita esta casa!
As plantas mostravam-lhe uma casa quadrangular, de dois andares, que cercavam um ptio quadrado. Esse ptio, rodeado por uma galeria ao nvel do primeiro andar, 
era coberto por um telhado de vidro, mantido por oito grandes colunas.
Para os olhos de um Forsyte, a casa era realmente esquisita.
- H muito espao perdido - continuou Soames. Bosinney ps-se a passear pela sala, e Soames no gostou da
expresso do seu rosto.
- O fim desta casa - disse o arquitecto -  dar-lhe espao para respirar, como um gentleman!
Soames estendeu o polegar e o indicador, como medindo a extenso da distino que ia adquirir e respondeu:
- Oh, sim, estou vendo.

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O rosto de Bosinney tomou a expresso peculiar que era caracterstica de todos os seus entusiasmos.
- Procurei planear-lhe uma casa que tivesse uma dignidade prpria. Se no lhe agrada,  melhor que o diga. A ltima coisa em que em geral se pensa  na dignidade. 
Que importncia tem, quando se pode meter mais uma casa de banho?
E ps subitamente o dedo sobre a metade esquerda do quadrado central:
- Aqui, voc tem espao. Esta  uma sala especial para os seus quadros, separada do ptio por cortinas, abra as cortinas e ter diante de si um espao de quinze 
metros e meio por sete. Esta lareira de duas faces, aqui no meio, d metade para o ptio, metade para a sala dos quadros. Esta parede do fundo  toda de vidro, e 
dar-lhe- luz pelo sudeste. o ptio d-lhe claridade do lado norte. O resto dos seus quadros poder ser colocado no primeiro andar, em torno da galeria, ou nas outras 
salas. Em arquitectura - prosseguiu ele, e embora olhasse para Soames no parecia v-lo, o que dava ao outro uma impresso desagradvel-, em arquitectura, como na 
vida, no h dignidade sem simetria. Podem dizer-lhe que isto  uma ideia antiquada. Em todo o caso, consideram-na singular. No nos ocorre ao esprito encarnar 
nas nossas casas o princpio primeiro da vida. Sobrecarregamo-las de decoraes, de floreios e salincias: e tudo isso s serve para distrair os olhos. E, ao contrrio, 
os olhos deveriam repousar. Bastam algumas linhas fortes para produzir um efeito seguro. Tudo est na simetria e no h dignidade sem isso.
Soames, inconscientemente irnico, fixou com o olhar a gravata de Bosinney, que se perdia muito longe da perpendicular, o arquitecto no fizera a barba e a boa ordem 
do seu trajo deixava muito a desejar. A arquitectura parecia ter esgotado todo o seu poder de simetria.
- Ser que no vai ter o aspecto de uma caserna? - perguntou Soames.
A resposta demorou um instante.
- Pelo que vejo - disse afinal Bosinney-, voc quer uma casa no gnero das de Littlemaster, uma dessas casinhas cmodas e interessantes, onde os criados moram na 
gua-furtada

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e a porta de entrada fica l em baixo, para que se tenha o prazer de subir os degraus do vestbulo. Seriamente, experimente Littlemaster. Vai ach-lo da maior importncia. 
Conheo-o desde que me entendo!
Soames alarmou-se. A planta impressionara-o realmente, e s o seu instinto de reserva lhe fizera dissimular a satisfao, era-lhe penoso formular um cumprimento. 
E desprezava as pessoas que prodigalizam os seus louvores.
Encontrava-se agora na posio embaraosa da pessoa que tem de escolher entre fazer um cumprimento ou perder uma boa coisa. Bosinney era muito capaz de rasgar as 
plantas e recusar-se a trabalhar para ele, uma espcie de criana grande.
E essa infantilidade, a que se sentia superior, exercia sobre Soames um efeito singular e quase magntico, porque ele nunca descobrira em si nada de anlogo.
- Bem... - balbuciou por fim. -  realmente original.
Ele tinha uma ntima desconfiana e, se no gostava da palavra "original", sentia que nunca fizera algo que merecesse esse qualificativo.
Bosinney pareceu satisfeito. Era a espcie de comentrio que devia agradar a um sujeito como ele. Soames sentiu-se estimulado pelo seu xito.
- ... um casaro... - disse ele.
- Espao, ar, luz - ouviu Bosinney murmurar. - Ningum pode viver como gentleman nos cochichos de Littlemaster: ele faz construes para industriais.
Soames teve um gesto de protesto suplicante. Haviam-no classificado entre os gentlemen e ele no queria, nem por muito dinheiro, ser posto entre os industriais. 
Agitava-o porm a sua desconfiana inata pelos princpios geniais. Para qu aquele palavreado sobre simetria e dignidade? E parecia-lhe que a casa ia ser muito fria.
- Irene no pode suportar o frio - disse ele.
- Ah! - disse sarcasticamente Bosinney. - Sua mulher? No suporta frio? Eu cuido disso. Olhe aqui. - E apontou para quatro marcas traadas regularmente nas paredes 
do ptio. - Porei a irradiadores, em tubos de alumnio. H alguns que so de um desenho excelente.

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Soames considerou aquelas marcas com um ar suspeitoso.
- Tudo isto est muito bem: mas quanto vai custar-me? O arquitecto tirou do bolso uma folha de papel.
- A casa, bem entendido, deveria ser construda toda de pedra. Pensando porm que o senhor no admitia isso, fiz um arranjo e poremos de pedra apenas um revestimento. 
Deveria ter um telhado de cobre, mas fao-lhe um de ardsia verde. Assim como est, inclusive o trabalho de metalurgia, vai custar-lhe oito mil e quinhentas libras.
- Oito mil e quinhentas libras? - exclamou Soames. - Mas eu fixei-lhe um mximo de oito mil libras!
-  impossvel cortar um penny - respondeu friamente Bosinney. -  pegar ou largar.
Era aquela, provavelmente, a nica maneira de fazer tal proposta a Soames: ele sentia-se acuado. A sua conscincia dizia-lhe que largasse tudo: mas a planta era 
boa.. Tinha, como Soames bem o percebera, qualquer coisa de nobre e bem acabado. O alojamento dos criados tambm era excelente. E dar-lhe-ia muito prestgio viver 
em tal casa, de traos to originais e entretanto to perfeitamente organizados. E absorveu-se na planta, enquanto Bosinney passava para o quarto de dormir para 
se barbear e vestir-se.
Voltaram juntos para Montpellier Square; iam em silncio, Soames observando Bosinney com o rabo do olho.
"O Pirata, quando se arranja, fica com muito boa cara", dizia ele de si para si.
Os dois homens encontraram Irene inclinada sobre as flores. Ela props que fossem buscar June, l no outro lado do parque.
- No, no - atalhou Soames. - Ainda temos de conversar sobre negcios.
Durante o almoo mostrou-se quase cordial, insistindo com Bosinney para que comesse. Sentia-se contente por ver o arquitecto de bom humor, deixou-o a tarde inteira 
na companhia de Irene, e foi, segundo o seu hbito dos domingos, fechar-se com os seus quadros. Desceu  hora do ch, e encontrou-os a conversar, segundo a sua expresso, 
a "dezanove a dzia".
Sem ser visto, parou um instante junto  porta,

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congratulando-se pelo caminho que as coisas iam tomando. Fora uma sorte Irene ter-se entendido bem com Bosinney. Ela parecia agora estar de acordo com a ideia da 
casa nova.
Uma tranquila meditao  sombra dos seus quadros decidira Soames a concordar com as quinhentas libras suplementares, se fosse necessrio; porm ele esperava que 
a tarde houvesse abrandado um pouco os clculos de Bosinney. Era claro que Bosinney poderia modificar o seu oramento tanto quanto o quisesse. No havia vinte maneiras 
de diminuir o custo de uma casa, sem lhe estragar o efeito?
Esperou a ocasio de falar, at ao momento em que Irene estendeu ao arquitecto a sua primeira xcara de ch. Um fino raio de sol que passava por entre as frestas 
da renda dos estores aquecia a face da moa, brilhava sobre o ouro dos seus cabelos e nos seus olhos meigos. TalLvez fosse o mesmo raio que dava uma cor mais profunda 
ao rosto de Bosinney e lhe transmitia aquela expresso singular de sobressalto.
Soames tinha horror a sol e levantou-se imediatamente para abaixar o estore. Depois, tomando das mos da mulher a sua xcara de ch, disse mais friamente do que 
tencionava:
- Afinal, no haveria maneira de voc me fazer a coisa por oito mil libras? H-de haver uma quantidade de pequenos pormenores que poderiam ser alterados.
Bosininey esvaziou de um s gole a xcara e respondeu:
- Nenhum.
Soames viu que a sua sugesto lhe tocara em algum incompreensvel ponto de honra.
- Est bem - concordou com uma resignao melanclica. - Creio que tenho de me conformar com a sua opinio.
Alguns minutos mais tarde Bosinney ergueu-se para se despedir e Soames levantou-se tambm para o acompanhar at  porta. O arquitecto pareceu-lhe estar num estado 
de exaltao absurdo. Depois que o viu afastar-se no seu passo oscilante, Soames, um pouco amuado, voltou ao salo, onde Irene ordenava as suas msicas; e num acesso 
irreprimvel de curiosidade perguntou-lhe:
- Que  que voc pensa do Pirata?
- No sei - disse enfim Irene.
- Acha-o bem-parecido?
Irene sorriu. Soames teve a impresso de que a mulher zombava dele.
- Acho - respondeu ela. - Muito.

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CAPTULO IX.

MORTE DA TIA ANN.

Pelos fins de Setembro, houve uma manh em que foi impossvel a tia Ann receber das mos de Smither as insgnias da sua dignidade. E ao primeiro olhar lanado sobre 
o seu velho rosto, o mdico, precipitadamente chamado, declarou que Miss Forsyte expirara durante o sono.
A tia Juley e a tia Hester sentiram-se esmagadas pelo choque. Nunca haviam imaginado antes que a irm pudesse ir-se embora assim. Talvez nem mesmo houvessem concebido 
que o fim pudesse chegar. Sentiam obscuramente que no era razovel, da parte de Ann, deix-las assim, sem uma palavra, sem mesmo uma luta. No parecia coisa dela.
Talvez o que na realidade as afectasse to profundamente fosse a ideia de que uma Forsyte houvesse aberto mo da vida. Se um deles cedia, porque no todos?
Decorreu uma hora inteira antes que elas conseguissem tomar a resoluo de comunicar a desgraa a Timothy. Se ao menos pudessem escond-la! Se ao menos pudessem 
prepar-lo pouco a pouco!
Ficaram muito tempo cochichando junto  porta. E mesmo depois da coisa feita, cochichavam ainda.

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Com o tempo, receavam elas, ele sentiria ainda mais o golpe. Entretanto, recebera-o melhor do que elas poderiam esperar. Ficaria de cama, naturalmente!
As duas separaram-se, chorando docemente. A tia Juley foi para o seu quarto, prostrada pelo evento. O seu rosto, descolorido pelas lgrimas, estava quadriculado 
por pequenas bossas de carne mole que a emoo inchara. Era-lhe impossvel conceber a vida sem Ann, junto de quem vivera setenta e trs anos, afora o curto interregno 
de Septimus Small, que, hoje, lhe parecia quase irreal. Em intervalos regulares, a tia Juley caminhava at  cmoda e apanhava um leno limpo sob um sachet de lavanda. 
O seu clido corao no podia suportar a ideia de que Ann estava deitada, fria.
A tia Hester, a silenciosa, a paciente, aquela onde dormia, como numa represa, a corrente da energia familiar, estava sentada no salo,  sombra dos estores corridos. 
Ela tambm chorara, de incio, porm as suas lgrimas serenas no deixavam marcas. O profundo instinto de economia e preservao de si mesma no a abandonava ao 
sofrimento. Frgil, imvel, a tia Hester parecia perscrutar as brasas da lareira, com as mos ociosas depostas sobre a saia de seda preta. Decerto em breve viriam 
incomod-la, obrig-la a fazer qualquer coisa. Para que fazer qualquer coisa? Isso no tiraria Ann de volta! Porqu atormentada?
s cinco horas chegaram trs irmos: Jolyon, James e Swithin. Nicholas estava em Yarmouth, e Roger de cama, com um forte ataque de gota. Mrs. Hayman viera s, mais 
cedo, e, depois de ter visto Ann, deixara um recado para Timothy - o recado alis no foi dado - e dissera que ela deveria ter sido prevenida antes.
De facto, essa era uma impresso que eles sentiam todos: que deveriam ter sido prevenidos antes. Parecia-lhes que estavam em falta em qualquer coisa; e James falou:
- Eu sabia bem que isto ia acontecer; tinha-lhes dito que ela no atravessaria o Vero.
A tia Hester no respondeu nada; j se estava quase em Outubro, mas no adiantava discutir; h pessoas que nunca esto satisfeitas com coisa alguma. Mandou prevenir 
a irm da presena dos irmos.

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Mrs. Small desceu imediatamente. Banhara o rosto inflamado, e, apesar do olhar severo que lanou s calas azul-claras de Swithin - Swithin viera directamente do 
clube, onde recebera a notcia -, estava com os olhos mais alegres do que de costume, pois o instinto da impropriedade era mais forte do que ela.
Os cinco subiram ento para ver o corpo. Sob o lenol branco imaculado, haviam posto uma cobertura acolchoada, porque agora, mais do que nunca, a tia Ann carecia 
de calor. E, removidos os travesseiros, as costas e a cabea da morta repousavam em linha recta, com uma inflexibilidade idntica  que as mantivera assim em vida. 
A touca que lhe apertava as tmporas fora puxada para os lados, at ao nvel das orelhas. E, entre a touca e o lenol, o rosto, quase to branco como eles, estava 
voltado, de olhos fechados, para as figuras dos irmos e irms.
Na sua paz extraordinria, aquela face morta dava mais do que nunca uma impresso de fora, feita quase toda de ossos, sob o pergaminho mal enrugado da pele, as 
faces e o queixo quadrados, a fronte cavada nas tmporas, o nariz fortemente esculpido: representava a fortaleza de um gnio indomvel.
Swithin lanou apenas um olhar sobre o rosto da irm, e deixou o quarto; disse depois que sentira "uma coisa esquisita". Desceu a escada fazendo a casa toda tremer, 
e, tomando o chapu, subiu ao seu coup sem dar ordens; o cocheiro levou-o para casa; e ele passou a noite numa poltrona, sem se mexer. Foi-lhe impossvel jantar: 
comeu apenas uma perdiz, regada com duas taas de champanhe.
O velho Jolyon mantinha-se em p, junto  cama, com as mos juntas. Entre todos os que estavam ali, era o nico que recordava a morte da me, e era isso o que evocava 
enquanto olhava Ann. Ann era velha, mas a morte arrebatara-a afinal. A morte chega para todos. O rosto de Jolyon no se movia, e o olhar parecia vir de muito longe.
A tia Hester estava tambm de p, ao lado dele; j no chorava, esgotara as lgrimas, e a sua natureza recusava-se a um novo dispndio de foras; torcia os dedos 
e evitava olhar para Ann,

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porm deixava que os olhos errassem aqui e ali, procurando algum meio de se esquivar ao esforo de compreender.
Entre todos os irmos e irms, era James quem manifestava mais emoo. As lgrimas rolavam-lhe pelas rugas paralelas do rosto magro; a quem iria ele agora contar 
os seus desgostos? J no sabia. Juley no servia para nada! Hester, para menos do que nada! A morte de Ann afectava-o mais do que ele o esperaria; e iria ficar 
transtornado durante vrias semanas.
Enquanto ele cismava, a tia Hester eclipsou-se; a tia Juley ps-se a ir e vir atravs do quarto, para fazer "o que era preciso", e duas vezes bateu de encontro a 
um mvel. O velho Jolyon, arrancado  sua cisma - cisma que o fazia rever um longnquo passado-, atirou um olhar severo  irm e saiu. James ficou s junto do leito; 
certificou-se com uim olhar furtivo de que ningum o via e, curvando o longo corpo, deps um beijo sobre a fronte da morta; depois, por sua vez, deixou rapidamente 
o quarto. Encontrou Smither no hall e interpelou-a a respeito do funeral; descobrindo que a criada no estava ao corrente de nada, queixou-se amargamente de que, 
se ele no interferisse, nada se faria direito. Ela deveria mandar chamar Mr. Soames, porque ele cuidaria de tudo melhor do que ningum. O patro estava transtornado 
de mais. Decerto precisaria de que o cuidassem; quanto s patroas, no havia nada a fazer. No tinham cabea: no era de admirar que cassem doentes tambm. Aconselhava 
que chamassem um mdico: seria melhor providenciar a tempo. No sabia ao certo se sua irm Ann teria consultado o melhor mdico; se houvesse procurado o doutor Blank, 
ainda estaria viva. Smither poderia mandar um recado a Park Lane todas as vezes que precisasse de um conselho. E, naturalmente, poderiam usar o seu carro para o 
enterro. Seria que ela no tinha  mo um biscoito e um copo de clarete? Ele no almoara.
Os dias que precederam o funeral passaram tranquilamente. J h muito tempo se sabia que a tia Ann deixava a Timothy a sua pequena fortuna; no havia pois motivo 
para nenhuma agitao. Soames, executor testamentrio, encarregou-se de tudo, e em tempo oportuno enviou este convite a todos os homens da famlia:

A...
Solicita-se a sua presena para o luneral de Miss Ann Forsyte, que se realizar no cemitrio de Highgate, no dia primeiro de Outubro, ao meio-dia.
As carruagens encontrar-se-o em The Bower, Bayswater Road, s 10 horas 45. Por obsquio, pede-se que no tragam flores.

A manh da cerimnia apareceu muito fria sob o cu de Londres, cinzento e alto; s dez horas e meia chegou diante da porta o primeiro carro, o de James. James estava 
dentro, em companhia do genro, Dartie, um homem baixo, de peito quadrado, apertado na sobrecasaca, o rosto amarelo e gordo ornado de um bigode escuro de pontas levantadas 
e desses incorrigveis comeos de suas que se notam sobretudo nos especuladores, e que, desafiando os esforos da navalha, parecem ser o sinal de algum trao inveterado 
do carcter.
Soames, na sua qualidade de executor testamentrio, recebeu os convidados, porque Timothy ainda estava de cama; s se levantaria depois do enterro; a tia Juley e 
a tia Hester tambm no desceriam antes que tudo estivesse terminado; deu-se a entender que haveria um almoo para todos os convidados que quisessem voltar depois 
da cerimnia.
O primeiro a chegar, depois de James, foi Roger, que ainda claudicava, devido ao seu ataque de gota. Cercavam-no os trs filhos: Roger filho, Eustace e Thomas. George, 
o quarto filho, chegou momentos depois, num fiacre; parou um instante no hall para perguntar a Soames como se ia saindo do seu novo ofcio de empresrio de pompas 
fnebres. Os dois primos detestavam-se.
Chegaram depois os dois Hayman, Gil e Jess, absolutamente mudos e cuidadosamente vestidos, com vincos especiais nas calas de cerimnia. Aps eles, entrou sozinho 
o velho Jolyon. Depois Nicholas, com as cores da sade no rosto, esforando-se por dissimular a petulncia de todos os seus movimentos. Dois filhos o acompanhavam, 
mansos e tonos. Swithin Forsyte e Bosinney chegaram ao mesmo tempo e inclinaram-se diante da porta, cada um convidando o outro a entrar primeiro. No hall, renovaram 
as cerimnias,

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e Swithin, levantando a gravata que o esforo desarranjara, subiu lentamente as escadas. Vieram ainda dois Hayman e dois filhos casados de Nicholas, acompanhados 
de Tweetyman, Spender e Warry, maridos de senhoras Forsyte e Hayman. O grupo estava ento completo: vinte e cinco pessoas ao todo; no faltava nem um homem da famlia, 
a no ser Timothy e Jolyon filho. Entraram todos no salo vermelho e verde, cuja pintura fazia uma moldura brilhante aos seus trajos desabituais, e cada um procurou 
nervosamente encontrar uma cadeira, desejoso de esconder a negrura enftica das calas. Aquele negrume de calas e de luvas parecia incomod-los como uma espcie 
de inconvenincia, um excesso de manifestao; muitos lanavam um olhar de censura e de secreta inveja ao pirata, que no calava luvas e usava calas cinzentas. 
Elevou-se um zumbido de vozes em tom baixo; ningum falava da defunta, mas cada um pedia notcias do outro, espcie de rito pelo qual se mostravam sensibilizados 
pelo acontecimento que vinham celebrar. Depois James disse:
- Est bem, creio que chegou a hora.
Desceram a escada e, dois a dois, seguindo a ordem exacta de precedncia que lhes haviam indicado, subiram para as carruagens.
O carro onde ia o fretro ps-se em marcha e os outros carros seguiram-no lentamente. No primeiro estavam o velho Jolyon e Nicholas; no segundo os gmeos, Swithin 
e James; no terceiro Roger e Roger filho; Soames, Nicholas filho, George e Bosinney seguiam no quarto.
Cada um dos outros carros de luto (havia oito ao todo) continham ainda trs ou quatro membros da famlia; aps eles vinha o coup do mdico; depois, a distncia 
conveniente, os fiacres ocupados por diversos empregados e criados da famlia. E, no fim de tudo, um carro vazio, que elevava a treze o nmero total de veculos 
do enterro.
Enquanto acompanhou Bayswater Road, o cortejo fnebre caminhou a passo; nas ruas menos importantes, porm, marchou a trote, e conservou esse andamento, salvo quando 
atravessavam alguma artria elegante, at  grade do cemitrio.
No primeiro carro, o velho Jolyon e Nicholas falavam dos seus respectivos testamentos.

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No segundo, os gmeos, depois de uma nica tentativa de conversa, tinham cado em profundo silncio. Eram os dois um pouco surdos, de forma que, para ambos, tornava-se 
muito penoso o esforo de se fazerem entender reciprocamente. Uma nica vez James rompeu o silncio.
- Vou precisar de arranjar um jazigo em algum lugar. Que foi que voc arranjou para si, Swithin?
E Swithin, fixando-o com um olhar assustado, respondeu:
- No me fale nessas coisas!
No terceiro carro, uma conversa desarticulada enchia os momentos em que os rapazes no olhavam pela janela para ver se o enterro andava. George observava que, afinal, 
j era tempo de a pobre senhora ir-se embora. Para ele nada mais havia de bom depois de passados os setenta anos. O jovem Nicholas, plcido, lembrou que essa regra 
no parecia aplicar-se bem aos Forsyte. George anunciou ento que pretendia suicidar-se quando chegasse aos sessenta anos. Nicholas filho, sorrindo e cofiando a 
sua barbicha, pensava que o pai dele no apreciaria essa teoria: ganhara bastante dinheiro depois dos sessenta anos.
- Pois ento, setenta anos  o limite extremo,  o tempo devido - continuava George - de se ir para o outro mundo e transmitir o dinheiro aos herdeiros.
Soames, at ento silencioso, meteu-se na conversa; no esquecera a observao a propsito das "pompas fnebres", e, erguendo quase imperceptivelmente as plpebras, 
observou que s podiam falar assim as pessoas que no ganham dinheiro. Quanto a ele, tinha a inteno de durar o mximo que lhe fosse possvel. Era uma indirecta 
a George, cuja pobreza era notria.
Bosinney murmurou distraidamente: "Muito bem. muito bem." George bocejou e a conversa estacou.
No cemitrio, o caixo foi levado a uma capela onde, a dois e dois, os membros da famlia foram entrando; e aquela guarda de homens, ligados todos  morta pelos 
laos do parentesco, constitua um espectculo impressionante e singular na imensa cidade de Londres, com a sua assustadora variedade de vidas, as suas inumerveis 
vocaes, os seus prazeres e os seus deveres, o seu spero e terrvel apelo ao individualismo.

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A famlia reunira-se ali para triunfar contra isso, para manifestar a sua tenaz unidade, para ilustrar gloriosamente a lei da propriedade, graas  qual crescera 
e prosperara, como uma rvore, enchendo-se de seiva no tronco e nos ramos, e atingindo, no tempo devido, o seu mximo desenvolvimento. O esprito da velha que ali 
jazia morta convocara-os para aquela demonstrao. Seria o seu ltimo apelo  unidade que fora a de todos, como era a sua ltima vitria ter morrido enquanto a rvore 
da vida estava inteira.
Foi-lhe poupado assistir ao impulso dos ramos jovens, quebrando o equilbrio do conjunto. E ela no poderia ler nos coraes dos que lhe formavam o ltimo cortejo. 
A mesma lei que a dominara e que transformara a grande moa esbelta numa vigorosa mulher madura; que transformara depois essa mulher madura numa anci angulosa, 
dbil, mostrando quase um rosto de feiticeira, cuja individualidade se ia aguando  medida que recebia menos o contacto do mundo, essa mesma lei trabalharia, trabalhava 
desde j no seio da famlia que Ann velara como uma me. Ann vira-a jovem e em crescimento; vira-a poderosa e completa; os seus velhos olhos haviam-se fechado antes 
de ver o resto. Teria tentado - e quem sabe se o conseguiria? - com os seus cansados dedos, os seus beijos trmulos, mant-la mais algum tempo na juventude e no 
vigor. Mas, infelizmente, nem a prpria tia Ann poderia lutar contra a Natureza.
"O orgulho precede a queda!" Obedecendo a esse princpio, no qual a Natureza ps a sua maior ironia, a famlia Forsyte reunira-se para uma orgulhosa e derradeira 
parada, antes de cair.  direita e  esquerda as caras de todos, formados em linha recta, voltavam-se na maioria para a terra, guardis impassveis dos seus pensamentos. 
Mas, aqui e alm, um rosto erguido, com uma ruga gravada entre as sobrancelhas, parecia contemplar na parede da capela alguma viso esmagadora ou escutar algum som 
terrfico. E os responsos murmurados baixinho - por vozes atravs das quais se elevava, numa tonalidade idntica, o inatingvel timbre da famlia - ressoavam estranhamente, 
como pronunciados  pressa por uma nica boca.
Quando a cerimnia terminou, o cortejo formou-se novamente

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para escoltar o corpo at ao sepulcro. Junto da cova aberta, homens vestidos de preto esperavam.
Naquele campo sagrado, naquela colina onde milhares de membros das upper-middle classes inglesas dormem o derradeiro sono, os olhos dos Forsyte percorriam as filas 
de tmulos. Atravs deles, Londres estendia-se at ao horizonte sem sol e parecia-lhes estar a chorar a perda da filha, chorando com aquela famlia a morta que lhe 
servira de me e guardi. Mais longe, aos ps deles, cem mil telhados confundidos numa espcie de massa acinzentada, onde tudo falava de riqueza e de propriedades, 
cercavam-nos como um povo de luto, diante do tmulo daquela morta. a mais velha de todos os Forsyte.
Algumas palavras, uma pouca de terra, um impulso no caixo para a cova: a tia Ann ingressara no repouso eterno. Junto  sepultura, testemunhas desse ingresso, estavam 
de p os cinco irmos, de cabea baixa: queriam cuidar de que Ann ficasse bem instalada l onde estava agora. Era justo que a sua pequena fortuna ficasse para os 
vivos; mas quanto ao resto, tudo o que se pudesse fazer seria feito.
Depois, cada um de per si, voltando-se e enfiando o chapu, foi inspeccionar a nova inscrio aposta sobre o mrmore do jazigo da famlia:

 MEMRIA DE ANN FORSYTE
Filha destes mesmos Jolyon e Ann Forsyte aqui enterrados. Deixou esta vida aos vinte e sete dias do ms de Setembro do ano mil oitocentos e oitenta e seis, com a 
idade de oitenta e sete anos e quatro dias.

Talvez, em breve, algum outro de entre eles tambm fosse precisar de uma inscrio. Pensamento estranho e intolervel, porque eles, de certo modo, haviam suposto 
que os Forsyte no poderiam morrer. Todos, do primeiro ao ltimo, estavam ansiosos por fugir daquela tristeza, daquela cerimnia que recordava coisas cuja evocao 
lhes era insuportvel;

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estavam ansiosos por ir embora depressa, regressar aos negcios e esquecer.
Fazia frio, tambm; o vento, como uma fora lenta de decomposio, varrendo a colina cheia de inumerveis sepulturas, feria-os com o seu hlito arrepiante; comearam 
a dividir-se em pequenos grupos e a encher o mais depressa possvel os carros que os esperavam.
Swithin declarou que voltava para almoar em casa de Timothy e ofereceu lugar no coup para quem o quisesse acompanhar. Mas subir com Swithin naquele coup to pequeno 
parecia um duvidoso privilgio, pelo que ningum aceitou e ele partiu sozinho.
James e Roger seguiram-no imediatamente; tambm iriam almoar com Timothy. Os outros dispersaram-se pouco a pouco. o velho Jolyon levou trs sobrinhos que lhe encheram 
o carro: tinha necessidade daqueles rostos jovens em torno de si. Soames, que deveria regularizar alguns pormenores na agncia do cemitrio, afastou-se em companhia 
de Bosinney. Tinha de conversar com o moo. Depois de uma demora na agncia, os dois homens caminharam juntos at Hampstead; almoaram na Spaniard's Inn e gastaram 
muito tempo no exame de coisas relativas  construo da casa; depois apanharam um carro elctrico e voltaram juntos at Marble Arch, donde Bosinney se dirigiu para 
Stanhope Gate, a fim de visitar June.
Soames sentia-se de excelente humor ao chegar a casa. Ao jantar, confiou a Irene que tivera uma boa conversa com Bosinney, que na verdade parecia um rapaz inteligente; 
ambos haviam dado um ptimo passeio, que lhe fizera bem ao fgado - ele h muito tempo precisava de exerccio - e que, enfim, fora um dia excelente. Se no fora 
o luto pela pobre tia Ann, lev-la-ia ao teatro; e, j que isso no seria possvel, deveriam tirar o melhor partido do sero em casa.
- O Pirata perguntou por voc mais de uma vez - disse ele subitamente. E, movido por algum inexplicvel desejo de afirmar os seus direitos de proprietrio, ergueu-se 
da cadeira e deps um beijo no ombro da mulher.

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SEGUNDA PARTE

CAPTULO I.

PROGRESSO DA CONSTRUO.

O Inverno era suave. Os negcios haviam diminudo, e, de acordo com o que Soames pensara antes de se resolver, a poca estava excelente para os trabalhos da construo. 
E todas as paredes externas da casa de Robin Hill ficaram prontas antes de Maio.
Agora que j lhe podiam mostrar alguma coisa em troca do seu dinheiro, Soames ia visitar a construo uma, duas e mesmo trs vezes por semana; durante horas inteiras 
vasculhava pela calia, cuidando sempre em no sujar a roupa; circulava silenciosamente atravs da alvenaria das portas inacabadas ou rondava em torno das colunas 
do ptio central. E ficava junto delas, em p, imvel, durante vrios minutos seguidos, como para perscrutar a verdadeira qualidade da sua substncia.
A 30 de Abril marcara uma entrevista com Bosinney, para examinarem as contas; e, cinco minutos antes da hora marcada, entrou na tenda que o arquitecto fizera erguer 
sob o velho carvalho.
As contas j estavam prontas sobre uma mesa dobradia: depois de um rpido cumprimento, Soames sentou-se para as estudar. Passou algum tempo antes de levantar a 
cabea.
- No entendo isso - disse afinal. - Quase setecentas libras a mais! -Lanou um olhar ao rosto de Bosinney e continuou
rapidamente: - Se voc no aguentar a mo com esses empreiteiros, eles embrulham-no.  uma gente que mete a unha em tudo, se no estamos de olhos abertos. Desconte-lhes 
dez por cento sobre o total: o aumento no ser nem de cem libras. Bosinney abanou a cabea:
- Rebaixei tudo o que era possvel at ao ltimo vintm. Soames empurrou a mesa com um movimento de clera que
fez voar as folhas das contas.
- Ento, o que lhe posso dizer  que voc fez uma boa embrulhada! - exclamou ele.
- Eu disse-lhe vinte vezes - replicou violentamente Bosinney - que o primeiro oramento seria ultrapassado. E mostrei-lhe muito bem as razes disso.
- Eu sei, eu sei - rosnou Soames -, e eu no iria regatear uma nota de dez libras aqui ou ali. Mas como iria adivinhar que os seus extras atingiriam setecentas libras?
As qualidades dos dois homens haviam preparado aquela grave discrepncia. De um lado estava a paixo do arquitecto pela sua ideia, por um projecto que era criao 
sua, na qual tinha f, e que por isso o impedia de aceitar os obstculos ou resolver-se a um expediente. Do outro lado, a paixo no menos profunda e integral de 
Soames pelo melhor objecto representado por um certo preo tornava-lhe difcil acreditar que no se pudesse comprar por doze shillings uma coisa que valia treze.
- Lamento ter-me encarregado da sua casa - disse subitamente Bosinney. - Voc veio trazer-me os maiores aborrecimentos. Quer que a gente lhe d, pelo seu dinheiro, 
duas vezes o que ele vale; e agora que tem uma casa que  talvez a maior do condado, no quer fazer face s despesas. Se quer ficar no que estamos, assumirei a responsabilidade 
do que ultrapassa o oramento. Mas dou-lhe a minha palavra de que no lhe fao mais nada.
Soames recuperou a calma. Sabendo que Bosinney no tinha capital, tal proposta pareceu-lhe louca. Viu tambm que precisaria esperar indefinidamente para se instalar 
naquela casa que concentrava os seus desejos, que iria perder o seu arquitecto justamente no momento crtico em que a sua colaborao pessoal se tornava da mxima 
importncia. Devia tambm pensar em Irene.

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Andava esquisita de alguns tempos para c. E Soames acreditava que fora a simpatia dela por Bosinney que lhe fizera aceitar a ideia da casa. No seria pois aquele 
o momento de entrar em conflito com a mulher.
- No precisa de se exaltar - disse ele. - Se eu me conformo em pagar, que lhe resta, dizer? Mas, na minha opinio, se voc me diz que uma coisa vai custar tanto, 
eu gosto... bem, de facto... eu gosto de saber a quantas estou.
- Oua - disse Bosinney, e Soames ficou ao mesmo tempo surpreso e contrariado com a perspiccia do olhar do outro-, escute, eu prestei-lhe os meus servios a preo 
muito baixo. Com o trabalho que dediquei a esta casa e o tempo que gastei, voc s teria tido os servios de Littlemaster ou de qualquer outra nulidade por quatro 
vezes mais. O que voc queria, na verdade, era um homem de primeira classe por um salrio de quarta classe, e foi exactamente o que conseguiu!
Soames viu que o arquitecto falava com convico, e, por mais irritado que estivesse, impressionou-se com as possveis consequncias de uma briga entre os dois. 
Viu a casa inacabada, a mulher revoltada, e ele, Soames, servindo de risota a todos.
- Verifiquemos as contas - disse num tom aborrecido - e vejamos por onde saiu o dinheiro.
- Muito bem - condescendeu Bosinney -, mas andemos depressa, por favor. Devo voltar cedo para levar June ao teatro.
Soames lanou-lhe um olhar furtivo e disse:
- Vai busc-la l a casa, creio eu? June vivia em casa deles.
Chovera na noite da vspera, uma chuva de Primavera, e subia da terra um cheiro de seiva e de ervas bravas. A tpida e suave brisa balanava as folhas e os rebentos 
dourados do velho carvalho e os melros cantavam  solta,  luz do sol.
Era um daqueles dias de Primavera cujo sopro enche o corao da gente de um langor inefvel, de uma dolorosa ternura, desse desejo que faz que um homem fique imvel 
a olhar a relva ou as folhas e abra os braos para envolver... no sabe o qu.
Exalava-se da terra uma tepidez evanescente, atravs das vestes geladas com que o Inverno a envolvera; aquilo era a sua carcia de oferta para atrair os homens,

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convidando-os a deitarem-se entre os seus braos, a rolarem-lhe os corpos sobre o seu, a encostarem-lhe os lbios ao peito.
Fora num dia semelhante que Soames obtivera de Irene o "sim" tantas vezes implorado. Sentado num tronco de rvore derrubado, ele prometera, pela vigsima vez, que, 
se o casamento de ambos no fosse feliz, ela seria to livre como se nunca houvesse casado.
- Voc jura? - perguntou a moa.
E no outro dia ela lembrara-lhe esse juramento. Soames respondera:
- Que tolice! Como pude eu jurar tal coisa?
Uma desastrada fatalidade recordava-lhe agora a lembrana renegada. Que loucos juramentos os homens so capazes de fazer por amor das mulheres! Para a obter, no 
haveria um dia em que ele no houvesse feito tal promessa; e renov-la-ia hoje, se a conseguisse comover com isso; porm ningum conseguia comov-la: Irene tinha 
o corao gelado.
O sabor doce e fresco do vento da Primavera trazia-lhe uma multido de lembranas, as lembranas do tempo em que a namorava.
Na Primavera de 1881, estava de visita a casa do seu cliente e antigo camarada de classe George Liversedge, que, tendo a inteno de desenvolver as suas plantaes 
de pinheiros nas cercanias de Bournemouth, o encarregara de formar a sociedade indispensvel  organizao do projecto. Mrs. Liversedge, que tinha a situao da 
polidez til, oferecera um ch musical em sua honra. No fim da festa, que, em vista de no ser msico, ele aturara como uma maada, Soames notara o rosto de uma 
moa de luto, que se mantinha isolada. Sob a fazenda leve e franzida do vestido, desenhavam-se as linhas longas do seu corpo; apertava diante de si as mos enluvadas 
de negro, entreabria um pouco os lbios, e os seus grandes olhos escuros vagueavam de rosto em rosto. Os cabelos enrolados baixo brilhavam-lhe sobre a nuca, como 
uma trana de metal refulgente. E, enquanto a olhava, Soames sentiu que o possua essa impresso que a maioria dos homens conhece num momento dado da vida:

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uma singular satisfao dos sentidos, uma espcie de certeza que constitui o que os romancistas e as senhoras, de idade chamam "amor  primeira vista". E, continuando 
a observ-la dissimuladamente, ele procurou a dona da casa e esperou resoluto que a msica parasse.
- Quem  aquela moa de cabelos louros e olhos castanhos? - perguntou.
- Aquela? Oh,  Irene Heron. Perdeu este ano o pai, o professor Heron. Vive com a madrasta.  uma moa muito amvel e linda, mas no tem um vintm!
- Quer fazer o favor de me apresentar? - pediu Soames.
No encontrou muito que lhe dizer, e ela quase no respondeu. Mas saiu dali decidido a voltar a v-la. E conseguiu-o por acaso, encontrando-a a passear em companhia 
da madrasta, que gostava de andar assim, entre o meio-dia e a uma hora, antes do almoo. Soames apressou-se a travar conhecimento com essa senhora, e no demorou 
em descobrir nela a aliada de que precisava. Com o seu senso prtico, que sabia ver imediatamente todos os pormenores materiais de uma vida de famlia, ele compreendeu 
que Irene custava  madrasta mais do que as cinquenta libras que lhe trazia anualmente; e compreendeu alm disso que Mrs. Heron, ainda na flor dos anos, tinha desejos 
de casar de novo. A beleza estranha e mal desabrochada da enteada constitua entretanto um obstculo a esse desejo. E Soames, com a sua tenacidade furtiva, combinou 
os planos.
Deixou Bournemouth sem descobrir nada do que se passava nele, mas um ms depois tornou a ir l. Dessa vez falou, mas apenas  madrasta. Estava decidido, declarou 
ele ento, e disposto a esperar o tempo que fosse preciso. Foi-lhe preciso esperar muito tempo, assistindo ao florescimento de Irene, vendo como as linhas do seu 
corpo jovem se tornavam mais suaves, como um sangue mais forte lhe escurecia os olhos sombrios, pondo-lhe na palidez da pele uma luz mais quente. Em cada visita 
que fazia, renovava o pedido, e, finda a visita, voltava a Londres com uma nova recusa, de corao magoado, mas silencioso e imperturbvel como sempre. Procurou 
atingir as causas secretas da resistncia dela: e apenas uma vez pde perceber qualquer coisa. Era num desses bailes de caridade,

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onde as paixes de uma colnia de banhistas se pode expandir. Soames estava sentado junto a Irene, numa sacada, com os sentidos comovidos ainda pela valsa que acabavam 
de danar. Ela olhara-o sobre o leque, que agitava lentamente; ele perdeu a cabea. Segurando aquele pulso em movimento, apertou contra os lbios o brao nu da moa. 
E ela estremecera... E at hoje, ainda, Soames no esquecera aquele estremecimento nem o olhar apaixonadamente hostil que ela lhe lanara.
Um ano depois ela cedeu. Porqu? Soames nunca o pudera descobrir, e Mrs. Heron, que era uma diplomata muito hbil, nunca lhe deu a menor explicao. Depois do casamento, 
ele perguntou um dia a Irene: "Porque me recusou tantas vezes?" A moa respondeu apenas por um silncio estranho. Ela fora um enigma no dia do primeiro encontro, 
e enigma continuava a ser...
Bosinney esperava-a  porta, e no seu belo rosto de traos rudes havia uma expresso singular de sonho e de felicidade, como se tambm visse no cu de Primavera 
uma esperana de felicidade, como se aspirasse no ar tpido as alegrias que estavam por vir. Soames olhou-o. Que teria acontecido quele rapaz para que mostrasse 
um ar to feliz? Que esperava ele com aquele sorriso nos olhos e nos lbios? Soames no podia ver o que Bosinney esperava enquanto se mantinha ali, em p, sorvendo 
a brisa, onde passavam perfumes de flores. E, mais uma vez, sentiu-se derrotado diante daquele homem que instintivamente desprezava. Apressou-se a voltar para casa.
- A cor que se impe para essas telhas - disse Bosinney -  o rubi, com um tom cinzento no interior, para dar a impresso de transparncia. Gostaria de ouvir a opinio 
de Irene. Pretendo encomendar umas cortinas de couro vermelho para a porta deste ptio; e no salo, com um tom de marfim claro, sobre fundo de papel, vocs conseguiro 
um efeito de cambiante... Nessa decorao toda o que  preciso obter  o que eu chamo encanto.
- Voc refere-se ao encanto de Irene? - perguntou Soames. Bosinney desviou a questo:
-  preciso uma touceira de ris no meio do ptio. Soames sorriu com um ar superior.

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- Passarei pela casa Beech, um dia destes, e verei o que  preciso.
No encontraram mais quase nada que dizer, mas, a caminho da estao, Soames perguntou:
- Segundo imagino, voc considera Irene um temperamento de artista?
- Sim.
A abrupta resposta era to mortificante quanto o seria um conselho mais ou menos como este: "Se est com vontade de discutir, procure outro."
E a lenta clera que Soames sentira durante toda a tarde acendeu-se nele mais viva.
No disseram mais uma palavra at chegarem  estao; ento Soames perguntou:
- Quando pensa acabar?
- L para o fim de Junho, se quer realmente que eu me encarregue da decorao.
Soames fez um gesto afirmativo:
- Mas compreende bem que esta casa me tem custado muito mais do que eu o imaginara antes. E posso dizer-lhe tambm que teria mandado tudo  fava se no fosse o meu 
hbito de no me afastar de uma deciso tomada.
Bosinney no respondeu nada. E Soames lanou-lhe de vis um olhar de resoluta antipatia: a despeito do seu ar superior, altivo, e da sua distino lacnica, Soames, 
com os lbios cerrados e o queixo quadrado, tinha qualquer coisa de um bulldog.
Quando, s sete horas dessa noite, June chegou  casa n.o 62 de Montpellier Square, a criada de quarto, Bilson, preveniu-a de que Mr. Bosinney estava no salo. A 
senhora estava a vestir-se e estaria em baixo dentro de alguns minutos.
- Vou preveni-la de que Miss June chegou. June f-la estacar:
- Est bem, Bilson, eu vou para o salo. Voc no precisa apressar Mrs. Soames.
A rapariga tirou a capa, e Bilson, com um olhar compreensivo,

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no lhe abriu nem mesmo a porta do salo, e subiu a escada a correr.
June parou um instante para se olhar num espelho de prata antiga que pendia por sobre um cofre de carvalho: jovem silhueta imperiosa e esbelta, com um rostinho resoluto, 
num vestido branco cujo decote redondo deixava ver a base de um pescoo muito frgil para sustentar a massa de cabelos, o toso de ouro avermelhado que lhe coroava 
a cabea. Abriu suavemente a porta da sala para apanhar o noivo de surpresa. A sala estava cheia de um doce e quente perfume de azleas em flor. Ela aspirou esse 
perfume longamente, e ouviu a voz de Bosinney, no no salo, mas na estufa vizinha, a dizer:
- Ah, eu queria dizer-lhe tantas coisas, mas agora j no teremos tempo!
A voz de Irene respondeu:
- E porque no ao jantar?
- Como  que poderemos falar...
O primeiro pensamento de June foi retirar-se, mas, em vez disso, dirigiu-se para a vidraa que dava para o jardim de Inverno. Era de l que vinha o cheiro de azleas, 
e em p, de costas, com os rostos mergulhados nas flores de ouro rseo, estavam seu noivo e Irene.
Em silncio, mas no envergonhada, com as faces em fogo, os olhos irritados, a moa ficou a olh-los.
- Venha domingo, sozinha, e veremos a casa juntos.
June viu Irene erguer a cabea e olh-lo atravs da cortina de flores. No era um olhar provocante, mas mil vezes pior para a moa que espiava: era o olhar de uma 
mulher que tem medo de falar de mais embora s com os olhos.
- Prometi dar um passeio de carro com o tio Swithin.
- O gigante? Faa-o lev-la l. So apenas dez milhas, justamente o que os cavalos dele precisam!
- Pobre tio Swithin!
Uma golfada de perfume chegou at ao rosto de June; ela sentiu-se mal, embriagada.
- V, por favor, v!

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- Mas porqu?
- Quero v-la l. Creio que voc gostar de me ajudar.
A moa sentiu a resposta tremer docemente, no meio das flores:
- Sim, eu gostaria...
E June atravessou a porta:
- Abafa-se aqui - disse ela. - J no posso suportar este cheiro!
O seu olhar, directo e irritado, parou sobre o rosto dos dois outros:
- Vocs estavam a falar da casa? Eu ainda no a vi, ser que poderemos ir todos l no domingo?
A cor fugira do rosto de Irene.
- Prometi sair de carro com o tio Swithin-disse ela.
- Tio Swithin! Que importncia tem? Mande-o passear.
- No tenho costume de mandar ningum passear!
Houve um rumor de passos, e June viu Soames em p, por trs de si.
- Muito bem, se todos vocs esto prontos - disse Irene, cujo olhar ia de um para outro com um sorriso estranho - o jantar tambm o est!

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CAPTULO II.

A TENTATIVA DE JUNE.

O jantar iniciou-se em silncio; as duas mulheres estavam sentadas uma em face da outra e os homens em posio idntica.
Em silncio acabaram a sopa, excelente, embora um pouco espessa; depois trouxeram o peixe, que foi servido em silncio. Bosinney arriscou:
- Hoje  o primeiro dia de Primavera. Irene repetiu docemente:
- Sim, o primeiro dia de Primavera.
- Primavera! - disse June. - Ainda no se sente um sopro de ar.
Ningum respondeu. Levaram o peixe, um fresco e delicado linguado de Dover. E Bilson trouxe o champanhe numa garrafa de gargalo enrolado num guardanapo branco.
Soames disse:
- Vocs iro ach-lo seco.
Serviram as costeletas; em cada uma havia um pequeno lao rseo. June no se serviu, e o silncio voltou. Soames falou:
- Voc deveria comer uma costeleta, June;  s o que temos para jantar.
Porm June insistiu na recusa, e levaram as costeletas. Ento Irene perguntou:
- Phil, voc ouviu o meu melro cantar? Bosinney respondeu:
- Creio que sim; ele assobia uma ria de caa. Ouvi-o da praa, quando ia a chegar aqui.
-  um encanto!
- O senhor quer salada?
Levaram o frango  jardineira. Porm Soames falava:
- Os espargos no esto grande coisa. Bosinney, quer un clice de sherry com a sobremesa? June. voc no bebe nada?
June disse:
- Voc sabe que eu nunca bebo vinho: tenho horror. Apareceu numa salva de prata uma torta de ma. E Irene
disse, sorrindo:
- As azleas esto maravilhosas, este ano! Bosinney respondeu com um murmrio:
- Maravilhosas! O cheiro  extraordinrio! June observou:
- Como  que voc pode gostar desse cheiro? Acar, Bilson. por favor.
Trouxeram-lhe acar, e Soames comentou:
- Esta torta est ptima!
Levaram a torta. Seguiu-se um longo silncio. Irene fez um sinal com o dedo e disse:
- Tire a azlea. Bilson. O cheiro est a incomodar Miss June.
- No, deixe! - disse June.
Foram trazidos em pratinhos azeitonas da Frana e caviar da Rssia. E Soames disse:
- Porque no produzimos azeitonas grandes?
Porm ningum respondeu. Levaram as azeitonas. Erguendo o copo, June pediu:
- gua, por favor.
Deram-lhe gua. Chegou uma salva de prata com ameixas da Alemanha. Houve um longo silncio. Todos comeram as ameixas numa perfeita harmonia.
Bosinney contou os caroos:
- Este ano, no ano que vem, daqui a um tempo... E Irene acabou docemente:

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- ... nunca. Houve um pr-de-sol magnfico! O horizonte est ainda vermelho, e to bonito!
Ele respondeu:
- Sim,  estranho, porque a linha do cu j est escura.
Os olhos dos dois encontraram-se. E June exclamou com desprezo:
- Pr-de-sol em Londres!
Ofereceram cigarros egpcios numa caixa de prata. Soames tirou um e perguntou:
- A que horas comea a pea a que vocs vo? Ningum respondeu, e trouxeram caf turco, em xcaras
esmaltadas.
Irene, sorrindo tranquilamente, disse:
- Se ao menos...
- Se ao menos o qu? - interrompeu June.
- Se ao menos a gente pudesse parar o ano e a Primavera no acabasse mais!
Trouxeram brandy, plido e velho. Soames disse:
- Bosinney, voc devia beber um pouco de brandy. Bosinney tomou um clice, depois todos se ergueram.
- Quer um carro? - perguntou Soames. June respondeu:
- No. A minha capa, por favor, Bilson. Trouxeram-lhe a capa. Irene, da janela, murmurou:
- Que noite linda! As estrelas j apareceram! Soames acrescentou:
- Bem, espero que vocs dois se divirtam. Da porta, June respondeu:
- Obrigada. Venha, Phil. Bosinney gritou:
- Vou j!
Soames sorriu zombeteiro e disse:
- Desejo-lhe sorte!
Da porta, Irene via-os partir. Bosinney ainda disse:
- Boa noite!
- Boa noite - respondeu Irene docemente.
June fez que o noivo a levasse no segundo andar de um nibus,

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alegando que sentia necessidade de ar, e ficou silenciosa, com o rosto voltado para a brisa da noite. O cocheiro virou-se uma ou duas vezes, com a inteno de arriscar 
uma observao, mas desistiu. Aqueles dois no eram um par animado. A Primavera tambm lhe entrara no sangue; ele sentia necessidade de lhe deixar evolar-se o vapor 
e batia com a lngua, riscava o ar com o chicote e fazia que os cavalos caracolassem; e os prprios cavalos, coitados, tambm sentiam o cheiro da Primavera, e durante 
uma rpida meia hora martelaram a rua com os cascos alegres.
A cidade toda trepidava de vida; os ramos, erectos, com a sua cobertura de folhas jovens, esperavam algum dom que a brisa lhes traria; os postes de iluminao, que 
acabavam de acender, brilhavam cada vez mais forte na noite que caa; os rostos da multido mostravam-se plidos quela luz crua, enquanto l no alto as grandes 
nuvens brancas deslizavam suaves e rpidas sobre o cu violeta.
Os homens de casaca haviam tirado os sobretudos e subiam vivamente a escadaria dos clubes: os operrios passeavam e as mulheres - aquelas que passeiam ss, nas horas 
nocturnas-, dirigindo-se numa onda interminvel para o oeste, caminhavam num andar arrastado e balanceante, que traa a espera, sonhando com bom vinho, uma boa ceia, 
ou, durante um minuto inslito, com beijos por amor.
Aqueles vultos inumerveis, tomando cada um o seu caminho sob as luzes e sob o cu, tinham todos recebido a inquieta bno da Primavera em fermentao: e todos 
aqueles seres, exactamente como os elegantes dos clubes com os seus sobretudos abertos, tinham abandonado algo da sua casta, dos seus dogmas, dos seus costumes, 
e pelo ngulo em que haviam colocado os chapus, o ritmo dos passos, os silncios ou os risos, confessavam as suas humanas semelhanas sob o cu apaixonado.
June e Bosinney atravessaram em silncio a porta do teatro e procuraram os seus lugares, num camarote superior. A pea ia comear e a sala meio obscura, com as filas 
de cabeas humanas olhando para o mesmo lado. parecia um vasto canteiro de flores com as corolas voltadas para o Sol.
June nunca entrara num camarote superior.

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Desde a idade de quinze anos acompanhava habitualmente o av s poltronas de orquestra. E no eram quaisquer das poltronas de orquestra que lhes serviam, mas poltronas 
escolhidas, as melhores da plateia, mais ou menos no centro da terceira fila. Com muitos dias de antecedncia eram encomendadas pelo velho Jolyon no escritrio de 
Grogan e Boynos,  sua volta da City. Os bilhetes ficavam guardados no bolso do sobretudo do av, junto da carteira de charutos e das suas velhas luvas de cabrito, 
e eram depois confiados a June para que os guardasse at ao dia marcado. E J nas cadeiras da frente, ele, velho e espigado, com a sua austera cabea branca, ela, 
ardente e enrgica, sob a coroa de ouro avermelhado, assistiam a todas as peas de todos os gneros; e no caminho de volta, o velho Jolyon dizia a respeito do actor 
principal: "Oh,  um pobre coitado! Voc devia ver o Bobson!"
June esperara aquela noite com uma alegria aguda. Ningum para os acompanhar. Era uma noitada roubada, de que ningum suspeitava em Stanhope Gate, onde a imaginavam 
em casa de Soames. Esperara muito dessa astcia inventada por amor do noivo; esperara assim dissipar a espessa e fria nuvem e trazer as relaes de ambos - to enigmticas 
e torturantes nestes ltimos tempos -  simplicidade ensolarada que eles haviam experimentado antes do Inverno. Viera com a inteno de dizer qualquer coisa de preciso; 
e olhava para o palco com uma ruga entre as sobrancelhas, sem ver nada, as mos juntas e crispadas sobre os joelhos. Um enxame de suspeitas ciumentas picava-a toda.
Se Bosinney tinha conscincia da perturbao em que estava a noiva, no o demonstrava.
O pano caiu. Acabara o primeiro acto.
- Faz um calor horrvel aqui - disse a moa. - Gostaria de sair.
Estava muito plida, e sabia, porque os seus nervos aguados percebiam tudo, que ele se sentia ao mesmo tempo desajeitado e agitado de remorsos.
Nos fundos do teatro uma sacada descoberta dominava a rua; June apossou-se dela. e ficou apoiada ao rebordo, sem dizer nada. esperando que o noivo comeasse. Mas 
por fim no pde mais suportar o silncio.

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- Quero dizer-lhe uma coisa, Phil.
- Sim?
O tom defensivo daquela voz f-la corar, e as palavras subiram-lhe rpidas aos lbios:
- Voc no me d nenhuma oportunidade de ser gentil, j h sculos!
Bosinney mergulhou o olhar na rua; no respondeu. June exclamou, apaixonadamente:
- Voc sabe, Phil, que eu queria fazer tudo pelo seu amor. ser tudo para voc.
Vinha um zumbido da rua, e, atravessando este zumbido com um "ding" agudo, a sineta anunciou que iam levantar o pano. June no se moveu. Travava-se nela um combate 
desesperado. Deveria p-lo  prova? Lanaria um desafio directo quela influncia, quela atraco que lho roubava? Fazia parte da sua natureza, o desafio. E ela 
disse:
- Phil, leve-me no domingo para ver a casa!
Com um sorriso que tremia e se lhe quebrava nos lbios, e tentando - com que esforo! - no mostrar ao rapaz que o espiava, ela perscrutou-lhe o rosto: e viu-o vacilar, 
viu uma ruga preocupada cavar-se-lhe entre os olhos, viu-lhe o sangue afluir  testa. E Phil respondeu:
- Domingo, no, querida; outro dia!
- Porque no domingo? No domingo eu no incomodaria ningum.
Ele fez um esforo evidente e disse:
- Tenho um compromisso.
- Voc vai levar...
Ele ergueu os ombros, com um claro de clera nos olhos e replicou:
- Tenho um compromisso que me impedir de lev-la a ver a casa!
June mordeu o lbio at fazer sangue e voltou ao seu lugar sem dizer uma palavra, mas no pde impedir que as lgrimas de clera lhe corressem ao longo da face. 
Graas a Deus, a sala fora mergulhada na escurido por uma crise do drama, e ningum poderia ver o seu desgosto.

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Mas, mesmo no mundo dos Forsyte, nunca ningum deve supor-se a salvo de outros olhares!
Na terceira fila, atrs de June, Euphemia, a filha mais nova de Nicholas, que acompanhava a irm casada, Mrs. Tweetyman, espreitava.
E contaram em casa de Timothy como haviam visto June e o noivo no teatro.
- Nas poltronas de orquestra?
- No...
- Nos balces, ento! Parece que isso agora est na moda para a gente moa!
- No, no era tambm nos balces.. Num... De qualquer modo, aquele noivado no vai durar muito. No  possvel imaginar-se uma cara mais catastrfica do que a de 
June. - E, com lgrimas de prazer nos olhos, contaram que June dera um pontap no chapu de um cavalheiro ao voltar para o seu lugar no fim de um entreacto, e descreveram 
a cara que o cavalheiro fizera. Euphemia tinha um riso clebre, que se desfiava em silncio e terminava, da maneira mais desapontante, em gritinhos agudos; e quando 
Mrs. Small, erguendo as duas mos, repetiu: "Oh, querida! Um pontap num cha-a-pu!", ela deu tantos gritos que foi preciso acudir-lhe com sais volteis. E, ao partir, 
repetiu a Mrs. Tweetyman: - Um pontap num cha-a-pu! No,  de morrer!
Para a pobrezinha de June, a noite de que ela esperara tanta felicidade foi a mais infeliz que conhecera. Deus sabe como procurou abafar o orgulho, as suspeitas, 
o cime!
Separou-se de Bosinney  porta de Stanhope Gate, sem deixar de se controlar. O sentimento de que precisava reconquistar o noivo era bastante forte para a sustentar 
at que o som dos passos que se afastavam a fez compreender toda a extenso da sua misria.
O silencioso No Conformista f-la entrar. June desejaria deslizar directamente para o quarto, mas o velho Jolyon ouvira-a entrar e esperava-a  porta da sala de 
jantar.
- Venha tomar o seu leite - disse ele. - Est ainda morno. Voc est a chegar muito tarde. Onde esteve?

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June pusera-se diante do fogo, com um p no guarda-fogo e um brao sobre a lareira, na mesma atitude tomada pelo av na noite em que viera da pera. Estava muito 
prxima a explodir para dar importncia ao que respondia.
- Jantmos em casa de Soames.
- Hum! O proprietrio! A mulher dele estava... e Bosinney?
- Sim.
O olhar do velho estava fixo na neta com uma penetrao a que lhe seria difcil furtar-se; porm June no o olhava, e quando voltou o rosto para o av ele instantaneamente 
deixou de observar. Vira bastante, vira de mais. Curvou-se para apanhar a xcara de leite deposta sobre a lareira, e, voltando-se, murmurou:
- Voc no deveria ficar fora at to tarde. No lhe faz bem. Estava agora invisvel por trs do seu jornal, cujas pginas
amarrotava nervosamente; mas quando June veio beij-lo, o av disse: "Boa noite, minha filhinha", com uma voz to trmula e to inesperada que a moa precisou empregar 
todas as suas foras para sair da sala antes de se entregar quela crise de soluos que iria durar muito, pela noite adentro.
Quando se fechou a porta, o velho Jolyon deixou cair o jornal e ps-se a olhar diante de si, longamente, ansiosamente.
"Ah, miservel", pensava o velho. "Eu bem sabia que ela iria sofrer por causa dele."
E dvidas inquietas, suspeitas mais ferinas ainda porque no podia fazer nada para combater ou parar a marcha dos acontecimentos, assaltavam-no em massa.
"Seria que o sujeito iria abandon-la?" E o velho ardia por lhe dizer: "Por favor, cavalheiro? Est com vontade de abandonar a minha netinha?" Seria possvel? O 
velho Jolyon no sabia de nada, ou quase nada, mas, com a sua perspiccia infalvel, estava certo de que algo se passava. Suspeitava de que Bosinney ia com excessiva 
frequncia a Montpellier Square.
"O rapaz", pensava o velho, "no  talvez um malandro; no tem m cara, mas  esquisito; no o entendo bem. Dizem que ele trabalha como um negro, mas no vejo o 
resultado. No  prtico, no tem mtodo. Quando vem aqui, senta-se, triste como um macaco.

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Se lhe pergunto qual o vinho que toma, responde: - Qualquer um, obrigado! - Quando lhe ofereo um charuto, fuma-o como se fosse uma porcaria alem de dois pence. 
Nunca o vi olhar para June como deveria olh-la; e entretanto no  atrs do dinheiro dela que anda: Se ela lhe der o menor sinal, ele quebra o compromisso amanh. 
Mas no ser ela que far isso. No, ela no. Agarrar-se- a ele.  teimosa como o destino; nunca soltar a presa!"
Com um profundo suspiro, o velho Jolyon voltou ao jornal; talvez encontrasse nele alguma consolao.
E l em cima, no seu quarto, June, sentada junto  janela aberta, respirava o vento primaveril que, depois de passar sobre as folhas novas do parque, vinha refrescar-lhe 
as faces ardentes e queimar-lhe o corao.

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CAPTULO III.

PASSEIO COM SWITHIN.

Uma certa cano, que consta de um velho e famoso livro escolar, diz estes dois versos:
How the buttons on his blue frock shone, tra-la-la! How he carolled and he samg, like a bird... (1)
No se poderia dizer que Swithin gorjeasse como um pssaro, mas estava to bem-humorado que quase tentava cantarolar quando saiu de Hyde Park Mansions e contemplou 
os seus cavalos atrelados em frente  porta.
A tarde tinha a suavidade de um dia de Junho. E para completar a semelhana com a personagem da velha cantiga, Swithin vestira uma sobrecasaca azul, e, depois de 
ter obrigado Adolf a descer trs vezes para se certificar de que no havia a menor suspeita de vento leste, desistira de vestir o sobretudo. A sobrecasaca era to 
apertada em torno da sua figura imponente que, na verdade, os botes brilhantes da cantiga teriam feito nela um lindo efeito. Majestoso, em p na calada, ele enfiou 
as luvas de pele de co. Com a imensa cartola que parecia um sino, a sua alta estatura 

*1. Como brilhavam os botes da sua casaca azul, tr-l-l! E como ele gorjeava e cantava como um pssaro...

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e o seu vasto peito, tinha o ar primitivo de mais para um Forsyte. Os espessos cabelos brancos, que Adolf escovara com um pouco de cosmtico, exalavam um perfume 
de opopanace e de charutos, o cheiro dos famosos charutos de Swithin, que lhe custavam quarenta shillings o cento, e dos quais o velho Jolyon dizia que mesmo de 
graa no os fumaria e que eram charutos para um estmago de cavalo!
- Adolf!
- Senhor?
- Traga o xale novo!
Aquele rapaz no aprenderia nunca o que  elegante; e entretanto Mrs. Soames - Swithin estava certo - via logo essas coisas.
- Baixe a capota. Vou... conduzir... uma... senhora!
Uma linda mulher gostaria de mostrar o vestido; e ele ia... sim, ia conduzir uma senhora. Era como um retorno aos bons tempos antigos.
Fazia sculos que no levava uma senhora a passear de carro! A ltima vez, lembrava-se bem, fora Juley; mas a pobre velha ficara mais nervosa do que uma gata, durante 
todo o caminho, e impacientara-o tanto que, ao deix-la  porta de casa, ele dissera: "Levem-me os diabos se alguma vez mais eu a levar num passeio!)) E, com efeito, 
nunca mais a levara. Aquela no!
Dirigindo-se aos cavalos, examinou-lhes os freios - no que ele entendesse de freios; no pagava um ordenado anual de sessenta libras ao cocheiro para lhe fazer 
o servio? No estaria de acordo com os seus princpios. Na verdade, a sua reputao de sportman decorrera do facto de ter sido ele uma vez, num dia de Derby, embrulhado 
por um grupo de jogadores profissionais. Mas um colega do clube, vendo-o chegar de carro, dirigindo ele prprio os seus cavalos tordilhos (ele sempre tinha cavalos 
tordilhos; na opinio de muita gente, davam mais elegncia, embora custassem o mesmo preo que outros), o colega, pois, apelidara-o de "Forsyte Quatro Cavalos". 
O apelido fora-lhe transmitido por Nicholas Treffry, o defunto scio de Jolyon, apaixonado por carros e clebre por ter tido mais acidentes de veculo do que qualquer 
outro homem vivo do Reino. Swithin, desde ento, levara a peito corresponder ao apelido. Sentia-se encantado,

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embora no houvesse jamais guiado quatro cavalos, ou ao menos sonhasse faz-lo, mas porque esse ttulo lhe ressoava aos ouvidos como um diploma de elegncia. "Forsyte 
Quatro Cavalos!" Fis uma coisa que no parecia mal.
Trepado no assento, as rdeas na mo, os olhos piscando  luz forte do sol por sobre as suas velhas faces plidas, Swithin passeou um lento olhar em torno de si. 
Adolf j subira para o assento de trs; tudo esperava o sinal, e Swithin deu-o. A parelha atirou-se de um salto, e em menos tempo do que seria preciso para o contar, 
com um estrondo triunfal, chegou  porta da casa de Soames.
Irene saiu logo e subiu para o carro; Swithin descreveu-a mais tarde, em casa de Timothy: "To leve... como... bem... como a Taglioni; e sem reclamar nada, nem isto 
nem aquilo...-' E Swithin insistia sobre esse ponto, encarando Mrs. Septimus Small at torn-la nervosa: "Sem nervosismo tolo!" E descreveu  tia Hester o chapu 
de Irene: "No era uma dessas coisas imensas que vocs usam, que se espalham para todos os lados, colhendo a poeira; era um chapeuzinho...", e ele desenhou um crculo 
com o dedo, "pequenino, com um vu branco. De um bom gosto perfeito, "
- De que era feito? - perguntou a tia Hester, que manifestava um interesse lnguido mas inesgotvel todas as vezes que se tratava de vesturio.
- Feito de qu? - retorquiu Swithin. - Como  que voc quer que eu saiba? - E mergulhou num silncio to profundo que a tia Hester receou uma sncope. Mas no tentou 
faz-lo voltar a si, porque aquilo no estava nos seus hbitos.
"Estimaria bastante que chegasse algum", pensava ela. "No ficou a gostar das maneiras dele!"
Mas de sbito Swithin voltou  vida.
- Feito de qu? - rosnou lentamente. - De que queria voc que fosse feito?
Ainda no tinham andado quatro milhas, e Swithin sentia j a impresso de que Irene estava a gostar de passear com ele. O seu rosto estava to meigo sob o vu branco,

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os olhos escuros brilhavam com tal fulgor na claridade primaveril, e todas as vezes que ele falava, ela erguia-os para o tio, sorrindo.
Na vspera, de manh, Soames encontrara-a sentada  mesa; acabara de escrever a Swithin, adiando o passeio para outro dia qualquer. "Porqu adiar?", perguntara o 
marido. Ela tinha liberdade de fazer o que quisesse com a sua prpria famlia; mas com a famlia dele, no o admitiria!
Irene fixara-o com um olhar profundo, depois rasgara o bilhete, dizendo:
- Muito bem. - E ps-se a escrever outro bilhete. Um momento depois Soames olhou para o papel, e viu que era destinado a Bosinney.
- Que  que voc tem de escrever a ele? - perguntou. Irene, com o mesmo olhar profundo, respondeu tranquilamente:
- Foi uma coisa que ele me pediu para fazer.
- Hum, recados! - disse Soames. - Voc nunca mais acaba, se se meteu nesse ofcio. - E no disse mais nada.
Swithin arregalou os olhos ante a proposta de irem a Robin Hill; era uma corrida bem grande para os cavalos, e ele jantava sempre s sete e meia, antes que houvesse 
gente de mais no clube; o novo chefe s cuidava bem dos primeiros jantares. Era um malandro!
No entanto, tambm tinha vontade de dar uma olhadela  casa. Uma casa  coisa que fala sempre ao corao de qualquer Forsyte, principalmente se ele  um incorporador. 
E declarou que, afinal de contas, dez milhas no so nada. Quando moo, tivera uma casa em Richmond, durante anos; tinha l um carro e dois cavalos, que ele prprio 
guiava entre Richmond e o escritrio, diariamente.
Chamavam-lhe ento "Forsyte Quatro Cavalos". A sua charrette e os seus cavalos eram conhecidos desde Hyde Park Corner at ao Star and Garter. O duque de Z. gostaria 
bem de os comprar e dar-lhe-ia duas vezes o preo. Mas Swithin no os vendera. Quando a gente tem uma coisa boa, conserva-a. Um ar de orgulho solene espalhava-se 
sobre o seu rosto glabro e quadrado;

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e ele agitava a cabea entre as pontas do colarinho alto, como um peru que alisa a plumagem.
Ela era realmente uma mulher encantadora! E mais tarde descreveu-lhe o vestido  tia Juley, em termos que a fizeram erguer os braos ao cu.
Ia-lhe bem como uma luva, esticado como a pele de um tambor; era o que lhe agradava, uma silhueta inteiria; no lhe falassem nessas mulheres espalhafatosas, que 
parecem espantalhos. E olhava para Mrs. Septimus Small, que era comprida, magra e comeava a tornar-se parecida com James
- Tem estilo - continuava Swithin. -  mulher para um rei! E to serena, to calma!
- A voc, pelo menos, parece que ela conquistou - disse do seu canto a tia Hester, com voz arrastada.
Swithin ouvia muito bem, quando o atacavam.
- O qu? Sei reconhecer muito bem uma linda mulher quando a encontro, e tudo o que posso dizer  que no vejo rapaz nenhum  altura dela. Mas quem sabe se voc no 
v algum? Talvez veja!
- Oh - murmurou a tia Hester. - Pergunte a Juley. Entretanto, muito antes de chegarem a Robin Hill, o ar livre,
de que ele estava desacostumado, deu-lhe uma terrvel sonolncia. Guiava de olhos fechados, e s a fora adquirida numa vida inteira de bom-tom lhe mantinha erecta 
a volumosa estatura.
Bosinney, que esperava a chegada deles, veio-lhes ao encontro, e entraram juntos na casa.  frente, Swithin brincava com um forte junco de Malaca com casto de ouro, 
que Adolf lhe pusera na mo, porque os joelhos doam-lhe em virtude de terem demorado tanto na mesma posio. Vestira tambm a pelica para se garantir contra as 
correntes de ar de uma casa inacabada.
A escada, na sua opinio, era bonita. O estilo, senhorial. Seriam precisas esttuas! Parou entre as colunas do prtico que davam para o ptio interno e apontou a 
bengala com um gesto interrogador:
- E isto, que  que vocs vo fazer com este vestbulo, ou como  que lhe chamam? - Mas, vendo que a iluminao caa de cima, veio-lhe a inspirao: - Ah, o bilhar!

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Quando lhe disseram que seria um ptio mosaicado, com plantas no meio, Swithin voltou-se para Irene:
- Estragar esse espao com plantas? Siga a minha opinio: ponha a um bilhar!
Irene sorriu. Ela erguera o vu, que lhe vendava agora a fronte como um vu de freira, e por baixo dele o sorriso dos olhos escuros pareceu a Swithin mais encantador 
do que nunca. Balanou a cabea: sabia bem que ela lhe seguiria o conselho.
Achou pouco que dizer do salo e da sala de jantar, que qualificou de "espaosa"; mas caiu em xtase, tanto quanto poderia ser permitido a um homem da sua dignidade, 
quando entrou na adega, depois de ter descido alguns degraus, precedido por Bosinney, que segurava uma vela.
- Vocs aqui vo ter espao para seiscentas ou setecentas dzias! Uma adegazinha linda!
Mas como Bosinney manifestava o desejo de lhes mostrar o efeito que fazia a casa vista da encosta sob a colina, Swithin interrompeu-o:
- Aqui j temos uma linda vista. Voc no ter qualquer coisa parecida com uma cadeira?
Foram procurar-lhe uma cadeira na tenda de Bosinney. Ele sentou-se ao sol, prximo do carvalho, com uma das mos estendida e apoiada no casto da bengala, a outra 
estirada sobre o joelho; tinha a pelica aberta, a cartola encimava o plido quadrado da face e o olhar, muito vazio, fixava a paisagem.
Abanava levemente a cabea para os jovens que se afastavam atravs do campo. Ah, na verdade gostava bem que lhe dessem um minuto para reflectir. O ar tinha um cheiro 
bom, o sol no estava muito quente, a vista, belssima, indiscutivelmente uma vista notv... A cabea caiu-lhe um pouco de lado. Ergueu-a sobressaltado, e pensou: 
" engraado!" Ele... ah! Irene e Bosinney faziam-lhe sinais de baixo da encosta; ele ergueu a mo e agitou-a uma ou duas vezes. Os dois pareciam conversar animadamente. 
Sim, a vista era notv... A cabea pendeu-lhe para a esquerda, ele levantou-a imediatamente. Pendeu  direita, e l ficou. Swithin dormia.
E, no seu sono, parecia-lhe que dominava, sentinela imvel
no alto da colina, toda aquela paisagem "notvel", tal como uma esttua talhada em pedra pelos retratistas dos primitivos Forsyte, nos tempos pagos, para ilustrar 
o domnio do esprito sobre a matria.
E todas as geraes dos seus antepassados yeomen que, aos domingos, de braos cruzados, tinham velado o campo com os seus olhos cinzentos e imveis, sem revelar 
nada dos seus instintos - instintos violentos, instintos secretos de posse  revelia do resto do mundo-, todas essas geraes pareciam estar ao lado de Swithin, 
no alto da colina.
Mas fora dele que dormitava assim, o seu esprito ciumento de Forsyte andava por longe, atravs sabe Deus de que floresta de sonhos; seguia os dois jovens para ver 
o que eles faziam juntos no bosque, onde a Primavera louca espalhara o seu cheiro de seiva, os rebentos apojados, os mltiplos gorjeios de pssaros, os tapetes de 
campnulas azuis e de tenras ervas, e o ouro do sol preso nos ramos altos. Acompanhava-os, para ver o que os dois faziam caminhando ao longo do atalho estreito de 
mais, to perto um do outro, to prximos que a cada instante se tocavam; para espiar os olhos de Irene, cujas pupilas, como ladres escuros, pareciam roubar o prprio 
corao da Primavera. Parou com eles para olhar o cadverzinho aveludado de uma toupeira, morta h menos de uma hora, e cujo plo cor de prata, cor de cogumelo, 
no fora ainda tocado nem pela chuva nem pelo orvalho. Espiava a cabea inclinada de Irene, o doce olhar dos seus olhos cheios de piedade, o rosto do rapaz que a 
fitava de modo to estranho, to intenso. Depois caminhava com eles, atravessava a clareira onde o carvoeiro trabalhara, onde as campnulas estavam esmagadas, onde 
um tronco oscilara e cara, e jazia tombado ao p da raiz quebrada. Com eles escalou o tronco e aventurou-se at ao fim do bosque para olhar uma terra inexplorada, 
por onde perpassava um chamado vindo de longe: "Cu-co! Cu-co!"
Estava silencioso, aquele esprito ao lado deles, e perturbado pelo seu silncio. "Muito esquisito, muito estranho!"
Depois ps-se a voltar, como um culpado, atravs do bosque, at  clareira, sempre mudo por entre os cnticos infindveis dos pssaros e por entre o cheiro selvagem. 
"Hum, com que se pareceria?

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Ah, com as ervas que se pem na..." Voltou at ao tronco que jazia atravs do caminho.
Ento, invisvel, inquieto, batendo as asas por sobre os dois, tentando fazer barulho, o seu esprito de Forsyte olhou para a moa, em p junto ao tronco abatido. 
Viu que o seu lindo talhe ondulava, viu-lhe a boca sorrindo para o rapaz que a olhava de baixo, com olhos estranhos, to brilhantes - ei-la que desliza - a-ah! cai! 
o-oh! deixa-se cair sobre o peito do rapaz, ele abraa aquele corpo flexvel e quente, ela afasta o rosto dos lbios dele, ele beija-a, ela recua, ele grita: "Voc 
tem de saber que a amo! Tem de saber... na verdade... lindo! O amor! Ah!"
Swithin acordou. A sua energia abandonara-o. Tinha uma sensao de mau gosto na boca. Onde estava? Bolas! Dormira! E sonhara qualquer coisa a respeito de uma sopa 
nova, que tinha gosto de hortel. Para onde teriam ido aqueles dois? Sentia a perna esquerda dormente.
- Adolf!
O malandro no estava ali, o malandro decerto dormia em algum lugar. Ergueu-se, grande, quadrado, macio na sua pelica, percorreu os campos com o olhar, inquieto, 
procurando Irene e Bosinney, e depois viu-os voltando.
Irene caminhava  frente, e aquele rapaz - como  que o tinham apelidado? o pirata - parecia andar como um co, atrs dela. Estava envergonhado, Swithin no tinha 
dvida nenhuma, e era o que merecia, depois de a ter obrigado a andar tanto, para olhar a casa. Para se julgar uma casa, o melhor ponto de observao  o relvado.
Os jovens viram-no, ele estendeu o brao e agitou-o espasmodicamente para os animar. Porm, os dois pararam, porque diabo ficavam ainda parados, a conversar?
Avanavam de novo, ela dissera-lhe boas, com certeza, e ele merecia-o, por ter construdo uma casa como aquela - um casaro horroroso-, absolutamente o contrrio 
das casas a que Swithin estava habituado.
E o velho fitava atentamente o rosto de ambos, com os seus olhos plidos e fixos. O rapaz estava com um jeito esquisito!

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- Voc no conseguir fazer nada com isto - disse-lhe cruamente, apontando a casa. -  moderna de mais!
Bosinney encarouo com um olhar vago, como se o no tivesse ouvido. Swithin descreveu-o mais tarde  tia Hester: " um rapaz extravagante, tem um modo estapafrdio 
de olhar para a gente, com aquela cara toda cheia de bossas!" A testa proeminente de Bosinney, as mas salientes, o queixo, qualquer coisa de faminto que havia 
no seu rosto, contrastavam evidentemente com aquela saciedade tranquila que, para Swithin, representava a caracterstica de um gentleman perfeito.
 ideia de tomar ch, animou-se. Desprezava o ch - o seu irmo Jolyon negociara em ch e ganhara muito dinheiro-, mas sentia tanta sede e um tal mau gosto na boca 
que beberia qualquer coisa. Morria de vontade de falar a Irene daquele sabor que sentia na boca, pois ela compreendia sempre as pessoas to bem! Mas no seria um 
assunto distinto, agitava a lngua e fazia-a estalar de leve contra o palato.
Num canto, ao fundo da tenda, Adolf inclinava os seus bigodes de gato sobre uma chaleira. Ergueu-se imediatamente e foi desarrolhar uma meia garrafa de champanhe. 
Swithin sorriu e, balanando a cabea, disse a Bosinney:
- Voc  um legtimo Monte Cristo!
Aquele romance clebre, um dos cinco ou seis que lera em toda a vida, produzira-lhe no esprito uma impresso extraordinria. Apanhando o copo sobre a mesa, afastou-o 
da vista, para lhe ver bem a cor. Por mais sedento que estivesse, no se arriscaria a beber uma droga! Depois, levando o vinho aos lbios, provou-o.
-  um vinho muito agradvel-disse, passando o copo sob o nariz. - Mas no vale o meu Heidsieck!
Foi nesse momento que lhe surgiu no esprito a ideia que mais tarde exprimiu em casa de Timothy: "Eu no me admiraria se aquele arquitecto estivesse apaixonado por 
Mrs. Soames!" E a partir desse momento os seus plidos olhos redondos mantiveram-se sempre arregalados, tanto interesse sentia pela descoberta.
- O sujeito - contou ele a Mrs. Septimus Small - acompanha-a com os olhos como um cozinho, com aquela cara cheia de bossas.

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No me admiro:  uma mulher encantadora, uma flor de distino.
O vago sentimento de um perfume a flutuar em torno de Irene - igual ao aroma apaixonado que sai de uma flor entreaberta- inspirara-lhe aquela imagem.
- Mas eu no fiquei certo - continuou Swithin - seno depois que o vi apanhar o leno que ela deixara cair.
- E devolveu-o?-perguntou Mrs. Septimus.
- Devolver? - retorquiu Swithin. - Vi-o babar-se no leno, quando pensava que eu no estava a olhar!
Mrs. Small sufocava, interessada de mais para falar.
- Ela, porm, no o estimulava - continuou Swithin. E parou, durante um minuto ou dois, com aquele olhar fixo que tanto alarmava a tia Hester, lembrara-se de sbito 
que, ao subir na sua companhia para a charrette, Irene estendera a mo uma segunda vez para Bosinney e deixara-a na dele um bom momento. Ele estimulara vivamente 
os cavalos com o chicote, ansioso por t-la s para si. Ela porm voltara-se para olhar para trs, e no respondera  sua primeira pergunta. Swithin no pudera ver-lhe 
o rosto, que ela mantinha abaixado.
Existe num certo lugar um quadro, que Swithin nunca vira, que representa um homem junto a um rochedo, e perto dele, imersa na gua verde e plcida, est deitada 
de costas uma ninfa do mar, com a mo pousada no peito nu. A ninfa tem na face um meio sorriso - um sorriso de secreta alegria, que  uma promessa de rendio.
Sentada ao lado de Swithin, Irene deveria ter nos lbios um sorriso idntico.
Quando, reaquecido pelo champanhe, ele a teve s para si, abriu-lhe o corao e confiou-lhe as suas misrias, o seu ressentimento recalcado contra o novo cozinheiro 
do clube, os seus receios a respeito da casa de Wigmore Street - o canalha do inquilino falira, sob pretexto de auxiliar um cunhado, como se a caridade bem regulada 
no comeasse em ns prprios! - e depois a surdez, e aquela dor que aparecia s vezes do lado direito. Ela escutava. Os seus lindos olhos flutuavam sob as plpebras. 
Ele supunha-a absorta na evocao dos desgostos que lhe contava e sentia-se cheio de piedade por si mesmo.

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E no entanto, abotoado na pelica, com os alamares cruzados no peito, a cartola posta de lado, passeando de carro com aquela linda mulher, nunca se sentira mais distinto.
E aconteceu que um vendedor de legumes, que fazia na sua charrette, em companhia da namorada, um passeio domingueiro, parecia sentir de si prprio uma impresso 
idntica.  fora de chicotear o burro, f-lo galopar, e, na carriola que adernava, mantinha-se erecto como uma esttua de cera, o queixo pomposamente apoiado sobre 
um leno vermelho, tal como o de Swithin sobre a sua ampla gravata, enquanto a namorada, com as duas pontas do xaile voando aps ela, imitava uma mulher elegante. 
O casquilho agitava no ar uma vareta da qual pendia um cordel desfiado, reproduzindo com absoluta exactido o molinete que Swithin executava com o seu chicote e 
rolava a cabea para a pequena com olhadelas que lembravam, de uma maneira bizarra, o olhar de Swithin.
Swithin demorou um pouco a aperceber-se da presena do rstico, depois convenceu-se de que o arremedavam. Chicoteou o flanco da gua, porm uma desgraada fatalidade 
quis que os dois veculos ficassem emparelhados. O rosto amarelo e inchado de Swithin tornou-se rubro, ergueu o chicote para atingir o verdureiro, mas uma interveno 
da Providncia impediu-o de esquecer a tal ponto a sua dignidade. Uma carruagem que saa de um jardim lanou um contra o outro o faetonte e a carriola de burro, 
as rodas agarraram-se, e o mais leve dos veculos derrapou e virou-se.
Swithin no voltou a cabea. Ningum no mundo o faria parar o seu carro para auxiliar aquele labrego. Era bem feito se tivesse quebrado o pescoo!
Porm, mesmo se ele quisesse parar, no poderia faz-lo. Os tordilhos haviam-se assustado. O faetonte era sacudido  direita e  esquerda e os passantes erguiam 
as cabeas, assustados, vendo-o desfilar a toda a velocidade.
Os braos poderosos de Swithin, estendidos a todo o comprimento, agarravam-se s rdeas. Tinha as faces intumescidas, os lbios cerrados, todo o seu rosto inflamava-se 
de um vermelho ardente de clera.

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Irene pusera a mo no rebordo do carro, e a cada solavanco apertava-o com fora. Swithin ouvia-a perguntar:
- Ser que sofreremos um acidente, tio Swithin? Ele arquejou:
- No  nada! Os cavalos esto um pouco fogosos!
- Nunca sofri um acidente.
- Ateno! No se mova! - Swithin olhou-a. Ela estava sorridente, perfeitamente calma.
- Fique tranquila, no tenha medo - continuou ele. - Hei-de lev-la a casa!
E, a meio dos seus violentos esforos, admirou-se de ouvi-la responder com uma Voz que no era a sua:
- No me importo absolutamente se no voltar mais para casa!
O carro deu um salto terrvel, e a exclamao de Swithin voltou-lhe  garganta... Depois os cavalos, sem flego, numa subida da colina, acalmaram-se, puseram-se 
a trote, e afinal pararam por iniciativa prpria.
- Quando dominei os cavalos - contou Swithin em casa de Timothy -, olhei-a. No se movera. Estava ali, to calma como eu, benza-a Deus! Quem a visse diria que lhe 
era indiferente quebrar ou no o pescoo! Que foi mesmo que ela disse? "No me importo absolutamente se no voltar mais para casa!"
E, inclinando-se sobre o casto da bengala, ele rouquejou, com grande susto de Mrs. Small:
- E quer saber? Isso no me admira, com um palerma de um marido como Soames!
Swithin no teve a ideia de perguntar a si mesmo o que teria feito Bosinney depois que o deixara s, se fora errar, como um co a que Swithin o comparara, naquele 
bosque onde a Primavera enlouquecera, onde se ouvia ainda o apelo longnquo do cuco, se descera at l, apertando contra os lbios um leno cujo perfume se misturava 
ao cheiro da hortel e do tomilho, se descera at l com uma tal dor no corao, to selvagem e to deliciosa que lhe dava vontade de gritar, por entre as rvores. 
Mas, na verdade, que  que aquele rapaz poderia ter feito? Porque, antes de chegar  casa de Timothy, Swithin esquecera-o completamente.

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CAPTULO IV.

JAMES VAI VERIFICAR PESSOALMENTE.

Aqueles que no conheciam a Bolsa dos Forsyte no poderiam compreender o rebulio causado pela visita de Irene a Robin Hill.
Depois de Swithin ter contado em casa de Timothy a histria completa do memorvel passeio, essa mesma histria, com um trao de curiosidade, uma imperceptvell nuance 
de malcia e um desejo real de fazer bem, foi transmitida a June.
- E como  terrvel isso que ela disse, meu bem!-terminou a tia Juley. - No voltar para casa! Que quereria ela dizer?
Estranha histria para ser contada  moa. Ela ouviu-a corando penosamente, e de sbito, com um breve aperto de mo, despediu-se.
- June foi quase rude!-disse Mrs. Small  tia Hester, depois que a pequena se foi embora.
Segundo a maneira pela qual ela recebeu a notcia, tiraram-se as concluses adequadas. Aquilo perturbara-a. Portanto, havia algo. Esquisito! Ela e Irene tinham sido 
to ntimas! E tudo isso concordava perfeitamente com as aluses e murmrios que circulavam havia algum tempo. Recordava-se a histria que Euphemia contara de uma 
certa noite de teatro. Mr. Bosinney estava sempre em casa de Soames? Oh! Na verdade? Mas decerto.. naturalmente.. estava a construir a casa. Nada se dizia claramente.


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S eram necessrias palavras claras, na Bolsa dos Forsyte, nas ocasies mais graves e mais importantes. Aquele mecanismo era de ajuste delicadssimo. Uma aluso, 
por mais rpida, ou uma fugitiva expresso de dvida ou de pena bastavam para fazer vibrar a alma sensibilssima da famlia. Ningum desejava que tais vibraes 
pudessem repercutir de modo prejudicial sobre quem quer que fosse. Longe disso: provocavam-nas com as melhores intenes e de acordo com o sentimento de que o interesse 
de cada um dos membros se confundia com o da famlia.
Muitos jovens Forsyte pensavam naturalmente, e declaravam-no sem cerimnias, que no queriam que ningum se metesse com os seus negcios, porm as notcias da famlia 
eram conduzidas por uma corrente magntica impossvel de desviar. Ningum podia evitar ficar a saber de tudo..Sentia-se que nada se poderia fazer contra isso.
Um de entre os moos (Roger filho) tentara um esforo herico para libertar a jovem gerao, dizendo que Timothy era um "gato velho". O seu esforo recara com justia 
sobre ele prprio, porque tais palavras, tendo sido insidiosamente repetidas  tia Juley, foram transmitidas pela voz escandalizada desta ltima a Mrs. Roger, donde 
voltaram a Roger filho. E, afinal de contas, s os culpados eram atingidos. Assim aconteceu quando George perdeu tanto dinheiro no jogo de bilhar, ou o prprio Roger 
filho, quando andou to terrivelmente perto de se casar com uma mulher de quem (dizia-se) ele j era marido segundo as leis da Natureza, ou ainda Irene, que, sem 
muitos comentrios, se supunha em perigo.
Tudo isso era, no s agradvel, mas salutar. Matavam-se assim muitas horas, em casa de Timothy, no salo de Bayswater Road, tantas horas que, sem isso, passariam 
estreis e pesadas para as trs pessoas idosas que l viviam, e a casa de Timothy era apenas um exemplo entre centenas de casas semelhantes da cidade de Londres, 
casas de gente neutra, instalada na sua segurana, e que, j estando fora da batalha, precisava pedir a sua razo de existir s batalhas alheias.
Sem a doura do mexerico familiar, a vida seria bem montona em casa de Timothy. Boatos e histrias, informaes e conjecturas

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- no eram eles os filhos da casa, to queridos, to preciosos, quanto esses garotos de adorvel balbucio que haviam faltado aos irmos e irms durante a sua prpria 
jornada? Falar desses netos dos irmos, que despertavam nostalgia nos seus coraes afectivos, no era, tanto quanto possvel, apropriar-se deles? Se era talvez 
duvidoso que houvesse qualquer nostalgia no corao de Timothy,  incontestvel que, todas as vezes que nascia uma criana em casa de algum Forsyte, isso o perturbava 
inteiramente. Era pois intil e pouco amvel Roger filho chamar-lhe "gato velho", ou Euphemia erguer os braos para o cu, gritando: "Oh. aqueles trs!", acabando 
por soltar o seu riso silencioso que terminava por um grito agudo.
A situao que poderia, no ponto a que chegmos, parecer estranha, para no dizer impossvel - sobretudo a olhos de Forsyte - era, se nela atentarmos, muito natural, 
afinal de contas. Certas coisas haviam sido perdidas de vista. E alm disso, na segurana produzida por um grande nmero de casamentos pacficos, havia-se esquecido 
que o amor no  uma flor de estufa, mas uma planta selvagem, nascida de uma noite de chuva, de uma hora de sol, germinada de uma semente absurda que um vento de 
loucura atirou para a estrada - uma planta selvagem a que chamamos flor se por acaso ela rebenta por entre a sebe do jardim, erva daninha quando cresce do lado de 
fora, mas que, flor ou erva daninha, guarda sempre a cor e o perfume selvagem que tinha nos bosques. Depois disso, como os factos e os algarismos da vida deles se 
opunham  percepo dessa verdade, os Forsyte praticamente no admitiam que onde cresa essa planta selvagem os homens e as mulheres sejam apenas falenas em torno 
da plida flor-chama.
Longos anos se haviam passado depois da fuga de Jolyon filho, e j se podia recear, entre os Forsyte, a volta de uma tradio segundo a qual gente da sua posio 
no atravessa jamais a sebe do jardim para colher aquela flor, uma tradio que exige que passemos pelo amor como passamos pelo sarampo, no tempo devido, saindo 
depois confortavelmente, de uma vez por todas, para os braos de Himeneu, como se sai do sarampo absorvendo uma mistura de manteiga e mel.

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Entre todas as pessoas atingidas pelo estranho rumor que misturava os nomes de Bosinney e de Mrs. Soames, foi James a mais afectada por ele. J h muito ele esquecera 
como voltara, lnguido e plido, com as suas suas castanhas, em torno de Emily, no tempo em que a namorava. Esquecera a casinha dos arredores de Mayfair onde passara 
os primeiros dias do casamento, ou antes, esquecera esses primeiros dias, no a casinha: um Forsyte no esquece nunca uma casa, e ele vendera aquela com um lucro 
lquido de quatrocentas libras.
Esquecera aqueles dias, com as suas esperanas e receios, as suas dvidas quanto  prudncia daquela unio (porque Emily, embora bonita, no possua nada, e ele, 
naquele tempo, no fazia seno cerca de mil libras por ano). Esquecera a estranha, irresistvel atraco que lhe fizera sentir que morreria se no casasse com aquela 
moa de cabelos louros to lindamente tranados sobre a nuca, de lindos braos emergindo do colete apertado, de cintura encantadora protegida benevolamente por uma 
anquinha de circunferncia prodigiosa.
James passara pelo fogo, mas havia passado tambm pela correnteza dos anos, que extinguem o fogo, fizera a mais triste de todas as experincias: a de esquecer o 
que significa amar. Esquecera, esquecera h tanto tempo que chegara a esquecer at o seu esquecimento.
E agora vinha aquele boato amea-lo, aquele boato a respeito da mulher do seu filho, coisa vaga, sombra fugidia entre as palpveis e claras realidades, ininteligvel 
como um fantasma trazendo consigo, como um fantasma, um inexplicvel terror.
Tentou afront-lo em esprito, mas era-lhe to impossvel quanto aplicar a si mesmo uma daquelas histrias trgicas que lia todas as noites no seu jornal. No o 
podia. Aqueles boatos, decerto, no significariam nada. Seria tudo disparate. Ela talvez no se entendesse muito bem com Soames, mas era uma boa menina... uma boa 
menina!
Como a maioria dos homens, James apreciava o saber de uma pontinha de escndalo, dizia, por exemplo, lambendo os lbios: "Sim, sim, dizem que ela e o jovem Dyson 
vivem juntos em Monte Carlo!"
Mas que uma questo desse gnero aparecesse, implicando nela o seu passado, o seu presente e o seu futuro, nunca o pensara. Nunca perguntara a si prprio de que 
torturas e de que xtases tal questo seria o fruto, que lento e invencvel destino se emboscaria nos factos muito crus, s vezes srdidos, mas em geral saborosos, 
que lhe eram apresentados. Ele no tinha o hbito de censurar ou de louvar, de deduzir ou de generalizar a propsito dessas coisas, contentava-se em escutar, no 
sem gulodice, e de o repetir depois, tal prtica parecendo-lhe to agradvel quanto provar uma mistura de sherry e bitter antes do jantar.
Mas agora que uma coisa idntica, ou que pelo menos o ar de uma tal coisa o ameaava pessoalmente, parecia-lhe que caminhava dentro de um nevoeiro, o que lhe dava 
 boca um gosto espesso e amargo e o impedia de respirar.
Um escndalo! Haveria talvez um escndalo!
Era repetindo essas palavras que ele conseguia concentrar os seus receios e tornar o perigo tangvel. Esquecera as sensaes sem as quais  impossvel compreender 
a marcha, a fatalidade, o prprio sentido de uma histria. Apenas no concebia que ningum pudesse correr um risco por causa de uma paixo.
Pensando em todos os seus conhecidos, que diariamente acorriam  City para tratar de negcios e que nos momentos de lazer compravam aces ou casas, saboreavam bons 
jantares ou jogavam- parecer-lhe-ia ridculo supor que poderia existir entre eles algum capaz de correr riscos, por amor de coisa to recndita e to abstracta 
como uma paixo.
Paixo! Parecia-lhe com efeito que j ouvira falar disso, e no seu esprito, como os meridianos num mapa-mndi, tinha impressas certas regras mais ou menos assim: 
"No se deve jamais deixar a ss uma moa e um rapaz." (Todos os Forsyte, quando se trata dos alicerces da vida, sabem mostrar-se muito precisos no seu realismo.) 
Fora disso, no podia imaginar nada a tal respeito, seno sob o aguilho desta palavra gritante: escndalo!
Ah, mas no era verdade! No poderia ser verdade. Ele no tinha medo, ela era realmente uma excelente mulherzinha. Mas eis o que acontece quando uma tal ideia nos 
entra na cabea? E James era um temperamento nervoso:

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um desses homens que os acontecimentos esgotam e que se torturam a prever e a hesitar.
Com medo de deixar escapar algum lucro, sofria uma impossibilidade fsica de se resolver, at ao momento em que ficava claro que a sua prpria indeciso iria prejudic-lo.
Entretanto, muitas vezes na vida encontrara circunstncias em que o encargo da deciso a tomar no lhe pesava sobre os ombros: e, naquele caso, acontecia assim.
Que poderia fazer? Falar a Soames? S conseguiria piorar as coisas. E, alm do mais, no havia nada, estava certo.
Aquela casa nova era a causa de tudo. O projecto nunca lhe inspirara confiana. Porque quereria Soames instalar-se no campo? E, se decidira gastar tanto dinheiro 
para construir a tal casa, porque no procurara um arquitecto de classe, em vez desse jovem Bosinney de quem ningum ainda ouvira falar? Ele bem dissera como aquilo 
acabaria, pois j lhe tinha chegado a notcia de que a casa nova estava a custar a Soames uma bonita soma acima do seu oramento.
Melhor do que qualquer outro, esse facto fez que James apreendesse o perigo da situao. Esses demnios de artistas so sempre assim, e um homem sensato no se deve 
meter com eles. Tambm prevenira Irene, estava a o resultado.
E subitamente James teve a inspirao de que faria bem se fosse ao local da histria para ver tudo com os seus olhos. Naquela nvoa de inquietao onde o seu esprito 
se debatia, dava-lhe uma inexplicvel satisfao a ideia de que poderia ver a casa. Talvez fosse apenas graas  circunstncia de se decidir a fazer alguma coisa 
ou talvez o aliviasse o pensamento de que ia visitar uma casa.
Sentia que ao sair para ver um edifcio feito de tijolos e alvenaria, de pedras, de madeira, construdo pelo prprio homem que o inquietava, aproximar-se-ia da coisa 
que dera origem quele boato a respeito de Irene.
E por isso, sem dizer nada a ningum, apanhou um carro, que o levou  estao, e depois o comboio para Robin Hill, chegando l, como no havia carros, viu-se obrigado 
a caminhar.
Ps-se lentamente a subir a colina, curvava lamentosamente os joelhos angulosos e os ombros aflitos, com os olhos fixos nos ps. O seu trajo, no entanto, era bem 
tratado, trazia cartola, e a
sobrecasaca tinha aquele lustro sem manchas que s pode ser mantido por um incansvel cuidado. Emily tratava disso, no directamente,  natural - as pessoas de uma 
certa sociedade no se preocupam com os botes de outras pessoas-, mas cuidava em que o criado de quarto cuidasse disso.
James teve de perguntar o caminho trs vezes, de cada vez repetia as indicaes que lhe davam, pedia aos homens que as repetissem, repetia-as de novo, porque ele 
era naturalmente loquaz, e num lugar desconhecido no  preciso empregar demasiada prudncia.
Afirmava aos interlocutores que era uma casa nova o que procurava, e no entanto foi apenas quando lhe mostraram o telhado atravs das rvores que ele se sentiu tranquilo 
e deixou de recear que lhe houvessem ensinado o caminho errado.
O cu pesado cobria uma atmosfera de uma brancura acinzentada, como um telhado caiado, o ar no tinha frescura nem perfume. Num dia assim, os operrios, mesmo os 
ingleses, no cuidam em fazer seno a sua tarefa, e trabalham sem aquele zumbido de conversa que alivia o peso do labor.
Entre os espaos da casa inacabada, homens em mangas de camisa trabalhavam lentamente, rumores erguiam-se, pancadas espasmdicas, rangidos de metal que se arranha, 
de madeira que se serra, rodar de carrinhos de mo sobre as tbuas. De tempos a tempos o cachorro do contramestre, amarrado por uma corda a uma trave de carvalho, 
gemia fracamente, com um som idntico  gua a ferver numa chaleira.
Os vidros recm-postos, borrados de tinta branca no meio, olhavam fixamente para James, como um co cego.
E a sinfonia dos pedreiros e carpinteiros prolongava-se, estridente e sem alegria, sob o cu esbranquiado, e os tordos, que caavam minhocas na terra revolvida, 
calaram-se.
James encaminhou-se por entre os montes de garranchos (estavam a abrir as leas) e chegou em frente do prtico. L, parou e ergueu os olhos. S tinha pouco a ver 
naquele lugar, e esse pouco James apanhou-o imediatamente, mas ficou sem se mover durante longos minutos, e quem poderia dizer no que pensava?
Os olhos de um azul de porcelana, sob as sobrancelhas brancas,

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que se projectavam como pequenos chifres, no se moviam, o longo lbio superior da sua boca, entre as finas suas brancas, estremeceu uma vez ou duas, e diante 
daquela expresso ansiosa e absorta, poder-se-ia facilmente adivinhar de quem herdara Soames o ar vencido que s vezes lhe passava pelo rosto. Talvez James estivesse 
a dizer para si prprio: "No sei.. a vida no  um negcio fcil..."
Foi nessa atitude que Bosinney o surpreendeu. James, abandonando sabe Deus que nuvens, baixou os olhos sobre o rosto de Bosinney, que tinha uma expresso de sarcasmo 
e divertimento:
- Como vai, Mr. Forsyte? Veio verificar?
Era exactamente aquilo, bem o sabemos, que James viera fazer. E ele sentiu um mal-estar proporcional  exactido da suposio. Estendeu a mo e respondeu: "Como 
vai?", sem olhar para Bosinney.
O rapaz, com um sorriso irnico, f-lo passar diante de si.
James farejou algo de suspeito naquela cortesia.
- Gostaria mais de dar a volta  casa - disse ele - e ver em que p vocs esto.
Um terrao, pavimentado de pedras arredondadas e inclinado duas ou trs polegadas para a esquerda, seguia ao longo da face sudeste e sudoeste da casa, elevando-se 
num talude oblquo que ia ser arrelvado. James avanou primeiro para esse terrao.
- Quanto teria custado isso? - perguntou ele quando, depois de feita a curva, viu a segunda parte do terrao.
- Em quanto avalia? - perguntou Bosinney.
- Como poderei sab-lo? - perguntou James mais ou menos desconcertado. - Duzentas ou trezentas libras, talvez?
- A soma exacta!
James lanou-lhe um olhar rpido, mas o arquitecto tinha o ar mais natural deste mundo, e James teve de supor que o rapaz no o escutara bem.
Chegando  entrada do jardim, parou para olhar a paisagem.
- Aquilo deve ser derrubado - disse ele, apontando o carvalho.
- O senhor acha? Acha que, conservando-se essa rvore, a vista no pagar o dinheiro gasto?

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James encarou-o de novo com o olhar suspeitoso, aquele rapaz tinha um modo singular de apresentar as coisas.
- Pois  - disse ele com nfase perplexa e nervosa -, no vejo para que serve essa rvore.
- Ser derrubada amanh. James alarmou-se,
- No v dizer a ningum que eu disse que deveriam derrub-la. No entendo nada disso.
- No?
James continuou, agitado:
- Como  que voc quer que eu entenda? No tenho nada com isso. Faa-o sob a sua responsabilidade.
- O senhor permite que eu mencione o seu nome? James sentia-se cada vez mais alarmado:
- No sei por que diabo quer voc mencionar o meu nome - murmurou. -  melhor que deixe essa rvore em paz. No  sua. - Puxou o leno de seda e enxugou a testa.
Entraram ambos na casa. E, tal como Swithin, James sentiu-se impressionado pelo ptio interior.
- Voc deve ter gasto um dinheiro doido aqui - disse ele depois de contemplar durante algum tempo as colunas e a galeria. - Vamos l, por quanto lhe saiu o levantamento 
dessas colunas?
- No poderei dizer-lhe assim, do p para a mo - respondeu pensativamente Bosinney -, mas o que sei  que custou realmente um dinheiro doido!
- Bem o creio - disse James. - E eu pensava...
O seu olhar encontrou o do arquitecto, e ele parou de sbito. E desde esse momento, quando desejava saber o preo de qualquer coisa, abafava a curiosidade.
Bosinney mostrou-se determinado a fazer que James visse tudo que havia para ver, e, se tivesse um esprito mais atento, James ter-se-ia surpreendido de estar, pela 
segunda vez, a dar a volta  casa. Bosinney parecia tambm to desejoso de ser interrogado que James percebeu a necessidade de tomar cuidado. Comeava a sentir-se 
fatigado, pois, embora tivesse amplos recursos fsicos para um homem de to grande estatura, j fizera setenta e cinco anos.
Veio-lhe o desnimo, sentia que no ganhara nada,

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que a sua inspeco no lhe trouxera nenhuma das certezas que vagamente esperara. Viera apenas para aumentar a sua averso e a sua desconfiana para com o rapaz, 
que o esgotara com a sua polidez, e na atitude do qual ele descobria agora a zombaria, com absoluta certeza.
No o supusera to esperto e esperara encontrar-lhe uma pior aparncia. E, alm disso, o moo tinha um ar desabusado que James, para quem um risco era a coisa mais 
intolervel do mundo, no apreciava, e um sorriso singular, tambm, que aparecia no momento em que menos era esperado, e olhos esquisitos. Segundo James o disse 
depois, fazia pensar num gato esfomeado. Na sua conversa com Emily, foi a expresso melhor que encontrou para descrever a singular mistura de exasperao, de doura 
aveludada e de zombaria que sentira nos modos de Bosinney.
Por fim, tendo visto tudo que havia para ver, transps a porta pela qual entrara, e ento, sentindo que perdia tempo, fora e dinheiro a troco de nada, segurou com 
as duas mos toda a sua coragem de Forsyte, e, olhando de sbito para Bosinney, disse:
- Segundo penso, voc avista-se sempre com a minha nora: diga-me agora: que pensa ela da casa?  verdade que ainda no a viu?
Disse isso, embora estivesse perfeitamente a par da visita de Irene. E, alis, nada havia de inslito em tal visita, salvo a exclamao extraordinria: "No me importa 
absolutamente se no voltar para casa!", alm do modo como June acolhera a notcia do passeio.
Mas com esse modo de articular a pergunta, decidira-se a dar a Bosinney uma ocasio de se explicar.
O rapaz demorou bastante a responder., mas manteve os olhos fixos em James, com uma persistncia incmoda.
- Ela viu a casa, mas no poderei dizer-lhe o que pensa. Embora nervoso e desconcertado, James era feito de tal maneira
que no poderia abandonar o assunto.
- Oh, ela viu-a? Foi Soames que a trouxe decerto? Bosinney respondeu sorrindo:
- Oh, no!
- Como ento? Veio s?
- Oh, no!

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- Ento... quem a trouxe?
- Na verdade, no sei se posso dizer-lhe com quem ela veio. Para James, que sabia que fora com Swithin, essa resposta
parecia ininteligvel.
- Mas como - balbuciou ele-, voc bem sabe...
Mas parou, percebendo subitamente o perigo onde se metia.
- Muito bem, se no o quer dizer, suponho que no o dir! Nunca ningum me diz nada.
E ficou muito surpreso porque Bosinney, por sua vez, tambm lhe fez uma pergunta:
- A propsito, o senhor poder dizer-me se ainda haver outros, na famlia, que queiram vir aqui? Gostarei de estar presente.
- Se ainda vm outros? - falou James, assombrado. - Quem  que voc quer que ainda venha? No sei se h quem queira. At  vista.
Olhando para o cho, estendeu a mo, cuja palma passou sobre a de Bosinney, depois, segurando o guarda-chuva bem por cima da seda, afastou-se pelo terrao. Antes 
de dobrar o ngulo, lanou um olhar para trs, e viu Bosinney que o acompanhava lentamente, "deslizando ao longo da parede", segundo disse de si para si, "como um 
gatarro". E no deu ateno quando o rapaz ergueu o chapu.
Quando atravessou a avenida principal e se sentiu fora do alcance de vista, diminuiu o passo. Lentamente, mais curvo do que na vinda, magro, oco, abatido, tornou 
a percorrer o caminho para a estao.
E o Pirata, vendo-o afastar-se to triste, talvez tenha lamentado um pouco a sua atitude para com o velho.

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CAPTULO V.

CORRESPONDNCIA ENTRE SOAMES E BOSINNEY.

James nada contou ao filho a respeito da sua visita a Robin HiLl, porm, tendo de ir, certa manh,  casa de Timothy para conversar sobre um projecto de drenagem 
que as autoridades sanitrias impunham ao irmo, foi l que aludiu ao assunto.
No era propriamente uma casa mal feita, declarou ele. Via bem que se poderia tirar um bom partido dela. A seu modo, aquele Bosinney era competente. Mas quanto dinheiro 
aquele negcio devoraria a Soames, antes de ficar pronto, era coisa que ningum sabia.
O acaso permitiu que Euphemia Forsyte se encontrasse l, viera pedir emprestado o ltimo romance do reverendo Mr. Scoles, Paixo e Paregrico, que estava to em 
moda. E disse:
- Vi Irene ontem, na Stores. Estava na confeitaria, conversando com Mr. Bosinney.
Foi nesses termos simples que Euphemia mencionou uma cena que lhe produzira uma impresso profunda e complicada. Na vspera atravessara  pressa a seco de sedas 
da Church and Commercial Stores (instituio que, com o seu admirvel sistema admitindo apenas pessoas idneas e fazendo as vendas na base do pagamento no acto da 
entrega, tornava-se o emprio ideal para os Forsyte)  procura de um retalho de cetineta para a me.,

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que a esperava no carro. Ao atravessar a confeitaria, os seus olhos foram desagradvelmente atrados para uma silhueta de rara beleza, que se mantinha de costas. 
Era uma mulher de to lindas propores, o equilbrio do seu porte era to perfeito e estava to bem vestida, que Euphemia, com o seu sentido instintivo das convenincias, 
levou-a imediatamente a mal. Sabia, mais por intuio do que por experincia, que a virtude nunca se d bem num corpo daqueles: o seu prprio corpo era s vezes 
um pouco difcil de acomodar.
E sentiu prazer em ver confirmadas as suas suspeitas: um rapaz que saa da farmcia tirou vivamente o chapu e abordou a senhora de costas desconhecidas.
Foi ento que Euphemia compreendeu de quem se tratava: a senhora era com toda a certeza Mrs. Soames, e o rapaz Mr. Bosinney. Dissimulou-se rapidamente, absorvendo-se 
na compra de uma caixa de tmaras da Tunsia, porque no apreciava os encontros esquivos, feitos durante as horas ocupadas da manh, com as mos cheias de embrulhos. 
E foi assim, absolutamente involuntria, a testemunha interessadssima da rpida entrevista.
Mrs. Soames, que  habitualmente um pouco plida, tinha as faces deliciosamente coradas, e as maneiras de Mr. Bosinney eram estranhas, embora muito atraentes (ela 
atribua ao jovem arquitecto um ar de distino, e o romntico apelido de Pirata que George lhe dera parecia-lhe encantador). Tinha o ar de quem suplica. Conversavam 
com tanta convico, ou antes, ele falava com tanta convico porque Mrs. Soames no dizia quase nada. que, sem o sentirem produziram um atropelo na circulao. 
Um velho e simptico general, que se dirigia  charcutaria, foi obrigado a dar uma volta, e, olhando para o rosto de Mrs. Soames, tirou amavelmente o chapu. Velho 
tolo! Eis como so os homens!
Mas eram sobretudo os olhos de Mrs. Soames que perturbavam Euphemia. Ela nem uma vez os levantou para Mr. Bosinney at que ele a deixou, mas quando o rapaz se afastava, 
olhou-o - e com que olhar!
Euphemia consagrara muito de ansiosa reflexo quele olhar. Talvez no fosse excessivo dizer que ele lhe fizera mal, pela sua doura sombria e lenta, como se na 
verdade a moa desejasse chamar de volta o rapaz e desdizer alguma palavra dita.

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Ah! E Euphemia no tinha mais tempo de aprofundar aquela histria, com a sua cetineta na mo, mas estava intrigada, muito intrigada! Fizera apenas um rpido cumprimento 
de cabea a Mrs. Soames, para lhe mostrar que a vira, e segundo contou depois  sua melhor amiga, Francas, filha de Roger, "ela parecia ter sido apanhada com a boca 
na botija".
James, cujo primeiro impulso era repelir qualquer informao que lhe viesse confirmar as suas pungentes suspeitas, replicou logo:
- Oh! Na certa eles estavam a escolher os papis para a parede! Euphemia sorriu.
- Na confeitaria? - disse docemente. E, apanhando sobre a mesa o Paixo e Paregrico, acrescentou: - Ento empresta-me isto, tia? At logo! - E saiu.
James saiu quase imediatamente depois: j estava atrasado. Quando chegou ao escritrio Forsyte, Bustard & Forsyte, encontrou Soames sentado na sua poltrona giratria, 
preparando as peas para uma defesa.
O filho acolheu-o com um "bom dia" rpido e, tirando um envelope do bolso, disse:
- Veja isso,  curioso. James leu o seguinte:

.Meu caro Forsyte:
Como a construo da sua casa est terminada, o meu papel de arquitecto acabou. Se tenho de ultimar o trabalho de decorao que iniciei a seu pedido,  preciso que 
fique convencionado que terei carta branca.
Voc nunca vem a Robin Hiil sem sugerir qualquer coisa que v de encontro aos meus planos. Tenho aqui trs cartas suas, em cada uma das quais me faz recomendaes 
a respeito de coisas que eu nunca pensara admitir. Seu pai veio aqui ontem  tarde e deu-me outros valiosos conselhos.
Peo-lhe pois que decida: ou que eu lhe faa a decorao, ou que me retire. Alis, preferia esta ltima soluo.

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Mas compreenda bem, por favor, que, se eu fizer a decorao, quero faz-la s, sem nenhuma espcie de interferncia. Se me encarregar da coisa, f-la-ei completa, 
mas quero ter as mos livres.
Seu, sinceramente,

Philip Bosinney.

Ningum poderia indicar a causa exacta e imediata daquela carta, mas no  improvvel que Bosinney fosse movido por qualquer revolta sbita contra a sua atitude 
em relao a Soames - aquela eterna situao da Arte em relao  Propriedade, que  maravilhosamente resumida num dos mais indispensveis aparelhos da vida moderna, 
numa frmula comparvel aos mais belos resumos de Tcito:
THOS T. SORROW Inventor
BERT M. PADLAND Proprietrio
- Que  que voc vai responder? - perguntou James.
.Soames nem sequer virou a cabea. - Ainda no decidi.- E voltou ao trabalho. Um dos seus clientes fizera algumas construes sobre um terreno que no lhe pertencia 
e fora de sbito, do modo mais irritante, intimado a demoli-las. E entretanto, depois de um exame cuidadoso dos factos, Soames encontrara um meio de opinar que o 
seu cliente tinha o que se chama um direito de ocupao, e que, embora decerto o terreno no fosse seu, tinha direito de se manter l. Soames tratava agora de concluir 
o parecer e tomava medidas para o fazer prevalecer.
Tinha uma boa reputao, feita graas  solidez dos seus pareceres, e dizia-se: "Procure o jovem Forsyte:  um rapaz que v longe." E ele dava uma grande importncia 
a essa reputao.
O seu gnio taciturno depunha a favor dele. Nada poderia ser melhor calculado para dar  clientela, sobretudo  clientela capitalista - Soames no tinha outra-

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a impresso de um homem de confiana. Tradio, hbitos, educao, aptido hereditria, prudncia nata, todos esses elementos reuniam-se para compor uma slida honestidade 
profissional, inacessvel  tentao em virtude de se fundamentar sobre o horror instintivo do risco. Como poderia ele cair, se a sua alma abominava as circunstncias 
que tornam possvel uma queda? Ningum cai do cho!
E havia ainda todos os Forsyte que, no decorrer de inmeras transaces, a respeito de toda a espcie de propriedades - desde as suas mulheres at aos seus direitos 
de pesca -, tinham necessidade dos servios de um homem de confiana, e viam ao mesmo tempo segurana e proventos em confiar em Soames. Aquela atitude levemente 
desdenhosa que lhe era peculiar, junta ainda a um ar pesquisador, tambm falavam a seu favor: ningum  desdenhoso quando no tem nada por dentro!
Era ele quem realmente dirigia o escritrio, pois, embora estivesse l quase diariamente, para ficar a par de tudo, James j quase no fazia mais, actualmente, seno 
sentar-se na sua poltrona, enrolar as pernas, lanar um pouco de confuso nos negcios j resolvidos, e depois ir-se embora: o outro scio, Bustard no passava de 
um pobre diabo que dava conta de muito trabalho, mas cuja opinio ningum jamais pedia.
Assim Soames continuava a redigir imperturbavelmente o seu memorial. E entretanto no se poderia dizer que o seu esprito estivesse  vontade. Pressentia uma desgraa. 
Essa impresso perseguia-o havia algum tempo. Tentava atribu-la a causas fsicas, ao estado do fgado, mas no conseguia venc-la.
Olhou o relgio: dentro de um quarto de hora deveria estar na assembleia geral da New Colliery Company - um dos negcios do tio Jolyon - e o tio Jolyon deveria estar 
l: Soames falar-lhe-ia de Bosinney. No sabia ainda ao certo o que lhe diria, mas estava resolvido a falar-lhe, de qualquer modo, no responderia  carta antes 
de falar ao tio Jolyon. Ergueu-se e arrumou metodicamente as folhas soltas do seu rascunho do memorial. Entrou depois num gabinete escuro, acendeu a luz elctrica, 
lavou as mos com um pedao de sabo pardo de Windsor e enxugou-as numa toalha presa a uma travessa. Escovou depois os cabelos, estreitamente atento  risca,

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apagou a luz, tomou o chapu, e, prevenindo que voltaria s duas e meia, saiu.
O caminho no era comprido de l aos escritrios da New Colliery Company, em Ironmonger Lane, onde se realizava sempre a assembleia geral, em vez do hbito mais 
decorativo de outras sociedades, que se reuniam no Cannon Street Hotel.
Desde o incio, o velho Jolyon mostrara-se refractrio s intruses da imprensa. Que tinha o pblico a ver, dizia ele, com os seus negcios?
Soames chegou  hora devida, e tomou o seu lugar ao lado do conselho, cujos membros, sentados em fila, cada director com o seu tinteiro diante de si, faziam face 
aos accionistas. Nessa fila, no centro, o velho Jolyon, com os seus bigodes brancos e a sobrecasaca preta toda abotoada., apoiava-se ao encosto da cadeira e cruzava 
as pontas dos dedos sobre um exemplar do relatrio dos directores.
 sua direita sentava-se o secretrio Hemimings, uma tristeza triste de mais, irradiava dos seus belos olhos, a barba, de um cinzento de ao, parecia de luto, como 
todo o resto da pessoa, e dava a impresso de que, por baixo dela, ele tinha uma gravata negrssima.
Na verdade, a circunstncia era melanclica. Havia apenas seis semanas que Scorrier, o perito enviado em misso especial s minas da Companhia, telegrafara aos directores 
informando que Pippin, o administrador geral, se suicidara no momento em que escrevia, depois de um extraordinrio silncio de dois anos, uma carta ao conselho. 
Aquela carta estava agora ali, na mesa: a sua leitura seria feita aos accionistas, que, naturalmente, deveriam ser postos ao corrente de todos os factos.
Hemmings j o dissera muitas vezes a Soames, conversando em p junto  lareira, com as mos mergulhadas nas abas do palet: "Nos nossos negcios, os accionistas 
no ignoram seno o que no vale a pena saber-se. Pode crer, Mr. Soames." Soames recordara um pequeno incidente desagradvel que ocorrera uma vez em que o tio Jolyon 
estava presente e escutara a frase do outro. O velho erguera a cabea vivamente:
- No diga tolices, Hemmings! Voc o que quer dizer  que o que eles sabem no vale a pena ningum saber!

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O velho Jolyon detestava fingimentos.
Hemmings, com os olhos colricos e um sorriso semelhante ao de um cozinho surrado, respondera por um borboto de aprovaes fingidas:
- Essa  boa, Mr. Forsyte!  excelente! Seu tio tem sempre uma boa pilhria a dizer!
E na primeira vez que encontrara Soames, achara oportunidade de lhe explicar:
- O presidente est a envelhecer muito, j no posso faz-lo compreender certas coisas. E ele  teimoso. Tambm, com aquele queixo, que  que o senhor quer que se 
faa?
Soames aprovara com uma inclinao de cabea. Toda a gente conhecia aquele queixo.
Naquele dia, o tio Jolyon parecia atormentado, embora o seu ar fosse o que mostrava sempre nos dias de assembleia geral. Soames esperava poder falar-lhe a respeito 
de Bosinney.
 esquerda do velho Jolyon estava o minsculo Mr. Booker, que assumira tambm o seu ar de assembleia geral e olhava como se vasculhasse a sala para encontrar um 
accionista particularmente susceptvel. Ao lado dele estava o director surdo, de testa enrugada, e mais longe o velho Mr. Bleedham, pacfico, com um ar de virtude 
consciente, muito natural, porque sabia que o embrulho de papel cinzento que trazia sempre  assembleia estava escondido por trs do seu chapu (uma daquelas cartolas 
 moda antiga, de aba chata, que acompanhava volumosas gravatas, rosto bem barbeado, faces rosadas e pequenas suas brancas e asseadas).
Soames assistia sempre  assembleia geral. Estava entendido que era melhor assim, "para um caso de dificuldade imprevista". Com o seu ar meticuloso e superior, olhava 
em torno para as paredes da sala, donde pendiam plantas da mina e do porto e uma grande fotografia de um certo poo da mina que levava s galerias que, exploradas, 
se tinham mostrado bastante improdutivas. Aquela fotografia - testemunha da eterna ironia que se esconde sob as empresas industriais - conservara o seu lugar na 
parede, efgie do nado-morto que fora o benjamim dos directores.
O velho Jolyon ergueu-se para fazer a leitura do relatrio e das contas.

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Escondendo sob um ar olmpico de Jpiter o profundo antagonismo que separa um director dos seus accionistas, olhava-os de frente, calmo. Soames tambm os olhava. 
Conhecia- os quase todos de vista. L estava o velho Serubddle, que negociava em alcatres, vinha sempre, como dizia Hemmings, "para travar a roda", um velhote de 
cara rixenta, rosto vermelho, maxila forte, cartola larga e baixa pousada sobre os joelhos. L estava o reverendo Mr. Booms, que propunha sempre um voto de agradecimento 
ao presidente, no qual exprimia invariavelmente o seu desejo de que o conselho no esquecesse de trabalhar pela elevao dos operrios, e usava a expresso com sentido 
duplo, pois tinha as fortes tendncias imperialistas da sua casta. Tinha tambm o salutar costume de prender um dos directores  sada e perguntar-lhe se achava 
que o ano prximo seria bom ou mau, e, segundo a resposta recebida, comprava ou vendia trs aces durante a quinzena seguinte. L estava aquele oficial, o major 
O'BaMy, que no podia deixar de falar, nem que fosse para apoiar a reeleio do auditor, e que s vezes provocava verdadeira consternao ao tirar das mos a que 
elas haviam sido confiadas as folhas de caderno onde estavam inscritas as propostas que deveriam ser feitas  assembleia.
Quatro ou cinco accionistas, fortes e silenciosos, completavam a reunio. Soames simpatizava com eles, eram homens de negcios que gostavam de abrir os olhos a respeito 
dos seus interesses, cada um cuidando de si. sem atrapalhar, homens bons e slidos que iam diariamente  City e que,  noite, encontravam em casa as suas boas e 
slidas esposas.
"Esposas boas e slidas." Havia nesse pensamento qualquer coisa que despertou em Soames o seu obscuro mal-estar.
Que diria ele ao tio. Que resposta daria  carta?
- Se algum dos accionistas tem alguma pergunta a fazer, terei prazer em responder.
Um pequeno rumor surdo: o velho Jolyon deixara cair sobre a mesa o relatrio e as contas, e continuava em p, virando entre o indicador e o polegar os seus culos 
de aros de ouro.
Apareceu sobre o rosto de Soames o fantasma de um sorriso! Eles que se apressassem a fazer as suas perguntas! Soames conhecia o mtodo do tio

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- mtodo ideal -, que consistia em dizer imediatamente: "Proponho ento que o relatrio e as contas sejam aprovados." No lhes dar tempo de respirar! Toda a gente 
sabe como os accionistas gostam de dissipar o tempo.
Um homem alto, de barba branca, com o rosto magro e descontente, ergueu-se:
- Creio que tenho direito, senhor presidente, de fazer uma pergunta a respeito dessa parcela de cinco mil libras que aparece nas contas sob a rubrica: "Viva e famlia" 
-e passeou em torno de si um olhar cido-do nosso gerente principal, morto, que nem... to inconsideradamente se matou, num momento em que os seus servios eram 
da mxima importncia para a nossa companhia. O senhor declarou que o contrato que ele desgraadamente quebrou por suas prprias mos tinha sido renovado por um 
perodo de cinco anos, dos quais s decorrera o primeiro. Eu.
O velho Jolyon fez um gesto de impacincia.
- Creio que estou no meu direito, senhor presidente. Pergunto se a importncia que o conselho pagou, ou pelo menos se prope pagar, hem... ao defunto...  destinada 
a pagar os servios que o defunto teria prestado  companhia se no se houvesse suicidado?
- Essa quantia  concedida em reconhecimento dos servios passados, que, todos ns o sabemos - e o senhor tanto quanto ns - foram de importncia capital.
- Nesse caso, senhor presidente, tudo o que tenho a dizer  que, para servios passados, considero a quantia elevada de mais
E o accionista sentou-se.
O velho Jolyon esperou um segundo, e disse:
- Proponho agora que o relatrio seja. O accionista ergueu-se novamente:
- Posso perguntar aos membros do conselho se esto bem compenetrados de que no  o seu dinheiro que No hesite em dizer que, se fosse com o seu prprio dinheiro.
Um segundo accionista, de cara redonda e resoluta, em que Soames reconheceu o cunhado do defunto administrador, ergueu-se e disse com calor:

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- Na minha opinio, senhor presidente, a quantia dada nem sequer  suficiente!
O reverendo Mr. Booms ergueu-se por sua vez.
- Se ouso exprimir o meu pensamento, direi que o facto do suicdio deve pesar fortemente, muito fortemente, sobre a opinio do nosso digno presidente. No duvido 
que assim tenha sido, porque, creio poder diz-lo em nome de todas as pessoas presentes, muito bem, apoiado-, ele goza da nossa absoluta confiana. Ns todos desejamos, 
eu o espero, agir com caridade. Mas estou certo (e olhou severamente o cunhado do defunto administrador) que ele assinalar de qualquer forma, seja por uma expresso 
escrita, ou melhor ainda, seja diminuindo a soma, a nossa grave desaprovao ao facto de uma vida preciosa e to cheia de promessas ter sido, de modo to mpio,.roubada 
 esfera em que os seus interesses e ao mesmo tempo - posso diz-lo - os nossos interesses, exigiam to imperiosamente a sua continuao. Ns no podemos - no temos 
esse direito - admitir um to grave abandono de todos os deveres para com os homens e para com Deus.
O reverendo gemteman voltou a sentar-se. O cunhado do gerente morto tornou a erguer-se:
- Mantenho o que disse: a quantia no  suficiente. O primeiro accionista interveio:
- Contesto a legalidade do pagamento. Na minha opinio, esse pagamento no  legal. O advogado consultor da companhia est presente, e creio que tenho o direito 
de lhe fazer uma pergunta.
Nesse momento todos os olhares se volveram para Soames. Acabava de aparecer a "dificuldade imprevista-). Ble ergueu-se, frio, os lbios cerrados, no ntimo, tinha 
os nervos agitados e a sua ateno mal havia sido arrancada quela nuvem que lhe obscurecia o pensamento.
- O caso - disse ele em voz baixa e fina - no est bastante claro. Como se trata de um pagamento em saldo de uma conta inteira, no posso afirmar que seja legal. 
Conforme o desejo desses senhores, pode-se pedir a opinio de um rbitro.
O cunhado do morto teve um gesto descontente e disse, num tom cheio de subentendidos:

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- No duvido de que possamos pedir a opinio de um rbitro. Posso perguntar como se chama o cavalheiro que acaba de nos dar to interessante informao? Mr. Soames 
Forsyte? Ah, na verdade?
O seu olhar ia de Soames para o velho Jolyon com uma inteno sublinhada.
As faces plidas de Soames coraram, mas o seu ar de superioridade no mudou. O velho Jolyon fixou os olhos no interruptor.
- Se - disse ele - o cunhado do falecido gerente no tem mais nada a dizer, proponho que o relatrio e as contas...
Nesse momento ergueu-se um dos cinco accionistas macios e silenciosos que gozavam da simpatia de Soames. E disse:
- Desaprovo a proposta em conjunto. Pedem-nos um acto de caridade para a mulher e os filhos desse homem, que, dizem os senhores, dependiam dele para viver.  possvel 
que dependessem dele. No cuido em saber se  verdade ou no. Fao uma objeco de princpio. J  tempo de pr cobro a este humani-tarismo sentimental. O pas est 
a ser devorado por ele. Oponho-me a que se pague, com o meu dinheiro, a essa gente de quem no sei nada e que nada fez para o ganhar. Oponho-me a qualquer ideia 
desse gnero. Negcios so negcios. Proponho pois que se aprove o relatrio e as contas e se cancele pura e simplesmente essa doao.
O velho Jolyon estava em p enquanto falava aquele representante da Inglaterra forte e silenciosa. O seu discurso despertou eco em todos os coraes, traduzindo 
to bem o culto da energia e a reaco contra o sentimentalismo que comeava a produzir-se na parte s do pas.
A frmula "negcios so negcios" abalara at o conselho. No seu foro interior, cada um dava razo ao accionista. Mas conhecia-se tambm o carcter dominador e a 
tenacidade do presidente. Como os outros, no fundo, ele tambm deveria sentir que a sua proposta no pertencia ao domnio dos negcios, mas estava comprometido naquilo 
pela sua prpria moo. Recuaria? O caso parecia pouco provvel.

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Todos esperavam com interesse. O velho Jolyon ergueu a mo. e os culos de ouro que ele continuava a segurar entre o polegar e o ndex tinham um tremor de ameaa. 
Dirigiu-se ao accionista silencioso e forte:
- Sabendo, como o senhor sabe, tudo o que o nosso falecido gerente fez por ocasio da exploso da mina, deseja realmente que eu proponha a emenda, cavalheiro?
- Desejo.
O velho Jolyon formulou a emenda.
- H algum que secunde isso? -perguntou ele, olhando calmamente em torno.
Foi ento que Soames, de olhos fixos no tio, sentiu o poder de vontade que havia naquele velho. Ningum se moveu. E olhando directamente para os olhos do accionista 
silencioso e forte, o velho Jolyon disse:
- Proponho agora que o relatrio e as contas para o ano de 1887 sejam aprovados. Apoiam esta proposta? Os que a apoiam, levantem a mo, como de costume. Contra? 
Ningum.'Aprovado. Passemos ao ponto seguinte, cavalheiros.
Soames sorriu. Na verdade, o tio Jolyon tinha um mtodo todo seu.
Mas imediatamente ps-se de novo a pensar em Bosinney. Era estranho como aquele indivduo o obcecava, at nas horas de trabalho!
A respeito da visita de Irene a Robin Hill, no havia nada de mal naquilo, seno que ela poderia ter-lhe falado no projecto, mas, por outra parte, ela nunca lhe 
dizia nada. Cada dia se tornava mais silenciosa, mais susceptvel. Prouvesse a Deus que a casa estivesse logo pronta e que j estivessem instalados li, longe de 
Londres. A cidade no servia para ela... no tinha os nervos bastante slidos. J lhe voltara aquela ideia absurda de terem quartos separados.
A sesso fora levantada. Sob a fotografia do poo abandonado, o reverendo Booms agarrara-se  botoeira de Hemmings. O pequeno Mr. Booker, com as sobrancelhas ramalhudas 
agitadas por sorrisos de clera irnica, querelava com o velho Scrubddle,  guisa de despedida. Detestavam-se os dois.

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Havia entre ambos um negcio de fornecimento de alcatro que o pequeno Mr. Booker fizera adjudicar pelo conselho a um dos seus sobrinhos, passando por cima das pretenses 
do velho Scrubddle.
Soames esperava um momento propcio. E o ltimo dos accionistas desaparecera na porta quando ele se aproximou do tio, que punha o chapu.
- Posso falar-lhe um momento, tio Jolyon?
Ainda hoje  incerto o resultado que Soames esperava daquela entrevista.
O velho jolyon produzia nos Forsyte em geral uma impresso algo misteriosa, feita de respeito e medo. Isso provinha do lado filosfico do esprito do velho, ou talvez, 
como o dissera Hemmings, do seu queixo. Mas houvera sempre um subtil antagonismo entre o tio e o sobrinho, antagonismo latente sob a secura dos seus cumprimentos 
e dos modos cheios de reserva que eles tinham um para o outro. Decerto isso originava-se na conscincia que o velho tinha da tranquila tenacidade de Soames (teimosia, 
diria antes ele) e duvidava que, entre ambos, lhe pudesse caber sempre a ltima palavra.
Aqueles dois Forsyte, a muitos respeitos to opostos um ao outro quanto o so entre si os dois plos, (possuasm, cada um ao seu modo, porm num grau mais alto do 
que todo o resto da famlia, esse tenaz e prudente instinto de negcios que  a virtude suprema da sua classe social. Um e outro, com um pouco de sorte e algumas 
oportunidades, teriam atingido as alturas de uma grande carreira, ambos teriam dado um bom financeiro, um grande homem de negcios, um estadista. E entretanto o 
velho Jolyon, por certos traos do seu temperamento, sob a influncia de um charuto ou da Natureza, seria capaz no talvez de desprezar, mas certamente de duvidar 
do interesse de uma tal situao. A Soames, que no fumava charutos, tal pensamento nunca ocorreria.
E depois, havia sempre na alma do velho um sofrimento secreto: o filho de James - de James, que ele considerara sempre um tolo - palmilhava os caminhos do xito, 
enquanto o seu prprio filho...
E agora, para cmulo - pois, como todo o Forsyte,

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ele no vivia fora do raio de aco dos mexericos da famlia -, ouvira um boato sinistro, vago mas no menos perturbador, a respeito de Bosinney, e o seu orgulho 
fora profundamente ferido.
 bom notar que a sua irritao dirigiu-se no contra Irene, mas contra Soames. A ideia de que a mulher do sobrinho conquistara o noivo da sua neta humilhava-o intoleravelmente. 
Seria que aquele rapaz no poderia tomar conta da mulher?
Oh, que requintada injustia! Como seria possvell Soames tomar melhor conta? E, vendo o perigo, o velho Jolyon no procurava escond-lo de si, como James, por simples 
medo, reconhecia, com a imparcialidade do seu olhar mais amplo, que a coisa no era improvvel: Irene tinha muita seduo.
Pressentia vagamente o assunto sobre o qual Soames lhe queria falar, no momento em que deixavam a sala do conselho, para entrarem no barulho e na confuso de Cheapside. 
Caminharam juntos um bom minuto, sem trocarem uma palavra, Soames no seu passo meticuloso, o velho Jolyon muito erecto, servindo-se estudadamente do guarda-chuva 
como de uma bengala.
Entraram por uma rua relativamente calma, o velho ia para um outro conselho de administrao.
Ento Soames comeou, sem erguer os olhos:
- Recebi esta carta de Bosinney. Veja o que diz. Achei que devia falar-lhe sobre ela. J gastei muito com essa casa, muito mais do que tencionava, e estimaria que 
a situao ficasse clara.
A contragosto, o velho Jolyon percorreu a carta com os olhos.
-  muito claro o que ele diz - observou.
- Ele fala em ter carta branca - replicou Soames.
O velho Jolyon encarou-o. A sua irritao, h muito contida, o seu antagonismo contra aquele moo cujos negcios comeavam a envolver de mais com os seus, explodiram.
- E ento, se voc no tem confiana nele, para que lhe d trabalho?
Soames olhou-o de travs.

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-  tarde de mais para discutir isso - disse ele. - Quero apenas que fique bem claro que, se eu lhe der carta branca, ele no me envolver em nada. Pensei que, se 
o senhor tambm lhe falasse, daria mais peso  minha resposta.
- No - disse o velho Jolyon abruptamente -, no me envolverei nesse negcio.
Aquelas palavras, tanto de uma parte como de outra, traam intenes inexprimidas que as ultrapassavam muito. E o olhar que tio e sobrinho trocaram mostrou a cada 
um que aquilo que um calava o outro percebia-o.
- Est bem - disse Soames. - Procurei preveni-lo por causa de June. Quis que o senhor estivesse avisado, antes de acontecer qualquer disparate.
O tio Jolyon apanhou a bola no ar:
- E em que  que isso me concerne?
- Oh, no sei - respondeu Soames.
E, perturbado por aquele olhar directo, no pde dizer mais nada.
- O senhor no dir depois que eu no o preveni - acrescentou ele de mau humor, contendo-se.
- Preveniu? - replicou o velho Jolyon. - No sei do que voc pretende falar. Vem aborrecer-me com essa histria, eu recuso-me a envolver-me nos seus negcios, arranje-se 
sozinho.
- Muito bem - disse Soames imperturbvel. -  o que farei.
- Ento, at logo - disse o velho Jolyon. E separaram-se.
Soames desandou o caminho andado, e, entrando num restaurante famoso, pediu um naco de salmo defumado e um copo de Chablis, tinha o hbito de comer pouco durante 
o dia, e em geral comia em p. Esse hbito parecia-lhe bom para o seu fgado, que estava em muito bom estado, mas por conta do qual ele quereria pr fim a todas 
as suas atribulaes.
Quando acabou, voltou lentamente ao escritrio, de cabea baixa, sem prestar nenhuma ateno aos milhares de seres que formigavam nos passeios, e que tambm no 
reparavam nele.
O correio da noite levou a Bosinney a seguinte resposta:

FORSYTE, BUSTARD and FORSYTe, ADVOGADOS

Meu caro Bosinney:


7 de Maio de 1887

Acuso a sua carta, cujos termos me surpreenderam um pouco. Eu estava sob a impresso de que voc j tinha recebido acarta branca", porque no posso lembrar-me se 
alguma das sugestes que tive o mau gosto de lhe fazer tenha obtido a sua aprovao. Dando-lhe carta branca, conforme a sua solicitao, desejo que fique estabelecido 
que o preo total da casa, tal como me ser entregue completamente decorada, incluindo os seus honorrios (conforme combinmos os dois) no ultrapasse doze mil libras 
( 12.000). Essa soma d-lhe uma margem suficiente, e, como voc o sabe muito bem, ultrapassa em muito a quantia em que eu de incio cogitara.
Creia-me sempre,
seu sinceramente

Soames Forsyte

No dia seguinte recebeu um bilhete de Bosinney: PHILIP BAYNES BOSINNEY ARQUITECTO
309, D. Sloane Street, S. W.

18 de Maio

Meu caro Forsyte:
Se voc pensa que em assunto to delicado quanto decorao eu posso comprometer-me a um oramento de uma libra a mais ou a menos,

178 - 179

receio que se engane.  Vejo que est fatigado do nosso arranjo e de mim prprio, por conseguinte, o melhor que tenho a fazer  retirar-me. Atenciosamente,

Vhilip Baynes Bosinney

Soames meditou longa e penosamente os termos dessa carta, e a uma hora avanada da noite, depois que Irene subira para se deitar, comps na sala de jantar a seguinte 
resposta:

62, Montpellier Square, S. W.

Meu caro Bosinney:

19 de Maio 1887

Creio que, no nosso comum interesse, ser lamentvel que o negcio fique como est. No lhe quis dizer que, se voc ultrapassar dez, vinte, ou mesmo cinquenta libras 
da soma marcada por mim, v haver alguma dificuldade entre ns. Desse modo, desejo que reconsidere a sua resposta. Voc ter carta branca, nos termos desta correspondncia, 
e espero que descubra um meio de acabar as decoraes, a respeito das quais sei bem que  difcil fazer adiantadamente uma avaliao absolutamente exacta.
Seu sinceramente,
Soames Forsyte


19 de Maio 1887

A resposta de Bosinney chegou no dia seguinte:

Meu caro Forsyte: Muito bem.

20 de Maio,

Th. Bosinney.

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CAPTULO VI

O VELHO JOLYON NO JARDIM ZOOLGICO.

O velho Jolyon despachou sumariamente o seu segundo conselho, uma sesso ordinria daquela vez. Foi to ditatorial que os seus colegas directores reuniram-se num 
concilibulo para se queixarem do esprito de domnio sempre crescente no velho Forsyte. J no tinham mais pacincia, diziam eles, para suportar aquilo por muito 
tempo.
O velho Jolyon apanhou o metropolitano at Pantland Road Station, apanhou depois um cab e fez-se conduzir ao Jardim Zoolgico.
Tinha um encontro l, um desses encontros que se renovavam mais frequentemente, de h uns tempos paira c, e para onde o levavam a sua inquietao crescente a respeito 
de June, provocada pela mudana que se operara na neta.
Ela escondia-se e emagrecia, quando lhe falava, no obtinha resposta, ou o iludia, ou ento parecia prestes a rebentar em soluos. Estava mudada at ao limite do 
possvel, e tudo isso por causa de Bosinney. Mas quanto a falar com o av, isso nunca!
E ele perdia-se em longas cismas tristes, segurando diante de si o jornal que no lia, com um charuto apagado entre os lbios. Ela fazia-lhe companhia to amoravelmemte, 
desde que fizera trs anos, e ele amava-a tanto!
Mas certos poderes que no se preocupam nem com as famlias,

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nem com as classes, nem com os costumes, mostravam-se mais fortes do que ele, acontecimentos futuros, sobre os quais no tinha nenhum poder, projectavam-lhe a sombra 
sobre a cabea. E elevava-se no velho a irritao de um homem dominador, acostumado a agir sempre de acordo com a sua vontade, irritao dirigida no sabia ele contra 
quem.
Enervado com a lentido do cab, chegou  porta do jardim, mas o seu sempre jovem e vivaz instinto de tomar a cada momento o que ele tinha de bom f-lo esquecer a 
irritao enquanto se dirigia para o encontro.
Do terrao de pedra que encima a fossa dos ursos, o filho e os dois netinhos correram para ele logo que o viram aproximar-se. Levaram-no at  jaula dos lees. Os 
pequenos tinham-lhe tomado cada um uma mo, e Jolly, travesso como o pai, apoderara-se do guarda-chuva do av, para agarrar as pernas dos transeuntes com o cabo 
curvo.
Jolyon filho caminhava atrs.
Parecia realmente um conto de fadas, ver o pai junto aos seus filhos, um desses contos que, depois de um sorriso, trazem lgrimas aos olhos. Um velho e dois netinhos 
passeando juntos  uma coisa que se v todos os dias, porm ver o velho Jolyon com Jolly e Holly era como penetrar bruscamente at s coisas que escondemos no fundo 
do corao. Naquele abandono do grande velho alto, que se entregava todo aos dois pequeninos que lhe seguravam as mos, havia um excesso de ternura pungente. Jolyon 
filho, que tinha o hbito desse reflexo, praguejou baixo, dentro do bigode. Estava mais comovido do que convm a um Forsyte, gente por essncia pouco expansiva.
Chegaram assim  galeria dos lees. Houvera, pela manh, uma festa no Jardim Botnico, de modo que grande nmero de Forsyte, isto , de gente bem vestida e com bons 
carros, tinha aproveitado a oportunidade para dar um passeio tambm at ao Jardim Zoolgico, gozando um pouco mais o dinheiro dispendido antes de voltarem para casa.
"Vamos ento ao Zoo", tinham dito uns aos outros. "Vai ser divertido.  dia de entrada a um shilling. No haver gentinha."
Alinhados ao longo das jaulas, olhavam as feras vorazes

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que esperavam por trs das grades o nico prazer do seu dia. Quanto mais a fera estava esfomeada, mais os fascinava. "Seria que lhe invejavam o apetite?", perguntava 
a si mesmo Jolyon filho. E ouvia comentrios: "Bicho malvado, esse tigre!" "Oh, que amor! Olhe a boquinha dele! Ah,  uma beleza! No chegue to perto, mam!"
E de vez em quando, com uma pancadinha rpida, cada um tacteava o bolso e olhava em torno de si, como se receasse que Jolyon filho, ou qualquer outra daquelas pessoas 
de fisionomia desinteressada, o aliviasse do porta-moedas.
Um homem bem nutrido, de colete branco, disse lentamente, entre dentes:
-  esgamao pura: eles no podem ter fome: no fazem exerccio.
Nessa altura, um tigre abocanhou um pedao sangrento de fgado, e o homem gordo ps-se a rir. A mulher, que trazia um vestido de seda, de Paris, e luneta de ouro, 
censurou-o:
- Como  que voc pode rir, Henry?  horrvel ver isso! Jolyon filho franziu o cenho. As circunstncias da sua vida,
embora ele j houvesse deixado de ter um ponto de vista muito pessoal a respeito delas, tinham-no deixado sujeito a certos movimentos de desprezo, e a classe a que 
havia pertencido - a casta das carruagens - excitava-lhe particularmente os sarcasmos. Manter numa jaula um leo ou um tigre  indiscutivelmente uma barbrie horrvel, 
mas nenhum homem cultivado admite isso. Nunca ocorreria a seu pai, por exemplo, a ideia de que  uma crueldade aprisionar animais selvagens. Ele pertencia  escola 
antiga, que considerava humano e moral enjaular panteras e macacos, convencida, sem dvida, de que com o tempo poder-se-ia persuadir os bichos a no morrerem to 
desarrazoadamente de tristeza ou nostalgia encostados s barras da jaula, impondo assim  sociedade as despesas de uma substituio. Aos olhos de seu pai, como aos 
olhos de qualquer Forsyte, o prazer de contemplar aquelas lindas criaturas em estado de cativeiro compensava amplamente o inconveniente de prender os bichos que 
Deus, to imprudentemente, criara livres. E, ademais, tambm era para o bem do animal, tiravam-no dos perigos sem conta da vida errante e da caa, persuadiam-no 
a exercer as suas funes na tranquila garantia

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de um compartimento particular! E, de facto, dava vontade de perguntar se os animais selvagens teriam sido feitos para outro destino, e no para as jaulas!
Porm, Jolyon filho, que tinha na sua natureza elementos de imparcialidade, reflectiu que no era justo estigmatizar como barbrie o que no passava de uma falta 
de imaginao, nenhum dos que assim pensavam jamais fora posto na situao dos animais enjaulados. Assim, como poderiam eles penetrar as suas sensaes?
S quase no momento de deixar o jardim - Jolly e Holly deliravam de felicidade - foi que o velho Jolyon teve ocasio de falar com o filho a respeito do assunto que 
mais o interessava.
- No sei o que pense - disse ele. - Se o estado em que ela est se prolonga, no sei em que daro as coisas. Queria que consultasse um mdico, porm ela no o quer. 
No se parece nada comigo,  igual  sua me. Teimosa como uma mula. Se no quer fazer uma coisa, no a far, e pronto!
Jolyon filho sorriu. O seu olhar pousara sobre o queixo do velho. " sua parceira", teve vontade de dizer.
- E depois - continuava o velho Jolyon -, ainda existe esse Bosinney. Bem gostaria de lhe dar uns socos, creio que no posso. Mas no vejo por que razo voc no 
se encarregaria disso - disse ele com um leve tom de dvida.
- Que foi que ele fez?  melhor que acabem com isso, se as coisas no marcham bem.
O velho Jolyon olhou para o filho. Agora, quando abordavam francamente um assunto referente s relaes entre os sexos, sentia-se desconfiado. Jo no poderia deixar 
de ter a tal respeito ideias mais relaxadas.
- Bem. no sei o que voc pensar - disse ele. - Calculo que as suas simpatias sero por ele, isso no me admirar. Mas, quanto a mim, acho que se porta pessimamente 
e pretendo dizer-lhe isso, se o encontrar no meu caminho.
Deixou o assunto. Era impossvel discutir com Jo o verdadeiro carcter e o verdadeiro sentido daquela defeco de Bosinney. No praticara o filho a mesma coisa (at 
pior) quinze anos atrs?

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E parecia que nunca acabariam as consequncias daquela loucura.
Jolyon filho tambm ficou silencioso. Compreendera rapidamente o pensamento do pai, porque, destronado do assento elevado donde os Forsyte mantm sobre a vida uma 
viso lmpida e certeira, tornara-se penetrante e subtil.
Entretanto, a atitude que adoptara quinze anos atrs a respeito de moral sexual era muito diferente da atitude do pai. Impossvel preencher esse vcuo.
Ele disse tranquilamente:
- Ser que o rapaz se apaixonou por outra mulher? O velho Jolyon lanou-lhe um olhar de dvida.
- No o posso dizer. Eles falam.
- Ento, provavelmente,  verdade.- O velho Jolyon no esperava aquela resposta. - E, segundo creio, disseram-lhe quem ?
- Sim.  a mulher de Soames.
Jolyon filho no estremeceu. A sua prpria histria obrigava-o a manter-se imperturbvel. Porm olhou o pai com o fantasma de um sorriso a errar-lhe pelo rosto.
Se o velho Jolyon o percebeu, no o deu a entender.
- Ela e June eram amigas ntimas - murmurou.
- Pobre garota - falou docemente Jolyon filho, que ainda pensava na filha como uma pequenina de trs anos.
O velho Jolyon parou de sbito.
- No acredito numa palavra disso - disse ele. - So mexericos de solteironas. Procure-me um cab, Jo. Estou a morrer de cansao.
Ficaram em p, a um canto da rua, esperando o primeiro cab que passasse, enquanto desfilavam diante deles os inmeros veculos que traziam ao Jardim Zoolgico os 
Forsyte de inmeras variedades. Os arreios, as librs, o plo liso dos cavalos reluziam ao sol de Maio. E cada carro, landau, vitria, faetonte ou charrette parecia 
dizer orgulhosamente, ao compasso das rodas:

I and my horses and my men you know, Indeed the whole turn out nave cost a pot.

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mit we were worth it every penny. Look At Master and at Missis now, the dawgs! Ease with security. Thats the ticket! (1)

E essa cano, como todos sabem,  o acompanhamento por excelncia para um Forsyte que se diverte.
Entre as carruagens havia uma vitria que avanava mais depressa do que as outras, puxada por dois cavalos de um baio brilhante. Oscilava sobre o eixo elevado, e 
as quatro pessoas que a ocupavam pareciam balanar-se num bero.
O veculo atraiu a ateno de Jolyon filho, que reconheceu imediatamente, sentado  frente, o seu tio James. Impossvel um engano, apesar de as suas se terem tornado 
brancas. Em frente dele, com as costas protegidas pelas sombrinhas, Rachel Forsyte e a irm mais nova, porm casada, Winifred Dartie, em trajos irrepreensveis, 
com um porte de cabea altivo como o de certos pssaros que elas acabavam de ver no Zoo, depois, muito enterrado ao lado de James, Dartie, numa flamejante sobrecasaca 
nova que lhe apertava o busto quadrado, com os largos punhos engomados aparecendo-lhe sob as mangas.
Um brilho especial, embora discreto, uma camada suplementar de verniz melhor, luzindo mais ricamente, caracterizava aquele veculo e parecia distingui-lo dos outros. 
Dir-se-ia que o efeito de certo impulso feliz de gnio, idntico ao que distingue a verdadeira obra de arte do "quadro" ordinrio, designava-o como o carro tpico, 
o prprio trono do forsytismo.
O velho Jolyon no os viu passar, acarinhava a pobrezinha da Holly, que estava cansada. Mas do carro haviam percebido o pequeno grupo, e as cabeas das senhoras 
voltaram-se subitamente, num movimento espasmdico, enquanto as sombrinhas se dispunham em forma de cortina. O rosto de James avanou, ingnuamente,

*1 Veja-me a mim, os meus cavalos e os meus criados.
Realmente tudo isto custou um bom dinheiro!
Porm bem valemos cada penny gasto.
Olhe a patroa e o patro!
Bem-estar e segurana! Eis o nosso lema!

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como a cabea de um grande pssaro, e a sua boca abriu-se devagar. Os escudos redondos das sombrinhas diminuram, depois desapareceram.
Jolyom filho viu que fora reconhecido, at mesmo por Winifred, que no poderia ter mais de quinze anos quando ele perdera o direito de ser considerado um Forsyte.
No haviam mudado quase nada. Jolyon filho recordava exactamente o aspecto da carruagem de James outrora: cavalos, criados, carros, deveriam decerto ter sido substitudos, 
mas guardavam identicamente o mesmo carimbo de quinze anos atrs. Era o mesmo desenrolar de luxo sbrio, a mesma arrogncia delicadamente doseada - bem-estar e segurana! 
O balano do carro era exacto, exacta era a posio das sombrinhas, exacto o esprito que reinava sobre todo o conjunto.
E na avenida ensolarada, defendidos pelos altivos escudos das sombrinhas, os carros sucediam-se.
- Acabou de passar o tio James com as filhas - disse Jolyon filho.
A fisionomia do pai escureceu.
- Ser que o seu tio nos viu? Sim? Hem? Que  que ele vem fazer por aqui?
Vinha afinal um cab vazio e o velho Jolyon f-lo parar.
- Vou v-los qualquer dia, meu rapaz! No d importncia ao que lhe disse a respeito daquele moo Bosinney. Eu, por mim, no creio numa palavra!
Beijando as crianas, que procuravam ret-lo, subiu para o carro e partiu.
Jolyon filho, que tomara Holly nos braos, ficou imvel na esquina, com os olhos fixos no cab que se afastava.

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CAPTULO VII.

UMA TARDE EM CASA DE TIMOTHY.

SE o velho Jolyon, ao subir para o cab, dissesse: "No quero crer numa palavra daquilo", teria exprimido o seu pensamento com mais veracidade.
E a ideia de que James e o seu mulherio o haviam visto em companhia do filho despertava no corao do velho Jolyon no s a impacincia decorrente da contrariedade, 
como tambm aquela secreta hostilidade natural entre irmos. O germe dela j est nas rivalidades da meninice, mas,  medida que a vida passa, as razes escondidas 
tornam-se mais duras e mais profundas e alimentam uma planta capaz de produzir a seu tempo os frutos mais amargos.
At ento no houvera, entre aqueles seis irmos, seno a preveno decorrente do receio de serem menos ricos uns que os outros. Para o fim da vida,  aproximao 
do momento em que cada um descobre o seu jogo, esse sentimentto precisava-se numa curiosidade excitada ainda pela extrema discrio do seu comum homem de negcios. 
Este, muito sagaz, quando estava junto de Nicholas, ignorava os rendimenttos de James, junto de James, ignorava os do velho Jolyon, junto de Jolyon, os de Roger, 
a Roger, afirmava no saber nada sobre a situao de Swithin, e a Swithin dizia, do modo mais irritante,

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que Nicholas deveria ser riqussimo. Apenas Timothy ficara fora de questo, pois toda a sua fortuna estava empregada em valores consolidados.
Entretanto, agora, entre aqueles dois irmos, surgira um ressentimento de espcie muito diversa. Desde o dia em que James tinha tido a impertinncia de meter o nariz 
nos seus negcios - assim falava o velho Jolyon - este ltimo no quis mais acreditar na histria que contavam a respeito de Bosinney. A sua netinha humilhada pela 
nora daquele sujeito! E decidiu que andavam a caluniar Bosinney. A sua defeco deveria explicar-se de outra forma. June deveria ter-lhe feito uma das suas - ela 
era susceptvel como o Diabo!
De qualquer modo, iria dizer em casa de Timothy o seu modo de pensar, e ver-se-ia se depois disso continuariam a fazer aluses. E no deixaria as coisas arrastarem-se, 
iria l imediatamente, e arranjaria tudo de modo a no ter de o fazer outra vez.
Ao chegar ao Bower, viu o carro de James  porta, impedindo a passagem. Tinham-no pois precedido, decerto j estavam a mexericar, l em cima, a respeito do encontro. 
Um pouco alm, os cavalos tordilhos de Swithin, venta a venta com a parelha baia de James, pareciam discutir sobre a famlia, e os cocheiros, por cima deles, confabulavam 
sobre o mesmo assunto.
O velho Jolyon deps o chapu no pequeno vestbulo, sobre a mesma cadeira onde, tempos atrs, o chapu de Bosinney fora tomado por um gato, passou severamente a 
mo magra sobre o rosto de longos e brancos bigodes cados, como para tirar dele qualquer expresso, depois subiu a escada.
Encontrou cheia a primeira sala, essa sala j era suficientemente cheia quando no tinha ningum l, porque Timothy e as irms, fiis s preferncias da sua gerao, 
achavam que um compartimento deve sempre ser "mobilado convenientemente". Aquele continha onze cadeiras, um sof, trs mesas, dois armrios, inmeros bibelots e 
a cauda de um grande piano. E agora, ocupado por Mrs. Small e pela tia Hester, pois Swithin, James, Rachel, Winifred, Euphemia (que viera restituir Paixo e Paregrico, 
j lido durante o almoo) e a sua amiga Frances, filha de Roger (a musksta da famlia,

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compositora de canes), o salo no oferecia mais, alm de um par de poltronas onde ningum se sentava, que uma cadeira disponvel. O nico espao onde se poderia 
ainda ficar de p estava ocupado pelo gato, cuja cauda o velho Jolyon pisou.
Naquela poca essa grande quantidade de visitas em casa de Timothy no tinha nada de inslito. Toda a famlia sempre sentira um respeito verdadeiro pela tia Ann. 
Agora, que ela j no estava l, vinha-se mais ao Bower e demorava-se l mais tempo.
Swithin chegara primeiro e, dormitando na sua poltrona de cetim vermelho e espaldar dourado, parecia que seria o ltimo a sair. Ilustrando o apelido de "gigante" 
que Bosinney lhe dera, com a sua grande e macia estatura, os espessos cabelos brancos, a imutvel face fofa e raspada, parecia mais primitivo ainda na decorao 
estofada de mais da sala.
Como lhe era habitual, depois de um certo tempo, ps-se imediatamente a falar de Irene e no demorou a dar a sua opinio  tia Hester e  tia Juley sobre os boatos 
que, segundo soubera, comeavam a correr mundo.
No, opinava Swithin, ela poderia ter vontade de flirtar um pouco,  natural que uma mulher se divirta, porm no acreditava em nada mais. De qualquer modo, em nada 
de tangvel, Irene tinha muito bom senso, sabia muito bem o que devia  sua situao,  famlia. Nada de esc... Ele ia dizer "escndalo", mas essa ideia pareceu-lhe 
'to absurda que Swithin ergueu apenas a mo, como para dizer: "No falemos mais nisso!"
Admitamos que Swithin julgava a situao do seu ponto de vista de celibatrio. E, no entanto, quanto realmente no era devido a essa famlia que to bem governara 
os seus negcios e da qual tantos membros haviam atingido to belas posies? Se, em momentos sombrios e pessimistas, ele havia escutado as palavras "yeomen" e "cerveja 
grossa", aplicadas aos seus antepassados, teria acreditado nelas?
No! Alimentava e acarinhava no corao a teoria secreta de que haveria um elemento distinto em alguma parte da sua linhagem.

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-  evidente - dizia ele um dia a Jolyon filho. - Olhe para ns, como triunfmos! O nosso sangue deve ter infludo alguma coisa nisso.
Tivera muita amizade por Jolyon filho. O pequeno crescera num bom grupo, no colgio, conhecera os filhos daquele velho bandido Sir Charles Fin (um dos quais se tornara 
um grande patife), era elegante, o garoto. Fazia realmente d que tivesse fugido com aquela moa estrangeira, e ainda por cima professora! Se tinha que cometer aquela 
tolice, porque no escolhera algum que os lisonjeasse? E em que se tornara? Empregado nos Lloyds, dizia-se at que pintava - pintava! Coa breca! E teria podido 
acabar como Sir Jolyon Forsyte baronete, com um assento no Parlamento e um lugar no pas!
Swithin, obedecendo ao impulso que cedo ou tarde leva at l os membros de qualquer famlia importante, fora um dia ao Herald Office. L lhe tinham garantido que 
ele pertenceria, sem dvida nenhuma,  famlia dos Forsite com i, cujas armas eram "trs escudos dextros, sobre duas espadas em fundo de saibro". E esperavam, evidentemente, 
persuadi-lo a us-las.
Swithin, entretanto, no as usou, mas, tendo-se certificado de que o escudo era encimado por um faiso e pela divisa "For Forsyte", fez gravar um faiso no seu carro 
e nos botes do seu cocheiro, guardou a divisa para o papel de cartas, quanto ao braso, contentava-se em traz-lo no corao, em parte porque, no tendo pago o 
direito legal de o usar, dizia de si para si que seria ostentao faz-lo figurar na carruagem, em parte tambm porque, como todo o homem prtico do seu pas, sentia 
uma averso e um desdm ocultos pelas coisas que no compreendia. E, como tantas outras pessoas, considerava a frmula "trs escudos dextros, sobre duas espadas 
em fundo de saibro" difcil de compreender.
E entretanto haviam-lhe dito no escritrio que lhe bastaria pagar os direitos para poder usar o braso. Swithin nunca esquecera isso, e fortificara-se na sua convico 
de que nascera gentleman. Insensivelmente, o resto da famlia adoptou o faiso e alguns, mais srios que outros, adoptaram tambm a divisa.

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O velho Jolyon, entretanto, recusou-se a usar esta ltima, declarando que era uma pilhria e no queria dizer nada.
Na gerao dos seis irmos sabia-se talvez a fundo a que grande acontecimento histrico se ligavam aquelas armas. E quando os interrogavam, em vez de mentir - coisa 
boa para franceses e russos, a mentira - confessavam rapidamente que Swithin fizera um dia aquela descoberta, ningum sabia como.
Na gerao seguinte, evitava-se o assunto com toda a discrio conveniente. Ningum queria ferir os sentimentos dos mais velhos nem atrair o ridculo sobre si mesmo. 
Usavam-se as armas, simplesmente...
No, dizia Swithin, ele estava em condies de julgar os factos e nada havia nas maneiras de Irene para com aquele jovem Pirata, ou Bosinney, como quer que lhe chamassem, 
diferentes dos seus modos para com ele prprio, Swithin. At, poder-se-ia dizer... Mas a, infelizmente, a entrada de Frances e Euphemia interrompeu a conversa, 
porque no se poderia discutir tal assunto diante das moas.
E embora Swithin se sentisse um pouco atrapalhado por lhe cortarem a palavra no momento em que ia dizer algo importante, em breve tornou-se afvel. Gostava muito 
de Frances - Francie, como lhe chamavam em famlia. Era muito elegante e toda a gente dizia que enchia bem o seu mealheiro com o dinheiro ganho nas canes que compunha.
Swithin envaidecia-se por ter uma atitude muito liberal em relao s mulheres, no via razo nenhuma que as impedisse de pintar quadros, escrever romances ou mesmo 
livros, se o quisessem, principalmente se isso lhes rendesse algum dinheiro. Razo nenhuma! Isso at as impedia de fazer tolices. Para os homens,  diferente.
A "Pequena", como ele chamava a Francie com um pouco de 'benvolo desdm, era uma personagem importante, se no por outra coisa, pelo menos por ilustrar a atitude 
dos Forsyte em relao  arte. Ela no era "pequena", antes alta, tinha os cabelos escuros para uma Forsyte, o que, com os olhos pardos, dava-lhe, dizia-se, um "tipo 
celta". Compunha romanas que se chamavam,

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por exemplo, Suspiros Profundos, ou ento Beija-me, Mam, Antes Que Eu Morra, com um estribilho em estilo de hino:

Kiss me, Mother, ere I die,
Kiss me, kiss me, Mother, ah!
Kiss, ah, kiss me - e - ere I -
Kiss me, Mother, ere I d-d-die! (1)

Ela prpria inventava as letras, e escrevia tambm outros poemas. Em fases de inspirao mais leve, compunha valsas: uma delas, a Farndola de Kensington, tornara-se 
popularssima l em Kensington. Logo ao segundo compasso tinha uma "queda" encantadora:
Era muito original. E depois, tinha ainda as Canes para os Pequeninos, ao mesmo tempo pedaggicas e espirituosas, onde se notava sobretudo O Netinho do Av, e 
esse outro canto, impregnado quase profeticamente do esprito imperialista que iria em breve surgir: Faz-lhe Uma Mancha no Olho! As suas obras eram aceites por qualquer 
editor, e revistas tais como a High Living ou a Ladie's Genteel Guide, extasiavam-se assim sobre as composies de Francie: "Mais uma das espirituosas canes de 
Miss Francie Forsyte. Esta ltima, cintilante e pattica, comoveu-nos a todos, desde o riso at s lgrimas. Miss Forsyte ir longe."

*1. Beija-me, mam, antes que eu morra! Beja-me, beija-me, mam, ah! Beija-me, ah, beija-me antes, Beija-me, mam, antes que eu m-m-morra!

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Com o autntico instinto da sua raa. Francie empreendera a tarefa de conhecer pessoas cujo convvio valia a pena frequentar, os que escreveriam a seu respeito, 
falariam nela, e ainda havia as pessoas da sociedade. Tinha um registo mental que lhe dizia com exactido onde deveria exercer os seus encantos, e guardava o olho 
interior posto sobre aquela escala regular e slida de lucros sempre em aumento, que, para ela, representavam o futuro. E desse modo fazia-se respeitar universalmente.
Uma nica vez, em que as suas emoes haviam sido estimuladas por uma afeio (pois a vida de Roger, inteiramente consagrada  coleco de casas, desenvolvera na 
filha mais velha uma tendncia para a paixo), Francie volvera-se para o grande trabalho sincero, e escolhera uma sonata para violino. Foi essa a nica das suas 
produes que inquietou os Forsyte. Sentiram imediatamente que aquilo no se venderia.
Roger, que gostava de ter uma filha inteligente, e que falava sempre no dinheiro ganho por ela, sentiu-se desconcertado por aquela sonata. "No significa nada!", 
dizia ele. Francie pedira emprestado a Euphemia o jovem Flageoletti para tocar a sonata no salo do pai.
De facto, Roger tinha razo, aquilo era nulo, e alm disso aborrecido e do gnero invendvel. Porque, como o sabe todo o Forsyte, uma nulidade que se vende no  
uma nulidade, longe disso!
E entretanto, apesar desse slido bom senso que fixa o valor de uma obra de arte pelo que ela rende, alguns dos Forsyte - a tia Hester, por exemplo-, que sempre 
gostara de msica, no podia deixar de lamentar que as msicas de Francie ou os seus poemas no fossem "clssicos".  verdade, como o dizia a tia Hester, que nos 
tempos de hoje j no se v poesia, os poemas so apenas "coisinhas leves". No h mais ningum que possa escrever um poema como o Paraso Perdido ou o Child Harold, 
obras que nos fazem sentir que realmente lemos alguma coisa. Pelo menos, era muito agradvel para Francie ter em que se ocupar. Enquanto as outras moas gastavam 
dinheiro pelas lojas, ela ganhava-o! A tia Hester e a tia Juley estavam sempre prontas para ouvir as explicaes do sistema

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pelo qual Francie esperava elevar os seus preos.
Era justamente o que ela estava a dizer s tias e a Swithin, que entretanto pretendia no compreender nada, essas moas falam to depressa e engolem tantas palavras 
que ele no podia apanhar nada do que elas diziam!
- No posso imaginar - dizia Mrs. Septimus Small - como  que voc faz isso. Eu nunca teria essa audcia!
Francie sorriu de leve:
- Gosto mais de ter negcios com um homem do que com uma mulher. As mulheres so espertas de mais!
- Minha querida - exclamou Swithin -, garanto-lhe que voc est a caluniar-me!
Euphemia soltou o seu riso silencioso, que terminava por um ganido, e gritou como se a estrangulassem:
-Oh, a senhora mata-me, tia!
Swithin no via naquilo razo para risadas, detestava que rissem por coisas em que nada vira de engraado. E, ademais, detestava Euphemia. S falava dela dizendo: 
"A filha de Nick, como  mesmo o nome dela, a plida?" Por um triz fora o seu padrinho, t-lo-ia sido se no houvesse protestado energicamente contra esse nome absurdo. 
Tinha horror a ser padrinho. Swithin olhou para Francie e disse-lhe com dignidade:
- O dia est bonito... hum... para a estao...
Mas Euphemia, que sabia perfeitamente da recusa dele em ser seu padrinho, virou-se para a tia Hester e ps-se a contar que encontrara Irene - Mrs. Soames - na Church 
amd Commercial Stores.
- E Soames estava com ela? - perguntou a tia Hester, a quem Mrs. Small no tivera ainda tempo de relatar o incidente.
- Soames com ela? Naturalmente que no!
- Ento ela anda sozinha em Londres?
- No, no, Mr. Bosinney acompanhava-a. Ela estava muitssimo bem vestida.
Swithin, ouvindo o nome de Irene, olhou severamente para Euphemia, que, era preciso confessar, nunca estava bem vestida em trajos de rua,

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qualquer que fosse o aspecto que apresentasse noutras ocasies.
- Vestida como uma lady, estou certo.  um prazer olh-la.
Nesse momento, anunciaram James e as filhas. Dartie, que morria de vontade de tomar um copo de qualquer coisa, invocara um compromisso com o dentista, e, fazendo 
que o deixassem em Marble Arch, saltara para um tilbury, no momento, estava numa das janelas do seu clube, em Piccadily.
A sua mulher, disse ele aos amigos, quisera lev-lo a fazer visitas. Mas ele no estava para isso, ah, no! Chamando um criado, mandou-o ao vestbulo, para ver quem 
ganhara a corrida das quatro e meia. Estava esgotado, dizia ele, e era verdade. Passara toda a tarde em companhia da mulher, a correr de uma exposio para outra. 
Acabara por mostrar que estava farto. Cada um deve viver a sua prpria vida.
Nesse instante, enquanto ele olhava da sacada - gostava daquele lugar, donde podia ver toda a gente passar -, teve a pouca sorte, ou antes, a sorte de avistar o 
vulto de Soames, que, vindo de Green Park, atravessava a rua no seu passo cauteloso, com a evidente inteno de entrar. Ele tambm pertencia ao Iseum.
Dartie deu um salto, agarrando o copo, murmurou qualquer coisa a respeito da corrida das quatro e meia e fugiu rpido para a sala de jogo, onde Soames nunca punha 
os ps. L, completamente isolado, num lugar meio escuro, "viveu a sua vida" at s sete e meia, hora em que com toda a certeza Soames deixaria o clube.
Todas as vezes que lhe dava a tentao de ir conversar com os outros homens que mexericavam na sacada, continha-se pensando que seria pssimo para ele, com as suas 
finanas no estado deplorvel em que estavam, arriscar-se a uma briga com Winifred. Principalmente agora, que o velho James apertara os cordes da bolsa, depois 
de uma certa histria de emprego de capital num negcio de leos.
Se Soames o visse no clube, poderia ficar certo de que apareceria algum para contar a Winifred que ele no estivera absolutamente no dentista. Nunca Dartie vira 
uma famlia onde as coisas "dessem a volta" com tanta rapidez.

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Pouco  vontade, por entre as mesas de jogo cobertas de drap verde, uma ruga na face azeitonada, as pernas vestidas com calas de xadrez, as botinas de verniz luzindo 
 meia luz, Dartie mordia o indicador, perguntando a si mesmo onde arranjaria dinheiro se Erotic no ganhasse a taa de Lancashire.
Os seus pensamentos arrastavam-se, melanclicos, sobre os Forsyte. Que coleco que eles formavam! Nada se tirava daquela gente, ou, pelo menos, nada se tirava seno 
com uma extrema dificuldade. Eram diablicos em matria de dinheiro, no havia um nico sportman no meio deles, a no ser talvez George. Aquele Soames, por exemplo, 
teria um ataque se algum tentasse pedir-lhe emprestada uma nota de dez libras, e, na falta de ataque, tinha sempre de reserva aquele sorriso superior, como se algum 
fosse um homem perdido apenas porque carecia de dinheiro.
E a mulher de Soames! S de pensar nela, vinha-lhe gua  boca. Dartie tentara dar-se bem com ela, como  costume fazer-se com qualquer cunhada bonita, mas diabos 
o levassem se ela (e Dartie empregou uma palavra feia) o consentira. Olhava-o como se ele fosse a lama do cho, e entretanto seria capaz de apostar que ela poderia 
ir longe. Conhecia as mulheres. No era  toa que ela tinha uma cintura como aquela, e Soames faria bem se procurasse saber logo se havia qualquer coisa de verdadeiro 
no que se contava do pirata.
Erguendo-se da cadeira, Dartie deu uma volta pela sala e parou diante do espelho que encimava a lareira de mrmore. Ficou muito tempo a contemplar o rosto. Tinha 
aquele ar caracterstico de algumas caras de homem que parecem ter sido mergulhadas em leo de linhaa, com os seus bigodes negros e encerados e a sombra distinta 
das suas nascentes. Notou com contrariedade que se anunciava uma espinha num dos lados do seu nariz gordo e ligeiramente curvo.
Durante esse tempo, o velho Jolyon atingira a nica cadeira ainda livre na confortvel sala de Timothy. A sua chegada fizera evidentemente que a conversa parasse 
e trouxera o peso de uma sensao incmoda sobre todos. A tia Juley, com a sua bondade de alma habitual, tratou de pr toda a gente  vontade:
- Sim, Jolyon. ns estvamos justamente a dizer que havia muito tempo que voc no aparece aqui,

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mas no  de admirar. Naturalmente anda ocupado, no ? James estava justamente a dizer que estamos num perodo do ano to ocupado!
- Na verdade? - disse o velho Jolyon, fitando os olhos em James. - Mas o ano no seria ocupado nem a metade do que o  se cada um s cuidasse do que  da sua conta.
James, que cismava numa cadeira baixa, donde os seus joelhos subiam em ngulo recto, mexeu nervosamente os ps e p-los sobre o gato, que, enxotado pelo velho Jolyon, 
procurara imprudentemente um refgio junto dele.
- Vocs tm um gato aqui! - disse em voz ofendida, retirando sobressaltado o p que se enterrara no plo veludoso do bicho.
- Tm vrios - disse o velho Jolyon, passeando o seu olhar de um rosto a outro. - H outro em que eu tropecei ainda agora.
Seguiu-se um silncio.
Ento Mrs. Small, torcendo os dedos e olhando em torno de si com uma inocncia apavorante, perguntou:
- E como vai a nossa querida June?
Um claro de divertimento atravessou os olhos severos do velho Jolyon. Que mulher extraordinria, aquela Juley! No havia outra igual a ela para dizer sempre o que 
no convinha!
- Vai mal-respondeu ele. - Londres no serve para ela: h muita gente em redor, muitos mexericos, muitas lnguas a falar.
Acentuou as ltimas palavras e novamente olhou para James.
Ningum respondeu nada.
Sentiam-se todos dominados pela sensao de que seria perigoso de mais tomar alguma iniciativa, arriscar alguma observao. Algo de anlogo quele sentimento de 
ameaa suspensa que invade o espectador de uma tragdia grega entrara naquela sala mobilada de mais. cheia de velhos de sobrecasaca, de cabelos brancos, e de mulheres 
bem vestidas, todos do mesmo sangue, ligados todos por um lao de inexcedvel semelhana.
Ento Swithin ergueu-se. No. no ficaria mais tempo ali! No se deixaria intimidar por ningum! E, manobrando atravs da sala com um andar mais majestoso que de 
costume, apertou sucessivamente as mos de todos.

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- Pois digam por mim a Timothy que o mal dele  abusar de cautelas! - Depois, voltando-se para Francie, a quem considerava "elegante", acrescentou: - Venha um dia 
destes dar um passeio de carro comigo. - Porm, essas palavras evocaram imediatamente a viso de outro memorvel passeio, do qual se falara tanto, e Swithin ficou 
absolutamente imvel durante um segundo, com os seus olhos de vidro fixos, como se esperasse apanhar o sentido das palavras que acabava de pronunciar. Depois, recordando-se 
subitamente que pouco se importava com aquela histria, voltou-se para o velho Jolyon: - Bem, boa noite, Jolyon! Voc no devia andar sem sobretudo, acaba por apanhar 
uma citica ou qualquer coisa semelhante.
Empurrou o gato com o bico da botina envernizada e a porta fechou-se sobre a sua vasta pessoa.
Depois que ele saiu, cada um olhou furtivamente para todos os outros, para ver como havia sido recebida a meno da palavra "passeio", a palavra que se tornara famosa, 
que adquirira uma importncia enorme, pois ligava-se s nicas notcias por assim dizer oficiais concernentes ao vago e sinistro rumor que assombrava as conversas 
da famlia.
Euphemia, cedendo a um impulso, disse com um riso rpido":
- Felizmente o tio Swithin no me convida para passeios! Mrs. Small, para a tranquilizar e para afastar o que aquele
assunto tinha de desconfortvel, respondeu:
- Minha querida,  o gosto dele, levar uma senhora bem vestida que lhe d importncia. Nunca mais esquecerei o passeio que demos juntos. Que experincia!
O seu velho rosto redondo e bochechudo iluminou-se um momento numa singular satisfao, depois distendeu-se numa contraco penosa e lgrimas molharam-lhe os olhos. 
Ela recordava uma pequena viagem de carro que fizera h muitos anos em companhia de Septimus Small.
James, que, l na cadeirinha baixa, retornara s suas preocupadas cismas, sacudiu-as de sbito:
- Sujeito engraado, Swithin.
Mas a sua voz tinha um timbre apenas meio convencido.
O silncio do velho Jolyon, os seus olhos severos,

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mantinham-nos todos numa espcie de paralisia. Ele mesmo estava desconcertado pelo efeito das suas prprias palavras, efeito que parecia aumentar ainda mais aquele 
rumor a que viera cortar a lngua Mas ainda estava encolerizado.
Ainda no acabara o seu negcio com eles: no, ainda tinha de lhes dar uma ensinadela! No tinha vontade de ser desagradvel com as sobrinhas, no tinha queixa delas 
- o velho Jolyon sempre se sentia clemente com uma mulher jovem e passvel -, mas aquele James, e em menor grau, talvez, os outros irmos e irms, mereciam bem o 
castigo que lhes daria. E, por sua vez, perguntou por Timothy.
Como se pressentisse que algum perigo ameaava o irmo mais velho, a tia Juley ofereceu subitamente ao velho Jolyon uma xcara de ch:
- O ch est  espera na outra sala, est frio e ruim. mas Smither far um novo para si.
O velho Jolyon ergueu-se.
- Obrigado - disse, fitando os olhos de James-, no tenho tempo para ch... nem para escndalos... nem para o mais! Est na hora de ir para casa. At  vista, Juley, 
at  vista. Hester: at  vista, Winifred.
E sem adeuses mais cerimoniosos, saiu com um passo forte Quando subiu ao carro, a sua clera evaporou-se, porque ele era sempre assim, nas suas irritaes: depois 
que feria, tudo se acabava. Uma tristeza caiu-lhe sobre o esprito. Fechara-lhes talvez a boca, mas a que preo! Agora j no duvidava que fosse verdadeiro o rumor 
no qual se recusava acreditar: June fora abandonada, e pela nora daquele sujeito! Sentia a certeza da coisa e retesava-se ainda para a repelir. Porm o sofrimento 
que ele escondia sob esse esforo comeava, surdamente, lentamente, a transformar-se num cego ressentimento contra James e o filho. As seis mulheres e o nico homem 
que ficaram na sala puseram-se a conversar com quanta liberdade era possvel depois do que acabava de se passar. Cada um sabia de si que no comentava nunca escndalo 
nenhum, mas no ignorava que os seis outros o faziam, todos estavam pois irritados e desconcertados.

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James foi o nico que se manteve em silncio, perturbado at ao mais profundo da sua alma.
Ao cabo de um momento, Francie observou:
- Sabem, estou a achar que o tio Jolyon est a mudar terrivelmente de um ano para c. Que  que a senhora acha, tia Hester?
A tia Hester teve um pequeno movimento de recuo:
- Oh, pergunte  sua tia Juley, eu no entendo disso. Ningum entre os outros teve medo de concordar, e James,
de cabea baixa, murmurou lugubremente:
- Ele est muito abatido.
- H muito tempo que o noto- disse Francie.- Ele est a envelhecer extraordinariamente.
A tia Juley abanou a cabea, e subitamente o seu rosto cobriu-se de covinhas:
- Coitadinho do Jolyon! Algum deveria cuidar dele.
Houve um novo silncio, depois, como se cada um se sentisse movido pelo terror de ficar sozinho para trs, as cinco visitas ergueram-se ao mesmo tempo e despediram-se.
Mrs. Small, a tia Hester e o gato viram-se a ss, e o som de uma porta que se fechava, no fim da casa, anunciou a aproximao de Timothy.
Nessa mesma noite, a tia Hester acabava de adormecer no quarto que fora outrora o da tia Juley, antes que a tia Juley se passasse para o que fora da tia Ann: a porta 
abriu-se e Mrs. Smal! entrou, com uma touca na cabea, uma vela na mo.
- Hester! - disse ela. - Hester!
A tia Hester fez remexer levemente os lenis
- Hester! - repetiu a tia Juley, para estar bem certa de a haver acordado. - Estou aflita por causa do pobrezinho do Jolyon. O que  - e a tia Juley acentuava a 
interrogao - que voc acha que a gente deve fazer?
A tia Hester fez novamente farfalhar os lenis, e murmurou numa voz fraca e queixosa:
- O que  que a gente deve fazer? Como  que voc quer que eu saiba?
A tia Juley voltou para o seu quarto, satisfeita. Quis fechar a porta com uma leveza excepcional para no incomodar a querida Hester,

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mas a mo escorregou e a porta bateu com estrpito. Voltando ao quarto, ps-se em p junto  janela, olhando, por entre as duas cortinas de cambraia que ela puxava, 
com medo de que a vissem de fora, o lugar sobre as rvores do parque. E ali, de olhos hmidos, o rosto redondo e mole dentro da touca cor-de-rosa, ps-se a pensar 
no querido Jolyon, to velho, to s, ps-se a imaginar como o auxiliaria, e como ele ficaria a gostar dela, a gostar "como nunca mais ningum gostara desde... desde 
que o pobre Septimus se finara."

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CAPTULO VIII.

O BAILE EM CASA DE ROGER.

A casa de Roger, em Princes Gardens, estava brilhantemente iluminada, inmeras velas de cera em candelabros de cristal lavrado reflectiam as suas constelaes sobre 
o soalho de dois sales contguos. Dera-se um aspecto de amplido s salas levando-se o mobilirio para o andar superior e rodeando-as com esses singulares acessrios 
da civilizao a que chamam cadeiras douradas.
Num canto afastado, um piano estava escondido entre palmas verdes, com um exemplar da Farndola de Kensington aberto sobre a estante.
Roger no quisera orquestra. No compreendia a sua utilidade, nem faria tal despesa: no valia a pena nem mesmo discutir o assunto. Francie (a me dela, que Roger 
reduzira a um estado de dispepsia crnica, ficava de cama nessas ocasies) teve pois de se contentar em reforar o pianista com um rapaz que tocava cornetim: e disps 
de tal modo as palmeiras que quem no gostasse de aprofundar muito as coisas poderia imaginar estarem ali vrios msicos. Resolveu ordenar aos msicos que tocassem 
com fora. Poder-se-ia tirar muita msica de um cornetim, se se tocasse com toda a alma.
Enfim, conseguiu chegar ao termo desse tortuoso labirinto de expedientes que  preciso atravessar antes de conseguir combinar uma apresentao elegante

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com a slida economia dos Forsyte. Esguia, mas elegante no seu vestido cor de milho, com uma nuvem de tule nos ombros, ia de lugar em lugar, ajustando as luvas, 
lanando um derradeiro golpe de vista ao conjunto.
Ao criado, alugado para a ocasio (todo o pessoal domstico de Roger era feminino) ela falou a respeito do vinho. Compreendera bem que Mr. Forsyte desejava que se 
trouxesse para cima uma dzia de garrafas de champanhe de Whiteley? Se as acabassem (coisa em que ela no acreditava, porque a maioria das senhoras bebia apenas 
gua), mas enfim, se as acabassem, restava apenas o cup de champanhe, e tinham de se arranjar com isso.
Francie detestava ter de dizer essas coisas a um criado. Era to vulgar! Mas como poderia proceder, com um pai como o que tinha? Quanto a Roger, depois de se ter 
mostrado sistematicamente desagradvel a respeito do baile, iria descer dali a pouco, com a sua cor rosada e a testa protuberante, e tomaria ares de organizador 
da festa. Sorriria, conduziria provavelmente  ceia a mulher mais bonita, e s duas horas, quando a festa estivesse no auge, iria sub-repticiamente dizer aos msicos 
que tocassem o God Save The Queen e desaparecessem.
Francie esperava do fundo do corao que ele se sentisse logo cansado e se eclipsasse para a cama.
As trs ou quatro amigas ntimas que tinham vindo ficar em casa dela, por causa do baile, haviam partilhado em companhia de Francie, l em cima, num quartinho abandonado, 
o ch e as coxas de galinha fria, servidos de qualquer modo. Quanto aos homens, tinham sido mandados jantar no Eustace's Club. Sentia-se que eles deveriam estar 
bem alimentados para a circunstncia. Quando batiam as nove horas, Mrs. Small chegou s, pontualmente. Desculpou laboriosamente Timothy, mas silenciou a respeito 
da tia Hester, que  ltima hora declarara no estar disposta a sair dos seus cmodos. Francie recebeu efusivamente a tia. f-la sentar numa cadeirinha de espaldar 
dourado, onde a deixou a fazer os seus trejeitos habituais, solitria, num vestido de cetim cor de alfazema. Era a primeira vez que a tia Juley vestia um trajo de 
cor depois da morte da tia Ann.

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As amigas ntimas desciam agora dos seus quartos. Como por acaso, usavam vestidos de cores diferentes, mas traziam a mesma profuso de gaze nos ombros e no peito, 
porque uma fatalidade quisera que fossem todas magras. Foram apresentadas a Mrs. Small. Nenhuma ficou junto da tia Juley mais de alguns segundos, e, agrupadas, pairavam, 
retorcendo nas mos os carnets e espiando furtivamente na porta a primeira apario de uma casaca.
Depois chegaram em grupo um certo nmero de componentes da famlia de Nicholas - sempre pontuais, pois essa era a moda nos lados de Landbroke Grove - e nos seus 
calcanhares vieram Eustace e os seus amigos, melanclicos e cheirando um pouco a fumo.
Trs ou quatro dos apaixonados de Francie apareceram ento, um aps o outro, ela fizera que cada um lhe prometesse chegar cedo. Vinham todos completamente barbeados, 
com esse jeito especialmente vivo nos modos e no andar que, havia algum tempo, estava na moda em Kensington. Nenhum deles parecia absolutamente incomodado pela presena 
dos outros, usavam gravatas de grandes laos, coletes brancos, meias de baguette. Escondiam todos um leno no punho da camisa. Circulavam em passos elsticos, cada 
um dentro da sua armadura de alegria profissional, como se tivessem vindo ali para realizar grandes feitos. Durante a valsa, os rostos deles, longe de reflectirem 
a tradicional solenidade do ingls que dana, eram de expresso abandonada, encantadora, suave. Saltavam, faziam que os seus pares girassem a grande velocidade, 
sem nenhuma ateno afectada ao ritmo da msica. Olhavam para os outros danarinos com uma espcie de desprezo alegre, eles, os da "Brigada Ligeira" (1), os heris 
de cem hops de Kensington, nicos modelos infalveis da legtima maneira de sorrir e caminhar.
Depois a onda de convidados engrossou rapidamente, depondo os chaperons ao longo da parede que fazia face  entrada

*1. The Light Brigade: aluso a um corpo de cavalaria que se ilustrou na Crimeia e foi glorificado por uma poesia clebre de Tennyson.


205

e arrastando o elemento mais jovem para aumentar o redemoinho no salo maior.
Os homens eram poucos, e as moas, habituadas a "fazer renda", tinham a sua expresso habitual, o seu sorriso pattico e pouco seguro, que parecia dizer: "Oh, no, 
no se engane! Eu sei que no  na minha direco que o senhor vem! Na verdade, no posso esperar por isso!" E Francie pleiteava junto de um dos seus namorados ou 
de qualquer mocinho: "Por favor, para me ser agradvel, deixe-me apresent-lo a Miss Pink. Ela  to amvel!" E arrastava-o, dizendo: "Miss Pink, Mr. Gathercole. 
Poderia reservar-lhe uma dana?" Ento Miss Pink, sorrindo o seu sorriso forado e corando um pouco, respondia: "Oh, creio que sim!" E, escondendo o carnet vazio, 
escrevia apaixonadamente nele o nome de Gathercole, no lugar que ele propusera, o segundo extra.
Mas quando o rapaz balbuciava que fazia calor, e partia, ela recaa na atitude de espera sem esperana e retomava o seu sorriso paciente e pouco seguro.
As mes, que abanavam lentamente o rosto, observavam as filhas, e poder-se-ia acompanhar nos seus olhos a fortuna destas ltimas. Ficarem sentadas, horas e horas, 
mortas de cansao, silenciosas ou falando uma vez ou outra, pouco importava s mes, conquanto as filhas se divertissem. Mas v-las abandonadas! Ah, sorriam, mas 
havia punhais nos seus olhos, como nos de um cisne ofendido, cada uma delas desejaria agarrar um Gathercole pelo cinturo das calas de dandy e arrast-lo at  
filha. O impertinente!
E todo o bem e o mal da vida - crueldade pattica, injustia, abnegao, pacincia - figuravam no campo de batalha desse baile de Kensington.
Aqui e ali havia namorados - no namorados como os de Francie, que eram de uma espcie particular-, mas namorados comuns, trmulos, enrubescidos, silenciosos, que 
se chamavam entre si por olhares fugitivos, procuravam encontrar-se, tocar-se nos meandros da dana, e s vezes, se danavam juntos, espantavam o espectador com 
a luz que lhes brilhava nos olhos.
Os James chegaram quando batiam as dez horas, nem um minuto mais cedo: Emily, Rachel, Winifred (haviam deixado Dartie em casa,

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uma vez, e numa ocasio idntica, em casa de Roger, ele bebera champanhe de mais) e Cicely, a mais jovem, que vinha estrear-se. Atrs deles, vindos de cab da casa 
paterna, onde haviam jantado, Soames e Irene.
Todas aquelas senhoras usavam simples alas nos ombros, sem nuvem de tule, mostrando assim  primeira vista, por uma exibio mais ousada dos seus encantos, que 
vinham do lado mais elegante do parque.
Soames, fugindo ao turbilho de danarinos, colocou-se de encontro  parede. Em p, armado com o seu sorriso plido, olhava. Valsa desenrolava-se sobre valsa, um 
par roava-o no voo, via passar rostos sorridentes, ouvia um riso, uma ponta de conversa, uns danavam de lbios fechados, com os olhos a revistar a multido, outros, 
de lbios silenciosamente entreabertos, olhos nos olhos. E o cheiro da festa, o perfume das flores, dos cabelos, das essncias que as mulheres preferem, elevavam-se, 
sufocantes, no calor da noite de Vero.
Mudo, com o sorriso mesclado de algum desdm, Soames parecia no ver nada, mas, de tempos a tempos, os seus olhos, encontrando o que procuravam, prendiam-se a um 
ponto movedio da multido e o seu sorriso desaparecia.
No danava. Alguns bons rapazes danavam com as suas esposas, porm o seu senso do decoro nunca lhe permitira danar com a mulher depois do casamento. E s o Deus 
dos Forsyte poder saber se seria ou no um alvio para Soames no poder convidar Irene.
Ela passava, danando com outros homens, o seu vestido cor de ris voava-lhe aos ps. Danava bem, e ele j se sentia cansado de ouvir as mulheres dizerem-lhe: "Como 
a sua senhora dana bem, Mr. Forsyte!  realmente um prazer olh-la!" E, alm disso, comeava tambm a ficar cansado de lhes responder, com o seu olhar de vis: 
"A senhora acha?"
Pertinho dele, um rapaz e uma moa abanavam-se cada um por sua vez com o mesmo leque, provocando um movimento de ar que o irritava. Francie, dois passos alm, conversava 
com um dos namorados: falavam de amor.
Ouviu atrs de si a voz de Roger fazendo uma recomendao

207

a um criado a respeito da ceia. Era tudo de segunda ordem! Soames lamentava ter vindo. Perguntara a Irene se precisava que a acompanhasse, e ela respondera com o 
seu sorriso de enlouquecer: "Oh, no!"
Porque viera ento? H mais de um quarto de hora que j no a via. E vinha agora George, com a sua cara de palhao, era tarde de mais para o evitar.
- Voc viu o pirata? - perguntou aquele engraado oficial. - Est de armas embaladas, cabelos cortados, equipamento completo.
Soames respondeu que no o vira, e, atravessando a sala, meio vazia, entre duas contradanas, foi  sacada e ps-se a olhar para a rua. Acabava de chegar um carro, 
trazendo retardatrios, e em torno da porta estacionavam vrios daqueles pacientes noctmbulos de Londres que surgem das luzes ou da msica. Os seus rostos erguidos, 
plidos, encimando os vultos escuros e rudes, tinham uma expresso de curiosidade tenaz que irritou Soames. Porque se consentia qUe aquela gente se arrastasse ali? 
Porque o polcia no os mandava circular?
Mas o policeman no cuidava nisso, mantinha-se firme, com os ps afastados plantados sobre o tapete vermelho que atravessava a calada. O seu rosto, o seu capacete, 
tinham tambm a mesma expresso de pacincia, simultaneamente curiosa e pesada.
Do outro lado da rua, atravs das grades do parque, Soames via os ramos das rvores, iluminados pelos postes de luz, erguerem-se fracamente  brisa que soprava, 
mais alm, via as luzes altas das casas fronteiras, como inmeros olhos que mergulhassem nas trevas tranquilas do jardim, e acima de tudo, o cu, aquele admirvel 
cu de Londres, polvilhado com o reflexo de inumerveis luzes, cpula onde flutua, entre as estrelas, essa luz turva, que se diria feita de tantas necessidades e 
de tantos sonhos humanos - imenso espelho de luxo e de misria, que noite aps noite estende a sua ironia indulgente sobre vrias lguas de casas e jardins, de palcios 
e barracas, sobre os Forsyte, policemen e noctmbulos pacientes das ruas.
Soames voltou-se, e, escondido na obscuridade da sacada, olhou para a sala iluminada. Fazia mais fresco ali fora. Viu entrar os recm-chegados:

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June e o av. O que os teria atrasado? Estavam em p, junto  porta. Como tinham o ar fatigado! Quem poderia imaginar o tio Jolyon chegando a uma hora daquelas? 
Porque no viera June em companhia de Irene, como de costume? E ocorreu-lhe subitamente que havia muito tempo que no via June.
E, observando-a com tranquila malevolncia, viu o rosto da moa mudar, empalidecer - tanto que ela parecia prestes a cair -, depois tornar-se rubro. Voltou-se para 
o lado onde June olhava e viu a mulher pelo brao de Bosinney, saindo da estufa que se abria no fundo do salo. Irene erguia os olhos para os do arquitecto, como 
se respondesse a uma pergunta que ele lhe houvesse feito, e ele envolvia-a num olhar intenso.
Soames novamente olhou para June. A mo dela estava apoiada no brao do velho Jolyon, tinha o ar de lhe fazer um pedido. Soames viu uma expresso de surpresa no 
rosto do tio, viu ambos voltarem-se e desaparecerem por trs da porta.
A msica recomeou - uma valsa - e, imvel como uma esttua, por trs da janela, o rosto impassvel, mas com os lbios sem um sorriso, Soames esperou. Um instante 
depois, a menos de um metro de distncia da sacada, a mulher passou danando com Bosinney. Ele sentiu o perfume das gardnias que ela usava, viu-lhe o subir e descer 
dos seios, o langor dos olhos, os lbios entreabertos e todo o rosto impregnado de uma expresso que no lhe conhecia. Danavam a um compasso lento e embalador, 
e parecia-lhe que eles se abraavam, se agarravam um ao outro, ele viu-a erguer os olhos veludosos e escuros para os de Businney, e baix-los depois.
Plido, voltou-se para a sacada, inclinou-se sobre a praa: os vultos imveis estavam sempre l, erguendo a cabea para a luz numa melanclica persistncia. O policeman 
tambm erguia a cabea, fixando as janelas, porm Soames no o viu. Diante da porta uma carruaigem encostou, duas pessoas subiram para ela e partiram...
Naquela noite, June e o velho Jolyon tinham-se sentado  mesa  hora habitual. O velho Jolyon no estava vestido, a moa trazia o seu vestido afogado de costume. 
Ao almoo, pela manh,

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ela falara daquele baile em casa do tio Roger, e dissera no querer ir, alegando ter-se esquecido de pedir a uma amiga que a acompanhasse. Agora era tarde de mais.
O velho Jolyon ergueu os olhos penetrantes. Normalmente, estava entendido que June sairia com Irene. E, mantendo-a deliberadamente sob o seu olhar, o av perguntara: 
"Porque no avisa Irene?"
No, June no queria avisar Irene, s iria se o av quisesse acompanh-la por uma vez, uma s vez!
Vendo-lhe o ar ardente e esgotado, o velho Jolyon concordou resmungando. Ele no compreendia a necessidade que ela tinha de ir quele baile, que, apostava, haveria 
de ser medocre. E ela no estava em melhor estado do que o gato para ir a tal festa. Do que ela precisava era do ar do mar, depois da assembleia anual da Globular 
Gold Concession, estava pronto para lev-la numas frias. June no queria partir? Ah, iria extenuar-se? E o av deslizou um olhar de tristeza sobre a pequena e voltou 
ao almoo.
June saiu cedo e errou nervosamente pelas ruas quentes. O seu corpinho leve, que havia algum tempo no se prestava seno languidamente s ocupaes dirias, estava, 
naquela manh, todo em fogo. Comprou flores. Queria estar bonita logo  noite, consegui-lo-ia. Ele estaria l. June sabia bem que o haviam convidado. Mostrar-lhe-ia 
que no se importava com ele. Mas no mais ntimo do corao resolvera reconquist-lo naquela noite. Voltou com o rosto em brasa, e falou com animao durante todo 
o almoo. O velho Jolyon enganou-se com aquilo.
Durante a tarde sentiu-se atacada por desesperados soluos. Abafava-os contra os travesseiros da cama, mas, quando o acesso passou, a moa viu no espelho um rosto 
intumescido e olhos vermelhos orlados de roxo. Ficou no quarto, de cortinas baixas, at ao jantar.
Durante a refeio, que decorreu em silncio, prolongava-se dentro dela uma luta ntima. Estava to plida, to extenuada, que o velho Jolyon ordenou ao seu "no 
conformista" que despachasse o carro, pois no deixaria a neta sair. Ela devia deitar-se.

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June no resistiu. Subiu para o quarto e sentou-se no escuro. s dez horas chamou a criada.
- Traga-me gua morna e v dizer a Mr. Forsyte que me sinto perfeitamente repousada. Diga que, se ele est muito cansado, eu posso ir sozinha ao baile!
A criada olhou-a de vis. June voltou-se imperiosamente:
- V depressa, traga j a gua morna.
O seu vestido de baile ainda estava estirado sobre o sof. Com uma espcie de ateno febril, ela vestiu-o, depois segurou as flores na mo e desceu levantando altivamente 
a cabea sob o peso dos cabelos. Ao passar, ouviu o velho Jolyon mexer-se no seu quarto.
Estupefacto, descontente, ele vestia-se. J passava das dez, e eles no chegariam antes das onze, a pequena estava maluca. Mas o av no ousou contrari-la, pois 
a expresso que lhe vira ao jantar apavorava-o.
Com as suas grandes escovas de bano alisou os cabelos at que ficassem brilhantes como prata  luz, e depois, por sua vez, desceu a escada escura.
June esperava-o em baixo, e, sem uma palavra, os dois subiram para o carro.
Depois do trajecto, que lhe pareceu durar uma eternidade, quando ela entrou no salo de Roger, dissimulava, sob uma mscara de resoluo, uma verdadeira tortura 
de emoo e nervosismo. A vergonha de correr atrs dele era abafada pelo receio de no o encontrar, talvez de no o ver, e tambm pela vontade obstinada de o reconquistar 
de qualquer modo, no sabia bem como.
O aspecto da sala de baile, com o seu soalho lustroso, deu-lhe uma sensao de alegria, de triunfo, porque gostava de danar, e quando danava flutuava leve como 
um pequeno elfo ardente.
Com toda a certeza convid-la-a para danar, e, depois de terem danado juntos, tudo seria novamente como dantes. E June olhou em torno de si com animao.
Mas ver Bosinney a sair da estufa em companhia de Irene, com o rosto to estranhamente, to totalmente absorvido,

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foi para ela um golpe repentino. Eles no haviam visto, ningum veria, nem mesmo o av, o seu desespero.
Pousou a mo no brao de Jolyon e disse baixinho:
- Preciso de voltar, av, sinto-me mal.
O velho levou-a  pressa, murmurando intimamente que bem previra aquilo. A ela no disse nada. S depois de estarem dentro do carro, que, por um acaso, se atrasara 
 porta, ele perguntou:
- Que foi, minha querida?
Sentiu o frgil corpo da moa sacudido de soluos, e ficou tomado de inquietao. Ela precisava de consultar Blank no dia seguinte. Ele exigia-o. No poderia deix-la 
naquele estado...
June abafou os soluos, e, apertando febrilmente a mo do av, apoiou-se a um canto do assento, com o rosto envolvido na charpe.
O velho no podia ver-lhe seno os olhos, que estavam imveis e fixavam a escurido em frente, mas no deixou de lhe acariciar a mo com os seus dedos magros.

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CAPTULO IX.

UMA NOITE EM RICHMOND.

Outros olhos, alm dos de June e Soames, haviam visto "aqueles dois" (como j lhes chamava Euphemia) quando saam da estufa: outros olhos haviam notado a expresso 
do rosto de Bosinney.
H momentos em que a Natureza revela a paixo que se esconde sob a calma indiferente dos aspectos habituais, um relmpago violento que, rebentando atravs de nuvens 
purpreas, lana um claro branco sobre flores de amendoeira, um pico nevado, cor de luar, com a sua nica estrela, recortando-se no azul apaixonado da noite, ou, 
contra o fogo do poente, o vulto de um velho teixo erguido como sombrio guardio de algum ardente segredo.
Porm, Deus guarde um Forsyte de nada compreender das foras da Natureza. Deus o defenda de admitir um nico instante que elas existem. Se ele o admitir, at onde 
ir?
O olhar que June surpreendera, que outros Forsyte surpreenderam, foi como um buraco atravs de um estore - o claro de luz que passa, chama sbita jorrando atravs 
do que no era seno uma claridade errante, vaga, obscura, atraente. Os que o viram compreenderam que foras perigosas estavam a agir. Durante um momento, notaram-no 
com prazer, com interesse, depois sentiram que no deveriam not-lo absolutamente.

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Esse olhar forneceu-lhes entretanto a explicao da tardia chegada de June, do seu rpido desaparecimento, sem que ela houvesse danado, sem que houvesse, ao menos, 
apertado a mo ao noivo. Estava doente, e tinha razes para isso, diziam.
Mas nesse ponto os Forsyte olhavam-se entre si com ares culpados. No desejavam espalhar um escndalo, executar uma obra malfica. Quem o desejaria? Ningum diria 
uma palavra a respeito do sucedido s pessoas de fora, porque a lei no escrita impunha o silncio.
Foi ento que at eles chegou a notcia de que June partira para a praia com o velho Jolyon. Este levara-a para Broadstairs, um aprazvel local no longe de Yarmouth, 
onde talvez se demorassem mais de uma semana, ali se instalando ambos com toda aquela dignidade que mais se assemelharia a uma fatalidade inerente a todos os Forsyte.
Assim, tendo June partido para a praia,  famlia apenas restava aguardar notcias mais pormenorizadas. E entretanto nada mais poderiam fazer.
Mas at onde, at onde teriam ido "aqueles dois"? At onde iriam? Haveria realmente alguma coisa? Aquilo no os levaria a nada, com toda a certeza, porque nenhum 
dos dois tinha dinheiro. No mximo, um flirt, que terminaria na ocasio devida.
A irm de Soames, Winifred Dartie, que se impregnara, graas s brisas de Mayfair (morava em Green Street), de ideias mais modernas a respeito dos assuntos dos casais 
jovens - o que no ocorria em Landbroke Grove, por exemplo-, achava engraado que se receasse qualquer coisa de srio. A sua cunhadinha (Irene era a mais alta das 
duas e era um belo testemunho prestado ao slido valor dos Forsyte s a tratarem no diminutivo), a sua cunhadinha aborrecia-se. Porque no procuraria uma distraco? 
Soames era cansativo, e, quanto a Mr. Bosinney (s aquele palhao do George inventaria chamar-lhe Pirata), Winifred afirmava que o considerava muito chique.
Aquela opinio - que Bosinney era chique - fez sensao. No conseguiu convencer ningum. Poder-se-ia dizer que Bosinney tinha, de certo modo, uma figura elegante, 
porm chamar chique a um homem com aquelas mas do rosto salientes,

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com aqueles olhos curiosos e aqueles chapus moles, no passava de mais uma prova da extravagante mania de Winifred de andar a correr atrs de novidades.
Alis, naquele Vero, estava em moda a extravagncia, a prpria terra estava extravagante, os castanheiros mais floridos do que nunca, as flores mais afogadas em 
perfume: as rosas desabrochavam em todos os jardins, e as noites mal tinham espao bastante para os enxames de estrelas, cada dia, e durante todo o dia, o sol em 
grande armadura balanava por sobre o parque o seu escudo de bronze, e as pessoas faziam coisas estranhas, almoavam e deitavam-se ao ar livre. Nunca se vira uma 
to grande onda de carruagens escoar-se sobre as pontes do Tamisa, que luzia l em baixo, transportando aos milhares todas as upper classes londrinas para os esplendores 
verdejantes de Bushey, Richmond, Kew ou Hampton Court.
E naquele Vero todas as famlias que se contavam entre a casta possuidora de carruagens sentiram a obrigao de fazer uma visita aos bosques de Busey ou dar um 
passeio por entre os castanheiros de Richmond Park. Rodando sem solavancos, entre as nuvens de poeira que as rodas das carruagens levantavam, aquela gente maravilhava-se 
correctamente com as cabeas enfeitadas de ervas que grandes e lentos caprinos faziam surgir de uma floresta de fetos, floresta que prometia aos amantes do Outono 
um abrigo como eles jamais haviam visto antes. E de tempos a tempos, quando o apaixonado perfume dos castanheiros em flor ou dos fetos passava numa rajada mais forte, 
dizia-se: "Minha querida! Que perfume!"
As flores das tlias, naquele ano, tinham quase a cor do mel, nos ngulos das praas de Londres espalhava-se, ao fim do dia, um perfume mais doce que o suco aspirado 
pelas abelhas, perfume que disseminava desejos sem nome nos coraes dos Forsyte e dos seus companheiros, quando, depois do jantar, vinham gozar o fresco dentro 
daqueles jardins de que s eles tinham a chave (1).
Essa mesma nostalgia fazia-os demorar junto s formas empalidecidas dos canteiros,

*1. Jardins de Londres reservados aos moradores de uma mesma praa. (N. da T.)

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junto  luz enfraquecida, fazia-os girar em torno dos relvados e girar ainda, como se o amor os esperasse, at que a ltima luz se apagasse sobre os ramos.
Talvez uma vaga simpatia provocada pelo perfume das tlias, talvez um desejo fraternal de examinar a situao com os seus prprios olhos, ou a ideia de demonstrar 
a solidez do seu diagnstico, isto , que "no havia nada", ou simplesmente o desejo, irresistvel naquele Vero, de ir de carro a Richmond, tenham feito que a me 
dos pequenos Dartie (PubLius. Imogen, Maud e Benedict), escrevesse  cunhada a carta seguinte:

30 de Junho,

Minha cara Irene:

Soube que Soames deve ir amanh a Hendey e l passar a noite. Pensei que seria agradvel organizarmos um passeio, e irmos de carro at Richmond. Se voc quiser 
convidar Mr. Bosinney. eu levarei o jovem Flippard.
Emily (chamavam  me "Emily", era to chique!) emprestar-nos- o carro. Irei busc-la s sete horas com o seu cavalheiro.

Sua irm amiga,

Winifred Dartie.

P. S. - Montague  de opinio que poderemos arranjar no Crown and Sceptre um jantar bem razovel.
Dartie fazia que o chamassem pelo seu segundo nome, Montague, pois o primeiro era Moses. Dartie era, antes de tudo, um homem mundano.
O projecto de Winifred encontrou, por parte da Providncia mais oposio do que merecia, inspirado que fora em to boas intenes. Em primeiro lugar, o jovem Flippard 
escreveu-lhe o seguinte:

216

Minha cara Mrs. Dartie:

Desolado: estou comprometido. E  impossvel libertar-me. Sempre seu,

Augustus Flippard.

E era muito tarde para sair  procura de um outro parceiro.
Com a presteza e a prudncia de uma mulher prtica, Winifred recorreu ao marido. Ela tinha aquele carcter decidido, mas conciliante, que est de acordo com um perfil 
agudo, cabelos louros e olhos esverdeados. Nunca se dava por vencida, e, se se via num embarao, arranjava-se por transform-lo numa vantagem.
Dartie tambm estava com boa disposio. Erotic perdera a taa do Lancashire. Quem o acreditaria? Aquele animal clebre, pertencendo a um dos reis das coudelarias, 
que tinha apostado em segredo contra ele milhares de libras, nem sequer correra. As quarenta e oito horas que se seguiram  corrida foram das mais sombrias da vida 
de Dartie. Dia e noite, sentia-se obcecado pelas vises de James. Negras suspeitas a propsito de Soames mesclaram-se a nfimos clares de esperana. Na sexta-feira 
 noite estava to impressionado que se embebedou. Mas no sbado pela manh o legtimo instinto da Bolsa triunfou nele. Com dvidas que subiam a vrias centenas 
de libras, cujo pagamento estava fora do seu alcance, jogou tudo o que lhe restava em Concertino. para o handicap de Saltovy Borough.
E, segundo contou ao major Schotton, com quem almoava no clube: "Aquele judeuzinho - Nathan - dera-lhe esse palpite. Imagine se fracassasse! O velho ficaria uma 
fera, ao saber! O seu desprezo por James tinha crescido com uma garrafa de foi Roger que ele oferecera a si mesmo. A sorte virara. Concertino vencera por um pescoo! 
Livra! Pouco faltara! Mas, como dizia Dartie, no h nada como ter coragem!
Assim, no se mostrou contrrio  expedio a Richmond. At a pagaria! Tinha admirao por Irene e desejava relacionar-se mais intimamente com ela. s cinco e meia, 
um dos criados de Park Lane chegou com um recado:

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"Mrs. Forsyte sentia muito, mas um dos cavalos estava com tosse."
Winifred, a quem este novo golpe no abateu, despachou imediatamente para Montpellier Square o pequeno Publius (actualmente com sete anos) sob a gide da governanta: 
levavam este recado: "Iriam em dois cabs e encontrar-se-iam no Crown and Sceptre s sete e trs quartos."
Dartie no se aborreceu com essa notcia.. Era melhor do que fazer o trajecto inteiro no banco da frente do carro. E no lhe seria desagradvel acompanhar Irene. 
Primeiro iriam buscar os outros e tomariam os cabs em Montpellier Square.
Mas, sabendo que o encontro era no Crown and Sceptre e que devia fazer o trajecto em companhia da mulher, ficou aborrecido e declarou que o passeio seria maador. 
Partiram s sete horas, Dartie apostou trs shillings com o cocheiro em como no fariam o trajecto em trs quartos de hora. S duas vezes, durante a caminhada, marido 
e mulher falaram.
Dartie disse:
- Master Soames vai fazer uma cara quando souber que a mulher andou a passear de cab com Master Bosinney!
Winifred protestou:
- No diga disparates, Monty!
- Disparates? Voc no conhece as mulheres, minha senhora!
Uma outra vez ele perguntou simplesmente:
- Como  que estou? Estou com a cara muito vermelha? Esse champanhe que George me fez beber  um vinho muito forte.
Ele almoara num restaurante em companhia de George Forsyte.
Bosinney e Irene tinham chegado primeiro, estavam em p, junto a uma das altas janelas francesas que davam para o rio.
Naquele Vero, as janelas mantinham-se abertas durante todo o dia e tambm durante a noite: e noite e dia entravam por elas os perfumes das flores e das rvores, 
o quente odor da erva ressequida, o fresco aroma dos orvalhos pesados.
Aos olhos do observador Dartie,

218

os seus dois convivas no se mostraram muito entusiasmados, em p, assim, um ao lado do outro, sem dizerem palavra.
De qualquer modo, abandonou-os aos cuidados de Winifred e tratou de encomendar o jantar.
Um Forsyte exigiria uma boa, talvez delicada refeio, mas um Dartie punha  prova todos os recursos do Crown and Sceptre. Vivendo como vivia, ou jour le jour, no 
achava que prato nenhum fosse bom de mais para si, e queria com-lo. Era preciso tambm que a bebida fosse escolhida, h neste pas muitos vinhos que no so bastante 
bons para Dartie: ele quer sempre melhor. J que no  ele prprio quem paga, no h razo para se privar. Privar-se  prprio de um tolo, no de um Dartie.
Tirar de cada coisa o que ela tem de melhor! No h nenhum princpio mais slido sobre o qual um homem possa estabelecer a sua vida quando o sogro tem um grande 
rendimento e um fraco pelos netos.
Dartie (que tinha bom golpe de vista) descobrira em James essa fraqueza desde o primeiro ano que se seguiu ao nascimento do pequeno Publius [um engano) e tirara 
proveito da sua perspiccia. E quatro pequenos Dartie constituam agora para ele uma espcie de seguro perptuo.
O trao principal do jantar foi indiscutivelmente o peixe. Era um peixe delicioso, importado de longe, num estado de conservao quase perfeito, e fora de incio 
frito e depois desossado. Foi servido no gelo. com um punch de Madeira em vez de molho, segundo uma receita conhecida apenas de um pequeno nmero de homens do mundo.
E nada mais merecia um comentrio seno o facto de ter sido Dartie quem pagou a conta. Ele tornara-se extremamente agradvel durante todo o jantar, o seu olhar ousado 
e admirativo quase no se despregava do rosto de Irene ou da sua cintura. Como se sentiu obrigado a confessar a si mesmo, ela no lhe retribuiu o interesse, era 
fria, to fria quanto o pareciam ser os seus ombros sob o vu de renda creme que os cobria. Dartie pensou surpreend-la nalguma intriga amorosa com Bosinney. mas 
tambm desse lado no havia nada, ela portava-se admiravelmente.

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Quanto ao pobre diabo do arquitecto, estava to melanclico como um urso com dor de cabea, e Winifred dificilmente lhe arrancava uma palavra, no comia nada, mas 
no deixava de beber o seu vinho, e o rosto tornava-se-lhe cada vez mais plido, os olhos cada vez mais estranhos.
Tudo isso era muito divertido. Porque Dartie sentia-se em excelentes condies e falava com facilidade e um certo tom picante, pois no era nenhum tolo. Contou duas 
ou trs histrias que roavam pela inconvenincia. Era uma concesso ao grupo, pois habitualmente no se contentava em apenas roar essa inconvenincia. Fez, de 
brincadeira, um brinde a Irene. Ningum bebeu, e Winifred disse:
- No se faa palhao, Monty!
Por proposta de Winifred, foram depois do jantar para o terrao pblico que domina o rio.
- Eu gostaria de ver a gente da plebe a amar - disse ela. -  to engraado!
Havia muitos namorados que caminhavam na sombra fresca, depois do calor do dia. e o ar estava fremente do som das suas vozes, grosseiras e pesadas, ou ento macias 
como que murmurando segredos.
No demorou muito para que o senso prtico de Winifred - ela era a nica Forsyte do bando - descobrisse um banco vazio. Uma pesada rvore estendia-se por sobre as 
cabeas deles, formando um baldaquino espesso, e a nvoa ia lentamente escurecendo o rio.
Dartie sentara-se numa ponta do banco, ao seu lado, Irene, depois Bosinney, depois Winifred. Mal havia lugar para quatro, e o homem mundano sentia o contacto do 
brao de Irene contra o seu. Sabia que ela praticamente no podia mover-se sem ser indelicada, e divertia-se com aquilo. De tempos a tempos, combinava um movimento 
para se aproximar ainda mais: dizia de si para si: "Esse Pirata no sabe defender-se, mas. na verdade, estamos apertados!"
Da profundidade, onde corria o rio escuro, subia um som de bandolim, e vozes cantavam uma velha ronda:

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A boat, a boat unto the ferry,
For we go over and be merry,
And laugh, and quaff, and drink brown sherry! (1)

E de sbito a Lua apareceu, jovem e terna, emergindo de uma rvore, e, como se ela o houvesse respirado, o ar tornou-se mais fresco, porm, dentro daquele sopro 
mais fresco flutuava sempre o perfume das tlias.
Por cima do charuto, Dartie examinava curiosamente Bosinney, que se sentara de braos cruzados, com os olhos fixos, fitando o vazio em frente: tinha a expresso 
de um homem torturado.
E Dartie lanou um olhar para o rosto que estava entre eles, de tal modo velado pelas sombras que no parecia ser seno um pouco de obscuridade mais escura, que 
tomara forma e respirava, doce, misteriosa, atraente.
Descera um silncio sobre o ruidoso terrao, como se os passeantes pensassem em segredos preciosos de mais para serem ditos.
E Dartie pensava: "Ah, as mulheres!"
O reflexo desapareceu no rio, a cantiga parou, a jovem Lua escondeu-se por trs de uma rvore e tudo se tornou escuro. Dartie apertou-se mais de encontro a Irene. 
No se sentiu alarmado pelo estremecimento que percorreu os membros que ele tocava, nem pelo olhar que ela lhe lanou, olhar de perturbao e desprezo. Sentiu que 
ela tentava afastar-se e sorriu.
 preciso confessar que aquele homem mundano bebera a quantidade mxima de vinho que poderia suportar. Com os seus grossos lbios entreabertos e os olhos que a fixavam 
obliquamente, tinha a expresso maldosa de um stiro.
Ao longo de um trilho no cu vogavam enxames de estrelas, e como os mortais, c em baixo, elas pareciam cruzar-se, apertar-se, trocar segredos. O zumbido das vozes 
recomeou no terrao, e Dartie pensava.- " um pobre diabo, este Bosinney! Que cara de faminto!" E mais uma vez se apertou contra Irene.
O homem mundano estava mais resolvido do que nunca

*1. Um bote, um bote, na passagem do rio, para que o atravessemos, vamos divertir-nos, rindo e bebendo grandes tragos de sherry escuro!

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a ver at onde poderia ir. Enquanto passeavam pelo terrao, acompanhou-a passo a passo: havia muito vinho bom dentro dele, haveria o longo trajecto de volta, o longo 
trajecto, a escurido tpida e a agradvel proximidade do cab, retiro inventado por qualquer gnio amvel e bom. Quanto quele arquitecto esfomeado, poderia trazer 
Winifred de volta. Dartie desejava-lhe prazer! E, compreendendo que a sua voz no estava muito segura, tinha cuidado em no dizer nada. mas um sorriso imobilizara-se 
nos seus lbios grossos.
Caminharam para os carros que os esperavam na extremidade do terrao. O seu plano tinha o mrito das grandes concepes - uma simplicidade quase brutal: ele ficaria 
junto dos calcanhares de Irene at que ela subisse, e subiria imediatamente depois.
Porm, quando Irene chegou diante do carro, em vez de entrar, deslizou para perto da cabea do cavalo. E nesse momento Dartie no conseguiu foras bastantes nas 
pernas para a seguir Com despeito, enquanto ela acariciava o focinho do cavalo, viu Bosinney chegar primeiro junto dela. Irene voltou-se e falou-lhe rapidamente, 
em voz baixa, e chegaram a Dartie as palavras "aquele homem". Mas Dartie ficou obstinadamente ao p do estribo, esperando que ela viesse. Tinha apostado naquilo. 
E na luz da lanterna o seu vulto (que no ultrapassava a estatura mdia) bem recortado no colete branco do trajo de noite, o sobretudo leve atirado no brao, um 
cravo na lapela, e na face escura aquele ar confiante de bom humor e de insolncia - tinha tudo a seu favor -, era um homem mundano integral.
Winifred j subira para o seu cab. E Dartie monologava que, para Bosinney, se ele no se esforasse, a viagem no seria alegre. Porm de sbito recebeu um empurro 
que quase o fez cair e a voz de Bosinney sibilou-lhe ao ouvido: "Sou eu que levo Irene, ouviu?" E Dartie viu um rosto decomposto de paixo e uns olhos que lanavam 
chispas como os de um gato selvagem.
- Hem? - gaguejou ele. - O qu? Absolutamente! Voc leva a minha mulher!
- Saia da - silvou Bosinney -, seno derrubo-o!
Dartie recuou, vendo to claramente quanto era possvel que o animal cumpriria o prometido.

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N'o espao que deixou livre, Irene insinuou-se. Sentiu o vestido dela roar-lhe as pernas. Bosinney subiu depois da moa.
Ele ouviu o Pirata dizer: "Siga!" O cocheiro chicoteou o cavalo que pulou para a frente. Dartie ficou imvel um momento, tomado de estupor, depois precipitou-se 
para o carro onde a mulher estava sentada, e subiu tumultuosamente.
Mal se sentou ao lado da mulher, rebentou em imprecaes. Acalmando-se depois, com um esforo supremo, acrescentou:
- Bom arranjo voc fez deixando-a voltar com aquele Pirata, Porque no a levou consigo? Ele est louco, louco de paixo. Qualquer idiota pode ver isso! - E abafou 
a resposta de Winifred em novas pragas contra o Todo-Poderoso. e s ao chegar a Barnes acabou uma jeremiada durante a qual injuriara a mulher, o sogro. Irene, Bosinney, 
o nome dos Forsyte, os seus prprios filhos, alm de ter amaldioado o dia em que se casara.
Winifred, mulher de carcter forte, deixou-o falar. Quando ele acabou, caiu num silncio furioso. Os seus olhos enfurecidos no deixavam a traseira daquele cab que, 
diante dele, assombrava a obscuridade como o fantasma de uma oportunidade perdida.
Felizmente no podia ouvir o apelo apaixonado de Bosinney, aquele apelo que o procedimento do homem mundano havia desencadeado como uma onda: no podia ver Irene 
estremecer como se lhe houvessem arrancado o vestido, nem espiar-lhe os olhos escuros e dolorosos como os de uma criana aoitada. Ele no podia ouvir Bosinney suplicar, 
suplicar, suplicar mais ainda, nem Irene chorar de sbito, nem ver aquele pobre diabo de rosto faminto, repentinamente trmulo e aterrorizado, tocar-lhe humildemente 
a mo.
Em Montpellier Square, o cocheiro, seguindo a ordem ao p da letra, parou conscienciosamente o cavalo atrs do primeiro cab. Os Dartie viram Bosinney saltar sobre 
o passeio, Irene descer depois, e subir os degraus da casa, rapidamente, de cabea baixa. Trazia evidentemente a sua chave na mo, porque desapareceu imediatamente. 
Seria impossvel dizer se ela voltara para falar a Bosinney.
Este ltimo passou a p ao lado do carro dos Dartie,

223

 luz de um dos postes da rua, marido e mulher puderam perfeitamente ver-lhe o rosto: estava agitado por uma emoo violenta.
- Boa noite, Mr. Bosinney! - exclamou Winifred. Bosinney estremeceu, tirou o chapu e desapareceu  pressa. Evidentemente esquecera a existncia deles.
- E ento? - disse Dartie. - Voc viu a cara daquele animal? Que foi que eu disse? Bonito, hem? Ele aproveitou a ocasio.
Era to claro que sobreviera uma crise durante a volta que Winifred no pde defender a sua teoria. E ela disse:
- No direi mais nada a respeito disso. No sei que  que adianta andar-se com histrias!
Dartie concordou. Considerava James como uma reserva pessoal e no aprovava que o incomodassem com os aborrecimentos dos outros.
- Voc tem razo - disse ele. - Soames que se arranje sozinho. Est perfeitamente em condies de se arranjar.
Proferindo tais palavras, os Dartie entraram na sua casa de Green Street (cujo aluguel era pago por james) e foram gozar de um merecido repouso. Era j meia-noite, 
e no havia mais nenhum Forsyte na rua para vigiar a corrida sem destino de Bosinney, para v-lo desandar o caminho e voltar a apoiar-se sobre a grade da praa, 
dando as costas  luz do poste de iluminao, para o ver ali, em p, na sombra das rvores, espiando a casa onde ela estava escondida na escurido, aquela por quem 
ele daria o mundo inteiro s para a ver um nico minuto, aquela que representava agora para ele o perfume das tlias, a prpria alma da luz e da sombra, o bater 
do seu prprio corao.

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CAPTULO X.

DEFINIO DE UM FORSYTE.

Faz parte da natureza de um Forsyte ignorar que pertence  espcie dos Forsyte, Jolyon filho no o ignorava. Porm s o sentira depois de dar o passo decisivo que 
o expulsara da casta. Mas desde ento essa certeza nunca mais o abandonara. Sentia-a em todos os momentos da sua unio, em todas as suas relaes com a sua segunda 
mulher, que no era Forsyte em grau nenhum.
Ele sabia muito bem que, se no possusse amplamente o dom de reconhecer aquilo de que precisava, a tenacidade de querer para se agarrar ao que queria, o sentimemto 
da loucura' que seria estragar o que comprara por preo to elevado - por outras palavras, no tivesse ele o "senso da propriedade" -, nunca teria podido conservar 
a sua mulher (nem talvez houvesse desejado conserv-la) junto a si, atravs de todas as dificuldades pecunirias, as mortificaes e os mal-entendidos daqueles quinze 
anos: nunca a teria convencido a casar com ele, depois da morte da primeira mulher, nunca teria podido atravessar tudo aquilo, e reaparecer de qualquer modo  superfcie, 
abatido mas sorridente.
Ele era daqueles homens que, sentados de pernas cruzadas como minsculos dolos chineses, na gaiola do prprio corao, sorriem eternamente para si prprios um sorriso 
de dvida.

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No que esse sorriso, to ntimo e to permanente, lhe modificasse a actividade, a sua actividade, como o seu queixo, e o seu temperamento inteiro, apresentavam 
uma mistura particular de doura e deciso. "
Ele tinha tambm conscincia de ser um Forsyte no seu trabalho- aquela pintura a aguarela  qual consagrava tanta energia -, mas mantendo-se sempre de olhos abertos 
em relao a si mesmo, como se no pudesse levar inteiramente a srio um ofcio to pouco prtico. E, alm disso, sentia um singular mal-estar  ideia de fazer com 
ele to pouco dinheiro.
E essa conscincia ntima de tudo que comporta a qualidade de Forsyte traduziu-se, em face da seguinte carta do pai, por uma simpatia que no exclua um certo temor.

Sheldrake House, Broadstairs - x de Julho,

Meu caro Jo:
(A letra do pai mudara muito pouco, de h trinta anos para c - desde que a conhecia.)
H quinze dias que estamos aqui, e h quinze dias que temos bom tempo. O ar  bom, mas sofro do fgado, e no me desagradaria voltar para a cidade. No tenho muito 
de bom para lhe contar a respeito de June, a sua sade no  boa, e o moral vai na mesma, e no sei mesmo como isto acabar. Ela no diz nada, mas  claro que definha 
por causa desse noivado - se  noivado ou o que quer que seja - e que... Deus sabe o resto. Receio muito que no convenha lev-la de volta a Londres, no presente 
estado de coisas, porm ela  to voluntariosa que pode resolver voltar de um momento para outro. Algum deveria falar com Bosinney e indagar as suas intenes. 
Hesito em faz-lo eu prprio, porque certamente lhe diria o que ele merece. Mas pensei em voc, que pode encontr-lo no clube. Poderia sond-lo, e ver a quantas 
anda ele. Bem entendido, de modo nenhum voc deve trair June.

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Ficarei satisfeito se em breve receber carta sua, caso obtenha alguma informao. Esta situao d-me grandes cuidados e apoquenta-me as noites inteiras.
Com beijos para Jolly e Holly,

abraos do pai amigo Jolyon Forsyte.

Jolyon filho meditou a respeito daquela carta to longa e seriamente que a mulher, notando-lhe a preocupao, perguntou-lhe o que tinha. Ele respondeu: "Nada!"
Ele fixara o princpio de nunca fazer diante dela nenhuma aluso a June. Ela alarmar-se-ia e ele no sabia absolutamente em que coisas ela iria pensar. Por isso 
procurou afastar da sua atitude qualquer aparncia de preocupao, mas no o conseguiu muito melhor do que o pai, porque herdara toda a transparncia do velho Jolyon 
em matria de diplomacia caseira, de forma que Mrs. Jolyon filho, desempenhando os seus deveres domsticos naquela manh, ia e vinha pela casa de lbios cerrados 
e lanava ao marido olhares inconsolveis.
 tarde ele partiu para o clube com a carta no bolso, mas sem se ter decidido a nada.
Era-lhe particularmente desagradvel ter de sondar o estado moral de um homem, a sua prpria situao, anormal como o era, no diminua essa repugnncia. Aquilo 
parecia, tanto como as coisas da sua famlia - como todos que ele conhecia e frequentara -, pretender fazer valer assim o que chamavam os seus direitos sobre um 
homem e encost-lo  parede. Era to deles aplicar nas suas relaes particulares as suas regras de negcios!
E como aquela frasezinha da carta "Fica entendido que de modo nenhum voc deve trair June" anulava a operao!
Entretanto aquela carta, com tudo o que ela continha de ofensa pessoal, de inquietao por June, e com a ideia de dizer a Bosinney o que ele merecia, era toda to 
natural! Nada de admirar se o pai queria saber as intenes de Bosinney, nada de admirar que estivesse to irritado.

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Parecia-lhe difcil recusar. Mas porque o encarregara daquela providncia? Decerto no era conveniente, mas um Forsyte, para atingir o seu fim, no  escrupuloso 
na escolha dos meios (uma vez salvas as aparncias).
Como desempenhar-se do encargo ou como recus-lo? Ambas as coisas pareciam impossveis. Assim pensava Jolyon filho.
Chegou ao clube s trs horas, e a primeira pessoa que viu foi o prprio Bosinney, sentado a um canto, olhando fixamente para a janela. Jolyon filho instalou-se 
no longe dele e recomeou, nervosamente, a examinar a situao. De vis, olhava para Bosinney, que no o percebera ainda. No o conhecia muito, e talvez pela primeira 
vez o observava atentamente: um homem singular, cujos traos, roupa e atitudes o separavam de todos os outros membros do clube. O prprio Jolyon filho, embora se 
houvesse tornado to diferente dos seus pelo gnio e pelo carcter, conservara sempre, na exterioridade, toda a correcta reserva de um Forsyte.
Era o nico entre os Forsyte que ignorava o apelido posto a Bosinney. O homem era esquisito - no excntrico, mas esquisito - e parecia cansado, extenuado, com as 
faces cavadas sob as mas salientes, e entretanto o seu aspecto no tinha nada de doentio, era fortemente constitudo, e o cabelo ondulado parecia manifestar toda 
a vitalidade de uma bela constituio.
Qualquer coisa naquele rosto e naquela atitude comoveram Jolyon filho. Ele conhecia o sofrimento e aquele homem parecia sofrer. Ergueu-se e tocou-lhe no brao.
Bosinney teve um sobressalto, mas no deu nenhuma mostra de embarao ao reconhecer aquele que o abordava.
Jolyon filho sentou-se.
- H muito tempo que no o vejo - disse. - Como vai com a casa de meu primo?
- Deve estar acabada dentro de uma semana.
- As minhas felicitaes!
- Obrigado, mas no sei por qu?
- No?-perguntou Jolyon filho. - Eu supunha que o senhor ficaria satisfeito por chegar ao fim de um longo trabalho como aquele. Mas talvez sinta o mesmo que eu sinto 
quando me separo de uma aguarela,

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 um sentimento parecido com o da paternidade.
E olhava com bondade para Bosinney.
- Sim - respondeu este mais cordialmente. - Aquilo deixa-nos e est tudo dito. No sabia que o senhor pintava.
- S aguarelas, e no posso dizer que acredito no meu trabalho.
- No acredita no seu trabalho? Ento porque o faz? De que serve trabalhar quando no se acredita no trabalho?
-  verdade - disse Jolyon filho. -  sempre o que digo. Entre parntesis, j notou que todas as vezes que a gente diz " verdade", acrescenta " sempre o que digo"? 
Mas se o senhor me perguntar como  que eu consigo trabalhar, eu dir-lhe-ei que  porque sou um Forsyte.
- Um Forsyte! Nunca o considerei um deles!
- Um Forsyte-continuou Jolyon filho - no  um animal raro. H centenas deles entre os membros deste clube. Centenas l fora, na rua. Encontram-se centenas deles 
em qualquer parte onde se v!
- E posso pergumtar-lhe por que  que eles se do a conhecer? - indagou Bosinney.
- Pelo seu instinto de propriedade. Um Forsyte tem um ponto de vista prtico sobre as coisas - um ponto de vista de bom senso, poder-se-ia dizer - e todo o ponto 
de vista prtico sobre as coisas tem como base um instinto da propriedade. Um Forsyte. o senhor o notar, nunca se entrega.
- Est a brincar?
Um claro de divertimento atravessou os olhos de Jolyon filho.
- Absolutamente! Como eu prprio sou um Forsyte, no tenho nada a dizer contra isso, mas eu sou uma espcie de mestio, pois bem: no  possvel erro nenhum a seu 
respeito: o senhor  to diferente de mim quanto eu sou do meu tio James, que  o espcime perfeito do Forsyte. O seu instinto de propriedade  extremo, enquanto 
o senhor, o senhor, no tem praticamente nenhum. Se eu no estivesse entre os dois, ambos pareceriam pertencer a duas espcies diferentes. Eu sou o elo intermedirio. 
Bem entendido, ns somos todos escravos da propriedade, e admito

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que no se trata seno de uma questo de mais ou de menos, porm, aquilo a que chamo um Forsyte  um homem que, decididamente,  muito mais que menos. Ele sabe o 
que  bom, sabe o que  seguro, e o modo como se agarra a tudo o que possui - mulher, casa, dinheiro, reputao, pouco importa-, veja bem,  o que o distingue.
- Ah - disse Bosinney -, o senhor deveria tirar uma patente para essas palavras.
- Eu gostaria - disse Jolyon filho - de fazer uma conferncia: natureza e propriedade de um Forsyte. Esse pequeno animal, sensibilssimo ao ridculo que lhe possam 
infligir os da sua espcie, no se deixa absolutamente perturbar nos seus movimentos pelo riso dos estranhos (o senhor ou eu), Hereditariamente predisposto  miopia, 
apenas v os indivduos da sua espcie e os seus habitats, entre os quais leva uma vida baseada em dois princpios: conforto e concorrncia.
- O senhor fala deles - disse Bosinney - como se constitussem metade da Inglaterra.
- E eles so-no! - repetiu Jolyon filho. - Metade da Inglaterra, e a melhor metade, a metade segura, a metade a trs por cento, a metade que vale.  a sua riqueza, 
a sua segurana, que tornam possveis a literatura, a cincia, a prpria religio. Sem os Forsyte, que no acreditam em nenhuma dessas coisas, mas que as aproveitam 
todas, que seria de ns? Meu caro amigo, os Forsyte so os intermedirios no mercado social, os vendedores, os pilares da sociedade, as pedras angulares da conveno, 
tudo isso  admirvel!
- No sei se o compreendi bem - disse Bosinney -, mas creio que h centenas de Forsyte, como o senhor lhes chama, na minha profisso.
- Decerto - respondeu Jolyon filho. - A grande maioria dos arquitectos, dos pintores ou escritores, como a de quaisquer outros Forsyte, no tem princpios. A arte, 
a literatura, a religio, subsistem graas  fora de alguns crebros candentes, que acreditam realmente nelas, e de muitos Forsyte que as exploram comercialmente. 
Calculando modestamente, trs quartos dos membros da nossa Real Academia so Forsyte, sete oitavos dos nossos romancistas

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e uma forte proporo de jornalistas so Forsyte. O mundo cientfico, esse eu ignoro-o. Mas na religio eles esto magnificamente representados, na Cmara dos Comuns 
so mais numerosos do que em outra qualquer parte. Na aristocracia no h outra coisa. Mas no rio deles.  perigoso ir contra a maioria, e que maioria! - Jolyon 
fixou os olhos em Bosinney. -  perigoso deixar-se arrastar por qualquer coisa, seja uma casa, uma mulher ou um quadro!
Olharam-se, e, depois de ter feito o que nenhum Forsyte faria, mostrar o fundo do seu pensamento, Jolyon filho tornou a entrar na sua casca. Foi Bosinney que rompeu 
o silncio.
- Porque toma o senhor a sua famlia como padro? - perguntou ele.
- A minha famlia -respondeu Jolyon filho - no tem nada de excessivo, e, como qualquer outra famlia, tem as suas particularidades. Porm possui, num grau notvel, 
essas duas qualidades que so a legtima caracterstica do Forsyte, o poder de nunca se entregar de corpo e alma a coisa alguma e o instinto da propriedade.
Bosinney sorriu:
- E o Gigante, por exemplo, como o interpreta o senhor?
- Alude a Swithin? - perguntou Jolyon filho. - Ah, em Swithin ainda resta alguma coisa de primitivo. A cidade e a burguesia ainda no o digeriram. Todos os velhos 
sculos de trabalho no campo e de fora bruta deixaram nele o seu depsito, por mais "distinto" que queira parecer.
Bosinney parecia meditar.
- Bem, o senhor atingiu o seu primo Soames no ponto nevrlgico - disse de sbito. - Aquele  um que nunca rebentar os miolos.
Jolyon filho lanou-lhe um olhar penetrante.
- No, nunca! E eis porque  preciso contar com ele: cuidado com as garras!  fcil rir, mas no se Muda. No d bom resultado desprezar um Forsyte, no d bom resultado 
consider-lo uma quantidade a desprezar!
- Mas, no entanto, foi o que o senhor fez!
Jolyon filho admitiu a exactido do golpe, perdendo o sorriso.

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- O senhor esquece - disse ele com um trao singular de orgulho - que eu tambm sei aguentar, que eu prprio sou um Forsyte. Ns todos estamos colocados na passagem 
de grandes foras. Aquele que abandonar o abrigo da parede... o senhor sabe o que lhe acontecer. No recomendo a muita gente - concluiu ele baixinho - que siga 
o meu caminho.
O sangue subiu ao rosto de Bosinney, porm o rubor depressa desapareceu, e logo a face do rapaz voltou  palidez morena. Teve um riso breve, que lhe afastou os lbios 
num esgar estranho e selvagem, os seus olhos pareciam rir de Jolyon filho.
- Obrigado - disse ele. -  muito gentil da sua parte. Mas os senhores no so os nicos que sabem aguentar. - E ergueu-se.
Jolyon filho viu-o afastar-se, e, apoiando a cabea sobre a mo, suspirou.
Na sala sonolenta e quase vazia no se ouvia seno o rudo dos jornais dobrados e desdobrados e o estalar de fsforos. Jolyon ficou muito tempo sem se mover, revivendo 
em esprito aqueles dias em que tambm ele passara longas horas a espiar o pndulo, contando os minutos de espera - longas horas cheias dos tormentos da incerteza 
e de um sofrimento ardente e doce, e sentiu de novo aquela agonia, lenta e deliciosa, e to pungente quanto outrora.
O rosto de Bosinney, com a sua face extenuada e os seus olhos inquietos, que sem cessar se volviam para o relgio, suscitara nele uma piedade que se misturava, a 
uma estranha, a uma irresistvel inveja.
Conhecia muito bem aqueles sintomas. Para onde ia aquele homem? Para que espcie de destino? Que mulher era essa que irradiava aquela fora magntica  qual nenhuma 
considerao de honra, nenhum princpio, nenhum interesse resiste,  qual no se escapa seno pela fuga?
A fuga! Mas porque fugiria Bosinney? Um homem foge quando se arrisca a destruir um lar, quando tem filhos, quando sente que pisa aos ps um ideal, que quebra qualquer 
coisa. Mas ali tudo lhe parecia quebrado de antemo.
Ele prprio no fugira, e no fugiria se devesse recomear.

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E entretanto fora mais longe que Bosinney: destrura o seu prprio lar infeliz, e no o de um outro.
Voltou-lhe  lembrana o velho dito: "A sorte de um homem repousa no seu prprio corao!"
"No seu prprio corao!" A prova de uma iguaria est no seu gosto - e Bosinney no comera ainda daquela iguaria.
Os seus pensamentos voltaram  mulher, quela mulher que ele no conhecia, mas cuja histria lhe fora contada em grandes linhas.
Um casamento infeliz, no que houvesse maus tratos, nada alm daquele indefinvel mal-estar, aquela terrvel rachadura por onde se escoa toda a bondade que a vida 
possa ter sob o cu, e aquilo de dia a dia, de noite a noite, de semana em semana, de ano em ano, at  morte.
Porm, Jolyon filho, cuja amargura fora atenuada pelo tempo, via tambm o outro lado da questo: o lado de Soames. Onde um homem tal como o seu primo, saturado de 
todos os preconceitos e convices da sua classe, encontraria a clarividncia? Era assunto para indignao, seria preciso projectar-se no futuro, para alm dos penosos 
mexericos, das censuras e das risotas que tais separaes suscitam, para alm da mgoa passageira que sentiria por no mais a ver, para alm da grave crtica dos 
homens virtuosos. Mas pouca gente, sobretudo na classe de Soames, tem imaginao bastante para isso.
Muita gente neste mundo e pouca imaginao! E, Deus do Cu!, que diferena entre a teoria e a prtica! H pessoas que - e Soames tambm, talvez -professam ideias 
cavalheirescas a esse respeito, mas, quando o golpe as fere, descobrem no seu prprio caso qualquer particularidade que as transforma numa excepo. E, ademais, 
Jolyon filho desconfiava do seu julgamento. Ele prprio atravessara aquela experincia, tivera de provar at ao fim o amargor de um casamento infeliz, como poderia 
pois entrar nos caminhos largos e tranquilos dos que nunca sofreram os assaltos da paixo? O seu testemunho era directo de mais, como o  a respeito de assuntos 
militares o testemunho de um soldado que esteve muito tempo na caserna,

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contra o testemunho de civis que no tiveram a desvantagem de ver as coisas muito de perto. A maioria das pessoas consideraria o casamento de Soames e Irene como 
um xito suficiente: ele tinha dinheiro, ela, beleza, e era mister basear nisso um arranjo, e seguirem puxando pelas mesmas rdeas, embora se detestassem. Cada um 
poderia desviar-se um pouco para o seu lado, mas isso no teria inconvenientes, conquanto as convenincias fossem observadas e a santidade do vnculo conjugal, do 
lar comum, fosse respeitada. A maioria dos casamentos, na burguesia rica, eram governados por esse princpio. No irritem as susceptibilidades da sociedade, como, 
tambm, as da Igreja. E para evitar ofend-las no  excessivo o sacrifcio de qualquer sentimento pessoal. As vantagens de um lar estvel.so visveis, tangveis, 
so como quaisquer outros objectos de propriedade, num statu quo no se correm riscos. Destruir um lar  pelo menos uma experincia perigosa, e, acima de tudo, egosta.
Era essa a tese da defesa, e Jolyon filho suspirou.
"O ncleo disso tudo", pensava ele, " a propriedade, mas h muita gente que no gostaria de resumir assim a questo. Para elas,  a santidade do casamento, porm 
a santidade do casamento repousa sobre a santidade da famlia, que repousa sobre a santidade da propriedade. E dizer que essa gente toda  feita de discpulos d'Aquele 
que nunca possuiu nada!  curioso!"
E de novo Jolyon filho suspirou.
"Irei eu, na volta para casa, convidar todos os miserveis que encontrar para me partilharem o jantar, que, nesse caso, ser ento pequeno de mais para mim, ou pelo 
menos para minha mulher, que  necessria  minha sade e  minha felicidade? Talvez, no fim de tudo, Soames tenha razo em exercer os seus direitos e sustentar 
para sua conduta esse sagrado princpio da propriedade - que ns todos aproveitamos,  excepo dos que por causa dele sofrem."
Chegando a esse ponto, ergueu-se, abriu caminho por entre o labirinto de cadeiras, agarrou o chapu e, atravs das ruas mornas, atulhadas de veculos, com um cheiro 
poeirento no ar espesso, voltou para casa.
Antes de chegar  Wistaria Avenue tirou do bolso a carta do velho Jolyon

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e rasgou-a cuidadosamente em pedaos pequenos, que dispersou depois na poeira do caminho.
Abriu a porta com a sua chave, chamou a mulher pelo nome: ela sara com Jolly e Holly, e a casa estava vazia. Sozinho no jardim, o co Balthasar, deitado na sombra, 
caava moscas.
Jolyon filho sentou-se ento sob a pereira que no dava frutos.

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CAPTULO XI.

BOSINNEY SOB PALAVRA.

No dia seguinte ao passeio de Richmond, Soames voltou de Henley num comboio da manh. Como no apreciava os desportos aquticos, fora l por negcios, apenas, a 
convite de um cliente de importncia.
Foi imediatamente para a City, mas, no encontrando l nenhum assunto premente, voltou s trs horas, satisfeito por ter aquela oportunidade de voltar directamente 
para casa. Irene no o esperava. Ele no tinha, decerto, desejo nenhum de a espiar, mas enfim no seria mau dar uma olhadela inesperada  cena. Depois de mudar de 
roupa, entrou na sala. Irene estava sentada, sem fazer nada, a um canto do sof, que era o seu lugar predilecto, tinha olheiras, como se houvesse passado a noite 
em claro. Ele perguntou-lhe:
- Porque est em casa? Espera algum?
- Sim, isto . no espero especialmente.
- Quem?
- Mr. Bosinney disse que talvez aparecesse.
- Bosinney? Ele deveria estar a trabalhar. Ela no respondeu nada quela observao.
- Pois bem - disse Soames -. tenho uma compra a fazer. Quero que voc venha comigo: depois daremos uma volta pelo parque.
- No quero sair, estou com dores de cabea.

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Soames replicou:
- Todas as vezes que lhe peo para fazer qualquer coisa, voc tem dores de cabea. H-de fazer-lhe bem sentar-se um pouco debaixo das rvores.
Irene no respondeu.
Soames ficou calado durante alguns minutos, disse depois:
- No sei qual  a sua concepo a respeito dos deveres de uma mulher casada, nunca o soube.
Ele no esperava que ela respondesse, porm Irene disse:
- Tentei fazer a sua vontade. E no  culpa minha se no consegui interessar nisso o meu corao.
- De quem  a culpa, ento? - E ele olhava-a de vis.
- Antes de casarmos, voc prometeu que me deixaria ir embora se o nosso casamento no fosse feliz. Ser que ele  feliz?
- Se  feliz? S-lo-ia se voc se portasse convenientemente.
- Fiz o que pude - disse Irene. - Quer deixar-me ir embora? Soames voltou-se, secretamente alarmado, tentou refugiar-se
numa brutalidade:
- Deix-la partir? Voc no sabe o que diz. Deix-la ir embora? Porque a deixaria eu ir embora? Somos casados, no somos? Ento, de que  que voc est a falar? 
Pelo amor de Deus, deixemos de dizer disparates! V pr o chapu e vamos sentar-nos no parque.
- Ento voc recusa-se a deixar-me ir embora?
Soames sentiu que os olhos de Irene pousavam sobre ele com um olhar estranho, tocante.
- Deix-la ir embora? Mas que iria fazer de si, se eu o consentisse? Voc no tem dinheiro.
- Hei-de arranjar-me.
Ele percorreu duas vezes a sala, com um passo rpido, depois parou  frente dela.
- Compreenda de uma vez por todas que no a quero ouvir falar nessas coisas. V pr o chapu.
A moa no se moveu.
- Quero crer - disse Soames - que voc no deseja perder a visita de Bosinney, caso ele venha!
Irene ergueu-se lentamente e deixou a sala. Voltou com o chapu na cabea.

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Quando eles chegaram ao parque, j no era o meio da tarde, o momento do grande pblico enfeitado, colorido, o momento em que se v passar dentro dos carros estrangeiros 
e pobres diabos de ar perdido, que supem acompanhar a moda. A hora elegante, a hora da alta sociedade j viera e estava quase passada quando Soames e Irene se sentaram 
juntos sob a esttua de Aquiles.
Havia j muito tempo que ele no gozava o prazer da companhia dela no parque. Era um dos encantos perdidos das duas primeiras estaes do seu casamento, na poca 
em que o seu maior orgulho consistia em ser, diante de toda a Londres, o possuidor daquela graciosa criatura. Quantas vezes se sentara assim, durante a tarde, ao 
lado dela, bem vestido, com luvas cinzento-prola, o seu sorriso superior, fazendo uma inclinao de cabea aos conhecidos e de tempos a tempos erguendo um pouco 
o chapu!
As suas mos ainda estavam enluvadas em cinzento-prola e o sorriso mantinha-se-lhe sempre sardnico nos lbios. Mas quando recuperaria a antiga sensao no corao?
Os bancos esvaziavam-se rapidamente, e entretanto ele retinha-a ali, silenciosa e plida, como para a levar at ao fim de uma secreta punio. Uma vez ou duas fez 
uma observao, e ela inclinava a cabea ou respondia "sim", com um sorriso fatigado.
Ao longo das grades um homem caminhava to rapidamente que as pessoas arregalavam os olhos para o ver passar.
- Olhe para aquele idiota - disse Soames. -  preciso que esteja louco para correr assim, com este calor!
Mas voltou-se: Irene fizera um movimento rpido.
- Oh - disse Soames -, mas  o nosso amigo Pirata! Ficou imvel, com o seu sorriso sarcstico, sentindo ao seu
lado Irene imvel e sorrindo tambm. "Ser que ela o vai cumprimentar?" (1)

*1.  costume na Inglaterra que uma senhora cumprimente em primeiro lugar o homem que encontra na rua, dando-lhe assim permisso para a reconhecer e a cumprimentar. 
(N. da T.)

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Porm Irene no fez nenhum movimento. Bosinney atingiu a extremidade da grade e voltou em sentido contrrio, por entre as cadeiras, como um co que revista um terreno. 
Quando os viu, parou de sbito e ergueu o chapu.
O sorriso no se alterou no rosto de Soames, que, por sua vez, ergueu o chapu.
Bosinney aproximou-se, tinha o ar esgotado de um homem que acaba de exigir de mais de si, o suor porejava-lhe as frontes e o sorriso de Soames parecia dizer: "Teve 
de roer um pedao duro, meu amigo!"
- Que  que faz no parque? - perguntou ele. - Ns supnhamos que voc desprezava estes lugares frvolos.
Bosinney no deu mostras de ter ouvido, falou a Irene:
- Passei por sua casa. Esperava encontr-la l.
Algum tocou nas costas de Soames e falou-lhe. Durante a troca de banalidades que se fez por cima do seu ombro, ele perdeu a resposta de Irene e tomou uma resoluo.
- Estamos de volta - disse a Bosinney. - Voc devia vir jantar connosco. - E ps naquele convite uma estranha bravata, que tinha em si qualquer coisa de pattico. 
O seu olhar e a sua voz pareciam dizer: "Voc no pode enganar-me, e, veja, tenho confiana em si. No o receio."
Voltaram juntos para Montpellier Square. Irene caminhava entre os dois. Nas ruas mais cheias, Soames tomava a frente. No escutava a conversa deles, a singular resoluo 
que acabava de tomar - a resoluo de confiar neles - parecia governar-lhe at a conduta ntima. Como um jogador, dizia a si mesmo: " uma carta que eu no posso 
largar, portanto jogo-a pelo que ela vale. S tenho essa."
Vestiu-se lentamente. Ouviu Irene sair do quarto e descer, e durante mais uns cinco longos minutos ele andou pelo seu quarto de vestir. Depois desceu, batendo de 
propsito a porta para anunciar a sua chegada. Encontrou-os de p em frente da lareira. Conversariam ou no? Soames no poderia diz-lo.
Durante todo o sero representou o seu papel na comdia, as suas maneiras para com a visita foram mais amigveis do que nunca o tinham sido antes, e quando Bosinney 
saa ele disse:

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- Precisa de c voltar depressa. Irene gosta muito de o ouvir falar na casa.
A sua voz recuperara a expresso de estranho desafio, de emoo mais estranha ainda, porm tinha a mo fria como gelo.
Fiel  sua resoluo, voltou-se quando eles se separaram: afastou-se de Irene enquanto ela, de p sob a lmpada suspensa, se despedia da visita, no quis ver a sua 
cabea dourada, to brilhante sob a luz, nem os lbios de sorriso dolente, nem os olhos de Bosinney, que se prendiam a ela com um olhar to idntico ao que o co 
tem para o dono.
E foi deitar-se com a certeza de que Bosinney estava apaixonado pela sua mulher.
Fazia um tal calor, to pesado, que pelas janelas abertas s entrava um ar ainda mais quente. Durante longas horas ele manteve-se imvel, escutando a respirao 
de Irene.
Ela podia dormir, ele devia suportar a insnia. E estirado, desperto, Soames reafirmava-se na resoluo de desempenhar o papel de um marido confiante e calmo.
De manhzinha saiu da cama, foi para o quarto de vestir e apoiou-se  janela. Mal podia respirar.
Veio-lhe uma lembrana ao esprito: a de uma noite, quatro anos atrs, na antevspera do seu casamento, to quente e to abafada quanto aquela de agora.
Lembrou-se de que estava estendido sobre uma cadeira de vime. na janela do seu salozinho, perto de Victoria Street. Em baixo, numa rua lateral, um homem batera 
com a porta, uma mulher gritara. Ele recordava, como se ainda estivesse presente, o barulho da briga, o bater da porta, o silncio mortal que se seguira. Ento o 
primeiro dos carros da rega que lava o suor das ruas aparecera na luz inslita, intil, dos candeeiros. E parecia-lhe ouvir o seu rodar aproximar-se, passar, e lentamente 
desaparecer.
Inclinara-se mais na janelinha do quarto, acima do ptio, e vira crescer a luz da aurora. O contorno das paredes escuras e dos telhados confundira-se um instante, 
depois reaparecera mais duro.
E lembrava-se como, naquela noite, vira os candeeiros empalidecerem ao longo da ampla avenida, e como depois se vestira  pressa,

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passara casas, casas, at  rua onde ela morava, e l parara para olhar a pequena fachada, silenciosa e cinzenta como a face de um morto.
E subitamente, como a alucinao de um doente, uma ideia ocorreu-lhe: "E o outro, o outro, que estar a fazer esse indivduo que me obceca, que estava aqui esta 
noite, que est apaixonado por minha mulher? Est l fora, sem dvida, rondando, procurando-a como vi muito bem que a procurava esta tarde. Est, quem sabe?, a espiar-me 
a casa, talvez neste mesmo momento."
Deslizou para uma das salas da frente, furtivamente, ergueu um estore e abriu uma das janelas.
A luz cinzenta tocava as rvores da praa, como se a noite, igual a uma grande falena veludosa, l tivesse deixado a poeira das asas. Os candeeiros ainda estavam 
acesos, muito plidos, nada se mexia, no se via nenhuma criatura viva na rua.
Mas de sbito, muito fraco, muito longnquo naquela imobilidade mortal, ele ouviu um grito ecoar como a voz de um homem errante, banido do cu, lamentando a ventura 
perdida. Ainda uma vez o grito! E mais ainda!
Soames fechou a janela, com um arrepio. E ento pensou: "Ah, so os paves, do outro lado do rio!"

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CAPTULO XII.

JUNE FAZ ALGUMAS VISITAS.

O velho Jolyon, de p no vestbulo estreito, respirava aquele cheiro de arenque e de oleado que impregna o ar em qualquer respeitabilssima penso  beira-mar. Numa 
cadeira de couro brilhante, na qual um buraco no canto esquerdo deixava escapar uma mecha de crina, estava aberta uma pasta preta.
O velho Jolyon arrumava naquela pasta os seus papis, o Times, uma garrafa de gua-de-colnia. Ia a Londres naquele dia para assistir ao conselho da Globular Gold 
Concessions e da New Colliery Co., Ltd., com a sua pontualidade habitual. Se faltasse a um conselho, provaria a si mesmo que envelhecia, coisa que o seu cioso esprito 
de Forsyte no poderia tolerar.
Enquanto enchia aquela pasta de couro preto, os seus olhos pareciam prestes, de um momento para outro, a inflamar-se de clera.  assim que brilha o olhar de um 
colegial acusado pelos colegas, porm ele contm-se, paralisado pela viso do inelutvel. E do mesmo modo o velho Jolyon continha-se, abafando com aquela impetuosa 
energia, que se gastava lentamente, a irritao desenvolvida nele pelas actuais circunstncias da sua vida.
Recebera do filho uma carta absurda, na qual, atravs de generalidades mal alinhavadas, o rapaz parecia querer evitar a questo precisa. "Vi Bosinney", dizia. "No 
 um criminoso.

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Quanto mais vejo os homens, mais me conveno de que eles no so bons nem maus, mas simplesmente cmicos ou patticos. O senhor  provavelmente da minha opinio."
No, decerto! E o velho Jolyon julgava-o cnico por se exprimir assim. No atingira ainda aquele estgio da velhice em que os prprios Forsyte, despidos das iluses 
e dos princpios que cultivaram cuidadosamente com um fim prtico, mas nos quais no acreditaram, despidos de qualquer alegria fsica, feridos no corao pela tristeza 
de no terem mais nada que esperar, quebram os liames e dizem coisas que jamais se teriam suposto capazes de dizer.
Talvez no acreditasse mais do que o filho na distino entre bons e maus. Mas diria decerto: "Eu  que no posso resolver a questo, e isso talvez represente qualquer 
coisa, e porque, por uma intil expresso de dvida, abrir mo de uma vantagem possvel?"
Outrora habituara-se a passar as frias nas montanhas, e embora, como um verdadeiro Forsyte, nunca tentasse nada muito difcil, amara-as apaixonadamente. E quando 
uma paisagem magnfica (o Baedeker dizia fatigante mas compensadora) se desenrolava  sua frente, depois do esforo da ascenso, ele sentia realmente a existncia 
de um grande princpio que paira acima das lutas desordenadas, dos precipcios mesquinhos, das pequenas grotas irnicas e sombrias da vida humana. A sua orao prtica 
talvez nunca houvesse estado mais prxima de um pensamento religioso. Havia porm muitos anos que ele no voltara s montanhas. Levara consigo June, dois Veres 
seguidos, depois da morte da mulher, e sentira amargamente que a idade das longas caminhadas estava passada para ele.
De forma que h muito tempo j lhe era alheia essa confiana que a montanha lhe despertava, numa ordem suprema das coisas.
Sabia-se velho, e entretanto sentia-se jovem, aquilo admirava-o, perturbava-o. Perturbava-se tambm ao saber que ele, to avisado, era o pai e o av de entes que 
pareciam destinados  perda. No tinha nada a dizer contra Jo - quem poderia ter qualquer coisa a dizer contra Jo, um rapaz to estimvel?

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- mas a sua posio era deplorvel e o problema de June era-o quase igualmente. Aquilo parecia uma fatalidade, uma dessas espcies de coisas que nenhum homem do 
seu carcter pode compreender ou suportar.
Quando escrevera ao filho, no esperava nenhum resultado especial. Depois do baile em casa de Roger, compreendera bem de mais o que se passava. Ele via claro mais 
depressa do que muitos homens, e, tendo o exemplo do seu prprio filho sob os olhos, sabia melhor do que nenhum outro Forsyte como os homens, sem o quererem, vo 
queimar-se na plida chama.
Antes do noivado de June, quando a neta e Mrs. Soames estavam sempre juntas, vira Irene com frequncia bastante para compreender o magnetismo que ela exercia sobre 
os homens. Ela no era namoradeira, nem mesmo coquette - palavras queridas  sua gerao, que gostava de definir as coisas por um bom termo largo e inexacto-, mas 
era perigosa. No saberia dizer porqu. Se lhe falassem de uma qualidade inata em algumas mulheres, um poder de seduo que ultrapassasse a vontade delas, responderia: 
"Conversas!" Irene era perigosa, e eis tudo. Ele queria fechar os olhos quele assunto. Se aquilo existia, existia, no tinha necessidade de ouvir mais - queria 
apenas salvaguardar a situao moral e a paz de esprito da neta. E o velho esperava ainda que, um dia ou outro, ela voltasse a ser para ele a companheira que j 
fora.
Ento escrevera. A resposta nada lhe disse. A respeito do que se passara durante a entrevista, Jolyon filho no escrevia seno esta frase bizarra: "Segundo creio, 
ele deu o mergulho." O mergulho! Que mergulho? Que significava esse novo modo de falar?
Suspirou e enfiou os ltimos papis num bolso da pasta. Sabia muito bem o que Jo queria dizer.
June saiu da sala de jantar e veio ajud-lo a vestir o sobretudo de Vero. Vendo a roupa que ela trajava e a expresso do seu rosto resoluto, compreendeu imediatamente 
o que iria acontecer.
- Vou com o senhor - disse a pequena.
- Nem pense nisso, minha querida! Vou directo para a City! E no vou deixar voc andar por a sozinha toda a tarde.
- Eu preciso visitar Mrs. Smeech.

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- Ah, a sua preciosa "desvalida"! - ralhou o velho Jolyon. No acreditava no pretexto, mas parou com a oposio. No
tinha nada a fazer contra a teimosia de June.
Ao sair da estao, instalou-a na sege que encomendara para si.
- Agora, minha flor, no v fatigar-se - disse o av, que tomou depois um cab e se dirigiu  City.
June foi primeiro a uma ruela de Paddington, onde morava a sua "desvalida", a velha Mrs. Smeech, mas, depois de passar uma meia hora ouvindo-lhe as histrias, lamentveis 
como de costume, e a reanim-la,  fora de a sacudir, June partiu para Stanhope Gate. O casaro estava fechado e sombrio.
Custasse o que custasse, June estava resolvida a saber alguma coisa. Seria melhor olhar de frente o pior e acabar com aquilo. E era este o seu plano: ir primeiro 
 casa da tia de Phil, Mrs. Baynes, e depois, se no obtivesse nenhum esclarecimento,  casa da prpria Irene.
O que lhe adiantariam essas visitas, ela no o via claramente,
s trs horas chegou a casa de Mrs. Baynes. Com o instinto que tem a mulher quando precisa afrontar o sofrimento, usava o seu mais bonito vestido e dirigira-se para 
a batalha com um olhar to corajoso quanto o do prprio velho Jolyon. A sua angstia mudara-se em energia.
Mrs. Baynes, tia de Bosinney (tia Louise) estava na cozinha, dando instrues  cozinheira, quando anunciaram June. Era uma excelente dona de casa, e Mr. Baynes 
sempre dissera: "H muita coisa boa num bom jantar." Baynes executava depois do jantar os seus melhores trabalhos. Fora ele que construra, em Kensington, aquela 
notvel fila de altas casas vermelhas, que rivalizavam com tantas outras de Londres, e por um preo nfimo.
Quando ouviu o nome de June, Mrs. Baynes correu precipitadamente para o seu quarto e, tirando de uma caixa de marroquim vermelho, metida numa gaveta fechada  chave, 
duas grandes pulseiras, p-las nos braos brancos, porque ela possua em raro grau esse instinto da propriedade que, como o sabemos,  a pedra de toque do forsytismo 
e o fundamento da boa moralidade.
O seu vulto reflectia-se no espelho do armrio de pau-cetim: forte, de altura mediana, com uma certa tendncia  obesidade,

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o vestido, cuja confeco ela prpria dirigira, era de um desses meios-tons que lembram os corredores pintados dos grandes hotis. Levou as mos ao cabelo, que penteava 
 princesa de Gales, retocou-os e consolidou-os na cabea, os seus olhos estavam cheios de um realismo inconsciente, como se estivesse prestes a encarar algum dos 
factos srdidos da vida a fim de tirar dele o melhor partido possvel. Na juventude, as suas faces haviam sido de lrio e rosas, mas a idade madura avermelhara-as 
agora, de novo lhe atravessou os olhos aquela feia e dura expresso de vontade precisa, enquanto passava pelo rosto o arminho de p de arroz. Depondo o arminho, 
ficou inteiramente imvel diante do espelho, arranjando um sorriso que lhe interessava o nariz, alto e importante, o queixo, que nunca fora grande (e que diminua 
agora na amplido crescente do pescoo), e os lbios estreitos, de cantos cados. Depressa, para no perder o seu efeito, apanhou fortemente as saias com as duas 
mos e desceu as escadas.
Havia algum tempo que j esperava essa visita. Tinham chegado at ela alguns murmrios, segundo os quais nem tudo ia no melhor dos mundos entre o sobrinho e Miss 
Forsyte. Nem m nem outra tinham vindo visit-la havia semanas. Muitas vezes convidara Phil para jantar, e invariavelmente ele respondia: "Muito ocupado."
O seu instinto alarmava-se, e nesses assuntos o instinto daquela excelente mulher era interessante.
Ela deveria ter nascido uma Forsyte, e, no sentido que Jolyon filho emprestava a esse nome, ela certamente estava  altura desse privilgio, pois dispunha de todos 
os mritos que ele descrevera.
Casara as suas trs filhas, simples e ingnuas, de um modo que se poderia dizer superior aos merecimentos delas. O seu nome aparecia  frente de inmeras comisses 
de caridade relacionadas com a sua igreja - bailes, representaes ou quermesses - e nunca deixara que lhe utilizassem o nome antes de se ter assegurado que tudo 
fora perfeitamente organizado.
Acreditava, como frequentemente o dizia, que as coisas deviam ser sempre colocadas numa base comercial. A natural funo da Igreja, e consequentemente a da caridade 
e de tudo o mais, era fortalecer a organizao da sociedade. E considerava portanto imoral a aco individual.

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A organizao  que se pode estar certo de obter o rendimento justo do nosso dinheiro. Organizao e sempre organizao! E o velho Jolyon, que um dia lhe chamara 
"espertalhona", chamara-lhe posteriormente "farsante".
As empresas a que ela emprestava o seu nome eram to admiravelmente organizadas que acabavam despidas de qualquer trao mnimo de bondade humana, porm Mrs. Baynes 
fizera notar precisamente que o sentimento deveria ser inteiramente banido delas. Ela era, de facto, e a seu modo, uma acadmica.
Aquela grande e boa mulher, to altamente colocada nos crculos eclesisticos, era uma das sacerdotisas do templo do forsytismo, ajudando a alimentar, dia e noite, 
a flama sagrada em honra do Deus da Propriedade, sob cujo altar esto inscritas estas palavras inspiradas: "Nada por nada, e muitssimo pouco por seis vintns."
Quando ela entrava numa sala, sentia-se que l entrara algo de substancial, e era essa talvez a razo da sua popularidade como patronesse de festas. O povo, quando 
gasta o seu dinheiro, gosta de ver algo de substancial em troca dele, e olhava-a como olharia para um general quando ela aparecia nos bailes de caridade, cercada 
pelo seu estado-maior de senhoras, com o seu grande nariz, o rosto vermelho e quadrado, metida num uniforme coberto de sequins.
A nica coisa existente contra ela era o facto de no possuir um nome "duplo". Ela era pobre dentro da sociedade da upper-middle-class, cujas centenas de crculos 
e divises interferem no campo de batalha comum das funes de caridade, dessa sociedade que se compraz tanto em roar as suas saias pelas saias aristocrticas da 
Sociedade com "S" maisculo. Era pobre, na sociedade que se escreve com "s" pequeno, mas que representava uma corporao maior e mais significativa do que a aristocracia 
na sociedade cujas instituies crists, comercialmente organizadas, mximas e princpios - to bem encarnados em Mrs. Baynes - representam um sangue realmente vivo, 
circulando livremente, e no aquela esterilizada imitao que corre nas veias da Sociedade com "S" maisculo.
As pessoas que a conheciam sabiam que ela era slida - uma mulher slida

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que nunca se desviava, nem deixava que coisa alguma se desviasse, se a pudesse agarrar.
Vivera sempre nas piores relaes com o pai de Bosinney. que frequentemente a tornava alvo de um imperdovel ridculo. E agora, que ele j a deixara em paz, aludia 
a Mr. Bosinney como "a meu pobre, querido e irreverente irmo".
Acolheu June com as efuses medidas em que era mestra, um pouco intimidada - tanto quanto poderia ser uma mulher da sua importncia no mundo religioso e industrial 
- porque, para uma mocinha to frgil, June tinha uma grande dignidade. Dignidade que lhe emanava dos olhos desassombrados.
E Mrs. Baynes reconhecia, com uma certa acuidade, sob aquela absoluta franqueza denotada pelas maneiras de June, muito do carcter dos Forsyte. Se a moa fosse apenas 
franca e corajosa, Mrs. Baynes pensaria " uma exaltada" e t-la-ia desprezado, se ela fosse apenas Forsyte, como por exemplo Francie, Mrs. Baynes t-la-ia dominado 
pela simples fora do seu temperamento, mas June, por mais pequenina que fosse - e Mrs. Baynes admirava a quantidade -, no a deixava  vontade, de modo que a fez 
sentar-se numa poltrona contra a luz.
O respeito que a moa lhe inspirava era acrescido por um outro motivo - que ela, piedosssima filha da Igreja da Inglaterra, incapaz de alimentar ideias mundanas, 
seria a ltima a admitir. Ouvia sempre o marido dizer que o velho Jolyon era riqussimo e estava prevenida a favor da neta pelas mais slidas razes. Hoje, sentia 
aquela emoo com que lemos um romance onde se trata de um heri e de uma herana e aquele nervosismo ante a ideia de que talvez, por uma sinistra distraco do 
romancista, a herana acabe por escapar ao heri.
Foi cordialssima, nunca compreendera to claramente quanto aquela moa era distinta e desejvel. Perguntou pela sade do velho Jolyon. Um homem admirvel para a 
idade que tinha! Um ar to moo ainda e to bem-posto! Que idade tinha ele exactamente? Oitenta e um anos? Nunca o acreditaria! Estavam juntas numa praia? Como era 
agradvel! Segundo supunha, June deveria receber diariamente notcias de Phil!

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Os seus olhos cinzento-claros ficaram mais salientes enquanto fazia esta pergunta, mas a moa sustentou o seu olhar sem estremecer.
- No - respondeu ela -, ele nunca escreve!
Mrs. Baynes baixou os olhos, no tinha a inteno desse gesto, mas f-lo. Porm recobrou-se logo.
- Naturalmente, isso  muito de Phil. Ele sempre foi assim!
- Realmente? - perguntou June.
A brevidade da resposta fez hesitar um instante o brilhante sorriso de Mrs. Baynes. Ela escondeu o embarao com um movimento rpido, e, abrindo de novo os folhos 
da saia, disse:
- Mas, minha querida, Phil  um maluco, nunca ningum se incomoda com o que ele faz!
June teve de sbito a convico de que perdia o seu tempo. Nunca tiraria nada daquela mulher, mesmo por uma pergunta  queima-roupa.
- A senhora tem-no visto? - perguntou ela, corando at  raiz dos cabelos.
Na testa de Mrs. Baynes a transpirao porejava sob o p de arroz.
- Oh, sim! J no me lembro de quando veio aqui pela ltima vez - a verdade  que no o temos visto muito nestes ltimos tempos. Ele est to absorvido pela casa 
do seu primo! Dizem que ficar pronta um dia destes. E precisamos organizar um jantarzinho para celebrar o acontecimento. Venha, por favor. Reservaremos um quarto 
para si.
- Obrigada - disse June. E mais uma vez pensou: "Perco o meu tempo, esta mulher no me dir nada."
Ergueu-se para sair. A fisionomia de Mrs. Baynes alterou-se. Ergueu-se tambm, os seus lbios tiveram um movimento nervoso, os dedos agitaram-se-lhe. Havia evidentemente 
alguma coisa que ia mal e ela no ousava perguntar nada quela moa que se mantinha em p, frgil, firme, pequenina, com o seu rosto resoluto, os lbios cerrados, 
os olhos cheios de ressentimento. E no entanto, habitualmente, Mrs. Baynes no tinha receio de fazer perguntas.
Porm os interesses em jogo eram to graves que os seus nervos, em geral slidos, foram abalados.

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Naquela mesma manh o marido dissera-lhe: "O velho Jolyon Forsyte deve possuir mais de cem mil libras."
E a moa estava ali, em p, de mo estendida, prestes a partir!
Era talvez aquele o momento em que a ocasio escapava - a ocasio de a conservar na famlia -, e entretanto ela no ousava falar. Os seus olhos acompanharam June 
at  porta. E a porta fechou-se.
Ento, com uma exclamao, Mrs. Baynes correu para a frente, sacolejando o seu volumoso corpo, e reabriu a porta. Tarde de mais! Ouviu bater a porta de entrada e 
ficou imvel, tendo no rosto uma expresso de verdadeira clera e de mistificao.
June atravessou a praa com a sua rapidez de pssaro. Detestava agora aquela mulher, que, em tempos mais felizes, considerara to boa. Seria que toda a gente iria 
escapar-lhe assim? Iria ela ser forada a suportar sempre aquela tortura da incerteza?
Procuraria o prprio Phil - iria perguntar-lhe quais eram as suas intenes. Tinha o direito de o saber. Apressadamente, desceu Sloame Street, at ao nmero de Bosinney. 
Passou pela porta automtica e subiu a escada a correr. O corao batia-lhe to forte que chegava a doer. No terceiro andar, parou, sem flego, e, segurando o corrimo, 
escutou. Nenhum rumor vinha l de cima.
Com o rosto muito branco, subiu ao ltimo andar. Viu a porta, o nome sobre a placa. E a vontade que a levara at l evaporou-se.
Imps ao seu esprito a total significao do seu acto. Ela sentia-se arder toda. As palmas das mos estavam hmidas sob as delicadas luvas de seda.
Recuou at  escada, mas no desceu. Apoiada no corrimo, tentava libertar-se de uma sensao de sufocamento, olhou para a porta com uma espcie de terrvel coragem. 
No! No queria descer. Que importava o que pensassem dela? Nunca o saberiam! Ningum a ajudava, ela ajudar-se-ia a si prpria. Iria at ao fim.
Conseguiu deixar o apoio e tocou a campainha. A porta no se abriu e ento toda a sua vergonha e o seu receio a abandonaram. Tocou de novo, como se, apesar de o 
quarto estar vazio, ela pudesse extorquir uma resposta, o preo das angstias que lhe custara aquela visita.

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Nada se moveu, parou de tocar, e, sentada no alto da escada, cobriu o rosto com as mos.
Depois de um momento desceu, depressa, na ponta dos ps, procurando o ar livre. Sentia-se como se tivesse atravessado uma grave doena, e no tinha outro desejo 
seno voltar para casa o mais depressa possvel. As pessoas que a encontravam tinham maneira de saber donde ela vinha, o que fizera. E de sbito - na outra calada, 
voltando para casa pelo caminho de Montpellier Square - ela viu o prprio Bosinney.
Fez um movimento para atravessar a rua. Os olhares dos dois encontraram-se, ele levantou o chapu. Um nibus passou, escondendo-o, depois, da margem do passeio, 
num espao livre entre os veculos, ela viu-o continuar o seu caminho.
E, parando, imvel, June acompanhou-o com o olhar.

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CAPTULO XIII.

CONCLUSO DA CASA.

Sopa de tartaruga, carne assada, dois copos de Porto - No primeiro andar do restaurante de French, onde um Forsyte pode ainda encontrar uma slida refeio inglesa, 
James e o filho almoavam.
James preferia aquele lugar a qualquer outro onde se come. Gostava da comida, que considerava, sem pretenso, saborosa e substancial, e, embora tivesse sido at 
certo ponto corrompido pela necessidade de acompanhar a moda e pela formao de novos hbitos que decorriam de um rendimento que teimava sempre em aumentar, suspirava 
ainda, durante os momentos mais tranquilos da City, pelos bons bocados dos seus tempos de moo.
Ali, as mesas eram servidas por criados ingleses, barbudos, de avental. Havia serradura no cho, e trs espelhos redondos, em molduras douradas, estavam pendurados 
alto de mais para que algum pudesse mirar-se neles. Havia pouco tempo apenas que se tinham suprimido aquelas espcies de jaulas dentro das quais a gente podia comer 
a sua costeleta inglesa e uma batata farinosa sem ver os vizinhos, como um gentleman.
James enfiou uma ponta do guardanapo na terceira casa do colete, gesto que fora obrigado a abamdonar h anos no West End.
Sentia que ia saborear a sopa, passara toda a manh a fazer o balano dos haveres deixados por um cliente, um velho amigo.

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Depois de encher a boca de po preto, comeou imediatamente:
- Como vai voc com Robin Hill? Vai levar Irene? Faz bem. Deve haver uma poro de coisas que tm necessidade de ser revistas.
Sem levantar a cabea, Soames respondeu:
- Ela no quer ir.
- No quer ir? Que  que isso significa? No entanto, vai viver l, no vai?
Soames no respondeu.
- No sei o que tm as mulheres de hoje em dia - resmungou James. - A mim, nunca me deram aborrecimentos. Voc deu-lhe muita liberdade, mimou-a de mais...
Soames ergueu os olhos.
- No quero que se diga nada contra ela - disse num tom imprevisto.
O silncio no foi mais interrompido seno pelo rumor que James fazia ao tomar a sopa.
O criado trouxe dois copos de Porto, mas Soames atalhou-o:
- No  assim que se serve Porto. Leve esses copos e traga a garrafa.
Saindo da cisma a que se abandonava, inclinado sobre a sopa, James encarava,  sua maneira apressada, o conjunto da situao.
- A sua me est de cama - disse ele. - Voc pode servir-se do carro. Penso que o passeio agradar a Irene e o jovem Bosinney h-de estar l, creio eu, para mostrar 
a casa.
Soames fez que sim com a cabea.
- Gostarei bem de ver pessoalmente como  que ele deu a ltima demo - continuou James. - Passarei pela vossa e levo os dois comigo.
- Eu vou de comboio - respondeu Soames. - Se o senhor quiser passar l por casa, talvez Irene o acompanhe, mas no garanto.
Fez um gesto ao criado, pedindo a conta, que James pagou. Separaram-se em Saint Paul, Soames dirigindo-se para a estao, enquanto James tomava o nibus na direco 
de West End. Sentou-se num canto da entrada, onde as suas longas pernas atrapalhavam a passagem,

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olhando com rancor as pessoas que entravam, como se elas o prejudicassem vindo respirar o seu oxignio. Queria, naquela tarde, provocar uma ocasio de falar a Irene. 
Uma palavra dita a tempo economiza muitas outras, e agora, que ela ia viver no campo, podia aproveitar a mudana para virar uma nova pgina. Vira bem que Soames 
no suportaria os modos dela por muito mais tempo.
No lhe ocorreu precisar o que ele queria dizer com a expresso "os modos dela"'. A expresso era larga, vaga, e muito prpria para um Forsyte. E James tinha mais 
que a dose normal de coragem que acompanha em geral um almoo.
Voltando a sua casa, deu ordem para aprontarem o carro e especificou que o groom deveria ir tambm. Queria ser gentil com a nora e dar-lhe todas as oportunidades.
Quando lhe abriram a porta no n.o 62, em Montpellier Square, ele ouviu distintamente que ela cantava, e apressou-se em verific-lo em voz alta, para evitar qualquer 
pretexto de lhe fecharem a porta.
Sim, Mrs. Soames estava em casa, mas a criada ignorava se ela recebia.
James, movendo-se com a rapidez que espantava sempre os observadores da sua longa silhueta e da sua fisionomia absorta, entrou no salo sem consentir que fossem 
verificar aquela ltima condio. Encontrou Irene sentada ao piano, com os dedos nas teclas, evidentemente parara para escutar as vozes que vinham do hall. Recebeu 
o sogro sem sorrir.
- A sua sogra est de cama - comeou ele, procurando provocar a simpatia da moa. - Estou com o carro  porta. Vamos, seja boazinha, ponha o chapu e venha dar um 
passeio comigo. H-de-lhe fazer bem!
Irene olhou-o, como se estivesse prestes a recusar, depois pareceu mudar de ideia, subiu ao quarto e voltou com o chapu na cabea,
- Onde me leva o senhor? - perguntou ela.
- Iremos at Robin Hill - disse James muito depressa. - Os cavalos precisam de fazer exerccio, e eu gostaria de ver o que esto a fazer por l.

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Irene hesitou, mas mudou de novo de ideia, e dirigiu-se para o carro, James inclinava-se sobre ela, como para estar mais certo de que a levaria.
S a meio do caminho ele comeou:
- Soames adora-a, no permite que digam nada contra si: porque no lhe mostra mais carinho?
Irene corou e disse em voz baixa:
- No posso mostrar o que no tenho.
James lanou-lhe um olhar severo, sentia que, agora que a tinha no seu prprio carro, com os seus cavalos e os seus criados, era verdadeiramente senhor da situao. 
Ela no poderia mand-lo passear, e no faria igualmente uma cena em pblico.
- No sei onde  que voc tem a cabea - disse ele. -  um excelente marido.
Irene respondeu to baixo que a voz quase se perdeu no barulho da rua. Ele apanhou estas palavras:
- No  o senhor que  casado com ele.
- Que tem uma coisa com outra? Ele deu-lhe tudo que voc poderia desejar. Est sempre pronto a lev-la onde voc quer ir, e agora fez-lhe esta casa no campo, que 
 como se voc tivesse qualquer coisa de s seu.
- No.
James olhou-a de novo, no podia compreender a expresso do seu rosto. Ela parecia estar prestes a chorar e entretanto...
- Tenho a certeza - murmurou ele rapidamente - de que todos ns procuramos ser gentis para si.
Os lbios de Irene tremeram, James viu, com mgoa, uma lgrima deslizar-lhe ao longo da face, e sentiu que a sua prpria garganta se apertava.
- Ns todos estimamo-la muito. Se ao menos voc quisesse... - ele ia dizer "proceder melhor", mas modificou a frase - se voc quisesse ser um pouco mais mulher dele...
Irene no respondeu e James parou de falar. Havia qualquer coisa que o desconcertava no mutismo da nora, no traduzia uma resistncia interior, significava antes 
uma aquiescncia a tudo que ele pudesse dizer. E no entanto sentia a impresso de no ter dito a ltima palavra. Aquilo deixava-o perplexo.

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De qualquer modo, ele no era capaz de ficar calado muito tempo.
- Segundo penso, esse jovem Bosinney vai em breve casar com June?
Irene mudou de expreso.
- No sei de nada, deve perguntar isso a ela.
- Ela tem-lhe escrito?
- No.
- Como no? - perguntou James. - Eu supunha-as muito amigas.
Irene voltou-se para ele:
- Ainda uma vez,  a ela que deve perguntar isso.
- Bem - disse James, assustado com a expresso da moa -,  esquisito que eu no consiga obter uma resposta clara para uma pergunta clara, mas  assim. - Ficou algum 
tempo a ruminar o revs, depois explodiu: - Bom, eu preveni-a. Voc no quer encarar as consequncias. Soames no diz grande coisa, mas Vejo que ele j est farto 
disso tudo. Voc s poder queixar-se de si mesma, e, o que  mais, no conte com a simpatia de ningum.
Irene inclinou a cabea com um sorriso:
- Fico-lhe muito obrigada.
James no tinha a menor ideia do que deveria responder-lhe.
A quente e luminosa manh transformara-se lentamente numa tarde abafada e cinzenta. Um pesado grupo de nuvens, coloridas daquele tom aafroado que anuncia a trovoada 
prxima, erguera-se no sul, e ia-se estendendo mais e mais. Os ramos de rvores pendiam imveis sobre a estrada, sem que o menor tremor percorresse a folhagem. Um 
cheiro viscoso, proveniente dos cavalos suados, flutuava no ar espesso. Erectos e rgidos, o cocheiro e o groom, na boleia, trocavam murmrios furtivos, sem nunca 
voltarem a cabea.
Para grande alvio de James, chegaram afinal a Robin Hill. O silncio e a impenetrabilidade daquela mulher sentada ao seu lado, e que ele Sempre imaginara to meiga, 
to malevel, desarmava-o.
O carro deixou-os em frente  porta e eles entraram.
O hall estava to fresco e to tranquilo que era como a entrada de um sepulcro,

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James sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. Rapidamente soergueu os pesados reposteiros de couro que pendiam entre as colunas, escondendo o ptio interior.
No pde reter uma exclamao aprovativa. A decorao era realmente de um bom gosto perfeito. Os azulejos, de um vermelho claro e lils, que se estendiam desde a 
base das paredes at uma touceira de ris brancos, que rodeavam um tanque de mrmore branco cheio de gua, eram, evidentemente, da melhor qualidade. Admirou imensamente 
as cortinas de couro purpreo, estendidas por todo um lado do ptio e enquadrando uma vasta chamin de loua branca. Na parte envidraada do tecto, estava aberta 
uma das clarabias, e o ar quente de fora penetrava no prprio corao da casa.
James mantinha-se em p, com as mos cruzadas atrs das costas, a cabea inclinada para trs, observando a ornamentao das colunas e o desenho do friso que corria 
sob a galeria, ao longo das paredes cor de marfim. Evidentemente, no se economizara trabalho. Tratava-se realmente da casa de um gentleman. Caminhou at s cortinas, 
e, depois de descobrir como eram manobradas, abriu-as e viu aparecer a galeria dos quadros, terminando por uma grande janela que ocupava toda a parede do fundo. 
A sala tinha um forro de carvalho negro e as paredes eram de um branco de marfim. James avanou, abrindo as portas e lanando um olhar a cada compartimento. Tudo 
estava perfeitamente em ordem, pronto para ser ocupado.
Ele voltou atrs para falar a Irene e viu-a parada  entrada do jardim, com o marido e Bosinney.
Embora a sua sensibilidade no tivesse nada de notvel, James teve a intuio de que algo no caminhava bem. Dirigiu-se para o grupo e, vagamente alarmado, ignorando 
a natureza do incidente, tentou introduzir uma palavra amigvel.
- Como vai, Mr. Bosinney? - perguntou, estendendo a mo. - O senhor fez o dinheiro correr a rodos aqui!
Soames voltou-lhe as costas e afastou-se. James correu o olhar da cara aborrecida de Bosinney para a de Irene, e na sua agitao exprimiu em voz alta o que pensava:
- Bem, no sei do que se trata. Nunca ningum me diz nada!

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- Partiu atrs do filho e ouviu o riso curto de Bosinney: "Afinal! Graas a Deus! Voc est com um ar to..."-O fim, infelizmente, perdeu-se.
Que acontecera? Lanou um olhar para trs: Irene estava junto do arquitecto e o rosto dela no se parecia com o que ele conhecia. Apressou-se em procurar o filho.
Soames passeava atravs da galeria dos quadros.
- Que  que h? - perguntou James.-Que significa isto? Soames olhou-o sem sair da sua calma superior, mas James
viu que ele estava exasperado.
- O nosso amigo ultrapassou novamente os crditos. Desta vez, pior para ele.
Voltou-se e caminhou em direco  porta. James seguiu-o apressadamente e deslizou para fora antes de Soames. Viu Irene retirar o dedo dos lbios, ouviu-a pronunciar 
algumas palavras com a sua voz habitual e ele prprio ps-se a falar antes de chegar junto deles:
- Aproxima-se uma tempestade. Seria melhor que voltssemos para casa. No quer que o leve, Mr. Bosinney? No, creio que no. Ento, at logo!
Estendeu a mo. Bosinney no a tomou, mas, voltando-se com uma risada, disse:
- At  vista, Mr. Forsyte. No deixe que o temporal o apanhe! - E afastou-se.
- Bolas - comeou James -, no sei se...
Mas o rosto de Irene f-lo calar-se. Segurando a nora pelo cotovelo, escoltou-a at ao carro. Estava certo, absolutamente certo, de que eles acabaram de combinar 
um encontro.
Nada  mais prprio para lanar a desordem no esprito de um Forsyte do que descobrir que o custo de uma coisa ultrapassa o preo que ele estipulou pagar, isso compreende-se 
facilmente porque toda a ordem da vida deles est estabelecida sobre a exactido das avaliaes. Se no pode basear-se sobre valores definidos de propriedade, a 
sua bssola est defeituosa, e ele flutua sem leme sobre guas amargas.
Depois de ter escrito a Bosinney nos termos que reproduzimos, Soames afastara do esprito a ideia do que lhe custaria a casa.

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Pensava ter indicado to claramente o limite mximo do seu oramento que nunca lhe ocorrera realmente que ele pudesse ser ultrapassado. Quando soube por Bosinney 
que o mximo de doze mil libras por ele fixado seria ultrapassado em cerca de quatrocentas libras, empalideceu de clera. A sua primeira avaliao total do custo 
da casa fora dez mil libras, vrias vezes se censurara intimamente por se ter deixado arrastar a aumentos sucessivos. Mas, de qualquer forma, no que se referia quela 
ltima despesa, Bosinney excedera-se absolutamente.
Soames no podia conceber como  que um indivduo poderia agir de maneira to idiota, mas era. e todo o rancor e o cime secreto que h tanto tempo ardiam nele contra 
Bosinney concentravam-se agora naquele cmulo de extravagncia. Desaparecia a atitude do marido amigvel e confiante. Para conservar uma das suas propriedades - 
a mulher -, Soames assumira-a: e, para defender uma propriedade de outra espcie, abandonava-a agora.
- Ah, suponho que voc est encantado com o que fez - disse ele a Bosinney. logo que conseguiu dominar-se e falar. - Pois eu digo-lhe que se enganou comigo!
Ele no sabia inteiramente, no momento em que as proferiu, o que significavam aquelas palavras, mas depois do jantar examinou a correspondncia que trocara com Bosinney. 
No havia dois modos de a entender. Bosinney tornara-se responsvel por aquelas quatrocentas libras a mais, ou pelo menos por trezentas e cinquenta, e teria de as 
pagar. Olhou para o rosto de Irene quando chegou a essa concluso. Sentada no seu lugar de costume, no sof, ela segurava uma gola, da qual mudava a renda. Durante 
todo o sero no dissera uma palavra.
Soames caminhou at  lareira, e, contemplando no espelho o seu prprio rosto, disse:
- O seu amigo Pirata portou-se como um imbecil! Pior para ele.
Ela olhou-o com um ar de desprezo e disse:
- No sei de que est a falar.
- Vai saber.  uma ninharia, muito abaixo do seu desdm: quatrocentas libras.

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Quer dizer que vai obrig-lo a pagar isso por aquela casa odiosa?
- Perfeitamente.
- No sabe que ele no possui nada?
- Sim.
- Ento voc  mais srdido do que eu pensava.
Soames afastou-se do espelho e inconscientemente tirou da lareira um vaso de porcelana, em torno do qual juntou as mos, como se rezasse. Via o colo de Irene erguer-se 
e baixar, os seus olhos sombrearam-se de clera, e, sem dar ateno ao insulto, perguntou:
- Voc mantm um flirt com Bosinney?
- No, no mantenho flirt nenhum.
Os olhos de ambos encontraram-se, e ele afastou os seus. No poderia dizer se a acreditava ou no, mas sabia que cometera um erro ao fazer aquela pergunta. Nunca 
soubera, nem nunca o saberia, o que ela pensava. E exasperava-o terrivelmente, ao olhar para aquele rosto indecifrvel, a lembrana de tantas centenas de noites 
em que a vira sentada ali, como hoje, meiga e passiva, mas to incompreensvel, to desconhecida.
- Voc parece feita de pedra-disse ele, crispando to fortemente os dedos que quebrou o frgil vaso. Os pedaos caram sobre o guarda-fogo. E Irene sorriu:
- E voc parece esquecer que esse vaso no o . Soames agarrou-lhe o brao.
- Se eu lhe batesse, como devia, voc tomava juzo. Mas, rodando nos calcanhares, deixou a sala.

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CAPTULO XIV.

SOAMES SENTA-SE NOS DEGRAUS DA ESCADA.

Soames subiu para o quarto, naquela noite, com a sensao de que fora longe de mais. Estava pronto para pedir desculpas.
Apagou o gs que ainda ardia no corredor em frente ao quarto de dormir. Parou, com a mo no trinco da porta, procurando uma frmula de desculpas, porque no tinha 
inteno de mostrar o seu nervosismo.
Mas a porta no se abriu, mesmo quando a puxou dando toda a volta ao trinco. Irene deveria ter tido alguma razo para fechar aquela porta  chave e esquecera-se 
de a abrir.
Soames entrou no seu quarto de vestir, onde a chama do gs estava baixa, e caminhou rapidamente para a outra porta. Aquela tambem estava fechada. Notou ento que 
o leito de campo que era utilizado em caso de emergncia estava preparado e viu nele desdobrada a sua roupa de noite. Passou a mo na testa e retirou-a hmida. Um 
pensamento brotou nele: expulsavam-no.
Voltou  porta e, sacudindo o trinco, falou:
- Abra. est a ouvir? Abra! - Houve um ligeiro rudo, mas nenhuma resposta. - Est a ouvir? Abra imediatamente! Exijo que me deixe entrar!
Ele pde ouvir o som da respirao de Irene, pertinho da porta como o arfar de um ente em perigo. Havia qualquer coisa de terrfico naquele silncio inexorvel,

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na impossibilidade de chegar at  mulher. Voltou  primeira porta, apoiou-se nela com todo o seu peso, tentou for-la. A porta era nova - ele prprio a mudara 
quando voltara da viagem de npcias. Na sua fria, ergueu a perna para a arrombar a pontaps, mas a lembrana dos criados conteve-o, e ele sentiu de sbito que fora 
vencido.
Atirando-se numa poltrona do quarto de vestir, apanhou um livro, mas, em vez das linhas impressas, supunha ver a mulher com os cabelos dourados flutuando sobre os 
ombros nus, com os seus grandes olhos escuros, em p, na atitude de um animal acuado. Viu ento a significao inteira do acto de revolta de Irene. Ela pretendia 
que aquilo fosse definitivo.
No podia ficar imvel, e voltou  porta. Ouviu-a ainda mover-se e chamou: "Irene!" Sem que ele o quisesse, a sua voz era pattica. Como nica resposta, o fraco 
rumor cessou. Ele ficou ali, de punhos crispados, reflectindo.
Depois de um instante saiu do quarto, nas pontas dos ps, e, atirando-se de encontro  porta do patamar, fez um esforo supremo para a obrigar a ceder. A porta apenas 
estalou. Soames sentou-se nos degraus da escada e enterrou o rosto nas mos.
Muito tempo ficou ali, no escuro, o luar, atravs da clarabia, deixava cair uma esteira plida de luz que descia lentamente em direco a ele, ao longo da escada. 
E ele tentou encarar a coisa com filosofia.
J que ela lhe fechara a porta, no tinha mais direitos de esposa! Ele se consolaria com outra.
Soames no fizera seno rpidas incurses no mundo do prazer venal, e no sentia nenhum apetite por ele. Nunca o tivera muito, e agora tinha perdido o hbito, sentia 
que no o recuperaria mais. A sua fome no poderia ser satisfeita seno pela sua prpria mulher, que se escondia, inexorvel e apavorada, por trs das portas fechadas. 
Nenhuma outra mulher lhe serviria.
E ali fora, no escuro, essa convico apoderou-se dele com uma fora terrvel.
A sua filosofia abandonou-o e deu lugar a uma clera sinistra. A conduta de Irene era imoral, imperdovel,

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digna de qualquer castigo que estivesse em seu poder. Ele no queria seno a ela, e ela recusava-se!
Era preciso pois que o detestasse! At ento, Soames nunca acreditara nisso. Ainda no o acreditava agora. Aquilo parecia-lhe inconcebvel. Sentia-se como se houvesse 
perdido para sempre qualquer faculdade de raciocnio. Se ela, que ele sempre considerara meiga e dcil, era capaz daquilo, que  que no poderia acontecer? Ento 
perguntou de novo a si mesmo se ela no seria amante de Bosinney. No o acreditava, no podia correr o risco que havia em acreditar e interpretar assim o procedimento 
da mulher: era uma coisa que no se podia encarar de frente.
No podia suportar a ideia de fazer das suas relaes conjugais um assunto de discusso pblica. Enquanto no tivesse em mos as provas mais convincentes, tinha 
de se recusar a crer, porque no queria punir-se a si prprio. E ao mesmo tempo, no fundo do corao, acreditava.
O luar despejava uma luz acinzentada sobre o vulto encostado  parede da escada. Bosinney estava apaixonado por ela. Odiava-o e no o pouparia agora. Recusar-se-ia 
- e estava no seu direito - a pagar um penny a mais, afora as doze mil e cinquenta libras assinaladas como limite mximo na correspondncia com o arquitecto. Ou 
talvez pagasse e o accionasse para o reembolso. Iria procurar Jobling e Boulter para lhes entregar a questo. Arruinaria
o miservel!
E de sbito - por qualquer associao de ideias - lembrou-se de que Irene tambm no tinha dinheiro: nenhum dos dois tinha um vintm. E isso deu-lhe uma estranha 
satisfao.
O silncio foi quebrado por um leve estalar atravs da parede. Ela ia para a cama, afinal. Ah, boa noite. Agora, mesmo que ela escancarasse a porta, no entraria!
Porm os seus lbios, torcidos por um sorriso amargo, tremeram e ele cobriu os olhos com a mo...
No fim do dia seguinte, Soames, em p junto  janela da sala de jantar, olhava para a praa com os olhos melanclicos.
Os raios de sol caam ainda sobre os pltanos,

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e na brisa as suas largas folhas brilhavam e balanavam-se alegremente  msica de um realejo que tocara no canto do largo. Era uma valsa, uma velha valsa fora de 
moda, no ritmo montono que continuava e nunca se cansava, embora s houvesse ali folhas para danar.
A mulher que tocava o realejo no tinha o ar alegre, parecia cansada, e das casas altas ningum lhe atirava uma moeda. Ela apanhou o realejo e, trs portas alm, 
recomeou.
Era a valsa que tocavam em casa de Roger, quando Irene danava com Bosinney: e o perfume das gardnias que ela trazia naquela noite voltou aos sentidos de Soames. 
flutuando sobre a irnica msica, como flutuava no baile quando Irene passou diante dele. com os seus cabelos ondulados, os seus olhos to suaves, arrastando Bosinney 
para mais longe, sempre para mais longe, num salo de baile que no acabava mais.
A mulher girava lentamente a manivela, deveria passar o dia inteiro a moer aquela ria. deveria mo-la perto dali, em Sloane Street, sob as janelas do prprio Bosinney.
Soames voltou-se, foi apanhar um cigarro numa caixa cinzelada e voltou  janela. Aquela valsa magnetizara-o, e de repente ele viu Irene, que, com a sombrinha fechada, 
caminhava rapidamente para casa. Vestia uma blusa que ele no conhecia, cor-de-rosa, macia, com as mangas flutuantes. Parou diante do realejo, puxou a bolsa e deu 
uma moeda  mulher.
Soames recuou, e ficou num lugar donde pudesse espiar para o hall. Irene abriu a porta com a sua chave, deps a sombrinha e parou diante do grande espelho para se 
mirar. Tinha as faces vermelhas, como se o sol as houvesse queimado, os lbios entreabriam-se num sorriso, e ela estendeu as mos como para se abraar a si prpria, 
com um sorriso que no se parecia com outra coisa neste mundo a no ser com um soluo. Soames deu um passo  frente.
- Linda! - disse ele.
Como se atingida por uma bala. Irene voltou-se. Quis passar diante do marido para subir a escada, porm Soames impediu-lhe o caminho.
- Porqu tanta pressa? - perguntou ele. E os seus olhos fixaram-se num cacho de cabelos que escapara sobre a orelha da moa.

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Mal a reconhecia. Ela parecia arder, to rica e profunda era a cor das suas faces, dos olhos, dos lbios, da blusa inslita que vestia. Irene ergueu a mo e consertou 
o cacho rebelde. Respirava depressa e com fora, como aps uma corrida, e a cada flego que tomava parecia que se exalava um perfume dos seus cabelos e do seu corpo, 
como de uma flor que se abre.
- No gosto dessa blusa - disse o marido lentamente. -  mole. no tem forma.
Ergueu o dedo at ao peito de Irene, porm ela fez-lhe cair a mo com uma pancada seca.
- No me toque! - gritou.
Ele segurou-lhe o pulso, e ela arrancou-o.
- Onde esteve? - perguntou Soames.
- No Cu... fora desta casa! - E fugiu pela escada acima. Na rua, mesmo junto  porta, em agradecimento, o realejo
tocava a valsa.
E Soames ficou imvel. Que  que o impedia de segui-la?
Talvez, com os olhos da intuio, visse Bosinney debruado  janela de Sloane Street, os olhos tensos, como para vislumbrar mais uma vez o vulto desaparecido de 
Irene, procurando refrescar o louco calor em que o seu rosto abrasava, sonhando com o momento em que ela se lanara sobre o seu peito, enquanto, em torno dele, com 
o perfume da amada, flutuava ainda o som do seu riso, semelhante a um soluo.

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TERCEIRA PARTE.

CAPTULO 1.

O TESTEMUNHO DE MRS. MAC ANDER.

Muita gente, inclusive o redactor do Ultra Vivisseccionist, ento no ardor da primeira juventude, nos dir que Soames  um pobre coitado, que deveria ter impedido 
a mulher de trancar-se mandando retirar o ferrolho da porta e, depois de a surrar devidamente, obrigar a rebelde a reingressar na serenidade da ventura conjugal.
Hoje em dia, o instinto da brutalidade j no  obrigado a lutar, como outrora, com a mania humanitria dominante, mesmo assim, entretanto, devem existir muitas 
pessoas sentimentais que verificaro com alvio que Soames no teve a ideia de agir assim. Uma brutalidade activa no  popular entre os Forsyte: eles so muito 
circunspectos e muito tmidos para isso. E, ademais, havia em Soames uma certa quantidade de orgulho, insuficiente para o incitar a um gesto verdadeiramente generoso, 
mas que conseguia impedi-lo de cometer alguma aco inteiramente baixa, salvo talvez num arrebatamento de clera. Antes de tudo, esse legtimo Forsyte fazia questo 
de no se tornar ridculo, e como, afora espancar a mulher, ele no via realmente outra soluo, aceitava a situao sem dizer uma palavra.
Durante todo o Vero e todo o Outono continuou a ir ao seu escritrio, a arrumar os quadros, a convidar os amigos para jantar.
Ficou na cidade. Irene recusava-se a partir, e a casa de Robin Hill,

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j pronta, continuou vazia e sem dono. Soames iniciara um processo contra o Pirata, reclamando-lhe a importncia de trezentos e cinquenta libras.
O escritrio de Messrs. Freak and Able, advogados, encarregara-se da defesa de Bosinney. Admitindo os factos, deduziam da correspondncia um argumento que, livre 
da fraseologia tcnica pode ser enunciado assim: "Dizer a um homem dou-lhe carta branca, dentro dos dados desta correspondncia,  uma Contradio de m f."
Por um desses acasos s vezes possveis no mundo, Soames soube dessa tctica: o seu associado, Bustard, sentara-se por acaso, durante um jantar em casa de Walmislev. 
o taxing mester, ao lado do jovem Chankety, que trabalhava no foro cvel.
Aquela necessidade de falar de negcios, comum a todos os homens de leis, que lhes aparece quando a's senhoras deixam a mesa fizera que Chankery, jovem advogado 
cheio de promessas citasse um caso ao seu vizinho, ignorava o nome deste, principalmente porque Bustard, posto sempre na retaguarda dos negcios, era uma personagem 
annima. "Ns estamos a tratar", disse Chankery. "de uma questo muito delicada." Com toda a discrio profissional, apresentou o ponto litigioso do caso de Soames. 
Todas as pessoas a quem ele tinha falado, dizia, consideravam a questo delicada. Infelizmente, a causa era de pequena importncia econmica, embora - e isso era 
o diabo - muito sria para o seu cliente, supunha ele. O champanhe de Walnisley era mau. mas abundante. O juiz haveria de querer alinhavar esse caso, porm ele, 
Chankery iria fazer um grande esforo. O ponto de direito era delicado. Que achava disso o vizinho."
Bustard, modelo de reserva, no disse nada. E aquele homem silencioso, mas igual a todos os homens, sentiu um maligno prazer em contar a coisa a Soames. E terminou 
exprimindo a sua opinio pessoal: o ponto de direito era verdadeiramente delicado.
O nosso Forsyte, segundo tinha resolvido, depusera os seus interesses nas mos de Joblirg & Bouker. Mas depressa lamentou no ter dirigido sozinho a questo. E, 
ao receber a comunicao da defesa de Bosinney, foi ao escritrio dos seus advogados.
Boulter, que estudava a questo, pois Jobling j morrera h vrios anos,

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disse que, na sua opinio, tambm o ponto era delicado. Gostaria de tomar o parecer de alguma autoridade.
Soames disse:
- Ento procuremos uma pessoa de confiana.
E dirigiram-se a Waterbuck, Q. C. (1)
O mestre olhou os papis, depois escreveu o parecer seguinte:

"Na minha opinio, a verdadeira interpretao desta correspondncia depende principalmente da inteno de ambas as partes. Os testemunhos apresentados ao processo 
 que decidiro. O meu conselho  que devem esforar-se por conseguir que o arquitecto admita que as suas despesas no deveriam ultrapassar doze mil e cinquenta 
libras. Quanto  expresso sobre a qual chamam a minha ateno, carta branca dentro dos dados desta correspondncia, o ponto  realmente delicado. Mas, em suma, 
opino que se pode aplicar a esta causa a jurisprudncia criada pelo caso Boileau versus The Bastled Cement Company, Limited."

Eles seguiram o parecer, e fizeram um questionrio, mas, para grande aborrecimento de Soames e dos seus patronos, a resposta de Messrs. Freak and Able foi to magistral 
que o arquitecto no foi obrigado a admitir nada, e isso sem prejuzo para a sua causa.
Foi no dia primeiro de Outubro, na sala de refeies, depois do jantar, que Soames leu o parecer de Waterbuck. Aquela leitura nquietou-o. No que lhe parecesse 
decisivo o precedente do caso Boileau versus The Bastled Cement Company, Limited, mas porque ele prprio comeava a considerar o caso "delicado". Evolava-se dali 
aquele aroma subtil que desperta o apetite dos homens de leis, prometendo-lhes chicana.
E quem, pensando assim, no se perturbaria vendo a sua opinio confirmada por um Waterbuck, Q. C?
Soames ruminava isso, com o olhar perdido na lareira vazia, porque, embora j estivessem no Outono, o tempo continuava o mesmo de Agosto. Aquela sensao de inquietao 
era desagradvel: ele tinha um desejo louco de fazer que Bosinney mordesse a poeira do cho.

*1. Q. C. - Queen's Counsel, hoje King's Counsel. Ttulo que distingue uma categoria superior de advogados. O King's Counsel pleiteia vestido com uma toga de seda. 
(N. da T.)

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Embora no houvesse visto mais o arquitecto desde a famosa tarde em Robin Hill, nunca se sentia inteiramente liberto da sua presena, nem da lembrana do seu rosto 
magro de mas salientes e dos seus olhos iluminados. E no  mentira afirmar que nunca se libertara da estranha impresso que sentira numa noite de insnia, ao 
amanhecer, ouvindo o grito dos paves: a sensao de que Bosinney no tirava os olhos da casa. E cada vulto entrevisto na sombra da noite parecia-lhe o do homem 
que George apelidara com tanta propriedade o Pirata.
Tinha a certeza de que Irene ainda o via. Onde? Quando' No sabia, no o perguntava, retido pelo medo secreto e vago de saber de mais. Parecia-lhe que por todos 
os lados havia mistrios em seu redor de h uns tempos para c. s vezes, quando perguntava  mulher o que fizera durante o dia - e fazia-o ainda, por princpio, 
como todo o bom Forsyte - ela tomava um aspecto singular. Irene dominava-se perfeitamente, mas atravs da 'mscara do rosto, sempre impenetrvel, filtrava-se uma 
expresso que era nova nela.
Irene agora estava tambm a acostumar-se a almoar fora. Quando ele perguntava a Bilson se a patroa almoara em casa, a criada, uma vez em duas, respondia: "No, 
senhor." Soames desaprovava fortemente essas escapadas. Disse-o a Irene, e ela fez como se no o ouvisse. No dava nenhuma importncia aos desejos do marido, e havia 
na calma da sua resistncia qualquer coisa que o irritava, espantava, e entretanto quase o divertia. Na verdade, era como se ela cultivasse o pensamento de uma vitria 
sua sobre ele.
Deixando o parecer de Waterbuck, subiu at ao quarto da mulher, que no o fechava seno no momento de se deitar. Ela ainda tinha o pudor, pensava ele, de poupar 
a opinio dos criados. Irene escovava os cabelos desatados.
- Que  que voc quer? - perguntou ela. - Peo-lhe que saia do meu quarto.
Ele respondeu:
- Quero saber at quando vai durar esta situao entre ns. J a suportei de mais.
- Peo-lhe que saia do meu quarto.
- Quer fazer o favor de se lembrar de que sou seu marido?
- No.

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- Ento tomarei as minhas medidas para a obrigar a Isso.
- Tome-as.
Soames teve um olhar estupefacto. No compreendia a calma daquela resposta. Os lbios apertados de Irene eram apenas uma linha estreita. Os cabelos cor de ouro, 
espalhados pelos ombros nus, faziam um contraste estranho com as pupilas escuras, pupilas animadas por todas as emoes do medo, do dio. do desprezo e daquele misterioso 
triunfo que o surpreendia sempre.
- E agora, por favor, peo-lhe que saia do meu quarto.
Ele voltou as costas e saiu furioso. Sabia perfeitamente que no tomaria medida nenhuma, e via que ela o sabia tambm: ela sabia que ele no ousaria.
Ele tinha o hbito de lhe contar o que fizera durante o dia: que tal ou qual cliente viera consult-lo, como tinha tomado uma hipoteca por conta de Park, em que 
p estava o interminvel processo de Fryer contra Forsyte. (Era um processo originado pela prudncia sobre-humana com que o seu tio-av Nicholas dispusera dos seus 
bens de modo que ningum os pudesse receber. Parecia provvel que aqueles bens continuariam a ser uma fonte de rendimentos para os advogados at ao dia do Juzo 
Final.) Dizia-lhe ainda que passara pela loja de Jobson ou que vira vender um Boucher que lhe escapara de TaMeyrand & Sons, em Pa 11 Malil.
Admirava Boucher, Watteau e toda a sua escola. Era hbito seu falar em tudo aquilo a Irene, e continuava a proceder assim, fazendo,  mesa, longos monlogos, como 
se pudesse, pela sua aparente despreocupao, dissimular que sofria.
Muitas vezes, quando estavam ss, ele fazia o gesto de a beijar quando diziam "boa noite". Talvez dissesse vagamente a si mesmo que um dia ainda ela lhe permitiria 
aquele beijo, ou pensava simplesmemte que o marido deve beijar a mulher.
E, embora ela o odiasse, ele nunca deveria tirar a razo do seu lado pelo esquecimento daquele rito consagrado.
E porque o odiaria ela? Mesmo agora, no o conseguia acreditar. Era to extraordinrio ser odiado! O dio  um sentimento excessivo de mais. E, entretanto, ele prprio 
odiava Bosinney, aquele Pirata de m sorte, aquele sujeito sem vintm, aquele noctmbulo errante. Porque, nos seus pensamentos, Soames via-o sempre errante, espionando.

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Ah, mas ele devia estar na misria! O jovem Burkett vira-o a sair de um restaurante de terceira classe, parecendo terrivelmente decado.
Durante as horas de insnia, Soames ruminava os pensamentos inspirados por uma situao inextricvel. Mas no voltaria Irene ao bom senso? Nem uma vez pensou seriamente 
que poderia ter de se separar da mulher.
E os Forsyte? Que papel representavam nessa fase da tragdia subterrnea que agitava a alma de Soames?
Papel nenhum, a falar verdade, tinham ido todos para a beira-mar.
Eram vistos diariamente a sair dos seus hotis, dos seus sanatrios, das suas penses familiares, fazendo proviso de ozone para todo o Inverno. Cada famlia da 
tribo, no lugar da sua escolha, cultivava, colhia e engarrafava o ar do mar que lhe era mais propcio.
O fim de Setembro viu-os regressar. De boa sade, com belas cores nas faces, vieram uns depois dos outros, nos seus pequenos nibus, e logo no dia seguinte voltaram 
aos seus negcios.
No domingo seguinte o salo de Timothy foi invadido desde depois do almoo at ao jantar.
Entre vrias histrias, diversas e sensacionais, Mrs. Septimus Small fez notar que Soames e Irene no se tinham ausentado de Londres. Mas no era do crculo da famlia 
que deveria partir, logo depois, o primeiro testemunho interessante.
Numa tarde dos ltimos dias de Setembro, Mrs. Mac Ander, a melhor amiga de Winifred Dartie, dava o seu passeio higinico de bicicleta, na companhia do jovem Augustus 
Flippard, quando encontrou Irene e Bosinney. Saam os dois de um recanto copado do parque e dirigiam-se para Sheen Gate. Talvez a pobre mulherzinha estivesse de 
lngua seca, porque h muito tempo rodava sobre uma estrada poeirenta e dura, e ningum ignora que andar de bicicleta conversando com um jovem Flippard  um exerccio 
pesado para qualquer constituio robusta. Talvez o espectculo dos fetos frescos, donde saam "aqueles dois", lhe desse invejar a suave encosta, no cimo da colina, 
sob a abbada dos ramos de carvalho onde os pombos arrulhavam infindavelmente os seus hinos nupciais,

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onde o Outono murmurava aos ouvidos dos namorados  sombra dos fetos, enquanto cabritos tmidos passavam em silncio - um bosque de delcias infinitas, de horas 
douradas na longa unio do cu e da terra, um bosque verde, consagrado aos faunos com que se assemelhavam os estranhos troncos de carvalho, na noite de Estio, e 
s brancas drades disfaradas nas btulas.
Aquela senhora conhecia bem todos os Forsyte, fora  recepo de noivado de June, e compreendeu imediatamente, ao ver Irene, de quem se tratava. O seu prprio casamento, 
coitada, no fora feliz, porm ela tivera o bom senso e a habilidade de pr o marido numa situao evidente de culpabilidade. Passara atravs de todas as formalidades 
do divrcio sem incorrer em nenhuma censura.
De forma que era bom juiz para tais questes. Morava num desses hotis em que, em inmeros pequenos apartamentos, vivem, ao lado uns dos outros, inumerveis Forsyte. 
O principal passatempo deles, fora as horas de escritrio,  dar  lngua sobre os negcios dos outros.
Pobre mulherzinha! Talvez estivesse com a lngua seca. Decerto, naquele momento exacto, ela aborrecia-se mortalmente, porque Flippard era grande conversador. E encontrar 
"aqueles dois" em lugar to inslito era uma diverso que lhe fazia bem.
Diante de Mrs. Mac Ander, como toda a Londres, o tempo tambm pra.
 que essa mulher pequenina, mas notvel, merece ateno. O seu olhar, a que nada escapava, e a sua lngua aguada, serviam misteriosamente aos desgnios da Providncia. 
Com uns ares de estouvada, tinha entretanto uma espantosa faculdade de prudncia, de ateno aos seus interesses. A seu modo, ningum fizera nunca mais do que ela 
para destruir no seu meio aquele sentimento cavalheiresco que entravava ainda a roda da civilizao. Ela tinha qualquer coisa de vivo, de to desembaraado! Chamavam-lhe 
carinhosamente "a pequena Mac Ander". Sempre muito bem vestida, correcta, fazia parte de um clube feminino, mas estava a mil lguas do tipo que reina nesses clubes, 
neurastnico e aborrecido, que s pensa nos seus direitos. Os seus direitos - esses ela assumia-os sem pensar neles, sabia exerc-los at ao mximo, sem suscitar 
outra coisa afora admirao naquela classe superior  qual pertencia

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- se no pelo seu modo de viver, pelo menos pelo seu nascimento e educao e por aquela caracterstica verdadeiramente especfica: o sentimento da propriedade.
Filha de um advogado do Bedfordshire e neta, por parte da me, de um pastor, casara com um pacfico pintor, que gostava da Natureza com um certo toque de excentricidade, 
e que, um belo dia, abandonara a mulher por uma actriz. Foi uma triste experincia, mas que no a desligou em nada das exigncias, das convices e dos sentimentos 
do seu meio. De tal forma que, mal recuperou a liberdade, ela soube colocar-se no prprio corao do forsytismo.
Sempre de bom humor, sempre a par de tudo, era bem-vinda onde quer que fosse. Ningum mostrava surpresa ou desaprovao se a encontrava em Zermatt ou no Reno, s 
vezes s, s vezes com outra senhora e dois cavalheiros. Sentia-se que ela era perfeitamente capaz de se cuidar, e os coraes dos Forsyte enterneciam-se diante 
daquele instinto maravilhoso que lhe permitia gozar de tudo que a vida oferecia, sem jamais dar pasto s crticas. Segundo o sentimento geral, uma mulher como Mrs. 
Mac Ander era o modelo sob o qual se devia esperar a perpetuao do tipo feminino que entre ns passa por ser o melhor. Infelizmente no tivera filhos.
Se havia mulheres que ela no podia suportar, eram as daquela frgil espcie das quais os homens dizem que tm encanto. E contra Mrs. Soames ela tivera sempre uma 
antipatia particular.
Obscuramente, sem dvida, sentia que, uma vez que se admitisse o encanto pessoal como critrio de julgamento, a vivacidade, o jeito, o brilho, no valeriam mais 
nada - e, com um modo tanto mais profundo porque esse pretenso encanto parecia s vezes vencer qualquer clculo, ela odiava o poder subtil de seduo que no podia 
deixar de reconhecer em Irene.
Nem por isso parava de repetir sempre que no via o que se poderia julgar interessante naquela mulher. No tinha mobilidade, era incapaz de se afirmar, no fazia 
realar nada. Em suma, no percebia o que nela poderia atrair os homens.
No fundo, a pequena Mac Ander no era m, mas para sustentar a sua situao mundana, depois de todas as dificuldades da vida de casada, ela sentia to bem a utilidade 
de estar informada de tudo

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que no lhe ocorreu nem um instante ao esprito a ideia de guardar para si o encontro que tivera com "aqueles dois" no parque.
Justamente nesse dia deveria jantar em casa de Timothy. Ela ia l de tempos a tempos, para desenrugar um pouco aquelas velhas, como dizia. Sempre encontrava os mesmos 
convivas: Winifred Dartie e o marido, Francie, porque pertencia ao cl literrio, e sabia-se que Mrs. Mac Ander escrevia artigos de modas para o Ladies Kingdom Come. 
Para o flirt, quando era possvel obter a presena deles, convidavam-se os dois moos Haymain, que, embora mudos como peixes, passavam por muito elegantes e profundamente 
informados sobre as ltimas novidades da sociedade elegante. s sete horas e vinte e cinco ela acendeu a luz do seu pequeno vestbulo, l parou um momento para ver 
se tinha a chave consigo. Aqueles pequenos apartamentos de hotel eram bem cmodos -  verdade que lhes faltava um pouco de ar e sol -, mas s lhe era preciso meter 
a chave na fechadura quando lhe dava na vontade passear. Nenhum aborrecimento com criadas, nem se sentia cansada como nos tempos daquele pobre e caro Fred, que vivia 
quase sempre sem dinheiro. Ela no tinha rancor contra o pobre Fred: era um coitado! Mas, mesmo assim, quando o recordava, a lembrana da actriz ainda lhe apertava 
os lbios num rpido e amargo sorriso de irriso.
Fechou a porta com um puxo seco, rpido, seguiu a longa perspectiva das portas cinzentas, numeradas, no corredor de paredes amarelas, donde porejava tristeza. O 
ascensor descia. Metida at s orelhas no seu grande agasalho de pele de chinchila, cada um dos seus cabelos dourados no lugar devido, ela esperou imvel que o elevador 
parasse no seu andar. A grade abriu-se com um estalo, e ela entrou. J havia l trs passageiros: um senhor de colete branco, de rosto largo e liso como o de um 
boneco, e duas senhoras de idade, vestidas de preto, enluvadas de mitenes.
Mrs. Mac Ander enviou-lhes um sorriso, conhecia todos os hspedes. E imediatamente aquelas trs pessoas que se tinham mantido em completo silncio comearam a falar. 
Era aquele o feliz segredo de Mrs. Mac Ander: incitava as pessoas a falar.
E a conversa no parou durante toda a descida dos cinco andares. O pequeno do elevador escutava, de costas, voltando para a grade a sua cara cnica..

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Ao chegarem a baixo, separaram-se: o cavalheiro de colete branco para se dirigir languidamente ao bilhar, as senhoras idosas para jantarem e dizerem entre si: "Que 
senhora amvel! Que graa!" Mrs. Mac Ander apanhou um carro.
Quando Mrs. Mac Ander jantava em casa de Timothy, a conversa, embora ningum conseguisse decidir Timothy a fazer acto de presena, tomava um aspecto mais amplo, 
mais fcil, o tom da gente informada, ar habitual aos Forsyte quando se sentem  vontade. E era isso, sem dvida, que fazia o xito da sua presena. Mrs. Smaill 
e a tia Hester encontravam nela um estimulante que as reanimava. Se ao menos, diziam elas, Timothy quisesse aparecer! Sentia-se que aquilo lhe faria bem. E ela contava 
a ltima aventura do filho de Sir Charles Fiste em Monte Carlo, revelava o verdadeiro nome da herona do ltimo romance de Tynemouth Eddy, que estava na boca de 
todo o mundo elegante, relatava o ponto de vista dos costureiros de Paris a respeito dos cales de ciclismo para senhoras. E, com tudo isso, era to inteligente! 
Via o pr e o contra dessa questo to discutida, o filho mais velho de Nicholas deveria entrar na marinha, como a me o desejava, ou tornar-se-ia tabelio, como 
era desejo do pai, que considerava a profisso mais segura? Ela desaconselhava vivamente a marinha. Salvo a hiptese de o rapaz ser um caso excepcional ou dispor 
de relaes brilhantssimas, corria o perigo de ser vergonhosamente esquecido. E, afinal de contas, a que levava a marinha? Mesmo quando se consegue chegar a almirante? 
No passa de um ttulo. H muito melhores oportunidades no comrcio. Mas  preciso um bom comeo numa casa sria, onde no haja nenhum risco a correr.
Havia dias em que ela lhes dava um palpite para a Bolsa. Na verdade, nem Mrs. Smalll, nem a tia Hester o aproveitavam nunca: no tinham fundos a colocar. Mas isso 
punha-as em contacto com as realidades apaixonantes da vida. Era um acontecimento. "Falaremos a Timothy", diziam elas. Mas estavam longe de o fazer, sabendo que 
aquilo o perturbaria, porm, durante semanas, depois daquela conversa, procuravam sub-repticiamente no jornal do qual eram assinantes - porque lhe respeitavam as 
tendncias mundanas - as ltimas cotaes da Brighth Rubies ou da Woolen Mckintosh Company. Acontecia que no apareciam os nomes dessas sociedades nas cotaes.

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Elas esperavam ento a visita de James, de Roger ou mesmo de Swithin, perguntavam-lhes com voz trmula de curiosidade o que estava a fazer a Bolvia Lime and Speltrate. 
Era impossvel encontr-la no jornal!
Roger respondia:
- Que  que isso adianta a vocs? Tolice. Vo arrepender-se de meterem dinheiro em aces de cal, que  assunto de que no entendem.. Quem lhes falou nisso?
E, informado sobre o que elas haviam sabido, ia fazer um pequeno inqurito na City e no hesitava em empregar algum dinheiro no negcio.
Estava-se a meio do jantar, justamente por ocasio do assado de carneiro, quando Mrs. Mac Ander, com um ar displicente, comentou: "Ah, quero ver se vocs adivinham 
quem foi que eu encontrei em Richmond Park? Aposto o que quiserem! Mrs. Soames e Mr. Bosinney! Naturalmente tinham ido dar uma olhadela 
construo."
Winifred Dartie tossiu. Ningum disse uma palavra. Era o testemunho que inconscientemente cada um havia esperado.
Para se ser justo,  preciso dizer que Mrs. Mac Ander, que chegara h pouco da Sua e dos lagos italianos, ignorava o rompimento de Soames com o arquitecto. No 
poderia imaginar a impresso que iria causar.
Erecta, um pouco corada:, passeou em redor os olhinhos perspicazes, procurando 'medir o efeito das suas palavras. Viu de cada lado um dos moos Hayman inclinando 
sobre o prato um rosto magro, faminto, e comendo a sua fatia de carneiro.
Aqueles dois, Giles e Jesse, pareciam-se tanto e eram to inseparveis que lhes chamavam os Siameses. Nunca falavam e estavam sempre muito absorvidos em no fazer 
nada. Supunha-se que se entregavam decerto a algum exame importante. Eram vistos passeando na praa prxima  casa deles durante horas com a cabea descoberta, um 
livro na mo, um fox-terrier nos calcanhares, sempre mudos, de cachimbo na boca. Todas as manhs, a cinquenta metros um do outro, cavalgando descarnados rocins, 
com as pernas pendentes e to magras como as dos cavalos, desciam a trote Campden Hill. Uma hora depois, sempre a cinquenta metros um do outro,

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subiam, em galope baixo. E todas as noites, fosse qual fosse o lugar onde houvessem jantado, apareciam s dez e meia, apoiados  balaustrada da promenade do Alhambra. 
S eram vistos juntos passando o tempo com o ar perfeitamente feliz.
Movidos por qualquer movimento secreto que se originava no instinto do gentleman, ambos se voltaram naquele momento terrvel para Mrs. Mac Ander, e disseram exactamente 
com a mesma voz:
- A senhora viu-o...
Ela ficou to interdita com aquela pergunta que deps o garfo. Smither, que passava, levou-lhe rapidamente o prato. Mrs. Mac Ander, com presena de esprito, disse 
rapidamente:
- Fao questo de me servir novamente deste delicioso carneiro.
Mas, mais tarde, no salo, sentou-se junto de Mrs. Small e, decidida a levar avante o assunto, comeou:
- Que mulher encantadora  Mrs. Soames! Que natureza simptica! Soames realmente tem sorte!
Na sua sede de informaes, no contara suficientemente com aquela ntima susceptibilidade dos Forsyte que no admite a partilha de uma preocupao com estranhos. 
Mrs. Septimus Small endireitou-se, com um ranger e um tremor em toda a sua pessoa fremente e na sua dignidade, e disse:
- Minha amiguinha, isso  um assunto que ns nunca abordamos!

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CAPTULO II.

A NOITE NO PARQUE.


Embora, sempre com o seu infalvel instinto, Mrs. Small houvesse dito exactamente o que mais poderia intrigar a sua convidada, no poderemos descobrir outra maneira 
pela qual ela pudesse exprimir-se com sinceridade.
Aquele no era um assunto que os Forsyte pudessem abordar, nem mesmo entre si. Para utilizar a expresso empregada por Soames quando definia a si mesmo a situao, 
tratava-se de uma histria "subterrnea".
Entretanto no se tinha passado ainda uma semana depois do encontro de Richmond Park, e todos os Forsyte, excepto Timothy, a quem poupavam, sabiam que "aqueles dois" 
j tinham ido
muito longe.
George - inventor de muitas dessas expresses pitorescas que ainda tm voga nos crculos mundanos - exprimiu, mais exactamente do que qualquer outra pessoa, o sentimento 
geral, dizendo ao seu irmo Eustace que o pirata "entrou a fundo", e Soames "engoliu-o".
Sentia-se bem que era verdade, mas, entretanto, que fazer? Soames deveria tomar medidas, mas isso mesmo seria deplorvel.
Sem um escndalo pblico, que na verdade lhes era difcil de aconselhar, ningum via bem que medidas poderiam ser tomadas.

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Nesse impasse, s era possvel o silncio, nada dizer a Soames, nada dizer entre eles prprios, em suma, ignorar.
Testemunhando-se a Irene uma frieza digna, talvez fosse possvel faz-la meditar no que fazia, mas viam-na to pouco! E realmente era difcil procurar expressamente 
para lhe mostrar frieza. Algumas vezes, na intimidade da alcova conjugal, acontecia a James desabafar com Emily sobre o grande sofrimento que lhe causava o infortnio 
do filho.
- No sei - disse ele-, mas sinto que isso me gasta... Haver escndalo, o que o prejudicar. No falarei a ele, afinal de contas, quem sabe se no fundo no h nada? 
Que acha voc? Dizem que ela  muito artista... E ento? Voc est igual a Juley! Bem, no sei, espero o pior. Veja em que d no se ter filhos. Eu compreendi sempre 
que aquilo ia acabar assim. Alis nunca eles me disseram que no queriam ter filhos. Nunca ningum me diz nada..
De joelhos ao p da cama, com os olhos muito abertos e esgazeados pela ansiedade, ele respirava no edredon. Vestido com o camiso de noite, o pescoo para a frente, 
as costas dobradas, parecia um grande pssaro branco.
- Padre nosso - repetia, virando e revirando a ideia de um escndalo.
Ele tambm, no fundo do corao, tal como o velho Jolyon, lanava para uma parte da famlia a responsabilidade do drama. Com que direito aquela gente - referia-se 
a todo o ramo de Stanhope Gate, inclusive Jolyon filho e a filha- com que direito aquela gente introduzira na famlia um indivduo como o tal Bosinney? Ouvira o 
apelido posto por George. Mas no enxergava a relao: o rapaz era arquitecto.
Comeava a achar que o seu irmo Jolyon, que ele sempre colocara to alto, cuja opinio sempre tivera em to grande conceito, no era o que havia pensado.
No tendo a mesma energia de temperamento que o irmo mais velho, sentia-se menos irritado do que triste. O seu grande consolo era ir  casa de Winifred e levar 
no carro os pequenos Dartie at aos jardins de Kensington. L viam-no frequentemente caminhando  beira de gua, junto ao tanque,

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com os olhos ansiosamente fixos no barco do pequeno Publius Dartie. Ele prprio lastreara-o com um penny, e fingia-se convencido de que o barco no voltaria  margem. 
O pequeno Publius - James deleitava-se em repetir que ele no se parecia nada com o pai - saltava ao seu lado e entretinha-o nessa convico, convencendo-o a apostar 
outro penny, pois descobrira que o barco voltava sempre. E James apostava. Nunca deixava de pagar depois - s vezes perdia trs a quatro pence por tarde, porque 
o pequeno Publius no se cansava desse jogo -, e o av dizia sempre ao pagar: "Tome para o seu mealheiro. Eh, voc est a ficar rico!" Era um prazer real para James 
pensar na fortuna crescente do neto. Mas o pequeno Publius conhecia uma confeitaria excelente e no se deixava iludir.
Voltaram a p atravs do parque, James com os altos ombros, a cara cuidadosa e absorvida, longo e magro guardio, exercendo pouco prestgio sobre os seus robustos 
netos, Imogen e Publius. O jardim e o parque no eram reservados unicamente a James. Forsytes e vagabundos, crianas e namorados vinham instalar-se definitivamente 
ali, passear, dia aps dia, noite aps noite, procurando a libertao do trabalho, do tumulto e do relento das ruas. As folhas amareleciam lentamente, demorando-se 
sob o sol e sob a tepidez das noites que ainda pareciam de Estio.
No sbado, 6 de Outubro, o cu, que estivera azul durante o dia inteiro, escureceu depois do pr-do-sol at tomar o tom de uvas escuras.
A obscuridade azul envolvia numa suavidade de veludo as rvores, cujos ramos longos pareciam plumas na noite imvel e tpida. Londres inteira despejara-se dentro 
do parque para beber a taa do Vero at  derradeira gota.
Pares e mais pares afluam por todas as portas, passeavam pelas leas e pelos relvados ressequidos, e depois, silenciosamente, uns depois dos outros, fugindo dos 
espaos iluminados, escondiam-se na sombra do arvoredo. L dentro, confundidos com algum tronco de rvore, perdidos na escurido das moitas, no existiam mais seno 
para eles prprios, no doce corao da noite.
E para aqueles que chegavam ao longo dos caminhos, os primeiros pares pareciam fazer parte da sombra apaixonada, donde apenas saa um estranho murmrio, como a palpitao 
confusa de inumerveis coraes.

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E,  medida que esse rumor atingia os recm-vindos das leas iluminadas, as suas vozes baixavam de tom, os braos enlaavam-se, os olhos comeavam a perscrutar, 
a sondar as trevas. De sbito, como atrados por mos invisveis, franqueavam por sua vez a barreira de luz, e desapareciam, silenciosos como fantasmas.
E o silncio que envolvia o inexorvel e longnquo murmrio da cidade vivia a existncia de uma multido de tomos humanos que ali repousavam do esforo feito, vivia 
das suas paixes, das suas esperanas, dos seus amores. Porque, apesar da censura votada por aquela grande corporao de Forsytes, o Conselho Municipal (que considerava 
o amor, depois de uma m rede de esgotos, o maior perigo para uma comunidade), uma fora estava em aco naquela noite do parque, uma fora sem a qual os milhares 
de oficinas, de igrejas, de armazns, de escritrios, tudo que o poder social administra, no seriam seno artrias vazias de sangue.
A paixo, o amor escondido sob aquelas rvores, abandonavam-se  sua furtiva ventura, longe do inimigo sem merc: a conveno social. E enquanto isso, Soames, que 
jantara, sem Irene, em casa de Timothy, voltava atravs do parque acompanhando a margem do rio, absorvido nas preocupaes com o seu processo. Teve uma angstia 
no corao ao ouvir um riso em voz baixa e um rumor de beijos. Ocorreu-lhe a ideia de escrever ao Times na manh seguinte, para chamar a ateno do director sobre 
os atentados  moral registados nos parques londrinos. Mas no o fez, porque tinha horror a ver o seu nome nos jornais. Porm o seu desejo faminto irritava-se ante 
aqueles cochichos no silncio, quela semiviso de pares na sombra, como em virtude de um estmulante malso. Ele deixou a margem da gua e deslizou sob as rvores 
de um pequeno bosque onde a escurido era mais densa, onde os castanheiros deixavam pender at ao cho os seus grandes ramos copados, e ps-se a rodear as cadeiras, 
apoiadas de duas em duas aos troncos de rvore, inspeccionando furtivamente os namorados que se mexiam  sua aproximao.
De sbito parou na encosta que domina o Serpentine:  claridade dos bicos de gs, destacando-se em preto sobre o prateado do rio, estava um par imvel, o rosto da 
mulher escondido no ombro do homem,

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formando um grupo unido, como esculpido num nico bloco de pedra, imagem da paixo muda e sem pejo.
Mordido no corao, Soames mergulhou rapidamente na sombra das rvores. Naquela busca, quem poderia dizer o que ele pensava, o que esperava encontrar? Um alimento 
para a sua fome? Uma claridade nas trevas? Quem diria o que ele procurava? Algum conhecimento desinteressado do corao humano, ou o fim da sua prpria tragdia 
"subterrnea"? Porque, ainda uma vez, quem poderia dizer que cada um daqueles pares sem nome no seria formado por ela e ele?
Mas no, no poderia ser aquilo o que ele procurava: a mulher de Soames Forsyte sentada, durante a noite, no parque, como uma rapariga do povo? Impossvel! E ele 
continuava de rvore em rvore, no seu passo abafado.
Uma vez, uma praga f-lo recuar, outra vez um murmrio "Ah, se isto no acabasse nunca mais!" apertou-lhe de novo o corao, e Soames parou, paciente, obstinado, 
at que o par novamente se ps a andar. Era apenas uma pequena caixeira de loja, de vestido amarrotado, segura ao brao do namorado.
Centenas de outros namorados murmuravam a mesma esperana no silncio das rvores, centenas de outros namorados mantnham-se assim enlaados.
Endireitando-se com uma sbita repulsa, Soames voltou  lea do parque, abandonando uma procura que ele no ousava confessar a si mesmo.

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CAPTULO III.

ENCONTRO NO JARDIM BOTNICO.

Jolyon filho, cuja situao econmica no era propriamente a que convinha a um Forsyte, encontrava s vezes dificuldade em economizar o dinheiro necessrio para 
esses passeios rsticos, essas procuras no corao da Natureza,  mngua dos quais um aguarelista no pode pintar.
De facto, ele era muitas vezes obrigado a levar a sua caixa de tintas at ao Jardim Botnico, e l, num banquinho dobradio,  sombra de uma araucria ou de uma 
seringueira, passava longas horas de trabalho.
Um crtico de arte, que recentemente lhe examinara as aguarelas, fizera-lhe a seguinte apreciao: "Num certo sentido, as suas aguarelas so muito boas. Tm cor, 
tm um lindo tom, e nalgumas delas h realmente um verdadeiro sentido da Natureza. Mas o caso  que isso forma um conjunto precrio: o pblico nunca as olhar! Porm, 
se o senhor escolher um motivo ilimitado, por exemplo, Londres  Noite ou o Palcio de Cristal na Primavera e se fizer legtimas sries, o pblico compreender imediatamente 
o que est a ver. Nunca insistirei de mais a esse respeito. Todos os que fazem nome artstico, como Crum, Stone ou Bleeder, conseguem isso evitando o inesperado, 
especializando-se definitivamente, instalando-se em determinado sector, de maneira que, quando se trata deles, o pblico saiba sempre onde est. E isso compreende-se: 
um
coleccionador no gosta de ver ningum enfiar o nariz sob os seus quadros para procurar a assinatura. Quer que se possa dizer imediatamente: Um Forsyte de primeira 
ordem! Ser importantssimo, pois, para o senhor, escolher um tema que impressione o pblico logo  primeira vista, j que no h no seu estilo uma originalidade 
muito acentuada.)"
Jolyon filho, em p junto ao pequeno piano, onde um ramo de rosas murchas estava pousado sobre um retalho de damasco desbotado, escutava com o seu sorriso vago.
Voltando-se para a mulher, que ouvia o crtico com uma expresso irritada - no seu rosto frgil., ele disse:
- Est a ver, querida?
- No estou a ver nada - respondeu ela com a sua voz escondida, onde permanecia ainda um pouco de sotaque estrangeiro.- H muita originalidade no seu estilo.
O crtico olhou-a, sorriu com deferncia, e no disse mais nada. Como toda a gente, conhecia a histria deles.
Mas aquelas palavras no foram perdidas para Jolyon filho. Elas iam de encontro a todas as suas convices, a tudo que, teoricamente, ele estimava na sua arte. Porm 
um estranho e profundo instinto impelia-o, contra a sua prpria vontade, a utilizar o conselho em seu benefcio.
Descobriu pois, certa manh, que estava com desejos de fazer uma srie de vistas de Londres. No poderia dizer donde vinha a ideia, e s um ano depois, aps ter 
terminado e vendido a bom preo a sua srie de aguarelas,  que ele recordou o crtico de arte, num dos seus acessos de filosofia, e encontrou no seu recente xito 
a prova de que era um Forsyte.
Resolveu comear pelo Jardim Botnico, donde j tirara alguns esboos, e escolheu para assunto o pequeno lago onde o Outono espalhava folhas vermelhas e amarelas. 
Os jardineiros sonhavam em carregar aquelas folhas, mas as suas vassouras no eram bastante longas para as atingir.
Quanto ao resto do jardim, eles varriam-no sempre, apanhavam todas as manhs as folhas cadas durante as ventanias da noite e reuniam-nas em grandes montes, donde 
se elevava,  medida que um fogo lento as consumia, um fumo doce e acre,

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smbolo do Outono, como o cuco  o smbolo da Primavera e o cheiro das tlias  o smbolo do Vero. A alma meticulosa dos jardineiros no podia suportar os grandes 
desenhos de ouro e ferrugem sobre o verde dos relvados. Os caminhos ensaibrados deviam alongar-se impolutos, ordenados, metdicos, sem trao de realidades vivas, 
nem daquela lenta e bela morte que lana por terra a beleza do Vero, a glria fanada donde o desenrolar do eterno ciclo far rebentar a louca Primavera.
E vigiavam cada folha, desde o momento em que, aps um frmito de adeus, ela caa do ramo e lentamente volteava no ar. Mas no lago as folhas flutuavam em paz, cheias 
de sol, e as suas cores louvavam o cu.
Assim as via Jolyon filho. Chegando l numa manh, nos meados de Outubro, ficou contrariado por ver um banco ocupado a vinte passos do seu lugar, porque tinha, tanto 
quanto  possvel, o horror de ser observado enquanto trabalhava.
Estava sentada ali uma moa de casaco de veludo, com os olhos postos no cho. Porm um loureiro estendia as suas flores entre ele e ela, Jolyon filho abrigou-se 
por trs do arbusto e ps-se a armar o cavalete.
Os seus preparativos eram lentos, aproveitava, como o deve fazer todo o verdadeiro artista, qualquer pretexto para retardar por um momento mais o esforo do trabalho, 
e surpreendeu-se a tentar olear furtivamente a dama desconhecida.
Como seu pai, antes dele, Jolyon filho sabia reconhecer uma linda cara. Aquela era encantadora.
Viu um queixo redondo, mergulhado numa ruche creme, um rosto delicado, com grandes olhos escuros e lbios suaves. Um chapu preto, gnero Gainsborough, escondia-lhe 
os cabelos, ela apoiava-se levemente ao encosto do banco, com os joelhos cruzados, uma ponta da botina envernizada aparecendo sob a saia. Havia em toda a sua pessoa 
algo de naturalidade requintada, mas a ateno do pintor foi atrada sobretudo por uma determinada expresso daquela fisionomia que lhe lembrava a de sua esposa. 
Dir-se-ia que aquela mulher sofria a aco de foras que a arrastavam invencivelmente. Aquilo perturbou-o, despertou-lhe um
vago nascimento de instintos cavalheirescos. Quem seria? E que faria ali, sozinha?
Dois rapazes daquela espcie particular dos frequentadores de Regent's Park, ao mesmo tempo atrevidos e tmidos, passaram diante dela, com uma raqueta de tnis na 
mo. Os seus olhares furtivos de admirao desagradaram a Jolyon. Um jardineiro que andava por ali parou para fazer qualquer trabalho intil sobre uma touceira de 
ervas das pampas: tambm queria um pretexto para a olhar. Um cavalheiro idoso, professor de horticultura, a julgar pelo chapu, passou trs vezes para examinar disfaradamente 
a desconhecida, porm longamente, com uma expresso singular nos lbios.
Todos aqueles homens excitavam em Jolyon filho a mesma vaga irritao. Ela no levantou os olhos para nenhum, e entretanto ele sentia que cada homem que passasse 
a olharia da mesma forma.
Aquele rosto no era o da feiticeira que estende a cada homem a oferta do prazer, no era aquela beleza pecadora, to grandemente apreciada pelos Forsyte de categoria 
social superior, nem tambm a beleza menos prestigiosa cuja ideia se associa  de uma caixa de bombons, no era do gnero misticamente apaixonado ou apaixonadamente 
mstico que a arte decorativa e a poesia modernas celebram, no teria tambm inspirado a um escritor teatral a ideia de um drama cuja interessante e neurastnica 
herona se suicida no ltimo acto.
Pelas suas linhas, pelo tom da sua carne atraente e passiva, a suavidade deliciosa do olhar, aquele rosto de mulher recordava-lhe o Amor Sagrado de Ticiano, do qual 
tinha uma reproduo a enfeitar a parede da sala de jantar. E a sua seduo parecia emanar de uma doce passividade, daquela impresso que se sentia ao olh-la: que 
ela fora feita para ceder.
Porque ento e para que ficava a moa naquele silncio das coisas, naquele parque onde as rvores deixavam cair as suas folhas uma a uma, onde os melros passeavam 
to prximos dela, sobre a erva brilhante do primeiro orvalho do Outono?
De sbito o seu lindo rosto tremeu, e Jolyon filho,

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passeando o olhar em torno, quase com um cime de namorado, viu Bosinney atravessando o relvado em grandes passadas.
Curiosamente, observou o encontro deles, o olhar com que se fitaram, o demorado aperto das mos. Sentaram-se um ao lado do outro, um entregue ao outro, apesar da 
reserva que aparentavam. Jolyon ouviu o murmrio rpido das palavras, mas no pde apanhar o que diziam.
Ele tambm remara naquela galera! Sabia o que eram as longas horas de espera, os magros encontros semipblicos, a angstia da impacincia que nunca abandona o amor 
proibido.
E entretanto bastava um olhar ao rosto daqueles dois para compreender que aquilo no era uma aventura de estao com as quais se distraem os homens e mulheres das 
cidades, que aquilo no era um daqueles apetites repentinos que despertam insaciveis e recaem no seu sono ao cabo de seis semanas. No, era a mesma verdadeira coisa 
que ele conhecera anos atrs e da qual no podia sair.
Bosinney parecia implorar, e ela, to tranquila e imutvel na sua meiguice, mantinha os olhos baixos, fitos na relva.
Seria ele o homem capaz de arrastar aquela criatura terna e dobrvel, incapaz de dar um passo por si mesma, que morreria por ele, mas que no tinha talvez a fora 
necessria para fugir com ele?
Jolyon filho sups ouvi-la dizer: "Mas, querido, isso iria arruin-lo!" Porque ele tinha ampla experincia desse receio que atormenta um corao de mulher, o receio 
de ser um fardo, um obstculo para aquele a quem ama.
E os seus olhos deixaram de se volver para eles, mas as vozes baixas, rpidas, chegavam-lhe aos ouvidos junto ao canto sincopado de um pssaro que parecia querer 
reencontrar as melodias da Primavera.
E pouco a pouco o murmrio das palavras dos amantes desapareceu, e um longo silncio sobreveio.
"E Soames, que far ele em tudo isto?", pensava Jolyon filho, "H quem pense que uma mulher que tem um amante cuida no pecado de enganar o marido. Isso  conhecer 
muito pouco a mulher! Ela sente apenas que se alimenta, depois de ter sentido que morria de fome.

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Tira a sua desforra! E Deus a proteja, porque Soames tirar tambm a sua!"
Ouviu um ranger de seda e, inclinando-se atrs do loureiro, viu-os afastarem-se, com as mos secretamente unidas.
No fim de julho, o velho Jolyon levou a neta aos Alpes, e no decorrer dessa viagem  Sua, a ltima que fizeram, June recuperou amplamente a sade e o equilbrio. 
Nos hotis cheios de Forsytes ingleses - porque o velho Jolyon no podia suportar aqueles "bandos de alemes", como chamava a qualquer espcie de estrangeiros - 
todos consideravam com respeito a neta nica daquele velho Mr. Forsyte, evidentemente rico e de to bela figura. Ela no se misturava ao acaso com as pessoas que 
encontrava - no era hbito seu -, mas fez algumas amizades e, no vale do Reno, aproximou-se especialmente de uma jovem francesa que morria tuberculosa.
Decidindo imediatamente que a sua amiga no deveria morrer, June esqueceu, batalhando contra a morte, muito do seu
prprio desgosto.
O velho Jolyon olhava aquela intimidade recente com uma mistura de alvio e censura, porque essa nova prova de que a vida da neta se passaria no meio de "desvalidos" 
atormentava-o. No poderia ela gostar de algum ou interessar-se por qualquer coisa que lhe fosse mais til?
- Agora s quer saber de estrangeiros - dizia ele.
No entanto, trazia frequentemente ao hotel cachos de uvas ou ramos de rosas que oferecia  Mademoiselle com um sorriso
cativante.
A despeito dos esforos de June, Mademoiselle Vigor morreu nos fins de Setembro, naquele pequeno hotel de St. Luc para onde a tinham levado. June sentiu to profundamente 
a derrota que o av levou-a imediatamente para Paris. L, olhando para a Vnus de Milo e para a Madeleine, ela venceu a depresso, e quando, no meio de Outubro, 
voltaram os dois a Londres, o velho Jolyon supunha haver operado uma cura.
Mas, mal entraram em Stanhope Gate,

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o av viu com mgoa que June retomava os seus ares da Primavera passada. Muitas vezes ficava sentada, com o olhar fixo diante de si, o queixo apoiado na mo, os 
lbios cerrados, como um pequeno gnio das lendas escandinavas, em torno dela,  luz das lmpadas elctricas recentemente instaladas, o vasto salo brilhava, tapetado 
de damasco at ao friso do tecto, cheio de mveis de Baple e de Pullbred. No imenso espelho dourado reflectiam-se os grupos de porcelana de Dresden, representando 
rapazes de cales atados nos joelhos e damas de busto opulento que acariciavam cordeiros no regao. O velho Jolyon comprara-os na sua juventude e estimava-os altamente, 
neste tempo em que o bom gosto lhe parecia estar a degenerar.
Homem de esprito largamente aberto, mais do que nenhum outro Forsyte, acompanhara a marcha do seu tempo, mas era-lhe impossvel esquecer que aqueles grupos vinham-lhe 
da casa Jobson e que os pagara carssimo. Dizia muitas vezes a June, com uma espcie de desdm desiludido: "Voc no gosta disso! No so bibelots de pexisbeque 
como os que agradam a vocs, mas custaram-me setenta libras." No era homem para deixar que duvidassem do seu bom gosto, quando por slidas razes o sabia excelente.
Uma das primeiras coisas que June fez ao voltar foi ir at  casa de Timothy. Convenceu-se de que era seu dever visitar o tio, animando-o com a narrao das suas 
viagens, mas, na realidade, ia l porque no conhecia nenhuma outra casa onde, graas a qualquer acaso de conversa ou qualquer pergunta disfarada, pudesse colher 
alguma notcia de Bosinney.
Receberam-na com grande cordialidade. "E como ia o caro av? J no vinha v-los desde Maio. O tio Timothy passava assim, assim. Aborrecera-se muito com um limpador 
de chamins: o imbecil deixara cair um embrulho de sebo na lareira do seu quarto de dormir! O pobre tio ficara abaladssimo."
June demorou-se muito tempo junto das tias, possuda pelo receio e ao mesmo tempo pela apaixonada esperana de as ouvir falar de Bosinney.
Mas, paralisada por uma inexplicvel discrio, Mrs. Septimus Small no disse uma palavra a respeito do moo e no fez nenhuma pergunta a June.

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Em desespero de causa, a pequena perguntou afinal se Soames e Irene estavam em Londres, pois ainda no vira ningum.
Foi a tia Hester que respondeu: "Sim, eles estavam na cidade, no se tinham ausentado durante todo o Vero. Falavam, segundo ela supunha, em qualquer pequeno embarao 
em relao  casa. June decerto ouvira qualquer coisa! Perguntasse  tia Juley!"
June voltou-se para Mrs. Small, que se mantinha muito erecta na sua poltrona, as mos juntas, o rosto marcado pelas inmeras covinhas. Em resposta ao olhar da moa, 
conservou um silncio singular, e quando falou foi para perguntar a June se usava cales de l para dormir naqueles hotis de altitude onde as noites deveriam ser 
to frias.
June respondeu que no, tinha horror de se abafar em tricots de l. E ergueu-se para ir embora.
O silncio que Mrs. Small observara, guiada pelo instinto infalvel de uma gaffe, pareceu de pior augrio a June do que tudo o mais que lhe pudessem dizer.
Antes de decorrida meia hora, ela extorquira a verdade de Mrs. Baynes e soubera que Soames processara Bosinney por causa da decorao da casa.
Em vez de a perturbar, essa notcia trouxe-lhe uma curiosa calma, como se na perspectiva daquela luta visse despontar uma oportunidade feliz. Soube que o caso seria 
julgado dentro de um ms, mais ou menos, e que as possibilidades de Bosinney pareciam fracas ou nulas.
- O que ele far, no sei - disse Mrs. Baynes. -  terrvel para Phil, voc bem sabe, no tem um vintm, anda apertadssimo. E no seremos ns que o poderemos ajudar, 
no acha? Dizem que ele no poder fazer um emprstimo sem garantias e no tem garantia nenhuma.
A sua obesidade aumentara de algum tempo para c. Estava no auge das organizaes de Outono e a sua mesa de escrever estava sempre cheia de programas de reunies 
de caridade..
Olhou para June com uma expresso significativa nos olhos redondos, de um cinzento de papagaio.
O sbito rubor que subiu ao rosto ardente da visitante

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- ela deveria ter visto surgir diante de si uma grande esperana -, a sbita doura do seu sorriso, voltaram muitas vezes  memria de Lady Baynes durante os anos 
seguintes. (Baynes foi enobrecido depois de ter construdo aquele museu que dera tantos empregos aos funcionrios e to pouco prazer s classes operrias s quais 
se destinava.) A lembrana daquela transformao tocante e rpida, como a de uma flor que abrisse bruscamente as ptalas, ou como o primeiro raio de sol ao fim de 
um longo Inverno, a lembrana de tudo o que se seguiu impunha-se tambm de uma maneira importuna, inexplicvel, ao esprito de Lady Baynes, at mesmo quando ela 
estava ocupada em negcios mais importantes.
Aquilo passava-se na tarde do dia em que Jolyon filho fora testemunha do encontro no Jardim Botnico. No mesmo dia o velho Jolyon fez uma visita ao escritrio dos 
seus advogados, Forsyte, Bustard and Forsyte. Soames no estava, tinha ido a Somerset House.
Bustard, ao fundo do canto retirado em que o tinham judiciosamente posto para dar conta da maior quantidade de trabalho possvel, estava enterrado em papis at 
ao pescoo: porm James, na primeira banca, mordiscava o dedo mnimo, virando lugubremente as pginas do dossier do caso Forsyte versus Bosinney.
O excelente homem de leis atormentava-se por causa do "ponto delicado", aquilo dava apenas pretexto para um pouco de agitao, por prazer, mas o seu bom senso prtico 
dizia-lhe que se fosse ele, James, o juiz, no daria grande importncia ao tal ponto. Receava apenas que Bosinney falisse e que Soames tivesse de arcar definitivamente 
com as custas. E atrs desse receio preciso rondava a ideia de uma vaga desgraa, apenas pressentida, mas complicada, obscura, escandalosa como um sonho mau e da 
qual aquele processo era apenas o sinal externo.
James ergueu a cabea quando o velho Jolyon entrou.
- Como vai, Jolyon? - murmurou ele. - H um sculo que no o vejo! Voc esteve na Sua, segundo me disseram. Esse moo Bosinney meteu-se num pssimo negcio. Eu 
sabia muito bem em que isso iria dar!

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Estendendo o dossier ao irmo, ergueu sobre ele um olhar
sombrio e nervoso.
O velho Jolyon leu em silncio e, durante esse tempo, James ficou de olhos fixos no tecto, mordiscando as unhas.
O velho Jolyon jogou enfim o mao de papis sobre a mesa, onde ele caiu com rumor no meio de um monte de atestados relativos ao inventrio do falecido Buncombe - 
um dos inmeros ramos daquele negcio to proveitoso: "Fryer versus Forsyte
- No sei o que pensa Soames - disse o velho Jolyon - para fazer uma histria destas em torno de algumas centenas de libras. Eu pensava que ele era rico.
O lbio superior de James teve um tremor irritado, ele no podia suportar que atacassem o filho naquele ponto.
--No  pelo dinheiro - comeou. Mas, encontrando o olhar do irmo, directo, penetrante, judicirio, parou.
Houve um silncio.
- Vim aqui por causa do meu testamento - disse enfim o velho Jolyon, puxando pelo bigode.
A curiosidade de James despertou imediatamente. Talvez no houvesse nada neste mundo que o excitasse tanto como um testamento, esse acto supremo da propriedade, 
esse inventrio final de uma fortuna, essa avaliao definitiva de um homem. Tocou
a campainha.
- Traga o testamento de Mr. Jolyon - disse ele ao escrevente que aparecera  porta, um homem de ar inquieto e cabelos escuros. - Voc vai fazer alguma modificao?
E atravs do seu esprito passou este pensamento: "Vejamos quanto pode ele valer! Mais do que eu?"
O velho Jolyon enfiou o testamento no bolso interior da sobrecasaca e James, cheio de mgoa, enrodilhou as longas pernas.
-  verdade o que me disseram, que voc tem feito boas
aquisies ultimamente?
- Ignoro onde voc toma as suas informaes - respondeu o velho Jolyon num tom breve. - Quando ser julgado esse processo? No ms que vem? No sei em que vocs andam 
a pensar.  questo sua. Mas, se querem seguir o meu conselho, arranjem-se sem recorrer  justia. At  vista.

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Com um frio aperto de mo, deixou o escritrio. James, preocupado, o olhar de um cinzento azulado verrumando qualquer secreta e inquietante imagem, voltou a mordiscar 
o dedo.
O velho Jolyon levou o testamento ao escritrio da New Colliery Company e sentou-se na sala vazia do conselho, para o reler. Respondeu to bruscamente a Hemmings 
quando este, vendo o seu presidente instalado ali, lhe trouxe o primeiro relatrio do novo director, que o secretrio retirou-se com um gesto de pesar cheio de dignidade, 
e, mandando chamar o contnuo, ralhou-lhe de tal forma que o rapazinho ficou assombrado: "H quanto tempo andava aquele malandro a contar moscas pelo escritrio? 
Pensava que era o patro ali? E, se supunha que poderia ficar de perna cruzada, depois de acabar o trabalho, era prova de que no o conhecia, a ele, Hemmings...", 
e assim por diante.
Do outro lado da porta giratria, o velho Jolyon estava sentado na longa mesa de mogno que o conselho ocupava nos dias de assembleia geral, com os grossos culos 
de aros de ouro, leves, inclinados no nariz, o lpis de ouro deslizando ao longo das clusulas do seu testamento.
Era um testamento muito simples, ele no admitia nenhum desses aborrecidos pequenos legados, essas doaes caridosas que dividem uma fortuna e estragam o efeito 
majestoso do pequeno pargrafo concedido pelos jornais da manh aos Forsyte que morrem possuidores de cem mil libras.
Um testamento simplssimo. Primeiro um legado de vinte mil libras a Jo. "Quanto ao resto dos meus haveres, de qualquer natureza que sejam, imobilirios ou mobilirios, 
ou participando da natureza de ambos, deixo ao dito Jolyon Forsyte, para pagamento dos rendimentos, alugueres, produtos anuais, dividendos ou juros  minha neta 
June Forsyte ou a um representante por ela designado, durante toda a durao da sua vida, para seu nico usufruto e benefcio, etc. E a partir da sua morte, e depois 
com a obrigao de transmitir, assinar ou transferir os referidos terrenos, patrimnios, propriedades, quantias, aces, fundos, ttulos ou tudo o mais que possam 
representar os citados haveres, a tais ou tais pessoas, uma ou vrias, para ditos objectivos e usos e de modo geral

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de tal maneira que a dita June Forsyte... Por suas ltimas disposies, seu ltimo testamento ou qualquer escritura ou dispositivo de natureza testamentria, devidamente 
assinados por ela e a respeito dos quais tenham sido feitas publicaes de acordo com a lei, ordenar, nomear... E na falta de, etc. E sempre sob condio de que..."
E assim em seguida, em sete grandes folhas de breve e simples fraseologia.
O documento fora redigido por James nos seus belos dias. Ele previra quase todas as hipteses.
O velho Jolyon ficou muito tempo absorvido na leitura, ao cabo, apanhou uma meia folha de papel, escreveu a lpis uma longa nota, depois, fechando o testamento, 
mandou chamar um cab e dirigiu-se aos escritrios de Paramor & Herring, em Lincoln Inn Fields. Jack Herring j era falecido, mas o seu sobrinho pertencia sempre 
ao escritrio, e o velho Jolyon fechou-se com ele durante uma meia hora.
Mandara o carro esperar, e ao sair deu este endereo ao cocheiro: 3, Wistaria Avenue.
Sentia uma estranha e surda satisfao, como se acabasse de registar uma vitria contra James e contra o "Proprietrio". Aqueles dois no meteriam mais os narizes 
na sua vida, tomava-lhes a guarda do seu testamento, queria tirar das mos deles todos os seus negcios, e confi-los ao jovem Herring - e o mesmo faria com os negcios 
dos conselhos a que presidia. Se o jovem Soames era assim to rico, no se aperceberia da baixa de um milhar de libras nos rendimentos da casa. E, sob os seus grandes 
bigodes brancos, o velho Jolyon sorria duramente. Sentia que, do ponto de vista de uma justia retributiva, o que ele fazia era muitssimo bem merecido.
Lentamente, seguramente, como uma praga secreta que acaba afinal por matar uma rvore velha, as feridas envenenadas que tinham atingido a sua felicidade, a sua vontade, 
o seu orgulho, minavam agora a sua filosofia. A vida roera-o de um lado apenas, e, como a prpria famlia de que era o chefe, ele perdera o seu belo equilbrio.
Enquanto o cab o levava a casa do filho,

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pensava nas novas disposies que acabava de tomar e encarava-as de certo modo como uma punio infligida quela famlia e quele corpo scia, do qual James e o 
filho lhe pareciam os representantes. Ele indemnizara Jo. Esse acto satisfizera a sua secreta necessidade de desforra, desforra sobre o tempo, os desgostos, os intrusos 
sobre aqueles que durante quinze anos lhe haviam esmagado o filho com a sua condenao. Via apenas um nico meio possvel de afirmar uma vez mais a supremacia da 
sua vontade: forar James e Soames, e a famlia inteira, e toda a massa obscura dos Forsyte - um grande rio chocando-se com a barragem formada unicamente pela sua 
obstinao-, for-los a reconhecer, uma vez por todas, que ele pretendia ser o senhor. Era-lhe doce pensar que iria fazer de Jo um homem mais rico, muitssimo mais 
rico do que aquele filho de James, o "Proprietrio. Alis, era doce s o gesto de dar a Jo. O velho Jolyon amava o filho.
Nem Jo nem a mulher estavam em casa. Jolyon filho no voltara ainda do Jardim Botnico.
- O patro saiu - respondeu a criadinha ao velho Jolyon-. mas no deve demorar. Ele vem sempre tomar ch com as crianas.
O velho Jolyon disse que esperaria, e sentou-se pacientemente na sala modesta e fanada, onde, agora que tinham sido retiradas as cobertas dos mveis, as velhas poltronas 
e sofs j no dissimulavam mais o estrago e a pobreza. Ele tinha vontade de ir procurar as crianas, de traz-las para perto de si, os corpinhos leves contra os 
seus joelhos: de ouvir o grito de Jolly: "Oh, av!", e ver o seu pulo: de sentir a meiga mozinha de Holly deslizar-lhe pela face. Mas no as queria chamar. Havia 
solenidade no acto que viera realizar, e at que isso fosse feito no brincaria com os meninos. Divertia-se em pensar que, com dois riscos de pena, ia dar  casa 
do filho essa aparncia de casta da qual tudo, naquela habitao, lhe parecia desprovido, que Jo poderia encher aquelas salas - ou outras, numa casa maior - de obras-primas 
de Baple e Pullbred: que ele poderia mandar Jolly estudar em Harrow ou em Oxford (o velho Jolyon j no acreditava em Eton nem em Cambridge porque o filho l estivera),

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que a pequena Holly poderia fazer o mais caro curso musical que quisesse: ela era uma musicista nata.
Enquanto essas vises lhe ocorriam em massa compacta e a emoo lhe intumescia o corao, ele ergueu-se e ps-se a olhar, da janela, o minsculo jardim rodeado de 
muros, onde a pereira, despojada antes de tempo de todas as suas folhas, erguia o seu esqueleto de ramos na bruma que ia aumentando, na tarde de
Outono.
O co Balthasar, com a cauda enrolada s costas, os longos plos salpicados de preto e branco, passeava pelo fundo do jardim, farejava as plantas e, de tempos a 
tempos, encostava a pata no muro.
E o velho Jolyon cismava.
Que prazer lhe restava seno dar? Era bom dar quando se encontrava algum que nos seria reconhecido, algum da nossa carne e do nosso sangue! No seria a mesma satisfao 
para o velho Jolyon dar queles que no lhe pertenciam, queles que no tinham nenhum direito sobre ele, Ele acreditaria assim renegar as suas convices individualistas, 
toda a sua conduta, os seus esforos, o seu labor, as suas regras de moderao, teria desmentido esse grande facto do qual se orgulhava, como tantos milhares de 
Forsyte antes e depois dele, que toda a sua vida no fora seno uma luta para conquistar um lugar no mundo e guard-lo. E enquanto ficava ali, olhando a folhagem 
coberta de limo dos loureiros, a relva manchada de ndoas pretas, as idas e vindas do co Balthasar, todo o sofrimento dos quinze anos durante os quais fora frustrado 
de uma felicidade legtima, misturava o seu fel  doura do momento que se aproximava.
Jolyon filho chegou enfim, satisfeito com o seu trabalho. refrescado pelas longas horas passadas ao ar livre. Sabendo que o pai esperava na sala, perguntou depressa 
se Mrs. Forsyte estava em casa, e quando lhe responderam que no soltou um suspiro de alvio. Ento, depois de esconder cuidadosamente os utenslios de pintor no 
pequeno cabide de capas, entrou.
Com a deciso que lhe era caracterstica, o velho Jolyon foi
logo direito ao fim:
- Mudei as minhas disposies, Jo, voc agora vai poder aumentar o seu oramento.

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Desde logo ter um rendimento de mil libras. June ter cinquenta mil libras quando eu morrer, e voc o resto... Esse seu cachorro acaba por lhe estragar o jardim 
todo. Se eu fosse voc, no tinha cachorro nenhum!
O co Balthasar, sentado no meio do relvado, examinava a sua cauda.
Jolyon filho olhou o animal, mas s o viu vagamente, porque tinha os olhos turvos.
- A sua parte no ser menos de cem mil libras, meu filho - disse o velho Jolyon. - Pensei que seria melhor que voc o soubesse. Na minha idade, j no tenho muito 
tempo diante de mim. No falaremos mais nisso. Como vai sua mulher? D-lhe saudades minhas.
Jolyon filho ps a mo no ombro do pai e, como eles no falaram mais, nem um nem outro, foi esse o fim do episdio.
Depois de acompanhar o pai ao carro, Jolyon filho voltou ao salo e ficou no mesmo lugar em que o velho Jolyon estivera, com o olhar descido sobre o jardinzinho. 
Tentava imaginar tudo o que aquela mudana representava para ele, e, Forsyte que era, viu abrir-se ante a sua imaginao as perspectivas que o dinheiro abre. Tantos 
anos magros no lhe haviam extinguido a seiva dos instintos naturais. Muito praticamente, pensou em viagens, em toilettes para a mulher, na educao dos filhos, 
num pnei para Jolly, em mil coisas ainda, mas, atravs de tudo isso, pensava tambm em Bosinney e na sua amante.
O velho passado, pungente, cruel, apaixonado, maravilhoso passado, que nenhuma fortuna lhe poderia devolver, que nada poderia ressuscitar na sua ardente doura, 
aparecera diante dele. Quando a mulher entrou, ele caminhou para ela e tomou-a nos braos, e ficou longamente sem falar, de olhos fechados, apertando-a contra si, 
enquanto ela o olhava com os olhos cheios de espanto, de dvida e de adorao.

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CAPTULO IV.

VIAGEM AOS INFERNOS.

Na manh seguinte a uma certa noite em que, afirmando enfim os seus direitos, ele se portara como um homem, Soames sentava-se diante da sua solitria mesa de almoo.
O gs estava aceso, a cidade desaparecia dentro das brumas de Novembro, como em pedaos de algodo. Mal distinguia ele as rvores da praa atravs da janela da sala 
de jantar.
Comia com calma, mas em certos momentos tinha a sensao brusca de que no poderia engolir. Fizera bem em ceder ao seu irresistvel e faminto desejo, na noite precedente, 
e quebrar a resistncia h tanto suportada que lhe opunha aquela mulher, sua pela lei e pela religio?
Estranhamente, o rosto dela obcecava-o, aquele rosto que ela escondera nas mos e que ele tentara descobrir para lhe falar, consolar. E a lembrana dos terrveis 
soluos abafados perseguia-o. Ele nunca escutara soluos assim e acreditava ouvi-los ainda. E o que o obcecava mais era a estranha, a intolervel sensao de remorso 
e de vergonha que o possua enquanto de p, junto dela, ele a olhava  luz da nica vela, antes de deslizar silenciosamente para fora do quarto.
E sem saber porqu, agora que agira assim, admirava-se de si mesmo. Dois dias antes, em casa de Winifred Dartie,

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fora vizinho de mesa de Mrs. Mac Ander. Ela dissera-lhe, olhando-o de frente, com os seus speros olhos verdes:
- Ento a sua mulher  muito amiga daquele Mr. Bosinney.' Sem se rebaixar a perguntar o que ela queria dizer, ele ruminara aquelas palavras, que acabaram por despertar-lhe 
um cime feroz, um desses cimes que, graas  perverso prpria a esse sentimento, se transformam em desejo mais feroz ainda. Sem o aguilho representado por essa 
frase de Mrs. Mac Ander, talvez no houvesse agido nunca como agira. Fora preciso aquele aguilho, e tambm o acaso, porque, por uma vez, Irene esquecera-se de fechar 
o ferrolho da porta e ele pudera surpreend-la adormecida. Depois da coisa feita, o sono viera expulsar-lhe as dvidas, mas tinham voltado todas por ocasio do despertar. 
Um nico pensamento o tranquilizava: ningum saberia de nada, Irene no era mulher capaz de falar numa coisa daquelas. Para falar verdade, quando ele comeou a abrir 
a correspondncia, e sentiu que se punha em movimento essa mecnica da sua vida que lhe exigia a todos os momentos a ateno de um pensamento claro e prtico, as 
dvidas angustiantes da noite dissolveram-se como um sonho mau. Afinal de contas, o incidente no era assim to grave, s nos romances as mulheres fazem tantas histrias 
com isso! Para um esprito so, para um homem que conhece a vida, para um homem mundano, segundo ele muitas vezes ouvira no Juzo de Divrcios, ele apenas afirmara 
o carcter sagrado do casamento, impedira a mulher de se afastar dos seus deveres, talvez mesmo, se ela continuava a avistar-se com Bosinney. a impedira de... no, 
no lamentava nada.
E agora, uma vez dado esse primeiro passo para uma aproximao, o resto seria relativamente... relativamente...
Levantou-se, aproximou-se da janela. Perdera o domnio de si. Ouvia ainda os soluos sufocados. Era uma obsesso.
Vestiu a pelica e saiu para o nevoeiro. Para ir  City, apanhou o metropolitano em Sloane Square, Num canto do seu compartimento de primeira classe, cheio de homens 
de negcios a caminho dos escritrios, os soluos abafados perseguiam-no ainda. Ele ento desdobrou o Times, cujas folhas se abriram

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com aquele estalar de papel de boa qualidade que cobre outros rumores mnimos., e, barricado por trs do jornal, ps-se resolutamente a ler as notcias do dia.
Soube assim que o jri deveria pronunciar-se sobre uma srie de atentados: oito assassnios, sete incndios voluntrios e onze estupros qualificados, sem contar 
outros crimes menos sensacionais. Leu o noticirio um aps outro, cuidadoso em manter o jornal bem aberto diante de si.
E sempre presente, sem que a leitura o pudesse afastar dele, via o rosto de Irene banhado de lgrimas e ouvia os seus gemidos. O seu dia estava muito sobrecarregado, 
alm das ocupaes profissionais, deveria ter uma entrevista com os seus agentes de cmbio, Mrs. Grin and Grinning, dar-lhes ordem de vender as suas aces da New 
Colliery Co. Soubera, ou antes, suspeitara que os negcios daquela companhia andavam precrios (na verdade ela periclitou rapidamente e foi vendida por uma bagatela 
a um sindicato americano). Devia ter ainda uma longa conferncia com Waterbruck, Q. C,  qual assistiriam tambm Bouller & Fiske.
O processo Forsyte versus Bosinney deveria ser julgado no dia seguinte, pelo juiz Bentham. O que constitua a reputao do juiz Bentham era menos a sua erudio 
em matria de jurisprudncia do que a clareza do seu julgamento. Os advogados de Soames consideravam-no como o mais favorvel ao seu cliente.
Waterbruck exibiu uma certa indiferena em relao a Bouller & Fiske e mostrou-se gentilssimo com Soames. Sentia instintivamente, ou, mais certamente ainda, fora 
prevenido pelo rumor pblico, que tinha diante de si um homem rico e bem situado, um proprietrio. Manteve-se com muita firmeza no seu parecer j expresso por escrito. 
O desenlace do processo dependeria em grande parte dos testemunhos apresentados, ele procurou convencer Soames de que o seu depoimento no deveria ser muito minucioso: 
"Um pouco de bluff, Mr. Forsyte, um pouco de bluff!" E ria com riso seguro, apertava os lbios e coava a cabea por baixo da peruca, exactamente ao modo de um fidalgo 
campons, como gostava que o tomassem. Passava por ser o mais notvel especialista em casos de quebra de promessa de casamento.

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Soames voltou a apanhar o metropolitano para regressar a casa. Na estao de Sloane Square o nevoeiro estava mais espesso do que nunca. Naquela bruma pesada, os 
passantes iam e vinham tacteando, as mulheres, muito poucas, caminhavam com os xailes cruzados no peito, o leno colado  boca. Surgiam cabs, como sombras enormes, 
com a protuberncia fantstica dos cocheiros naquele halo esbranquiado que se afogava em vapor, sob o poste de luz, antes de tocar o cho. Os cabs paravam, e os 
seus passageiros mergulhavam na escada do subterrneo como coelhos nos buracos.
E todas aquelas silhuetas espectrais, cada uma delas isolada no seu envoltrio de nvoa, ignoravam-se umas s outras. Naquela grande coelheira, cada um que se defendesse, 
sobretudo os que, vestidos de belas pelicas e receando os acidentes, caminham em tempo de nevoeiro.
No longe de Soames,  sada, via-se uma silhueta imvel. Era sem dvida um desses namorados, um desses homens do gnero do pirata do qual cada Forsyte dizia: "Pobre 
diabo, tem ar de ter passado bem baixo!" E os seus coraes sensveis comovem-se um momento diante do pobre apaixonado ansioso e paciente no nevoeiro. Mas passam 
depressa, sabendo muito bem que no tm tempo nem dinheiro a perder com um sofrimento que lhes no pertence.
Apenas um policeman que fazia a ronda em passos lentos notou aquele homem parado, cujo rosto enrubescido pelo frio, magro, esgazeado,, se escondia a meio sob a aba 
de um feltro mole. O homem passava s vezes a mo na testa, como para enxotar um pensamento importuno ou para se firmar na resoluo que o prendia ali. Mas aquele 
namorado paciente - se realmente era um namorado - devia estar afeito  curiosidade dos policemen, ou ento estar muito absorvido, porque no se alterou. J se habituara, 
e a longa espera, a ansiedade, o nevoeiro e o frio no lhe significavam nada, se a sua amada acabasse por vir. Pobre namorado! Os nevoeiros duram at  Primavera: 
e h ainda a neve e a chuva, no faz bom tempo em parte nenhuma. Mostrarem-se os dois em pblico  uma angstia contnua, mas se ela no sair de casa, a angstia 
 pior.

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"Pior para ele, arranjasse melhor a vida",  o pensamento de todo o Forsyte respeitvel. E entretanto, se aquele excelente cidado pudesse escutar as pancadas do 
corao do pobre apaixonado que tirita no nevoeiro e no frio, decerto repetiria: "Sim. pobre diabo, tem passado muito baixo!"
Soames subiu a um cab, baixou o vidro e foi transportado por ele a passo, por Sloane Street e Bropton Road. Eram cinco horas quando chegou diante da porta.
A mulher no estava em casa. Sara h um quarto de hora. Fora de casa, a tal hora e com um tal nevoeiro! Que quereria
isso dizer?
Deixou a porta aberta e sentou-se junto do fogo, na sala de jantar, perturbado at ao fundo da alma, e fazendo esforos para ler o jornal da noite. Um livro seria 
intil. S os jornais poderiam agir como narctico, num tormento como o seu. O noticirio do dia trouxe-lhe algum alvio. "Suicdio de uma actriz, doena grave de 
um homem pblico, divrcio de um oficial. incndio numa mina.)- Leu at ao fim, era um pequeno recurso. o remdio oferecido pelo melhor dos mdicos, o nosso gosto 
natural pelas desgraas dos outros. Eram quase sete horas quando ouviu os passos de Irene.
A estranha ausncia dela naquele nevoeiro tinha posto Soames numa tal ansiedade que a cena da noite precedente j passara para um segundo plano no seu esprito. 
Mas agora que a mulher estava ali, a lembrana dos soluos desesperados possuiu-o de novo. E sentia-se nervoso  ideia de se avistar com Irene. Ela j subia a escada. 
A capa de pele cinzenta envolvia-a at aos joelhos. A gola fora erguida contra o rosto, coberto por
um vu espesso.
No se voltou, passou sem um olhar, sem uma palavra. Um
fantasma no seria to mudo.
Bilson veio pr a mesa do jantar e preveniu o patro de que Mrs. Forsyte no desceria: tomaria uma sopa no quarto.
Por essa vez Soames no se vestiu para o jantar. Era talvez a primeira vez na vida que se punha  mesa com os punhos enxovalhados. E ficou ali, depois de terminar 
a refeio,

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diante do copo de vidro, perdido nas suas reflexes. Disse a Bilson que acendesse o fogo na sala dos quadros e logo subiu para l.
Acendendo o gs, respirou profundamente, como se entre aqueles tesouros, cujos dorsos via alinhados contra a parede da sala, pudesse encontrar alguma tranquilidade 
de alma. Foi direito  sua tela mais preciosa, um Turner autntico, e, colocando-a no cavalete, voltou-a contra a luz. Os Turner estavam a valer muito agora, mas 
Soames no se decidia a separar-se do seu. Ficou assim muito tempo, o rosto plido, barbeado, inclinado para a frente, sobre o colarinho duro. Perscrutava o quadro 
como se lhe calculasse o valor, veio-lhe aos olhos uma expresso pensativa. Cogitaria ele que aquele Turner talvez no subisse muito mais? Tirou-o do cavalete para 
o pr de novo de face contra a parede, mas, atravessando a sala, parou: parecia-lhe ter ouvido um soluo...
No era nada... nada... sempre a mesma coisa que o atormentara toda a manh. E um pouco mais tarde, depois de colocar o guarda-fogo em frente da lareira, desceu 
sem barulho.
Precisava estar bem disposto no dia seguinte, pensava ele. Mas custou-lhe muito a adormecer...
E agora  para George Forsyte que nos devemos voltar, seguindo-o, obteremos alguma luz sobre os acontecimentos daquele dia de fog.
O homem de esprito e o maior sportman de entre os Forsyte passara o dia na casa paterna., em Prince's Gardens, lendo um romance. Depois de uma recente crise financeira, 
mantinha-se prisioneiro sob palavra em casa do pai.
L pelas cinco horas, saiu. Apanhou o comboio em South Kensington, (porque toda a gente, naquele dia, resolvera viajar no metropolitano. Propunha-se jantar e jogar 
uma partida de bilhar no Red Potle, estabelecimento nico, ao mesmo tempo clube, hotel e restaurante. Desceu no em St. James, como de hbito, mas em Charing Cross, 
a fim de alcanar Jermin Street por ruas mais iluminadas. Junto a um exterior correcto de homem da moda, George tinha um olhar penetrante sempre  procura de alimento 
para o seu esprito custico. Na estao, os seus olhos foram atrados por
um homem que viu saltar de uma carruagem de primeira classe e que parecia cambalear ao dirigir-se para a sada.
"Ora, ora!", para si mesmo George. " o Pirata." E seguiu-lhe as pegadas. Pouca coisa o divertia mais do que o aspecto de um homem excessivamente embriagado.
Bosinney, que usava um feltro mole, parou bruscamente e precipitou-se para a carruagem que acabava de abandonar. Tarde de mais! Um empregado segurou-o pelo casaco, 
o comboio partira. O olhar vivo de George reconheceu na janela da carruagem uma senhora vestida de cinzento. Era Mrs. Soames. E George teve a intuio de que aquilo 
se tornara interessante.
Passou a seguir Bosinmey mais de perto, subiram ambos a escada, ultrapassaram as bilheteiras, atravessaram a rua. Agora o interesse excitado de George mudara de 
natureza. J no era a curiosidade que o impelia: tinha piedade do pobre diabo cujos passos seguia. O Pirata no bebera,, mas parecia encontrar-se sob a aco de 
uma emoo violenta. Falava sozinho. George pde apanhar apenas: "Oh, meu Deus!" O homem parecia no saber o que fazia, nem para onde ia. Caminhava hesitante, o 
olhar fixo, como algum fora de si. E George, aquele pndego, que ainda h pouco no procurava seno um divertimento, comeava a dizer para si mesmo: " preciso 
vigiar esse pobre diabo!"
Tinha o ar de um ferido, de um homem que recebera uma martelada. E George indagava intimamente que poderia ter-lhe dito Mrs. Soames, que diabo lhe teria ela contado 
naquela carruagem? Ela tambm estava com uma cara pssima. E dava piedade, afinal de contas, pensar que se ia embora sozinha atravs da bruma, com um rosto to triste.
Seguia Bosinney de perto, grande vulto macio, mudo. Regulava os passos pelos do homem em cuja sombra se tornara, no fog espesso. Decerto se passava alguma coisa 
de grave. George mantinha-se perfeitamente lcido, a despeito de uma certa excitao, porque despertara nele um instinto de caador e o interesse da perseguio 
juntava-se  piedade.
Bosinney lanou-se sobre a calada, vasta escurido onde ningum via dez passos diante de si, onde os gritos e assobios se mesclavam confusamente, onde formas sbitas 
irrompiam daqui e dali,

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e a luz dos candeeiros parecia uma ilhota de claridade no infinito de um mar obscuro.
A grandes passos, naquele abismo perigoso da noite, caminhava Bosinney, arrastando George atrs de si. Se o camarada projectava atirar a carcaa para debaixo de 
um nibus, estava ele ali para o segurar. O homem, com o seu andar de animal perseguido, atravessou a rua, depois tornou a atravess-la. No tacteava como os outros 
que procuravam caminho na escurido. Tinha o ar de fugir, como se George, atrs dele, o fustigasse com um chicote, e aquela perseguio a um possesso exercia sobre 
George a mais estranha fascinao.
Sucedeu ento um incidente que deveria imprimir para sempre no esprito de George a lembrana daquela hora. No mais espesso do fog, quando um engarrafamento de veculos 
impediu a corrida, ele ouviu algumas palavras que lanaram claridade sobre o mistrio. Adivinhava agora o que Mrs. Soames dissera a Bosinney no comboio. Pelas palavras 
entrecortadas, percebeu que Soames exercera os seus direitos sobre uma esposa que se lhe recusava - afirmara-se num acto supremo de proprietrio.
E a sua imaginao atirou-se sobre todas as perspectivas que se abriam. O que ele entrevia na situao impressionava-o. Adivinhou algo torvo, a angstia, o horror 
sexual que revoltavam o corao de Bosinney.
"Afinal, a coisa  dura, no admira que o desgraado esteja meio louco!!"
A sua caa forada abateu-se num banco de Trafalgar Square, sob um dos lees, silhueta monstruosa de esfinge, perdida como eles nos abismos da escurido.
L, rgido e mudo, Bosinney imobilizou-se, e George, cuja pacincia era feita de uma solicitude sbita e quase fraternal, postou-se por trs do outro. Tinha uma 
certa delicadeza, um certo sentido das convenincias que o impediam de se envolver naquele drama ntimo. E esperava, to imvel como o grande leo por cima dele, 
com a gola da pelica erguida at s orelhas, cobrindo-lhe as faces espessas, escondendo-lhe o rosto todo, salvo os olhos atentos, simultaneamente sardnicos e compassivos.

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E as criaturas passavam, homens que voltavam dos escritrios, ou iam a caminho dos clubes, homens cujas silhuetas mergulhavam no nevoeiro algodoado. Surgiam e evaporavam-se 
como fantasmas.
E mesmo naquele acesso de piedade, o esprito absurdo de George dava-lhe vontade de puxar aqueles fantasmas pela aba do sobretudo e dizer: "Ei, seus joes-ninguns! 
No  todos os dias que um espectculo como este se oferece diante dos vossos olhos! Olhai aqui este pobre diabo a quem a amante acaba de contar uma linda histria 
a respeito do marido! Aproximai-vos, aproximai-vos, vede que ele est por terra!"
E imaginava-os arregalando os olhos diante do amante torturado, ria, escarninho, ao pensar nalgum daqueles respeitveis fantasmas, num recm-casado ao qual o estado 
do seu prprio corao permitisse compreender algo do que se passava em Bosinney, imaginava v-lo, a esse fantasma, abrir a boca cada vez maior e o fog entrar lentamente 
por aquela boca. Porque George sentia pela classe mdia, sobretudo pela burguesia bem casada, esse desprezo particular, caracterstico dos jovens espritos indisciplinados 
que apareceram aqui e alm entre ela prpria.
Mas comeava a achar grande a demora, pois no contara ficar parado, de planto.
"No fim", pensava ele, "o pobre diabo h-de acalmar-se. No  a primeira vez que uma histria dessas se produz na nossa cidadezinha de Londres." Mas o homem que 
ele espiava de to perto soltou de novo algumas palavras surdas, de dio e furor. Cedendo a um impulso sbito, George tocou-lhe no ombro. Bosinney voltou-se bruscamente.
- Quem  voc? Que  que quer?
Se George houvesse visto aquele rosto  claridade plena de um bico de gs,  claridade da vida real e quotidiana, da qual era um conhecedor calejado, no se teria 
perturbado. Mas naquele nevoeiro onde tudo se tornava irreal, tenebroso, onde nada tinha o aspecto slido e positivo sob o qual o mundo se apresenta aos Forsyte 
- sentia uma inquietao inslita. E, como tentasse fitar nos olhos aquele manaco que o encarava, pensava: "Se eu visse um polcia,

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pedia-lhe que agarrasse este camarada. No est em condies de andar em liberdade."
Mas, sem esperar resposta, em grandes passadas, Bosinney mergulhou no nevoeiro. George acompanhou-o como pde, mais resolvido que nunca a no lhe abandonar a pista.
"No pode mais ir muito longe. J  um milagre que ainda no tenha sido esmagado." E no pensava mais no polcia, pois o fogo sagrado do caador reacendera nele.
Nas trevas cada vez mais densas, Bosinney caminhava sempre num passo de louco. Mas aquele que o perseguia percebeu afinal algum mtodo na sua loucura. Era claro 
que Bosinney caminhava em direco do oeste.
"Est  procura de Soames!", pensou George. A ideia era interessante. Seria curioso ver aquela caada terminar assim. Sempre detestara o primo.
Mas o tirante de um cab roou-lhe o ombro e f-lo dar um pulo de lado. No iria deixar-se matar por amor do Pirata, nem de ningum. E entretanto, com a tenacidade 
hereditria, procurou conservar a pista atravs do nevoeiro que embrulhava tudo, tudo excepto aquela sombra de homem perseguido e a luz turva do bico de gs mais 
prximo.
De sbito o seu instinto de londrino fez-lhe sentir que estava em Piccadilly. Ali, onde poderia caminhar de olhos fechados e livre de qualquer preocupao geogrfica, 
o seu esprito voltou de novo  aventura de Bosinney. Na longa perspectiva da sua vida de clubman e na confuso dos seus amores duvidosos, via subir uma lembrana 
da juventude, uma lembrana ainda perturbadora, que lhe trazia o cheiro dos fenos, a luz do luar, qualquer coisa da magia do Vero, no relento e no negrume do fog 
londrino, a lembrana de uma noite em que,  sombra das rvores, deitado sobre a relva, ele ouvira os lbios de uma mulher confessar-lhe em voz baixa... a partilha. 
Durante um momento George esqueceu por onde andava, sentia-se de novo estirado na relva fresca, docemente cheirosa, sob a folhagem dos choupos que velavam a Lua.
Veio-lhe um impulso de segurar o Pirata pelos braos e dizer-lhe:

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"Escute, meu velho, o tempo cura tudo, venha tomar qualquer coisa e esquecer isso."
Mas uma voz furiosa f-lo pular para trs, um cab surgiu da obscuridade, e desapareceu imediatamente. E George percebeu de sbito que j no via Bosinney. Correu, 
depois voltou sobre os seus passos. Uma angstia apertava-lhe o corao, o medo que sai das asas do fog, O suor porejava-lhe na testa. Ficou imvel, de ouvido  
escuta.
- E ento - confiava ele a Dartie, naquela mesma noite, junto ao bilhar do Red Pottle -, ento perdi-o.
Dartie cofiou vaidosamente o bigode, acabava de fazer uma srie de vinte e trs carambolas.
- E quem  a mulher? - perguntou ele.
George olhou um momento o rosto flcido e amarelado do "homem mundano". Um pequeno sorriso significativo passava sobre as suas faces redondas e nos seus olhos de 
plpebras pesadas.
"No, no, meu caro, no ser a voc que eu o diga", pensava ele. Embora se desse com Dartie. considerava-o um pouco canalha.
- Oh, uma mulherzinha qualquer-disse ele, passando o giz
no taco.
- Uma mulherzinha! - exclamou Dartie, servindo-se de uma expresso mais viva. - Pois eu juraria que era a mulher do nosso amigo Soames..
- Na verdade? - disse George num tom rpido. - Pois voc engana-se.
Errou a carambola. Evitou qualquer outra aluso  aventura. s onze horas, quando j tinham visto o fundo da garrafa de whisky, ele afastou a cortina e olhou a rua. 
A treva do fog era apenas fracamente perfurada pelas luzes do Red Pottle. L fora o vulto de um passante, quase invisvel.
- No posso deixar de pensar no pobre Pirata - disse ele. - Talvez ainda esteja a vaguear pelo nevoeiro dentro. Se no est morto a estas horas...-acrescentou com 
um trao inslito de tristeza.
- Morto? - disse Dartie, a quem voltara bruscamente a lembrana da sua derrota em Richmond.

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- No se inquiete. Aposto dez contra um em que ele estava bbado.
George voltou-se. Tinha o ar realmente temvel, com qualquer coisa de sombrio e selvagem no rosto largo.
- Cale-se! - disse. - No lhe expliquei j que era um homem acabado?

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CAPTULO V.

O PROCESSO.

Na manh em que deveria ser julgado o seu processo, que era o segundo na lista, Soames teve de sair sem ver Irene, e talvez fosse melhor assim, porque ainda no 
estava decidido quanto  atitude que adoptaria em relao a ela. Haviam-lhe dito que estivesse no tribunal s dez e meia, para o caso de desistncia de uma das partes 
do caso que deveria ser julgado antes do seu (um caso de quebra de promessa de casamento), coisa que, alis, no se deu, e as duas partes exibiram uma coragem igual. 
Waterbruck, Q. C. teve oportunidade de aumentar ainda mais a reputao que adquirira nessa espcie de processos. Tinha na parte adversria Ram, outro especialista 
famoso no mesmo gnero de causas. Foi um combate de gigantes.
O tribunal deu o seu veredicto justamente antes da hora reservada ao almoo. O jri deixou a sala e Soames saiu para tomar qualquer coisa. Encontrou James. O velho 
estava em p junto ao bufete do restaurante. Parecia um pelicano, perdido no deserto daquelas longas galerias. Inclinava-se sobre uma sanduche e tinha diante de 
si um copo de sherry. O silncio amplo, no hall, onde o pai e o filho ruminavam os seus pensamentos, era interrompido s vezes pela passagem precipitada de advogados 
de toga e peruca, s vezes pela apario de alguma senhora idosa, de um cavalheiro de casaca mais ou menos usada que erguia os olhos com um ar assustado,

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e pela presena de duas pessoas mais ousadas do que o comum dos mortais e que discutiam num vo de janela.
O som das vozes subia ao mesmo tempo que um vago relento de poo abandonado, e este ltimo combinava-se com a atmosfera abafada daquelas galerias para formar um 
cheiro nico - parecido com o cheiro de um queijo de luxo - cheiro que se associa indissoluvelmente  administrao da justia britnica.
- Quando  o seu caso? Agora mesmo, decerto? No me admiro se aquele Bosinney disser o que quiser para sua defesa. Creio que ser forado a isso. Se perder, abre 
falncia. - Mordeu largamente a sanduche e engoliu um trago de sherry. - A sua me manda dizer que v jantar l em casa hoje, e leve Irene.
Um sorriso plido errou pelos lbios de Soames. O seu olhar cruzou-se com o do pai. E o estranho que surpreendesse aquele olhar frio e constrangido seria desculpado 
por no perceber o que subentendia ele para ambos. James acabou o sherry de um trago.
- Quanto? - perguntou  caixeira.
No tribunal, Soames ocupou imediatamente o lugar a que tinha direito, no primeiro banco, perto do advogado. E, com um olhar de lado que no podia trair nada, observou 
o lugar que o pai ocupava.
James ruminava, com o busto descado, as mos juntas sobre o casto do guarda-chuva, na extremidade do banco que ficava imediatamente atrs do advogado, de modo 
a poder sair dali logo aps a leitura da sentena. Condenava inteiramente o procedimento de Bosinney, mas no desejava encontrar-se cara a cara com ele, sentindo 
bem que o encontro seria desagradvel.
Depois da Vara de Divrcios, aquela era a mais frequentada. Difamaes, rupturas, quebras de promessas de casamento, negcios de dinheiro, eram julgados ali. Um 
pequeno pblico curioso enchia inteiramente os bancos do fundo. Um ou dois chapus femininos balouavam as plumas nas galerias.
As duas filas de cadeiras logo  frente de James foram pouco a pouco ocupadas por advogados de peruca, que se encontravam tomando notas, palestrando ou palitando 
os dentes. Mas a ateno que ele concedia queles luminares secundrios do foro

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volveu-se em breve para o clebre Waterbruck, Q. C, que entrava rangendo a toga de seda, com a face vermelha, magistral, enquadrada por suas grisalhas. James concordava 
em que ele tinha o ar do homem que vai aterrorizar uma testemunha.
Apesar de toda a sua longa experincia, James nunca se encontrara pessoalmente com Waterbruck, Q. C. e, como muitos Forsyte que ocupam um degrau inferior na profisso, 
tinha uma admirao sem limites pelo advogado que sabe levar  frente um contra-interrogatrio. As longas pregas lgubres da sua face distenderam-se quando contemplou 
o advogado, e sobretudo quando compreendeu que Soames fora o nico a fazer-se representar por uma toga de seda.
Waterbruck. Q. C, mal tinha tido tempo de se apoiar sobre o cotovelo e iniciar uma conversa com um dos seus jovens colegas, quando o juiz Bentham fez a sua entrada. 
Era um homenzinho do gnero galinceo, um pouco curvo, de rosto glabro sob uma peruca cor de neve. Waterbruck ergueu-se, e com ele a sala inteira, que ficou de p, 
at que o juiz se sentasse. James esboou apenas o gesto de se erguer. Estava muito bem instalado no seu banco e no dava muita importncia ao juiz Bentham, que 
j fora por duas vezes seu vizinho de mesa em casa de Bumley Tomm. E Bunley Tomm no era grande coisa, embora bem sucedido. Fora James quem lhe preparara o seu primeiro 
dossier. Mas o velho Forsyte estava nervoso, pois acabara de descobrir que Bosinney no se encontrava na sala. "Que  que andar escondido nisso?", pensava ele.
Foi feita a chamada. Waterbruck, Q. C, afastando os seus papis, reajustou a toga nos ombros, e, passeando em torno de si o olhar de um professor de esgrima que 
assume posio, ergueu-se e dirigiu-se ao tribunal.
Os factos, dizia ele, no estavam em discusso. Tudo o que se pedia a Sua Senhoria era que interpretasse a correspondncia trocada entre o seu cliente e o demandante, 
um arquitecto, a respeito de trabalhos decorativos executados por este ltimo. Quanto a ele, exporia que a citada correspondncia no tinha seno um nico sentido, 
perfeitamente preciso. E contando sumariamente a histria da casa de Robin Hill, que descreveu como um castelo.

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depois de dar um apanhado das despesas contratadas, continuou assim:
- O meu cliente, Mr. Soames Forsyte,  um gentleman, um homem de fortuna slida que seria o ltimo a discutir uma pretenso legtima. Mas na questo dessa casa, 
que j lhe custou, como Vossa Senhoria sabe, cerca de doze mil libras - soma que ultrapassa em muito o oramento por ele determinado antes - nesse negcio, dizia 
eu, o seu arquitecto comportou-se de tal modo que Mr. Forsyte, colocando-se no ponto de vista do princpio - nunca insistirei demasiado sobre essa palavra - sim, 
do princpio, o interesse geral, viu-se levado pela obrigao de intentar este processo. Quanto  defesa invocada pelo arquitecto, permitir-me-ei dizer a Vossa Senhoria 
que ela no resiste a um momento de exame. - E leu a correspondncia.
O seu cliente, "um homem de posio considervel", estava pronto para comparecer perante o tribunal e prestar juramento de que nunca autorizara nem nunca intentara 
autorizar uma despesa que excedesse esse limite mximo de doze mil e cinquenta libras que ele claramente fixara, e, para no reter por mais tempo a ateno do tribunal, 
pedia permisso para chamar Mr. Forsyte.
Soames compareceu, admiravelmente senhor de si. Sobre o rosto plido e completamente barbeado, havia apenas o leve trao de altivez que convinha, uma pequena ruga 
entre os dois olhos, os lbios cerrados, o trajo correcto, sem ostentao, uma mo enluvada, outra nua. Respondeu s perguntas que lhe foram feitas com voz um pouco 
baixa, mas distinta. A sua atitude no momento do contra-interrogatrio foi quase reticente.
- No se serviu da expresso "carta branca"?
- No.
- Ento, ento!
- A expresso de que me servi foi esta: "Carta branca dentro dos dados desta correspondncia."
- Sustentar o demandante, perante o tribunal, que essa expresso tem um sentido em lngua inglesa?
- Sim.
- Que quer dizer essa expresso?
- O que exprime.
- Poder negar que a expresso seja contraditria nos seus termos?
- Perfeitamente.
- O senhor no  irlands?
- No.
-  um homem bem-educado?
- Sim.
- E persiste no seu depoimento?
- Sim.
De um extremo ao outro desse contra-interrogatrio, que parecia no acabar mais, em torno do "ponto delicado", James mantinha a mo em corneta em torno da orelha, 
com os olhos fixos
no filho.
Estava orgulhoso dele! Sentia que, no seu lugar, ele prprio tentaria entrar em explicaes, porm o seu instinto dizia-lhe que aquela reticncia era exactamente 
o necessrio. Deu um profundo suspiro de alvio quando Soames, voltando-se lentamente sobre os calcanhares, sem nenhuma mudana de expresso no rosto, deixou a barra 
das testemunhas.
Quando chegou a vez de o advogado de Bosinney se dirigir ao juiz, James redobrou de ateno e muitas vezes percorreu a sala toda com os olhos para ver se Bosinney 
no estava escondido em
alguma parte.
O jovem Chankery comeou nervosamente. A ausncia de Bosinney embaraava-o. Fez o mais que pde para paliar a inconvenincia daquela ausncia.
No podia evitar o receio de que algum acidente houvesse acontecido ao seu cliente. Contava absolutamente com que este viesse fazer o seu depoimento. Mandara naquela 
mesma manh um portador ao escritrio de Mr. Bosinney e  sua residncia - sabia perfeitamente que escritrio e residncia eram um s, mas supunha prefervel no 
o dizer em pblico -, e ningum pudera dizer-lhe onde estava Mr. Bosinney. Estava pois muito inquieto, sabendo quanto o seu cliente fazia questo de prestar o seu 
depoimento. Mas, como no recebera instrues para pedir o adiamento da causa, supunha seu dever prosseguir. O argumento que ele invocava com a confiana, e que 
o seu cliente, se no houvesse sido inopinadamente impedido de comparecer perante o tribunal,

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reforaria com o seu testemunho, era o seguinte: a expresso "dou-lhe carta branca" no pode ser limitada, restringida, afastada do seu sentido natural por qualquer 
verbagem que se lhe acrescente. Ele iria mais longe, diria que a correspondncia o atestava, e que Mr. Forsyte, dissesse o que dissesse no seu depoimento, nunca 
pensara em declinar a responsabilidade dos servios encomendados ou efectuados pelo seu arquitecto. Decerto o demandado jamais entrevira uma tal eventualidade e 
- as cartas mais uma vez o provavam - e se a entrevisse nunca teria prosseguido na obra extremamente delicada, executada com um cuidado minucioso e competente, a 
fim de satisfazer o gosto exigente de um connoisseur, um homem rico, um homem considervel. Ele tinha a esse respeito uma convico profunda que o levava talvez 
a exprimir-se vivamente quando afirmava que aquele processo era na verdade de carcter injustificvel, inesperado, sem precedentes. Se Sua Senhoria houvesse tido 
oportunidade de percorrer, como ele prprio considerara um dever faz-lo, aquela bela residncia, e, dadas a finura e a beleza dos trabalhos executados pelo seu 
cliente - um artista dos mais distintos na sua honrosa profisso -, certamente Sua Senhoria no toleraria por mais um instante aquela tentativa audaciosa - ele procurava 
evitar uma palavra mais forte - para escapar a uma responsabilidade indiscutvel.
Tomou o texto das cartas e disse algumas palavras a respeito da questo Boileau versus The Blasted Co., Ltd.
- No sei certamente o partido que se pode tirar desse precedente. Creio poder dizer que ele me  favorvel quanto ao meu confrade.
Comeou ento uma discusso cerrada em torno do "ponto delicado:". Ele podia afirmar, com toda a deferncia  autoridade do juiz, que a expresso empregada por Mr. 
Forsyte se anulava a si mesma. Como o seu cliente no era rico, o negcio era srio para ele. Mr. Bosinney era um arquitecto de grande talento, cuja reputao profissional 
estava em jogo. E concluiu por um apelo, talvez pessoal de mais, ao juiz, decerto um amigo das artes. Conjurava-o a constituir-se no protector dos artistas contra 
o que
podia s vezes chamar - insistia que apenas s vezes - a mo de ferro do capital.
- Que ser da carreira dos artistas - dizia o moo advogado - se os capitalistas como Mr. Forsyte se recusarem - e se tolerarmos que eles se recusem - a reconhecer 
as obrigaes contradas em seu nome e por sua ordem?
Ia agora chamar o seu cliente para o caso em que, no ltimo momento, lhe houvesse sido possvel comparecer ao tribunal.
Trs vezes os oficiais de justia chamaram o nome de Philip Baynes Bosinney, e aquele apelo ressoava com uma melancolia singular atravs da sala silenciosa e nas 
galerias.
O grito daquele nome, que no obtinha nenhuma resposta, produziu um curioso efeito em James. Era como se se chamasse nas ruas um co perdido. Era como se algum 
houvesse desaparecido. A impresso de inquietao que teve abalou o seu habitual sentimento de conforto e segurana. No poderia dizer porqu, mas sentia-se incomodado.
Olhou o relgio. Trs horas menos um quarto! Dentro de um quarto de hora, tudo estaria terminado. Onde poderia estar aquele rapaz? Foi preciso que o juiz Bentham 
desse a sua sentena para que vencesse a perturbao que o tomara.
Da tribuna que o separava do comum dos mortais, o sbio juiz inclinava-se para a frente. A luz da lmpada, elctrica, suspensa bem por cima da sua cabea, clareava-lhe 
o rosto e punha nele um reflexo amarelado, sob a brancura da peruca. Os panos da toga pareciam enfunar-se e toda a silhueta, vista da zona de sombra onde estava 
o tribunal, irradiava luz como um corpo sagrado. Ele tossiu, tomou um gole de gua, fez saltar contra a mesa o bico de uma pena e, reunindo sobre o peito as mos 
ossudas, comeou a falar.
E de sbito o juiz pareceu imenso a James, muito maior do que jamais o imaginara. Era a majestade da lei. Talvez uma natureza menos ingenuamente terra-a-terra do 
que a de James no fosse tambm capaz de dissipar essa aurola e de l extrair o Forsyte, muito insignificante na vida quotidiana, que andava e falava sob o nome 
de Sir Walter Bentham.
O juiz pronunciou a sentena nos seguintes termos:

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"Na causa que nos ocupa, os factos no so contestados. A 15 de Maio ltimo, o demandado escrevia ao demandante propondo-lhe a sua renncia na prossecuo dos trabalhos 
profissionais empreendidos para a decorao da casa do demandante, a menos que ele lhe desse carta branca. A 17 de Maio o demandante respondeu: "Dando-lhe, como 
pede, carta branca, desejo que fique bem estabelecido que o preo da casa pronta, com as suas decoraes, no deve exceder a importncia de doze mil libras. Incluo 
os seus honorrios nessa quantia, da forma que convencionmos." A 18 de Maio o demandado replicou: "Se o senhor pensa que, nesses trabalhos delicados, eu posso prender-me 
 questo de uma libra a mais ou a menos, receio que se engane." A 19 de Maio o demandante escreveu: "Creio que no haver mais discusso entre ns se o senhor ultrapassar 
de dez, vinte ou mesmo cinquenta libras a importncia que fixei na minha carta. Voc tem carta branca dentro dos dados da nossa correspondncia e espero que se arranjar 
para completar os trabalhos." A 20 de Maio, o demandado respondeu por estas simples palavras: "Muito bem".
"Terminando a parte decorativa do seu trabalho, o demandado tomou compromissos que fizeram subir as despesas  quantia de doze mil e quatrocentas libras, e esses 
compromissos o demandante cobriu-os.
"Intentando este processo, o demandante procura recuperar do demandado a quantia de trezentas e cinquenta libras despendidas alm do oramento de doze mil e cinquenta 
libras que o dito demandante sustenta haver fixado como o mximo que ele autorizava o demandado a despender.
"A questo que eu devo decidir  se devemos considerar o demandado responsvel por essa quantia perante o demandante.
"Segundo o meu juzo, ele  realmente responsvel. O que lhe disse o demandante resume-se nisto: Dou-lhe carta branca para acabar esta decorao, com a condio 
de que a despesa total no ultrapasse doze mil libras. Se voc ultrapassar essa quantia at cinquenta libras, no o responsabilizarei. Alm desse limite, voc no 
 meu mandatrio e eu declino qualquer responsabilidade." Se o demandante se houvesse recusado a pagar os compromissos que o seu mandatrio assumiu,

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no seria evidente para mim que ele estivesse fundamentado. Mas no foi esse o partido que tomou. Reconheceu esses contratos e volta-se contra o demandado, invocando 
as condies que lhe impusera.
"Em minha alma e conscincia, o queixoso tem direito a reclamar esta soma ao demandado.
"Tentou-se, em favor do arquitecto, demonstrar que nenhum limite fora fixado de facto nem de inteno no decorrer desta correspondncia. Se fosse assim, eu no compreenderia 
a meno da quantia de doze mil libras no comeo desta correspondncia, e mais ainda as cinquenta libras suplementares. A tese do demandado tiraria toda a significao 
a esses algarismos. Para mim,  facto incontestvel que na sua carta de 20 de Maio ele aceitou uma proposta perfeitamente clara, aos termos da qual se deve consider-lo 
ligado.
"Em consequncia, o demandado  condenado a reembolsar a quantia reclamada e mais as custas."
James soltou um suspiro e apanhou o guarda-chva, que cara com estrpito no momento em que eram ditas as palavras "introduo na dita correspondncia".
E, descruzando as pernas, deixou rapidamente o tribunal. Sem esperar o filho, chamou um cab, a tarde estava clara e cinzenta, e ele dirigiu-se directamente para 
a casa de Timothy. L encontrou Swithin. E foi a Swithin, a Mrs. Septimus Small e  tia Hester que contou tudo o que se passara. Comeu duas filhs sem interromper 
a histria.
- Soames portou-se muito bem - explicou. - Aquele tem chumbo no miolo. Sei que este negcio no vai dar muito gosto a Jolyon.  bem ruim para o jovem Bosinney. Vai 
falir, e eu no me admiraria... - Depois de um longo silncio, durante o qual os seus olhos se fixaram no fogo com uma expresso meio inquieta, acrescentou: - Ele 
no apareceu. Porqu?
Ouviu-se um rumor de passos. Um homem forte, de rosto vermelho, com um ar slido de sade, apareceu no salo do fundo. O seu dedo indicador destacava no negrume 
da sobrecasaca.

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- Bem, James - disse ele. - Eu no posso... no posso ficar - E, girando nos calcanhares, desapareceu.
Era Timothy. James ergueu-se.
- A est! Eu tinha a certeza. Aconteceu alguma coisa. Conteve-se, calou-se com o olhar fixo diante de si, como se
houvesse visto alguma apario de mau augrio.

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CAPTULO VI.

SOAMES D A NOTCIA.

Deixando o tribunal, Soames no se encaminhou directamente para casa. No sentia tambm nenhum desejo de voltar  City, pois tinha necessidade de alguma manifestao 
de simpatia perante o seu triunfo, pelo que, lentamente e a p, se dirigiu  casa de Timothy.
O pai acabava de sair. Mrs. Small e a tia Hester, j a par de tudo, fizeram-lhe uma recepo calorosa. Certamente ele deveria ter fome depois de uma sesso to longa. 
Smither fritar-lhe-ia mais algumas filhs: o pai dele no deixara nenhuma. Devia estirar as pernas no sof e elas dar-lhe-iam um clice de aguardente de ameixa, 
para levantar as foras.
Swithin ainda estava presente, tendo-se demorado mais do que desejaria, pois tinha necessidade de fazer exerccio. E, vendo as tias amimando Soames, rosnou: "Como 
so maricas estes jovens de hoje!" Estava com dores no fgado e no podia suportar o espectculo de ver algum junto dele a beber aguardente de ameixa.
Partiu quase imediatamente dizendo a Soames: "Como vai sua mulher? Diga-lhe que quando estiver aborrecida em casa venha jantar comigo, que eu lhe darei uma garrafa 
de champanhe difcil de encontrar igual." E, considerando Soames de toda a sua alta estatura, com o olhar vazio, apertou-lhe fortemente a mo, como

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se na sua palma flcida, espessa e amarelada ele quisesse esmagar toda a moleza da nova gerao. Depois, enchendo o peito de ar, saiu no seu passo sumptuoso de peru.
Mrs. Small e a tia Hester ficaram horrorizadas. Elas tambm estavam loucas para perguntar a Soames como Irene receberia a derrota do Bosinney, mas sabiam que tal 
indagao era proibida. Talvez que ele prprio, Soames, dissesse qualquer coisa, lanasse qualquer claridade sobre esse problema apaixonante que lhes perturbava 
a vida e que, por obrigao do silncio e do mistrio, lhes era quase uma tortura. At mesmo a Timothy todo o caso fora narrado, e a sua sade fora afectada por 
isso num grau impressionante. E June, que faria ela? Mais outro tema apaixonante e perigoso!
Lembravam-se ainda da visita do velho Jolyon, em Maio passado. Nunca mais ele voltara. Sim, recordavam o sentimento que os havia angustiado a todos: que a famlia 
j no era o que fora, que a famlia estava prestes a desfazer-se.
Porm Soames no lhes disse nada. Sentado, de pernas cruzadas", falava da escola de pintores de Barbizon, que acabava de descobrir. Era gente que iria vencer, opinava 
ele. Supunha que haveria muito dinheiro a ganhar com tais quadros, estava interessado em duas telas de um deles, chamado Corot, lindssimas. Se as pudesse obter 
a preo razovel, havia de as comprar, um dia desses, e faria bom negcio revendendo-as. Apesar do interesse de um tal assunto, Mrs. Septimus Small e a tia Hester 
no podiam resolver-se a ver assim afastada a questo que lhes queimava a lngua. Sim, era interessante, muito interessante, depois Soames entendia tanto do negcio 
que na certa tiraria o maior partido possvel dos quadros. Mas, agora que ele ganhara o processo, quais eram os seus projectos? Iria deixar Londres imediatamente 
e instalar-se no campo? Enfim, que contava fazer? Soames respondeu que ainda no resolvera nada. Era provvel que em breve se mudasse. Ergueu-se e beijou a testa 
de cada uma das tias.
Ante esse gesto de adeus, uma mudana sbita operou-se na tia Juley: cada preguinha de carne do seu rosto tinha o ar de querer escapar-se de uma mscara invisvel 
e apertada. Ela ergueu-se em toda a sua estatura e disse:

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- Meu filho, h muito tempo que quero contar-lhe... e, se ningum quer falar, eu decidi-me a...
A tia Hester interrompeu-a:
- Cuidado, Juley! - E sufocada: - Voc faz isso sob sua responsabilidade!
Mrs. Small continuou, como se no tivesse ouvido a irm:
- Meu filho,  preciso que voc saiba que Mrs. Mac Ander viu Irene a passear em Richmond Park na companhia de Mr. Bosinney.
A tia Hester, que tambm se erguera, afundou-se na poltrona e desviou a cabea. No, na verdade aquela Juley era de mais... No deveria fazer daquelas coisas quando 
ela, Hester, estava na sala! Mas, contendo a respirao, esperou a resposta de Soames.
Ele corara, com aquele rubor singular que se concentrava sempre entre os dois olhos. Erguendo a mo e escolhendo uma unha, mordeu-a delicadamente, e depois, retirando 
o dedo de entre os lbios cerrados, disse:
- Mrs. Mac Ander  uma gata!
E, sem esperar resposta, saiu da sala.
Quando fora a casa de Timothy, tomara uma resoluo: ao chegar a casa, subiria at ao quarto de Irene e dir-lhe-ia: "Bem, ganhei o processo.  um negcio liquidado. 
No quero ser rigoroso com Bosinney e verei se h um arranjo possvel. No o apertarei. E agora voltemos uma pgina nova. Vamos alugar esta casa, sair do nevoeiro 
de Londres e instalamo-nos imediatamente em Robin Hill. Alm disso, no tenho mais inteno de lhe ser... desagradvel. D-me a sua mo..." E talvez depois ela se 
deixasse beijar, e em seguida esquecesse...
Mas quando saiu da casa de Timothy, as suas intenes j no eram to simples. O cime e as suspeitas que cresciam dentro dele desde h meses surgiram com toda a 
fora.
Iria pr fim quelas coisas, de uma vez por todas. No permitiria mais que o seu nome fosse arrastado na lama. Se ela no podia e no queria mais dar-lhe o que um 
marido tem o direito de exigir da mulher, pelo menos no iria zombar dele em companhia de outro. Falaria claro, amea-la-ia com o divrcio. Isso acalm-la-ia. Irene 
teria medo do divrcio.

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E entretanto, se no tivesse medo? Essa ideia desamparou-o, nunca lhe ocorrera ao esprito.
Se Irene no tivesse medo? Se lhe fizesse confisses? Qual seria ento a sua atitude? Teria de chegar ao divrcio!
Divrcio! Vista assim, a palavra tinha qualquer coisa de paralisante. Era a negao de todos os princpios que at ento tinham guiado a vida de Soames Forsyte. 
Aterrava-o o que o termo tinha de intransigente, sentia-se como o comandante de um navio que lanou pela borda fora a carga mais preciosa dos seus pores. Abandonar 
voluntariamente o que lhe pertencia ia de encontro a todos os seus princpios ntimos. Aquilo prejudic-lo-ia na sua profisso. Precisaria de se desfazer da casa 
de Robin Hill, que lhe custara to caro, na qual pensara tanto. E no a venderia seno com prejuzo. E ela! Ela no lhe pertenceria mais, nem mesmo de nome! Desapareceria 
da sua vida... no a veria mais...
Afinal, talvez no houvesse nada a confessar. Naquele momento mesmo, era ainda muito provvel que no houvesse. Seria prudente para ele procurar ir at ao fundo 
das coisas? Seria prudente arriscar-se a voltar a trs no que dissera antes? O resultado daquele processo seria a runa de Bosinney. Um homem arruinado  capaz de 
tudo. Mas que poderia ele fazer?
Iria decerto para o estrangeiro.  a soluo clssica para os casos de runa. Mas, sem dinheiro, que poderiam eles fazer, se realmente se deveria dizer eles? O melhor 
seria esperar e ver em que dariam as coisas. Se fosse preciso, poderia at expuls-la. A tortura do cime - o acesso vinha exactamente igual ao de uma dor de dentes 
- retomou-o de sbito. Quase soltou um grito. E entretanto era preciso decidir-se, traar uma linha de conduta antes de entrar em casa. Quando o carro parou em frente 
 porta ainda no resolvera nada.
Entrou, plido, as mos hmidas de suor, receando v-la, ardendo por voltar a v-la, incerto sobre o que deveria fazer e dizer.
A criada Bilson estava no hall e quando ele perguntou: "Onde est a patroa?", ela respondeu que Mrs. Forsyte deixara a casa ao meio-dia, levando uma mala e um saco 
de viagem.
Arrancando-lhe das mos a manga da pelica, que ela se preparava para lhe tirar, ele voltou-se:

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- O qu? Que  que voc est a dizer? - Mas, lembrando-se de sbito que no deveria trair nenhuma emoo, acrescentou: - Mrs. Forsyte deixou-lhe algum recado para 
mim?
Notou, com um terror secreto, o olhar constrangido da criada.
- Mrs. Forsyte no deixou nenhum recado para o senhor.
- Nada? Muito bem. Obrigado. Irei jantar fora.
A criada desceu. Ele vestia a pelica e maquinalmente mexia os cartes de visita na taa de porcelana que ficava sobre a grande arca de carvalho esculpido do hall:
Mr. and Mrs. Bareham Culcher, Mrs. Septimus Small, Mrs. Baynes,
Mr. Solomon Thornworthy, Lady Bellis, Miss Hermione Bellis,
Miss Winifred Bellis, Miss Ella Bellis.
Quem diabo era toda aquela gente? Parecia ter esquecido todas aquelas coisas familiares. E as palavras "Mrs. Forsyte no disse nada - uma mala, um saco de viagem" 
brincavam s escondidas na sua cabea. Era incrvel que ela no houvesse dito nada! E, sempre com a pelica vestida, subiu os degraus da escada a quatro e quatro, 
como um recm-casado que, voltando para casa, corre ao quarto da mulher.
Tudo ali era delicado, puro e numa ordem perfeita. Tudo cheirava ao seu leve perfume. Sobre a cama grande, coberta com o edredon lils, estava o envelope que ela 
bordara com as suas mos para a roupa de noite. As chinelas estavam colocadas aos ps da cama, j aberta, como se a esperasse para dormir.
No toucador brilhavam as escovas de dorso de prata, os frascos de um estojo que ele lhe dera. Que saco de viagem levara ela? Deu um passo para a campainha, para 
chamar Bilson, mas lembrou-se de que deveria fingir saber para onde ela fora, que no poderia admirar-se de nada e que precisava de se libertar sozinho, tacteando, 
daquelas trevas.
Fechou a porta  chave e tentou pensar,

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mas a cabea girava-lhe e de sbito as lgrimas subiram-lhe irresistivelmente aos olhos.
Precipitadamente, tirou a pelica. Foi olhar-se no espelho.
Estava muito plido: tinha um tom de chumbo no rosto. Encheu a bacia e comeou a banhar febrilmente o rosto.
As escovas de dorso de prata estavam ainda impregnadas do perfume da loo que ela usava  noite nos cabelos, e esse cheiro renovou nele o horrvel espasmo do cime.
Febrilmente, vestindo a pelica, desceu a correr a escada e saiu para a rua. Entretanto, no perdera de todo o domnio de si mesmo e, enquanto caminhava por Sloane 
Street, pensava na histria que contaria se no a encontrasse em casa de Bosinney. Mas... se a encontrasse? O seu poder de deciso faltou-lhe de novo e ele j estava 
em p diante da casa, sem saber ainda o que faria no caso em que ela estivesse l.
As horas de trabalho no escritrio j haviam passado. A grande porta estava fechada, e a mulher que abriu no sabia se Mr. Bosinney estava. No o vira todo o dia, 
nem havia dois ou trs dias, j no fazia o servio dele, ele...
Soames interrompeu: subiria e veria pessoalmente. Subiu, com o rosto lvido, os dentes cerrados.
Nenhuma luz no ltimo andar. A porta estava fechada e ningum respondeu  campainha. Ele no ouviu nenhum rudo. E teve de descer, tiritando sob a pelica, com um 
frio no corao. Chamando um cab, mandou o cocheiro conduzi-lo a Park Lane.
Pelo caminho, tentou recordar a ltima vez que dera um cheque a Irene. Ela no deveria ter mais de trs ou quatro libras. Mas tinha as jias! E foi uma tortura requintada 
para ele lembrar todo o dinheiro que ela poderia apurar nas jias, daria para levar os dois para o estrangeiro, daria para os manter durante meses. Tentou calcular. 
O carro parou e ele desceu antes de ter conseguido fazer o clculo.
O criado perguntou-lhe se Mrs. Soames estava no carro. O patro dissera que Mr. Soames e a senhora viriam jantar.
Soames respondeu:
- No, Mrs. Forsyte est constipada.
O criado exprimiu o seu pesar e Soames teve a impresso

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de que ele o olhava com curiosidade. Lembrou-se ento de que no estava em trajo de noite. Perguntou-lhe:
- H algum para jantar, Warmson?
- Ningum, Mr. Soames, alm de Mr. Dartie e a senhora. E Soames sups sentir ainda sobre si o olhar curioso do
criado. No pde conter-se:
- Que  que est a olhar? Tenho alguma coisa de extraordinrio?
O criado corou, levantou a pelica e murmurou qualquer coisa como:
- Absolutamente nada, Mr. Soames. Peo perdo. E eclipsou-se.
Soames subiu a escada. Atravessou o salo sem olhar para nada e dirigiu-se ao quarto dos pais.
James estava de p, de perfil, em mangas de camisa e de colete branco, o que revelava melhor as linhas fundas da sua longa e magra silhueta. Com a cabea inclinada, 
uma ponta da gravata branca passando-lhe ao lado das suas brancas, os olhos pregueados pelo esforo, os lbios apertados, abotoava o alto do vestido da mulher. 
Soames parou. Sentia-se abafar, talvez por ter subido a escada depressa de mais, talvez por outra razo... A ele, nunca lhe haviam pedido que...
Ouviu a voz do pai, que falava como se tivesse um alfinete entre os dentes:
- Quem est a? Que  que h? Que  que quer? - E a voz da me: - Venha, Felice, venha abotoar isto, o seu patro nunca acabar.
Soames levou a mo  garganta e disse, com um esforo na voz:
- Sou eu, Soames.
Notou com gratido o tom de carinhosa surpresa na voz da me:
- E ento, meu filho? - E o pai, largando os colchetes: - Que  que h, Soames, para voc subir? No est a sentir-se bem?
Soames respondeu maquinalmente:
- Estou bem.
E olhou-os. Parecia-lhe impossvel articular o que tinha a dizer.

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James, facilmente assustadio, disse:
- Voc no est com boa cara, ser que se constipou? Ou ento  o fgado, no me admiraria. A sua me vai dar-lhe...
Mas Emily interrompeu-o com voz tranquila:
- Voc trouxe Irene? Soames abanou a cabea.
- No - balbuciou -, ela deixou-me.
Emily abandonou o espelho diante do qual se mirava. A sua grande e forte pessoa perdeu a aparncia majestosa, tornou-se subitamente muito maternal e correu para 
Soames.
- Meu filho! Meu filhinho! Beijava-lhe a testa, acarinhava-o.
James tambm se voltara de sbito para o filho: as suas feies pareciam ter envelhecido.
- Deixou? - disse ele. - Que  que voc quer dizer? Deixou? Voc nunca me tinha dito que ela ia deix-lo.
Soames (respondeu num tom desolado:
- Como  que eu poderia saber? E que devo fazer agora? James ps-se a percorrer o quarto. Estava estranho, de casaca
- tinha o ar de uma velha cegonha.
- Que  que  preciso fazer?-resmungava. - Ser que eu sei o que  preciso fazer? Que  que voc quer que eu saiba.? Ningum nunca me diz nada, e depois vm perguntar-me 
o que  preciso fazer. Eu queria saber o que  que querem que eu responda. Olhe a sua me ali, em p, ela no diz nada. Eu, se tenho opinio a dar,  que voc deve 
trazer a sua mulher de volta a casa.
Soames teve aquele seu sorriso particular, um pouco desdenhoso, que nunca, antes, parecera to lamentvel.
- No sei para onde ela foi - disse ele.
- Voc no sabe para onde ela foi? - exclamou James. - Que  que voc quer dizer com isso: no sei para onde ela foi? Para onde supe voc que ela foi? Acompanhou 
esse rapaz Bosinney, eis para onde foi! Eu sabia bem como isso tudo acabaria!
Soames, durante o longo silncio que se seguiu, sentiu a me apertar-lhe a mo. E tudo o que se passava em torno dele parecia-lhe como se o seu prprio poder de 
pensar e agir estivesse atacado de paralisia. Via o rosto do pai, coberto de um tom vermelho-ocre,

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atravessado de estremecimentos, como se fosse chorar, e as palavras que lhe saam da boca eram como se fossem arrancadas  sua alma em espasmo.
- Eu sempre disse que isso daria num escndalo! - E vendo que os outros se calavam: - E vocs dois ficam a sem se mexer, voc e sua me!
Ouvia tambm a voz de Emily, calma, um pouco desdenhosa:
- Ora, James! Soames vai fazer o que for possvel!
E James, de olhos fixos no soalho, continuando numa voz um pouco infeliz:
- Bem v, eu no posso ajud-lo. Estou a ficar velho. Procure no se apressar muito, meu filho.
E depois a voz da me:
- Soames far o que for possvel para a trazer. No falemos mais nisso. Tenho a certeza de que tudo se arranjar.
E James:
- Bem, eu no sei como  que isso ir arranjar-se. E se ela j no foi para longe com esse Bosinney, a minha opinio  que se deve impedi-la de o fazer, encontr-la 
e traz-la para casa.
Ainda uma vez Soames sentiu a me acariciar-lhe a mo em sinal de aprovao, e, como se pronunciasse um juramento sagrado, ele murmurou entre dentes:
- Hei-de traz-la.
Juntos, os trs desceram ao salo. As trs filhas e Dartie estavam reunidos l. Se Irene estivesse presente, o crculo da famlia ficaria completo.
James deixou-se cair numa poltrona e, afora um frio "boa tarde" a Dartie, que ele desprezava e temia como a um homem de quem se deve sempre esperar um pedido de 
dinheiro, ficou calado at  hora do jantar. Soames tambm ficou mudo. Apenas Emily, mulher de fria coragem, mantinha uma conversa com Winifred sobre assuntos indiferentes. 
Nunca dominara mais os seus modos e as suas palavras do que naquela noite.
Como fora combinado no aludir  fuga de Irene, ningum pde dizer nada a respeito da linha que deveria ser mantida. Mas, segundo a atitude adoptada por uns e outros, 
depois que os acontecimentos falaram por si. pode-se ficar mais ou menos certo de que a opinio de James,

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"encontr-la e traz-la para casa", seria aprovada salvo poucas excepes, no s ali em Park Lane, como tambm em casa de Nicholas, de Roger, de Timothy. O mesmo 
responderiam todos os Forsyte, cuja espcie se encontra em toda a Londres e que s estavam impedidos de julgar a questo porque a ignoravam.
A despeito porm dos esforos de Emily, o jantar, servido por Warmson e outro criado, passou-se quase em silncio. Dartie, de mau humor, bebia tudo que lhe serviam, 
as moas, essas em geral nunca falavam muito. James perguntou uma vez onde estava June e o que fazia ela. Ningum sabia: E ele caiu no seu silncio melanclico. 
Foi preciso que Winifred contasse que o pequeno Publius dera o seu penny falso a um mendigo para que o rosto do velho clareasse.
- Ah - disse ele -, aquele  um camarada esperto! No sei at onde ir, se continuar assim.  um rapazinho muito inteligente?
Mas aquilo foi apenas um relmpago.
Os pratos sucediam-se solenemente, sob as lmpadas elctricas que inundavam a mesa de luz mas clareavam mal o principal ornato da parede, um quadro cujo nome era 
Marinha, de Turner, e que no representava nada, alm de umas cordoagens e de uns homens que se afogavam. Serviram o champanhe. Veio depois uma garrafa de vinho 
do Porto, pr-histrica, tirada  adega de James, mas que no alegrou ningum.
s dez horas Soames foi-se embora, duas vezes, respondendo a perguntas, dissera que Irene no se senta bem. Mas j no se sentia senhor de si, a me deu-lhe um 
grande beijo, muito meigo, quando o filho lhe apertou a mo, e ele sentiu uma onda de calor subir-lhe s faces. Partiu atravs da forte ventania que espalhava o 
seu queixume lamentoso pelas esquinas, sob um cu azul de ao, todo vvido de estrelas. No lhes notou nem a cintilao gelada, nem o estalar das folhas crispadas 
dos pltanos, nem as mulheres noctmbulas apressando-se dentro das pelicas ralas, nem as caras esqulidas dos vagabundos, aos cantos das ruas. O Inverno chegara. 
Mas Soames, inconsciente de tudo, apressava-se para chegar a casa. As suas mos tremiam quando apanhou, na caixinha dourada atrs da porta, as cartas da noite. Nenhuma 
carta de Irene.

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Entrou na sala de jantar. Um fogo ardia na lareira, a sua poltrona fora puxada para perto, as chinelas estavam prontas, as garrafas de whisky e brandy junto  caixa, 
cinzelada, que continha cigarros. Ele olhou aquilo tudo, depois apagou o gs e subiu. Havia fogo tambm no seu quarto de vestir, mas o quarto dela estava frio e 
escuro. Foi l que Soames entrou.
Acendeu todas as velas e ps-se a passear entre a cama e a porta. No podia habituar-se  ideia de que ela realmente o deixara. E como se procurasse uma ltima mensagem 
ou a causa daquele drama, como se quisesse decifrar o mistrio da sua vida conjugal, ps-se a abrir todos os mveis, todas as gavetas.
Os vestidos de Irene estavam l. Ele sempre gostara, sempre fizera questo de que a mulher andasse bem vestida. Ela s levara poucos vestidos, dois ou trs, e, puxando 
uma aps outra as gavetas cheias de roupa branca e de leves coisas de seda, Soames viu que tudo estava intacto.
Afinal de contas, talvez fosse apenas um capricho. Talvez ela tivesse ido apenas para a praia, mudar de ar! Ah, se fosse assim, se ela devesse voltar, nunca mais 
ele faria como fizera naquela fatal noite da antevspera, jamais se arriscaria quilo - embora no se tratasse seno dos seus deveres, do seu dever de esposa - e 
embora ela fosse propriedade sua - nunca mais se arriscaria quilo. Decerto ela estava com a cabea um pouco perturbada.
Inclinou-se para a gaveta onde Irene guardava as jias, no estava fechada  chave e ele precisou apenas pux-la para a abrir. A chave estava sobre o cofrezinho. 
Soames ficou surpreso, mas lembrou-se de que, decerto, o cofre estava vazio, e abriu-o.
No tinha nada de vazio. Arrumados em pequenos compartimentos de veludo, estavam todos os presentes que ele lhe dera, at mesmo o relgio, e na caixinha do relgio 
encontrou um bilhete dobrado em tringulo, com um endereo escrito pela mo de Irene:

Soames Forsyte,

Creio no levar nada que me tenha sido dado por voc ou pelos seus.

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Era tudo.
Soames olhou os colares, as pulseiras de brilhantes e prolas, o pequeno relgio chato, com o seu grande diamante incrustado, rodeado de safiras, as correntes de 
ouro, os anis, cada um no seu ninho de veludo. As lgrimas subiram-lhe irresistivelmente aos olhos e caram sobre as jias, no escrnio.
Nada do que ela pudesse fazer, nada do que fizera, poderia mostrar-lhe ao esprito, de um s golpe, todo o pleno significado da sua fuga. Nesse momento, talvez, 
ele compreendeu tudo que deveria compreender, compreendeu que ela lhe tinha horror - que lhe tinha horror h anos, que, sob todos os pontos de vista, eles dois eram 
como habitantes de mundos diferentes, que no haveria mais nenhuma esperana para ele, que jamais a houvera. Chegou at a compreender que ela sofrera, que merecia 
ser lamentada.
E nesse instante de emoo, traiu em si mesmo o Forsyte: esqueceu a sua prpria pessoa, os seus interesses: tudo o que era e possua. Tornou-se capaz de tudo. Subiu 
ao puro ter do no ser e do intil.
Tais momentos passam depressa.
E como se as lgrimas o houvessem lavado da sua fraqueza, Soames ergueu-se, fechou o escrnio  chave e lentamente, quase trmulo, levou-o para o quarto do lado.

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CAPTULO VII.

A VITRIA DE JUNE.

June havia esperado o seu dia, perscrutando, dia e noite, as colunas mais aborrecidas do jornal com uma assiduidade que espantara o av, e quando a oportunidade 
se ofereceu apanhou-a na passagem, com toda a rapidez e a resoluo tenaz do seu carcter. A manh que, entre todas as da sua vida inteira, ela deveria recordar 
melhor, foi aquela em que viu nas listas dos processos do Times esta nota: "Cmara XIII, Juiz Bentham - caso Forsyte versus Bosinney".
Como um jogador que arrisca tudo num lance, June sentia-se pronta para arriscar tudo naquela carta. No estava na sua natureza aceitar a derrota. Como, seno graas 
 intuio da mulher que ama, saberia ela que a perda daquele processo era certa para Bosinney? No se poderia dizer a razo, mas estabeleceu todo o seu plano sobre 
essa suposio como sobre uma certeza.
s onze horas, estava de vigia no hall na Cmara XIII, e l ficou at que levantaram a sesso. A ausncia de Bosinney no a inquietou. Sentira, por instinto, que 
ele no se defenderia. Lida a sentena, a moa desceu rapidamente para a rua, subiu a um carro e dirigiu-se para a casa de Bosinney.
A porta de entrada estava aberta, atravessou-a, passou diante dos escritrios dos trs primeiros andares, sem chamar a ateno. S quando chegou l a cima comearam 
as suas dificuldades.

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No lhe respondiam ao toque de campainha, tinha de se decidir: ou descer e pedir licena  porteira, l em baixo, para esperar no seu cubculo a chegada de Mr. Bosinney, 
ou ento ficar pacientemente em frente da porta, com a esperana de que ningum passasse por ali. Tomou essa ltima resoluo.
Estava j h um quarto de hora nessa glida espera, sentada no ltimo degrau, quando lhe ocorreu de sbito a lembrana de que Bosinney tinha por hbito deixar a 
chave do apartamento sob o capacho de entrada. Olhou: l estava a chave. A moa hesitou um pouco antes de se resolver a utiliz-la, mas enfim, abriu e entrou, deixando 
a porta aberta, a fim de que, se viesse algum, compreendesse que ela fora ali para um negcio.
J no era a mesma June, que cinco meses atrs tocara, trmula, quela porta. Os meses de sofrimento recalcado tinham-na tornado menos sensitiva, e ela j tantas 
vezes imaginara antes aquela visita,, em todos os seus mais pequenos pormenores, que isso destrura-lhe o terror. No viera desta vez para se ir embora sem nada 
ter feito, e, se no conseguisse o que queria, ningum no mundo poderia fazer nada por ela.
Estava ali como um animal inquieto pela cria, a sua frgil e enrgica pessoa no podia manter-se imvel naquela sala, que percorria de uma parede  outra e da porta 
 janela, mexendo aqui e ali num objecto. Tudo estava coberto de poeira, o quarto no devia ter sido arrumado j h semanas, e june, pronta a apanhar tudo o que 
pudesse alimentar a sua esperana, via naquela negligncia um sinal de tal dificuldade financeira que obrigara o noivo a dispensar a mulher da limpeza.
Deu uma olhadela ao quarto de dormir. A cama estava arranjada  pressa, como por mo de homem. Prestando ateno ao menor rumor, entrou no quarto, examinou os armrios: 
alguns colarinhos e algumas camisas, um par de sapatos sujos, o quarto estava despido de tudo, at de roupas.
Voltou sem rudo ao escritrio, e foi ento que percebeu a ausncia de todos os pequenos objectos de estimao de Phil. O relgio de parede que herdara da me, o 
binculo, habitualmente suspenso sobre o sof, duas boas gravuras antigas do colgio de Harrow, onde o pai fizera os estudos, e enfim, pormenor que no era menos 
significativo,

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uma pea de cermica japonesa que ela prpria lhe havia dado - tudo desaparecera, Mas, apesar da clera que subia na sua alma ardente contra o mundo que o tratara 
assim, esses vazios pareciam-lhe um feliz augrio para o xito do seu plano.
Olhando para o lugar ocupado antes pela cermica japonesa, ela sentiu, com estranha certeza, que algum a observava, voltando-se, viu Irene no umbral da porta aberta.
As duas mulheres olharam-se em silncio durante um minuto, depois June avanou e estendeu a mo. Irene no correspondeu. June ps ento atrs das costas aquela mo 
que a outra recusara. Os seus olhos endureceram, de raiva. Esperou que Irene falasse, e, durante a espera, ela embebia-se - sabe Deus com que furor de cime, de 
suspeitas, de curiosidade - da imagem da amiga, do mnimo pormenor do seu rosto e do seu trajo.
Irene trazia uma grande capa de peles cinzenta e um chapu de viagem que lhe deixava passar sobre a fronte uma onda de cabelos dourados. E na doce espessura da capa, 
o seu rosto parecia pequenino como o de uma criana,. Muito diferentes das de June, as suas faces no tinham cor, eram de uma brancura de marfim, como que possudas 
pelo frio. Em torno das plpebras, olheiras escuras. Trazia na mo um raminho de violetas.
Ela tambm olhava para June, sem um sorriso. E nos grandes olhos fixos sobre si a moa encontrava, apesar de um sobressalto de clera, muito do antigo encanto. E 
afinal foi ela que falou primeiro:
- Que  que voc veio fazer aqui?

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- Mas sentiu a pergunta voltar-se contra si mesma e acrescentou: - Esse processo horroroso... vim dizer-lhe... que perdeu!
Irene no falava, os seus olhos no deixavam o rosto de June. A moa exclamou:
- No fique a assim,, como se fosse de pedra! Irene disse com um sorriso amargo:
- Sabe Deus se eu o queria ser! Mas June voltou-se:
- Cale-se! No me diga nada! No quero ouvir nada. No quero ouvir nada. No quero saber porque voc veio, no o

quero! - E, como uma alma penada, ps-se a caminhar rapidamente atravs da sala. De sbito, disse: - Eu cheguei primeiro, ns duas no podemos ficar juntas aqui!
Um sorriso errou pelos lbios de Irene e extinguiu-se como uma chama que vacila. Ela no se movia. Foi ento que June percebeu na doura e na imobilidade da sua 
atitude qualquer coisa de desesperado e de resoluto, qualquer coisa que no se deixaria disfarar, qualquer coisa de perigoso.
Arrancou o chapu, e, levando as duas mos  fronte, repeliu a massa acobreada dos cabelos.
- Voc no tem nenhum direito de ficar aqui! - exclamou ela em tom de desafio.
Irene respondeu:
- No tenho direito aqui nem em parte nenhuma.
- Que  que est a dizer?
- Deixei Soames. Voc sempre me aconselhou a que o fizesse. June cobriu os ouvidos com as mos.
- Basta! No quero ouvir, no quero saber nada. No se pode lutar contra voc. Porque fica a, sem se mexer? Porque no se vai embora?
Os lbios de Irene moveram-se, como se ella dissesse: "Para onde irei?"
June voltou-se para a janela, donde se via um mostrador de relgio na rua. Quase quatro horas. Ele podia chegar de um momento para o outro. Lanou um olhar para 
trs, por cima do ombro, o seu rosto estava convulsionado pela clera.
Irene no se movera, mas as suas mos enluvadas davam voltas inconscientes ao raminho de violetas.
Lgrimas de raiva e decepo correram pelas faces de June.
- Como pde vir at aqui? Voc foi uma amiga desleal para mim!
Irene riu ainda uma vez. June viu que tomara um caminho errado. Abandonou-o.
- Porque veio? - soluou. - Arruinou a minha vida, e agora quer arruinar a dele.
A boca de Irene tremeu, os seus olhos encontraram os de June.
e aquele olhar era to triste que a moa exclamou no meio dos soluos:
- No, no! - Porm a cabea de Irene baixou at tocar o peito. Depois ela voltou-se e saiu rapidamente, escondendo os lbios sob o ramo de violetas.
June correu  porta. Ouviu os passos que desciam e chamou:
- Volte, Irene, volte!
O rumor dos passos desapareceu.
Sufocada, com o corao dilacerado, a moa ficou no alto da escada. Porque partira Irene, deixando-a senhora do terreno? Que queria dizer aquilo? Seria que realmente 
ela lho devolvia? Ou ento, seria... E a incerteza devorava-a. Bosinney no chegava...
s seis horas daquela mesma tarde, o velho Jolyon voltava da Wistaria Avenue, onde ia quase diariamente passar algumas horas, e perguntara se a neta j chegara. 
Ao saber que ela subira para o quarto, mandou-lhe perguntar se queria descer para v-lo. Estava decidido a contar a June que se reconciliara com Jo. Doravante, o 
passado seria passado. No queria mais viver s, ou pelo menos abandonado. Deixaria aquela grande casa e alugaria outra, no campo. Iriam viver l todos juntos. E 
se isso no agradasse a June, ele dar-lhe-ia uma penso e ela viveria como quisesse. No significaria uma grande mudana para a moa, havia j muito tempo que a 
neta no lhe dava a menor demonstrao de carinho.
Mas quando June desceu, ele viu-lhe um triste rosto extenuado, e nos olhos qualquer coisa de tenso, de desolado. Ela abraou-o, e ficou na sua atitude habitual, 
sentada no brao da poltrona dele, e o que o av lhe disse afinal foi bem fraco, sem nada da declarao grave, precisa, com uma ponta de queixa, que meditara com 
tanto cuidado. O seu corao sofria, como sofre o grande corao materno quando v o filho magoado vir esconder-se sob a sua asa. As suas palavras hesitavam, como 
se ele pedisse desculpa por abandonar to tarde o caminho da virtude e ceder, a despeito dos seus slidos princpios, ao que a Natureza lhe reclamava.
Sentia-se nervoso, como se, comunicando as suas intenes, ele pudesse dar um mau exemplo  neta, e agora, que chegara  concluso prtica,

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a maneira de lhe dizer que, se o arranjo no lhe agradasse, ela poderia viver s - e pior para ela - era diabolicamente difcil de encontrar.
- E se chegar a sentir, querida, que no se d bem com eles. bem, eu darei um jeito. Far como quiser. Ns podemos alugar um apartamento em Londres, onde voc se 
instale, e eu virei visit-la a toda a hora. Mas as crianas - acrescentou o velho - so to engraadinhas!
E de sbito, no meio dessa exposio grave, um pouco cndida, de projectos novos, um claro passou pelos olhos do av: "Eis uma coisa que vai abalar os frgeis nervos 
de Timothy", pensou ele. "O precioso mais velho ter a sua palavra a dizer, ou ento j no  o mesmo."
June ainda no dissera nada. Instalada no brao da poltrona, tinha a cabea acima do av, e ele no podia ver-lhe o rosto. Mas de sbito o velho sentiu uma face 
quente contra a sua, e compreendeu que, pelo menos, no havia nada de alarmante no modo pelo qual ela recebia as notcias.
Comeou a tomar coragem:
- Voc vai gostar do seu pai,  um rapaz encantador. Nunca foi capaz de vencer na vida, mas  agradvel conviver com ele. Voc sabe, ele  um artista, e, etc.
E o velho Jolyon pensava na dzia ou mais de aguarelas que conservava cuidadosamente debaixo de chave, no seu quarto. Agora, que o filho ia ter dinheiro, aquelas 
produes j no lhe pareciam to medocres.
- Quanto  sua... madrasta - continuou ele, pronunciando essa palavra com hesitao -  realmente uma mulher muito fina: espcie de Mrs. Gummidge, creio eu, e louca 
por Jo. E as crianas- repetiu o velho - e aquelas palavras passaram como uma msica no meio de toda a justificao solene - so to engraadinhas!
Aquelas palavras - June ignorava-o - eram apenas a expresso renascente da mesma ternura pelos pequeninos, pelos moos, pelos fracos que, no passado, o tinha feito 
afastar-se do filho por amor da pequenina que ela era ento, e que agora, com o desenrolar completo do ciclo, o afastava dela, por sua vez.

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Porm o mutismo da moa comeava a alarmar o av, e ele perguntou, impaciente:
- E ento? Que  que voc me diz?
June deixou-se deslizar para o tapete e ela tambm comeou a sua histria. Pensava que tudo se arranjaria facilmente, no via a menor objeco e pouco ligava ao 
que os outros pensassem.
O velho Jolyon ergueu-se.
- Hem? Outros iriam falar? - Ele pensara que, depois de tantos anos...-Bem, tanto pior! - E entretanto no aprovava o modo pelo qual a neta lhe apresentava as coisas: 
ela devia ligar importncia ao que os outros pensavam.
Mas calou-se. Os seus sentimentos eram muito complexos e muito incertos para se exprimirem em palavras. Sim, ela pouco ligava, e repetia-o. S queria pedir uma coisa... 
E o av, sentindo contra o joelho a face da rapariga, compreendeu que no se tratava de uma bagatela. "Seria que ele no concordava, para a satisfazer, em comprar 
aquela linda casa de Soames, em Robin Hill? Estava pronta, era uma beleza, e ningum se dispunha a morar l. Ficariam todos to felizes, no campo!"
O velho Jolyon apurou o ouvido.
- Ento o "Proprietrio" no iria morar na casa que mandara
construir?
Ele j no aludia a Soames seno por esse epteto.
No, June sabia que no.
Como o sabia ela?
June no o podia dizer, mas sabia, tinha praticamente a certeza disso. Era absolutamente improvvel, tudo estava mudado. Ela ouvia ainda as palavras de Irene a zumbir-lhe 
na cabea: "Deixei Soames, e para onde poderia ir?" Mas ficou silenciosa a
esse respeito.
Se ao menos o av consentisse em comprar a casa, e regularizar assim aquele miservel caso de reembolso, com o qual nunca se deveria ter atormentado Phil... Seria 
o melhor a fazer pelo bem de todos, e tudo se poderia arranjar ainda...
E June, encostando os lbios  testa do velho, beijou-o.
Mas o velho Jolyon afastou-se.


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Tinha no rosto aquela expresso judiciria que lhe aparecia quando examinava um negcio. Perguntou  neta:
- Que  que voc quer dizer? H alguma coisa por trs de tudo isso. Voc viu Bosinney?
- No, mas estive em casa dele.
- Em casa dele? Com quem? June no afastou o olhar:
- Fui s. Ele perdeu o processo. No quero saber se fiz bem ou mal, no me importo. Quero ajud-lo e hei-de ajud-lo.
O velho Jolyon perguntou ainda:
- Voc viu-o? - Atravs dos olhos da moa, o seu olhar parecia perfur-la at  alma.
June disse ainda, uma vez:
- No, ele no estava l, eu esperei, porm ele no veio. Na sua poltrona, o velho Jolyon teve um gesto de alvio. Ela
erguera-se e ele olhava-a bem de frente, to frgil, to jovem,, mas to precisa e to resoluta que, apesar de perturbado e contrariado como estava, toda a severidade 
do seu rosto no vencia a firmeza daquele olhar de criana.
Apoderou-se do av o sentimento de que era agora o menos forte, que as rdeas lhe fugiam das mos, que estava velho e cansado.
- Ah - disse ele por fim. - Voc ainda se d mal com isso. S v aquilo que quer. - E, tomado de um dos seus singulares acessos de filosofia, acrescentou, - Mas 
nasceu assim, e assim ficar at  morte!
E ele, que durante a vida inteira, com os homens de negcios, com os comits, com os Forsyte de toda a espcie, e mesmo com aqueles que no eram Forsyte, s vira 
sempre o que queria, lanou um olhar melanclico sobre a sua indomvel neta. Sentia nela a qualidade que inconscientemente admirava por sobre tudo.
- Ser que voc sabe... as histrias que andam a contar? - perguntou suavemente.
June ficou rubra.
- Sim... no! Sei e no sei. So-me indiferentes. E bateu com o p no cho.
- Creio - disse o velho Jolyon, baixando os olhos -,

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creio que mesmo morto voc o quereria. - Houve um grande silncio antes que ele falasse de novo: - Quanto a comprar aquela casa, voc no sabe no que est a falar.
Sim, June sabia que ele a teria, se o quisesse. Bastava pagar o
que custara.
- O que ela custou! Voc no entende disso, e, ademais, eu no quero ir procurar Soames. No quero negcios com aquele
rapaz.
- Mas no  preciso, basta o senhor ir a casa do tio James. Se o senhor no quer comprar a casa, pelo menos assuma a responsabilidade da quantia que deve ser reembolsada. 
Sei que ele est numa misria horrvel, vi com os meus olhos. O senhor pode descontar tudo isso do meu dinheiro.
Um claro divertido passou nos olhos do velho Jolyon :
- Descontar no seu dinheiro! Que bom remdio! E diga, por favor, que far voc sem o seu dinheiro?
Porm j, l no ntimo, comeava a trabalhar-lhe no esprito a ideia de arrebatar a casa a Soames e a James. No salo de Timothy, ouvira falar muito da casa de Robin 
Hill. Faziam-se elogios muito dbios: "Muito metida a artstica, mas, afinal de contas, uma bela casa." E tomar ao "Proprietrio" o que ele fazia tanto empenho em 
possuir seria uma suprema vitria sobre James, a prova tangvel de que iria fazer de Jo um homem abastado, um proprietrio tambm, devolver-lhe a sua legtima situao 
na vida e mant-lo nela. Justia enfim contra todos aqueles que se tinham comprazido em encarar o seu filho como um desgraado sem casta e sem
vintm!
Veria, veria. A coisa era talvez impossvel. No estava disposto a pagar um preo absurdo. Se fosse vivel, bem... talvez!
E entretanto, no fundo de si mesmo, o velho Jolyon sabia que no o recusaria.
Mas evitava comprometer-se. Reflectiria, segundo disse a June.

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CAPTULO VIII.

A PARTIDA DE BOSINNEY.

O velho Jolyon no era dado a decises precipitadas. Ficaria bastante tempo a ruminar a compra de Robin Hill, se no houvesse lido no rosto de June que ele no teria 
repouso antes de se pr a agir.
No dia seguinte, durante o pequeno-almoo, ela perguntou-lhe para que horas queria o carro.
- O carro? - disse o velho com ar inocente. - Mas no vou sair.
June respondeu:
- Se o senhor no sair cedo, no encontra o tio James antes de ir para a City.
- James? Que  que tem o tio James?
- A casa - disse ela com uma voz que no lhe permitia mais fingir ignorncia.
- Ainda no me resolvi - disse o velho.
- Oh,  preciso, av! Pense em mim! O av ralhou:
- Pensar em voc! Mas no deixo de pensar em voc. Voc  que no pensa em si! No, no sabe em que est a atirar-se. Enfim, mande preparar o carro para as dez horas.
s dez e um quarto ele estava em Park Lane, deps o guarda-chuva no hall, porm ficou com o chapu e o sobretudo,

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e, dizendo a Warmson que desejava ver Mr. James, entrou sem se fazer anunciar no gabinete de trabalho e sentou-se.
James ainda estava na sala de jantar. Conversava com Soames, que chegara cedinho. Sabendo que o irmo estava l, murmurou com certo nervosismo:
- Ora bolas, que ser que ele quer? Ergueu-se.
- Escute - disse ele a Soames-, procure no se apressar. A primeira coisa a fazer  saber onde ela est. Se eu fosse voc, procuraria os Stainer, so os melhores, 
e, se no a encontrarem, ningum mais o conseguir. - E de sbito, presa de um estranho sentimento de piedade, murmurou: - Pobrezinha, que  que lhe ter passado 
pela cabea? - E deixou a sala, assoando-se fortemente.
O velho Jolyon no se levantou ao avistar o irmo, mas estendeu-lhe a mo e eles trocaram um desses frios "bom dia"  moda Forsyte.
James ocupou uma cadeira prxima  mesa, e disse, apoiando a cabea na mo:
- Bem, como vai? No o temos visto muito ultimamente. O velho Jolyon no respondeu  observao.
- Como vai Emily? - perguntou ele. E, sem esperar resposta, continuou: - Vim aqui por causa do negcio do jovem Bosinney. Disseram-me que aquela casa que ele construiu 
 um elefante branco.
- No sei se  um elefante branco - disse James. - Sei que ele perdeu o processo, o que, na minha opinio, representa a sua falncia.
O velho Jolyon apanhou a oportunidade que lhe ofereciam:
- No me admirarei se ele falir, e o "Proprietrio"  que ir pagar as custas. Veja ento o que pensei: "Se Soames no vai instalar-se em Robin Hill..." - E, vendo 
a surpresa, a suspeita, no olhar de James, prosseguiu rapidamente: - No estou a perguntar nada, suponho apenas que Irene se recusa a ir morar l, alis pouco me 
importo! Mas penso em instalar-me no campo, no muito longe de Londres, e se a casa me agradar no digo que no pensarei nela.  questo de preo!"
James escutou essa declarao com uma singular mistura de inquietao,

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de alvio, de dvida, fundindo-se tudo no receio de qualquer coisa escondida - tudo isso misturado entretanto  velha confiana que sempre tivera na boa f e no 
julgamento do irmo mais velho. Sentia-se inquieto pelo que o velho Jolyon poderia ter sabido, e do modo como o soubera, sentia-se aliviado, por outro lado, reflectindo 
em que, se tudo estivesse rompido entre June e Bosinney, seria pouco provvel que o av procurasse meios de auxiliar o rapaz. Em suma, estava perplexo, e, como no 
o queria mostrar nem comprometer-se, disse:
-  verdade que voc mudou o seu testamento a favor do seu filho?
Ningum lhe dissera isso, mas, tendo encontrado o velho Jolyon com o filho e os netos, e sabendo, por outro lado, que ele retirara o testamento do escritrio, James 
simplesmente aproximara os factos.
O golpe acertou.
- Quem lhe disse isso? - perguntou o velho Jolyon.
- J no sei bem - respondeu James -, no guardo o nome de ningum. Lembro-me apenas de que algum me falou. Soames gastou muito com aquela casa, no  provvel 
que a ceda com prejuzo.
- Bem - disse o velho Jolyon -, se ele pensa que eu vou pagar-lhe um preo absurdo, engana-se. Eu no tenho o dinheiro que seu filho parece ter. Ele que tente desembaraar-se 
da casa em leilo e ver o que obtm. Segundo me disseram, no  uma casa que convenha a toda a gente.
James, que, secretamente, tambm era dessa opinio, replicou:
-  casa para um gentleman. Mas Soames est a, se voc quer falar com ele.
- No - disse o velho Jolyon -, no me interesso pelo negcio, e custarei a interessar-me, se  assim que me respondem.
James intimidou-se. Quando se discutiam quantias de transaces comerciais, sentia-se no seu elemento, tendo diante de si factos, e no homens. Mas aquelas negociaes 
preliminares tornavam-no nervoso, no sabia at onde poderia ir.
- Bem - disse ele. - Eu no estou a par de nada.

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Soames nunca me diz nada.. Creio que ele examinar o negcio, tudo ser questo de preo.
- Oh - disse o velho Jolyon -, no estou a pedir-lhe nenhum favor!
E ps o chapu na cabea, com um gesto de clera A porta abriu-se e Soames entrou.
- Est a um policeman a perguntar pelo tio Jolyon - disse ele com um meio sorriso.
O velho Jolyon lanou-lhe um olhar irritado. James disse:
- Um polcia? Creio que voc sabe do que se trata? - perguntou, olhando para Jolyon com um ar suspeitoso. - Acho que ser melhor voc falar-lhe.
Em p, no hall, estava um inspector de polcia, que detinha os seus olhos claros, de plpebras pesadas, nos belos mveis antigos que James comprara no famoso leilo 
Mavrojana, em Portland Square.
- Entre, meu irmo est aqui - disse James. O inspector levou respeitosamente a mo  viseira do capacete e penetrou no escritrio. James teve uma sensao estranha 
ao v-lo entrar. - Bem - disse ele a Soames -, creio que devemos esperar para saber o que ele quer. O seu tio veio aqui para falar a respeito da sua casa.
Foi com Soames para a sala de jantar, mas no podia ficar quieto.
- Que pode ele querer? - murmurava ainda.
- Quem? - respondeu Soames. - O inspector? Mandaram-no aqui de Stanhope Gate. foi tudo o que eu pude saber. Foi provavelmente o "no conformista" do tio Jolyon que 
roubou alguma coisa.
Apesar da calma que aparentava, tambm se sentia pouco  vontade.
Ao cabo de dez minutos o velho Jolyon entrou. Aproximou-se da mesa, e ficou sem dizer uma palavra, repuxando os longos bigodes brancos. James olhava-o e a sua boca 
abriu-se: nunca vira o irmo com aquele ar.
O velho Jolyon ergueu a mo e disse lentamente:
- O jovem Bosinney foi esmagado por um carro, no nevoeiro.

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Morreu. - E em p, dominando o irmo e o sobrinho, fixando-os com os seus olhos profundos, acrescentou: - Fala-se em suicdio. O queixo de James caiu.
- Um suicdio! Que razo teria ele para isso? O velho Jolyon replicou num tom duro:
- Deus o sabe, se voc e o seu filho no o sabem! Mas James no replicou nada.
Os homens de idade, mesmo que sejam Forsyte, conhecem na vida duras experincias. O transeunte que v aqueles velhos, protegidos pela vestimenta de tradio, de 
riqueza, de conforto que os cerca, nunca pensaria que eles encontraram sombras tenebrosas no seu caminho. No existe ningum, nem mesmo um Sir Walter Bentham, a 
que a ideia do suicdio no tenha visitado um dia. Ela ficou  porta da alma, prestes a entrar, afastada por alguma realidade fortuita, qualquer vago receio ou triste 
esperana. Para um Forsyte,  difcil a renncia suprema a todas as formas de propriedade. Oh, sim, difcil! S se resolvem a isso raramente, talvez nunca. E entretanto, 
em certas horas, consideraram-na de perto.
Assim, o prprio James, outrora... Ento, na confuso dos seus pensamentos, ele exclamou:
- Ah, mas eu vi isso no jornal de ontem: "Esmagado no meio do nevoeiro." No sabiam o nome. - Movia a cabea, agitado, olhando ora um, ora outro, mas instintivamente 
no deixava de repelir a hiptese de suicdio. No ousava encar-la de frente. Era to contrria aos seus interesses, aos interesses do filho, aos interesses de 
todos os Forsyte! Lutava por afast-la, e como inconscientemente a sua natureza negava crdito a tudo que no podia admitir com inteira segurana, ele acabou por 
dominar esse medo. Fora um acidente, no poderia ser seno um acidente.
O velho Jolyon interrompeu essa meditao:
- A morte foi instantnea. O corpo passou ontem o dia inteiro no hospital. No trazia nenhuma prova de identidade. Eu vou l, agora. Voc e o seu filho faro bem 
se me acompanharem.
Nenhum dos dois se ops a essa injuno. e ele saiu,

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passando  frente.
O tempo, naquele dia, estava puro, calmo e luminoso, e o velho Jolyon, entre Stanhope Gate e Park Lane, fizera arriar a
capota do carro. Sentado sobre o assento estofado, acabando o charuto, ele apreciara a secura tnica do ar, os movimentos de veculos e da massa, aquela vivacidade 
singular e quase parisiense que o primeiro dia bonito desperta na grande cidade, depois de uma srie de chuvas e nevoeiros.
Sentia-se to feliz, mais feliz do que h muitos meses! A sua confisso a June libertara-o de um peso, via-se no futuro vivendo com o filho, ou melhor, com os netos 
(tinha marcado um encontro com Jo no Hotch Potch, para resolver os pormenores do projecto). Enfim, sentira uma excitao agradvel  ideia do encontro- um encontro 
vitorioso com James e o Proprietrio a respeito da casa.
Agora mandou subir a capota. No estava mais disposto a ver a alegria das coisas. E, alm disso, no era conveniente que se vissem trs Forsyte em companhia de um 
inspector de polcia.
Durante o trajecto, o inspector voltou ao acidente. "O nevoeiro no estava assim to espesso no local. O cocheiro disse que o cavalheiro deve ter tido muito tempo 
para ver o carro que vinha  frente dele, e pareceu que se atirara para debaixo. Devia estar apertado de dinheiro: encontrmos na casa dele vrias cautelas de penhor, 
e ultrapassou o crdito que tinha no banco, alm disso, h um processo do qual os jornais de hoje falam...)
E os seus olhos, de um azul frio, iam de um a um dos trs Forsyte sentados dentro do carro.
O velho Jolyon, que, do seu canto, observava o irmo e o sobrinho, viu o rosto do primeiro alterar-se, obscurecer-se ainda mais a sua fisionomia inquieta e ruminante. 
Com efeito, as palavras do inspector tinham revivido em James todos os receios e todas as dvidas. "Apertado... cautelas... ultrapassado o crdito..." Essas palavras, 
que nunca tinham representado para ele seno pesadelos longnquos, emprestavam uma realidade perturbadora quela hiptese de suicdio que era absolutamente preciso 
afastar.
Procurou o olhar do filho, mas, taciturno, impassvel, os olhos na defensiva, Soames no lhe respondeu. E o velho Jolyon, que observava tudo,

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e adivinhava aquela liga de defesa mtua estabelecida entre pai e filho, foi tomado pelo desejo imperioso de ter ao seu lado o seu prprio filho. Era como se, caminhando 
ao
encontro do morto, ele marchasse para uma batalha onde no devesse estar s contra aqueles dois.
E ao mesmo tempo zumbia-lhe nos ouvidos o cuidado de que o nome de June no fosse atingido... James tinha o seu filho atrs de si, porque no mandaria ele chamar 
Jo?
Tirando uma carteira, escreveu rapidamente: "Venha imediatamente, mando-lhe o carro.)- Diante da porta do hospital, entregou o carto ao cocheiro, dizendo-lhe que 
fosse depressa ao Hotch Potch, perguntasse por Mr. Jolyon Forsyte e trouxesse-o imediatamente. Se ele no estivesse l, esperasse com o carro.
Subiu lentamente os degraus, atrs do irmo e do sobrinho, apoiando-se ao guarda-chuva. Parou um momento para tomar flego. O inspector disse:
- O necrotrio  aqui, cavalheiros. Mas descansem.
Na sala nua, de paredes brancas, vazia de tudo, salvo de um raio de sol que se arrastava sobre o cho sem poeira, jazia uma forma sob um lenol. Com a sua mo larga 
e firme, o inspector segurou a ponta do pano e levantou-o. Os trs Forsyte contemplaram o rosto sem olhar, erguido para eles, e que parecia desafi-los. Em cada 
um deles as emoes secretas, o medo, a piedade de que a sua natureza era capaz, ondeavam como ondeiam essas vagas da vida que as quatro paredes brancas afastavam 
para sempre de Bosinney. Em cada um deles a tendncia nata, a mola singular, essencial, que determina imperceptivelmente a aco, de modo absolutamente diverso de 
qualquer outro ser, governava uma atitude prpria de pensamento. Cada um deles, longe dos outros e entretanto misteriosamente prximo, cada um deles via-se s com 
o morto, mudo, de olhos baixos.
O inspector disse docemente:
- O senhor identifica o gentleman?
O velho Jolyon ergueu a cabea e fez sinal que sim. Olhou o irmo  sua frente, o longo corpo magro inclinado sobre o morto, o rosto vermelho, sombrio, de olhar 
cinzento e tenso:
olhou Soames, lvido, imvel junto do pai. E toda a hostilidade que se acumulara nele contra aqueles dois entes desapareceu de sbito como fumo diante da grande 
presena plida da morte.

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Donde vem ela? Como  que vem a morte?
Reviravolta brusca de tudo que era antes, partida cega para o caminho que leva aonde? Trevas onde a flama desaparece. Esmagamento brutal que  mister que todos os 
homens suportem de olhos claros e bravos at ao fim, eles que entretanto so to pequenos, to insignificantes, uns insectos! E sobre o rosto do velho Jolyon passou 
um movimento de ironia, porque Soames, murmurando duas palavras ao inspector, desaparecia num passo furtivo.
De sbito, James ergueu os olhos. Tinha uma expresso estranha, uma vaga splica no olhar suspeitoso e perturbado. "Sei que no tenho fora para lutar contra voc", 
parecia dizer. Procurando o leno, enxugou a testa, inclinou-se, doloroso e magro, sobre o morto, depois voltou-se tambm e saiu  pressa.
O velho Jolyon ficou s, imvel como o morto, e com os olhos fixos no morto. Quem poderia dizer em que ele pensava? Em si mesmo, no tempo em que os seus cabelos 
eram escuros como os desse rapaz que jazia inerte  sua frente? Em si mesmo quando iniciava a sua batalha, essa longa batalha que ele amara, a batalha j finda para 
aquele rapaz, quase antes de a ter comeado? Nas esperanas despedaadas da sua neta, ou naquela outra mulher? Na estranheza, na tristeza disso tudo? E na ironia 
incompreensvel, amarga, daquele fim? Justia? No h justia para os homens! Eles esto sempre nas trevas. Ou talvez, na sua filosofia, pensava: "O melhor  sair 
desta vida, o melhor  acabar assim, como este pobre rapaz..."
Algum tocou-lhe no brao.
Uma lgrima subiu e molhou-lhe os clios.
- Bem - disse ele -, no estou a fazer nada aqui.  melhor ir-me embora. Voc vir encontrar-se comigo o mais depressa possvel, Jo.
Foi a vez de Jolyon filho ficar junto ao morto. Em torno daquele corpo inerte, parecia-lhe ver todos os Forsyte dispersos, derrubados. O golpe fora muito brusco.
As foras que esto em jogo no fundo de todo o drama, as foras que vencem toda a resistncia e que tendem, por tantas direces contrrias, ao mesmo fim irnico, 
aquelas foras tinham-se encontrado e mesclado num ribombo de trovo, haviam fulminado a vtima e precipitado ao cho todos os que a cercavam.

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Pelo menos, era assim que Jolyon filho os via, abatidos em torno do corpo de Bosinney.
Pediu ao inspector que lhe contasse como sucedera o acidente, e o policeman, que no tinha todos os dias uma sorte como aquela, voltou complacen temente a todos 
os factos conhecidos.
- Veja, meu caro senhor, por trs de tudo isso h alguma coisa. Eu no creio em suicdio, nem num acidente puro e simples. Creio antes que era um homem atormentado 
por qualquer ideia e que j no sabia o que se passava em redor de si. Talvez estes objectos signifiquem qualquer coisa para o senhor?
Tirou do bolso um pequeno pacote e p-lo sobre a mesa. Abrindo-o cuidadosamente, descobriu um leno de senhora onde estava enfiado um alfinete de ouro veneziano, 
cuja pedra cara. Jolyon filho sentiu um cheiro de violetas secas.
- Encontrmos isto no bolso interior do casaco do rapaz - disse o inspector. - Veja, o monograma foi cortado.
Jolyon filho ficou um momento sem responder,
- Receio no poder auxili-lo - disse ele. Mas teve a viso clara do rosto que vira iluminar-se, to sensvel e to feliz,  aproximao de Bosinney. Pensava nela 
mais do que na sua prpria filha, mais do que em ningum... nela, no seu olhar escuro e meigo, naquele rosto delicado e passivo. Via-a esperando o morto, esperando-o 
talvez naquele mesmo instante, calma e paciente, numa lea ensolarada.
Saiu tristemente do hospital, em direco  casa do pai, dizendo a si mesmo que aquela morte iria romper a famlia dos Forsyte. Na verdade, o golpe atingira at 
ao ntimo da famlia. Aos olhos de todos, eles poderiam parecer prsperos como antes, mostrando a toda a Londres lindas fachadas, mas o tronco fora atingido mortalmente, 
abatido pelo mesmo golpe que abatera Bosinney.
E no seu lugar outras vidas jovens subiriam, encarnando por sua vez o senso hereditrio da propriedade.
"Boa floresta dos Forsyte", pensava Jolyon filho, "que nos fornece o prprio arcabouo da nao."
Quanto  causa da morte, a famlia repeliria energicamente a verso do suicdio, to comprometedora. Todos se agarrariam 
verso do acidente: um golpe do destino. No fundo dos seus coraes, enxergariam mesmo uma interveno da Providncia, um acto de justia. Bosinney no pusera em 
perigo as suas propriedades mais preciosas: bolsa e lar? Falariam naquele "desgraado acidente" sucedido ao jovem Bosinney. Talvez tambm no falassem. Era melhor 
o silncio!
Ele prprio no dava muita importncia  verso do cocheiro do nibus. Um homem to loucamente apaixonado no se mataria por uma questo de dinheiro, e Bosinney 
no era homem para levar ao trgico uma crise de negcios. Jolyon repelia tambm, pois, a ideia do suicdio, recordava-se muito bem do rosto do morto! Desaparecido 
na flor do seu Vero... E o que mais penalizava Jolyon filho era que um acidente esmagasse assim Bosinney, em pleno impulso da sua paixo.
Evocava tambm a casa de Soames, tal como ela estava agora e para sempre. O relmpago luzira, descobrindo com a sua luz implacvel a caveira vazia e nua e os ossos 
que a carne j no escondia...
Na sala de jantar de Stanhope Gate, o velho Jolyon estava s quando o filho entrou. Estava muito abatido na sua poltrona, com os olhos girando pelas paredes, enfeitadas 
de naturezas-mortas e pela obra-prima da coleco: Barcos de Pesca Holandeses ao pr-do-Sol. Os seus olhos pareciam deslizar ao longo de toda a sua vida, revendo-lhe 
as esperanas, os lucros, os xitos.
- Ah, Jo - disse ele -,  voc? Contei  pobrezinha da June. Mas ainda h outra coisa. Voc quereria ir  casa de Soames? Ela desgraou-se com as prprias mos, 
creio eu, mas, mesmo assim, no posso suportar o pensamento de que a pobre moa est fechada l, sozinha! - E, erguendo a mo magra e cheia de veias, apertou o punho.


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CAPTULO IX.

A VOLTA DE IRENE.

Depois de deixar o pai e o tio no necrotrio do hospital, Soames ps-se a caminhar sem rumo atravs das ruas. Aquele trgico acontecimento, a morte de Bosinney, 
mudava o aspecto das coisas. J passara o momento em que a perda de um minuto poderia ser fatal, e ele estava resolvido a no revelar a ningum a fuga da mulher 
antes do fim do inqurito sobre a morte do arquitecto.
Naquela manh, levantara-se cedinho, antes da chegada do carteiro, ele prprio recebera as cartas na caixa da correspondncia e, embora nada houvesse recebido de 
Irene, arranjara as coisas de modo a poder dizer a Bilson que Mrs. Forsyte tinha ido passar uns dias na praia, e que ele prprio iria busc-la, sbado ou segunda-feira.
Isso dar-lhe-ia tempo para respirar e revirar pedra sobre pedra, se fosse preciso, at encontrar Irene.
Mas agora, que a morte de Bosinney tornava intil qualquer providncia - aquela morte enigmtica, cuja evocao lhe punha um ferro em brasa sobre o corao, ao mesmo 
tempo que o aliviava de um grande peso -, Soames no sabia o que fazer do seu dia, e caminhava ao acaso, olhando para cada cara de transeunte, devorado por toda 
a espcie de inquietaes.
E, vagueando assim, pensava naquele que, certa noite, ele adivinhara errando, rondando, aquele que nunca mais viria assombrar-lhe a casa.

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 tarde, leu os ttulos dos jornais anunciando que se havia identificado o homem encontrado morto. Comprou os jornais para ver o que diziam. Se pudesse, impedi-los-ia 
de falar. Foi at  City e ficou muito tempo fechado com Boulter.
Voltando para casa, encontrou, em frente  casa Jobson's, George Forsyte, que lhe estendeu um jornal, dizendo:
- Olhe, voc soube o que aconteceu ao Pirata? Soames respondeu numa voz que no descobria nada:
- Sim.
George fitou-o de frente, nunca gostara de Soames, e agora acusava-o da morte de Bosinney: fora ele que o reduzira ao desespero, fora o seu acto de "proprietrio" 
que, naquela fatal tarde de nevoeiro, lanara o outro, enlouquecido, pelas ruas de Londres.
"Pobre diabo", pensava George. "Estava to furioso de cime, de desejo de vingana, que no se apercebeu da aproximao do nibus naquele fog infernal. Soames deu-lhe 
uma martelada na cabea." E esse julgamento lia-se claramente nos olhos de George.
- Fala-se aqui de um suicdio por questes de dinheiro - disse ele -, mas isso no convence ningum.
- Apenas um acidente - murmurou Soames entre dentes, George fechou o punho sobre o jornal e enfiou-o no bolso.
No pde deixar de soltar uma derradeira farpa:
- Tudo florescente em casa? E quando teremos um pequeno Soames para herdeiro?
Com as faces brancas como os degraus de mrmore da casa Jobson's, o lbio arregaado como se fosse morder, Soames passou bruscamente diante do primo e desapareceu.
Ao chegar a casa, abriu a porta com a sua chave, e a primeira coisa que viu no hall iluminado foi o guarda-chuva de casto de ouro de Irene, deposto sobre a arca.
Atirando a pelica, dirigiu-se  pressa para a sala.
Os estores j estavam descidos para a noite. Um lindo fogo de lenha de cedro ardia na lareira, e,  luz das chamas, ele viu Irene sentada no canto do sof, no seu 
lugar habitual. Fechou a porta sem rumor e dirigiu-se para ela. A moa no se moveu, parecia no o ver.
- Voc voltou? Porque est sentada na escurido?

353

Viu-lhe ento o rosto, to plido e imvel que se diria que o sangue j no lhe corria nas veias, os olhos pareciam dilatados, como as grandes pupilas de uma ave 
nocturna apanhada de surpresa. Envolta na capa de pele cinzenta, encolhida contra as almofadas do div, ela estava estranha, e parecia na verdade um pobre mocho 
cativo, cuja plumagem macia se arrepelava contra as grades da gaiola. J no tinha o seu porte leve e erecto, dir-se-ia que uma cruel fadiga fsica a dobrara, e 
que j no tinha razes para ser esbelta e firme, nem bonita.
- Ento voltou - repetiu ele.
Ela no teve um olhar, uma palavra. Os reflexos das chamas brincavam-lhe sobre o rosto imvel.
De sbito Irene tentou erguer-se, porm o marido impediu-a. Foi ento que ele compreendeu. Ela voltara como um animal ferido de morte, sem saber mais onde ir, sem 
saber mais o que fazer. Bastava v-la ali, enrolada e encolhida dentro da capa, para o compreender. Ele soube ento, com certeza plena, que Bosinney fora seu amante, 
compreendeu que ela soubera da morte dele, que, como ele prprio, talvez houvesse comprado um jornal numa esquina ventosa de rua, e lido... De forma que voltara 
livremente para a jaula onde enlanguescera  espera de libertao. Compreendeu a espantosa significao daquela volta, tinha vontade de gritar: "Tire da minha casa 
esse corpo que eu odeio e que adoro! V-se embora, com o seu rosto branco que faz sofrer, to cruel e to meigo, antes que eu o esmague. Tire-se de diante dos meus 
olhos, faa que eu no volte a v- la..."
E como essas palavras eram pronunciadas interiormente, na sua alma, Soames sups v-la erguer-se e afastar-se, como uma mulher que tenta fugir de um sonho terrvel, 
erguer-se e ir-se embora, por entre a noite e o frio, sem reparar nele, sem mesmo saber que ele estava ali.
Ento Soames gritou, contradizendo o que no chegara a dizer: "No, fique!" E, voltando-se, sentou-se na sua poltrona, do outro lado da lareira.
Ele olhava-a ainda, dobrada sobre si mesma como um pssaro que morre de um tiro, e cujo peito a gente v arquejar,  medida que o ar lhe foge: os pobres olhos fitam-nos,


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a ns que lhe demos o tiro, com aquele olhar lento e doce que no enxerga mais e que diz adeus a tudo que  bom: o sol, o cu e o amor.
E assim ficaram Irene e Soames, ao claro do fogo, em silncio, sentados ambos aos lados da lareira.
O fumo das achas de cedro, de que Soames gostava tanto, parecia agora sufoc-lo. E como se no pudesse suport-lo mais, saiu e escancarou a porta da casa para respirar 
o ar frio da rua, depois, sem chapu nem sobretudo, saiu para a praa.
Ao longo do jardim, um gato magro, roando-se pela grade, aproximou-se dele. Soames pensou: "Sofrer, quando deixarei eu de sofrer?"
Do outro lado da rua, na entrada de uma casa, um homem que ele conhecia, chamado Rutter, limpava os ps ao capacho de arame da porta, num movimento que parecia dizer: 
"Sou o dono daqui." E Soames continuou a andar. Ao longe, no ar Lmpido, soavam os sinos da igreja onde ele e Irene se tinham casado. Ensaiavam para os toques de 
Natal e os seus carrilhes cantavam por sobre os rumores da rua. Ele sentiu necessidade de algum lcool, para o mergulhar na indiferena, ou excit-lo at ao furor. 
Se ao menos pudesse sair violentamente de si mesmo, quebrar a rede, onde, pela primeira vez na vida, se sentia preso! Se ao menos pudesse ceder a este pensamento: 
"Divorcia-te... expulsa-a... ela esqueceu-te... esquece-a." Se ao menos pudesse ceder a este outro pensamento: "Deixa-a partir... ela j sofreu bastante!" Se ao 
menos pudesse abandonar-se a este desejo: "Faz dela tua escrava! Est em teu poder!" Se ao menos pudesse obedecer  intuio sbita: "Que  que isso adianta?" Esquecer 
por um minuto, esquecer que tal acto teria importncia, esquecer que, fizesse o que fizesse, era-lhe preciso sacrificar qualquer coisa! Se ao menos pudesse seguir 
os seus impulsos!
Impossvel esquecer nada, entregar-se a um pensamento, a uma viso, a um desejo - tudo era por de mais.trgico, por de mais imediato em torno dele: uma jaula impossvel 
de arrombar.
No outro lado da praa, os garotos apregoavam os jornais da noite, os seus gritos de demnios ressoavam, misturados ao som dos sinos das igrejas. Soames tapou os 
ouvidos. Um pensamento atravessou-lhe o esprito como um relmpago: bastaria um acaso:

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se ele, e no Bosinney, estivesse estendido, morto, naquele momento, ela ento, em vez de estar dobrada sobre si mesma como um passarinho agonizante, ela, ento...
Sentiu uma coisa macia de encontro s pernas. Era o gato que se roava nele. Um soluo subiu ento  garganta de Soames, sacudiu-o da cabea aos ps. E depois tudo 
recaiu no silncio, no escuro. As casas pareciam olh-lo, em cada uma delas havia um casal, com a sua histria secreta de felicidade ou desgraa.
De sbito, deparou-se-lhe a sua prpria porta aberta, e no rectngulo iluminado da entrada viu o vullto negro de um homem que lhe voltava as costas. Qualquer coisa 
lhe apertou o corao e, sem rudo, aproximou-se, viu a sua pelica atirada sobre a poltrona de carvalho esculpido, os tapetes persas, as taas de prata, as filas 
de porcelanas antigas arrumadas ao longo das paredes, aquele desconhecido que estava ali, de p. Interpelou-o:
- Que deseja, cavalheiro?
O visitante voltou-se: era Jolyon filho.
- A porta estava aberta - disse ele. - Eu poderia falar um momento com a sua senhora? Tenho um recado para ela.
Soames observou-o com um estranho olhar oblquo.
- Minha mulher no pode ver ningum - disse em tom baixo, mas decisivo.
- S a prenderei um minuto - murmurou Jolyon filho. Soames, bruscamente, deu um passo  frente e barrou-lhe a
entrada.
- Ela no pode ver ningum-repetiu. Viu o olhar de Jolyon filho fixar-se atrs de si, no hall, voltou-se.  entrada da sala, Irene estava em p, de olhos brilhantes, 
vidos, a boca entreaberta, as mos estendidas. Vendo os dois homens, o estranho claro do seu rosto apagou-se, as suas duas mos caram, e ela ficou ali, como uma 
esttua.
Soames girou sobre os calcanhares, os seus olhos encontraram os da visita, e ante o olhar que surpreendeu neles soltou um rosnido. Ergueu entretanto os lbios num 
fantasma de sorriso.
- Estou em minha casa, e no preciso de ningum para dirigir os meus negcios. J lhe disse e repito que no estamos em casa para ningum. - E bateu a porta no rosto 
de Jolyon filho.

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HISTRIA DE VERO(1)

"And Summer's lease hath all too short a date."

Shakespeare.

Para ANDR CHEVRiLOS.

*1. O ttulo do original ingls deste episdio de forsyte Saga  "Indian Summer of a Forsyte". "Indian Summer"  o veranico de Novembro, e tem em Portugal a designao 
de Vero de So Martinho. Como, entretanto, existindo embora em Portugal, a expresso no tem uso no Brasil, resolvemos servir-nos de Galsworthy, que chama "Indian 
Summer"  ltima e tardia aventura sentimental do velho Jolyon. (N. da T.)


CAPTULO I.

No ltimo dia de Maio, nos comeos da dcada de noventa, cerca das seis horas da tarde, o velho Jolyon Forsyte estava sentado debaixo do grande carvalho que sombreava 
o terrao da sua casa em Robin Hill. Esperava que os mosquitos o mordessem, antes de abandonar a glria do poente. A magra mo queimada de sol, desenhada de veias 
azuis, pendia, segurando com os dedos compridos e afilados um charuto quase no fim, ainda lhe restavam, como sobrevivncia dos tempos vitorianos, em que a suprema 
distino consistia em no tocar em nada, nem mesmo com a ponta dos dedos, longas unhas tratadas nos dedos bem feitos. Um velho chapu panam protegia contra o sol 
poente a fronte ampla, os grandes bigodes brancos, a cara magra, o forte queixo ossudo. Tinha as pernas cruzadas, em toda a sua atitude liam-se a serenidade e o 
requinte de elegncia do senhor idoso que todas as manhs salpica com gua-de-colnia o leno de seda. Aos seus ps dormia um co de plo castanho e branco, com 
pretenses a pomeraniano - e que no era seno o velho co Balthasar, por quem a antiga preveno do velho Jolyon se transformara em amizade no decorrer dos anos. 
Pertinho da cadeira pendurava-se um balouo e no balouo estava uma das bonecas de Holly, chamada Alice Tonta, com o corpo cado sobre as pernas e o triste nariz 
enfiado num saiote preto. Nunca a pobre Alice gozava do favor da dona, por isso pouco lhe importava a forma de estar sentada. De sob o carvalho descortinava-se o 
relvado

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estirando-se para a ternery (1) e para alm desse requinte de civilizao viam-se os campos descendo para o lago, o bosquezinho e a paisagem "linda, notvel" ante 
a qual, cinco anos atrs, Swithin Forsyte se detivera, da vez em que, acompanhado de Irene, viera visitar a casa. O velho Jolyon ouvira falar nessa aventura do irmo, 
oportuna e amplamente celebrada na Bolsa dos Forsyte. Swithin! Coitado, j se acabara, nos fins de Novembro ltimo, com apenas setenta e nove anos de idade, renovando 
as dvidas relativas  vitalidade eterna dos Forsyte - dvida que pela primeira vez se erguera por ocasio do passamento da tia Ann. Morrera! E deixara apenas Jolyon 
e James, Roger, Nicholas e Timothy, e Julie, Hester e Susan! E o velho Jolyon pensava: "Oitenta e cinco! No os sinto, excepto quando me d aquela dor."
E a memria do velho Jolyon investigava: no sentia a idade desde que comprara ao seu sobrinho Soames aquela casa, que para o outro fora de m sorte: e instalara-se 
ali em Robin Hil! havia j trs anos. Era como se ele remoasse em cada Primavera, vivendo no campo, com os filhos e os netos - June e os outros garotos do segundo 
casamento, Jolly e Holly. Morando longe do barulho de Londres, dos mexericos da Bolsa dos Forsyte, dos seus conselhos comerciais, numa deliciosa atmosfera de nenhum 
trabalho e muita diverso, ocupando-se alegremente em melhorar sempre a casa e os seus vinte acres de terra e presidindo s brincadeiras de Holly e Jolly. Todas 
as complicaes e abalos que se lhe tinham acumulado no corao durante o trgico caso de June, Soames, Irene e o pobre moo Bosinney j se haviam apagado. At June 
sara afinal da sua melancolia, como o testemunhava a viagem atravs da Espanha que ela andava agora a fazer em companhia do pai e da madrasta. Uma paz, curiosamente 
perfeita, tomara conta do velho depois da partida dos seus. Sentia-se venturoso, embora saudoso, porque o filho havia partido. Jo nunca lhe representava seno consolo 
e alegria, actualmente - um esplndido camarada, porm as mulheres, em geral, incluindo as melhores, afectam um pouco os nervos dos outros, mesmo quando a gente 
as admira.


*1. Local apropriado ao cultivo de fetos.

360

L longe um cuco piou. Um pombo bravo arrulhava no lamo da encosta, e as margaridas e os rannculos j iam brotando de novo, depois da ltima poda. O vento soprava 
para sudoeste, trazendo um ar delicioso, carregado de cheiro de seiva.
O velho empurrou para trs o chapu e deixou o sol banhar-lhe o queixo e as faces. Sentia, naquela tarde, uma certa necessidade de companhia - vontade de ver um 
rosto bonito junto de si, para olhar. As criaturas costumam pensar que os velhos jamais querem nada. E com a antiforsytica filosofia que se lhe insinuara na alma, 
ele pensou: "Nunca ningum tem o bastante! No me admiro que mesmo com o p na cova a gente ainda queira alguma coisa." Ali, fora das exigncias dos negcios, os 
seus netos, as rvores, flores e pssaros do pequeno domnio - para no falar no Sol, na Lua e nas estrelas no cu - diziam-llhe "Abre-te, Ssamo", dia e noite. 
E Ssamo tinha-se aberto quantas vezes talvez ele no sabia. O velho Jolyon sempre vibrara ante isso que hoje em dia se comeou a designar, quase religiosamente, 
"Natureza", embora nunca houvesse perdido o seu hbito de chamar a um crepsculo um crepsculo e a uma paisagem uma paisagem, por mais profundamente que aquilo o 
emocionasse. Mas actualmente a Natureza quase o fazia sofrer, e ele apreciava isso. Em cada um desses calmos, brilhantes e compridos dias de sol, com a mo de Holly 
na sua e o co Balthasar  frente, procurando aplicadamente nunca se sabia o qu, o velho Jolyon tinha desejos de vaguear olhando as rosas que desabrochavam, as 
fruteiras que cresciam junto dos muros, a luz do Sol brilhando nas folhas do carvalho, os rebentos novos das rvores do bosque, as folhas dos lrios-d'gua emergindo, 
lustrosas, e as folhinhas tenras do milho que nascia no nico campo semeado, ouvindo os estorninhos e as cotovias, ou assistindo ao ruminar das vacas Alderney, que 
abanavam lentamente as caudas. E em cada um desses lindos dias doa-lhe um pouco o amor profundo que sentia por aquilo tudo, sentindo talvez, l no ntimo, que j 
no teria muito tempo para lhe gozar o encanto. O pensamento de que qualquer dia - talvez no se passassem dez anos, talvez no se passassem mais nem cinco - todo 
aquele mundo lhe seria roubado, antes que houvesse exaurido a capacidade de o amar, parecia-lhe uma injustia aterradora.

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Se nada h depois desta vida, no seria ele que o fosse desejar: porque l, de qualquer modo, no teria Robin Hill, nem as flores, nem as lindas caras - poucas, 
na verdade - que o cercavam agora! Com os anos, crescera o seu desagrado por beatices, a ortodoxia que arvorara pelos sessenta anos, como usara suas, j de h 
muito a abandonara, deixando-lhe apenas trs cultos: o da beleza, o da correco pessoal e o sentimento da propriedade. E hoje, o maior desses cultos era o da beleza. 
Ele tinha, como sempre, amplos interesses, e podia ainda ler o Times, porm punha-o de lado todas as vezes em que ouvia o assobio de um melro. A correco e a propriedade 
muitas vezes eram fatigantes. Os melros e os crepsculos  que nunca o fatigavam - ao contrrio, davam-lhe o desagradvel sentimento de que os no poderia gozar 
bastante. Em p, na calma radiao da tarde, fitando as florinhas douradas e brancas da relva, um pensamento ocorrera-lhe: "Este campo parece-se com a msica de 
Orfeu que ouvi h poucos dias no Covent Garden. Uma bela pera, embora no se parea com Meyerbeer, nem mesmo com Mozart, porm quase to bonita,  sua maneira: 
algo clssica, com reminiscncias da Idade de Ouro, casta e suave". A Ravogli era "quase to boa quanto as dos bons tempos passados", e isso era o maior elogio que 
ele podia fazer. A saudade de Orfeu pela beleza que perdera, por aquele amor que devia levar para o Hades - para onde todo o amor e toda a beleza tm de ir na vida 
-, a saudade que cantava e pulsava em toda a dourada msica agitava-se tambm na luminosa beleza do mundo naquela tarde.
Com a ponta da bota solada de cortia, o velho tocou involuntariamente nas costelas do co Balthasar, era como se ordenasse ao animal que despertasse e catasse as 
suas pulgas, porque, embora ele as no tivesse, de espcie alguma, ningum o conseguia persuadir desse facto. Quando acabou, o co esfregou o lugar que andara a 
catar de encontro s pernas do dono e tornou a deitar-se, repousando o focinho naquela mesma bota que o incomodara. E ocorreu uma sbita lembrana ao esprito do 
velho Jolyon - um rosto que vira na pera h trs semanas atrs, Irene, a mulher do seu precioso sobrinho Soames, o Proprietrio.  verdade que nunca mais a encontrara 
depois do dia da recepo que oferecera na velha casa de Stanhope Gate, para comemorar o infeliz noivado de sua neta June com o jovem Bosinney, porm reconhecera-a 
imediatamente, porque sempre a admirara - uma moa realmente linda. Logo depois da morte do moo Bosinney, de quem ela criminosamente se tornara amante, ouvira dizer 
que Irene abandonara Soames. S Deus poderia saber o que tinha ela feito desde ento. E aquela viso do rosto da moa - de perfil, na fila da frente - fora, literalmente, 
a nica coisa que lhe demonstrara que ela continuara viva naqueles trs anos. Nunca ningum falara nela. E Jo dissera-lhe uma certa coisa que o transtornara completamente. 
George Forsyte contara a Jo que vira Bosinney perdido no fog, no dia do desastre, e percebera que havia algo que explicava o desespero do rapaz - um acto de Soames 
em relao  mulher, um acto vergonhoso. Jo vira-a tambm, naquela tarde, depois que as notcias j eram conhecidas - vira-a por um momento, e a descrio que fizera 
ainda estava presente no esprito do velho Jolyon. Jo dissera que ela parecia "selvagem e perdida". No dia seguinte, June, abafando os seus sentimentos, fora procurar 
a outra - e a criada informara-a, chorando, que a patroa desaparecera durante a noite. De qualquer modo, fora um assunto trgico. Uma nica coisa era certa: Soames 
nunca mais conseguira pr as mos na mulher. E ele estava a viver em Brighton, viajava para c e para l - bom destino para o Proprietrio, Porque, quando se desagradava 
de algum - como se desagradara do sobrinho -, o velho Jolyon nunca mais vencia essa averso. Lembrava-se bem do seu sentimento de alvio quando soubera do desaparecimento 
de Irene. Afligira-se quando imaginava Irene prisioneira daquela casa - como Jo a vira por um momento-, daquela casa para a qual voltara, como um animal volta para 
a furna, depois de ouvir, nos preges da rua, o sinistro cabealho dos jornais: "A morte trgica de um arquitecto." O rosto dela impressionara-o muito, quando a 
vira na pera estava mais bonita do que a recordava, porm semelhante a uma mscara, escondendo qualquer coisa sob aquele lindo exterior. Era ainda uma jovem - tinha 
vinte e oito anos. Ah, provavelmente j tinha agora outro amante. Porm a esse subversivo pensamento - porque mulheres casadas no devem ter amantes, e um amante,

362 - 363

portanto, j era de mais - o seu busto ergueu-se, e com ele a cabea do co Balthasar. O sagaz animal ficou de p e encarou o velho Jolyon. "Quer passear?", parecia 
dizer. E o velho Jolyon respondeu:
- Vamos, ande, companheiro!
Lentamente, como o faziam sempre, os dois caminharam por entre as constelaes de rannculos e margaridas e penetraram na ternery. Aquela plantao, embora ainda 
muito pouco crescida, fora feita judiciosamente muito abaixo do nvel do campo, a fim de dar a impresso de irregularidade, to importante em horticultura. As suas 
pedras e a sua terra eram a paixo do co Balthasar, que muitas vezes encontrava por l alguma toupeira. O velho Jolyon fazia questo de passar por ali, porque, 
embora aquilo ainda no fosse bonito, s-lo-ia algum dia, e ele gostava de pensar: "Preciso trazer Varr para c e mostrar-lhe isso,  melhor do que Beech." Pois 
as plantas, tal como as casas e os homens, necessitavam dos melhores cuidados de um especialista. O local era habitado por caracis, e quando andava acompanhado 
pelos netos o velho Jolyon gostava de apontar para um dos bichos e contar-lhes uma certa histria absurda, que falava num rapazinho, a sua me e uns caracis. E 
quando os pequenos saltavam e lhe agarravam as mos, pensando nos caracis, os olhos do velho piscavam, contentes. Emergindo da ternery, o velho Jolyon abriu a cancela 
que dava para o primeiro campo - uma rea ampla, com ares de parque, onde, entre muros de tijolo, a horta fora plantada. O velho Jolyon evitou-a e subiu a encosta 
que levava ao lago. Balthasar, que j vira por ali ratos-d'gua, pulou  frente, com o andar caracterstico de um co j velho que toma todos os dias o mesmo caminho. 
Ao chegar  margem, o velho Jolyon parou, reparando que mais um lrio-d'gua abrira desde a vspera: queria mostr-lo no dia seguinte a Holly, quando a sua pequerrucha 
se houvesse restabelecido das clicas provocadas por um tomate que comera ao almoo-ela era muito delicada de estmago. Agora que Jolly j fora para a escola, Holly 
passava com o av quase todo o dia, e ele sentia-lhe terrivelmente a falta. Sentia tambm aquela dorzinha impertinente, que frequentemente o incomodava, nestes ltimos 
tempos, uma picada profunda no lado esquerdo. O velho olhou para baixo da encosta.

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Realmente, o pobre moo Bosinney realizara um magnfico trabalho quando construra aquela casa! Ter-lhe-ia servido muito, se ele houvesse vivido! E onde estaria 
agora, o pobre? Talvez vagueando ainda por ali, pelo local do seu ltimo trabalho, o local dos seus trgicos amores. Ou ter-se-ia o esprito de Philip Bosinney dissolvido 
pelas coisas? Quem o poderia dizer? O cachorro enfiara as pernas na lama! E o velho caminhou em direco ao bosque. L, havia deliciosas moitas de campnulas azuis, 
e ele sabia de algumas que pareciam pequenos retalhos de cu cados entre as rvores, fugidos do sol. Passou pelo estbulo, pela capoeira, tomou um caminho que serpeava 
por entre os renovos densos, nos quais j se enredavam as campnulas. Balthasar, de novo tomando-lhe a frente, estacou e soltou um uivo baixo. O velho Jolyon empurrou-o 
com o p, porm o co manteve-se imvel, como se no visse mais espao  frente para andar, e os plos arrepiavam-se-lhe no dorso. Talvez por causa do uivo, ou dos 
plos arrepiados do co, ou devido  sensao que em geral os homens sentem nos bosques, o velho Jolyon tambm sentiu qualquer coisa percorrer-lhe a espinha. Depois 
viu que na volta do caminho, onde havia um velho tronco derrubado, estava sentada uma mulher. Tinha o rosto voltado para o outro lado, e o velho teve exactamente 
o tempo de pensar: " uma intrusa. Preciso mandar fazer uma cerca aqui", antes que ela se voltasse. Deus do Cu! Era o rosto que ele vira na pera - a mesma mulher 
em que estivera a pensar! Na confuso do momento, o velho Jolyon enxergara as coisas confusas como se a moa fosse um fantasma - graas talvez ao estranho efeito 
de luz que o sol provocava no seu vestido de seda de um lils acinzentado. Ela ento ergueu-se e ficou de p, sorrindo, com a cabea ligeiramente inclinada.
O velho Jolyon pensou: "Como  bonita!" A moa no falou, nem ele. E ele descobria o porqu desse silncio, com uma vaga admirao. Ela estava ali, indubitavelmente, 
por amor de uma certa memria, e no procurava negar o facto ou disfar-lo atravs de qualquer explicao vulgar.
- No deixe esse cachorro tocar no seu vestido - disse ele afinal. - Est todo enlameado. Venha c, Balthasar!
Mas Balthasar caminhou em direco  visita, que estendeu a mo e lhe acariciou a cabea. O velho Jolyon falou rapidamente:

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- Vi-a na pera, outro dia, mas voc no me notou.
- Oh, sim, bem o vi!
Ele sentiu uma lisonja subtil naquilo, como se ela houvesse acrescentado: "Pode algum deixar de o ver?"
- Eles esto na Espanha - continuou abruptamente o velho. - Estou s, por isso fui  pera,. A Ravogli  boa. Voc j viu o estbulo?
Numa situao to carregada de mistrio e de algo muito parecido com emoo, ele dirigia-se instintivamente para aquele refgio da propriedade, e ela caminhou ao 
seu lado. O vulto da moa ondulava ligeiramente, como as mais requintadas silhuetas francesas, o seu vestido tambm era de uma espcie de cinzento francs. O velho 
notou dois ou trs fios prateados por entre aqueles cabelos cor de mbar - cabelos estranhos junto aos olhos escuros e quele rosto leitoso e plido. Um sbito olhar 
de lado que ela lhe atirou com os seus olhos de veludo perturbou-o intensamente. Aquele olhar parecia vir de longnquas profundezas, talvez de um outro mundo, ou, 
em todo o caso, de algum que no vivesse muito na Terra. E ele disse, mecanicamente:
- Onde mora agora?
- Tenho um pequeno apartamento em Chelsea.
Ele no queria saber o que ela fazia., no queria ouvir nada, porm a palavra perversa veio-lhe aos lbios:
- S?
Ela acenou que sim. E aliviava-o saber disso. E ocorreu-lhe que, se no fora os acasos do destino, seria ela a dona daquele bosque e estaria a mostrar o estbulo 
a ele, que seria o visitante.
- So todas Alderneys - murmurou o velho. - Do um leite excelente. Olhe como esta  bonita! Anda, Myrtle!
A vaca cor de cora, com os olhos to escuros e suaves quanto os de Irene, mantinha-se em p, pois fora havia pouco ordenhada. Olhava para eles directamente, com 
os seus olhos lustrosos, meigos, cnicos, e dos beios cinzentos escorria-lhe um fio de saliva que caa sobre a palha. Um cheiro de feno, baunilha e amnia subia 
do cho do estbulo, agora quase escuro e frio, e o velho Jolyon disse:

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- Voc deve subir e jantar comigo. Depois levo-a a casa no carro.
Percebeu que uma 'luta se travava nela, 'luta natural, decerto, em vista das recordaes que a possuam. Porm desejava-lhe a companhia, um lindo rosto, um corpo 
encantador - beleza! Passara a tarde s. E talvez os olhos dela estivessem um pouco ansiosos quando respondeu:
- Obrigada, tio jolyon. Vou gostar de ficar. Ele segurou-lhe as mos e disse:
- ptimo! Ento vamos para casa!
E, precedidos pelo co Balthasar, subiram a encosta. O Sol estava-lhes quase ao nvel do rosto, e ele conseguia ver no s os fios prateados, como pequeninos traos, 
profundos bastante para marcarem a beleza dela com certo risco de finura - e o olhar especial daqueles cuja vida no  partilhada com outros. "Vou lev-la pelo terrao", 
pensava o velho. "No a tratarei como uma visita comum."
- Em que  que voc se ocupa? - perguntou ele.
- Ensino msica. Tenho tambm um outro trabalho.
- Trabalho! - exclamou o velho Jolyon, apanhando a boneca do balouo e alisando-lhe a sainha preta. - No como este, creio eu, pois eu no fao nada agora. Em que 
outro trabalho falou voc?
- Procuro ajudar as mulheres que andam por a a penar. O velho Jolyon no compreendeu bem. E repetiu:
- A penar?
Depois compreendeu, com um choque, que ela dava  expresso o significado que ele prprio daria, se a empregasse. Ajudando as Madalenas de Londres! Que cansativo 
e terrfico interesse! E a curiosidade, vencendo a sua reserva natural, f-lo perguntar:
- Porqu? Que  que voc faz por elas?
- No fao muito. No tenho dinheiro para gastar. Em geral, s posso dar-lhes compaixo e, algumas vezes, comida.
Involuntariamente, a mo do velho Jolyon segurou a bolsa. E ele disse rapidamente:
- Onde  que voc as descobre?
- Frequento um hospital.
- Um hospital! Irra!

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- O que mais me comove  que, mesmo l, quase todas mantm ainda uma espcie de beleza.
O velho Jolyon apertou a boneca.
- Beleza! - exclamou. - Ah, sim! Assunto triste! - E caminhou em direco  casa.
Atravs da ampla sacada, cujos estores ainda no haviam sido erguidos, ele precedeu a moa na sala onde antes estivera, tentando ler as notcias do Times e percorrendo 
uma revista de agricultura, ilustrada com gravuras de flores, donde Holly tirava modelos para as suas tentativas de pintura.
- O jantar ser servido dentro de meia hora. Voc h-de querer lavar as mos. Vou lev-la ao quarto de June.
Ele viu-a olhando intensamente em torno. Que mudanas deveria haver ali depois que ela visitara a casa, em companhia do marido ou do amante, ou talvez de ambos! 
Quem o saberia? Tudo isso era escuro, e estimava deix-lo assim. Porm quanta mudana! E, ainda no hall, o velho disse:
- Meu filho Jo  pintor, voc deve saber. E tem um gosto excelente. No o herdou de mim, naturalmente, mas deixei-o seguir o seu caminho.
Ela deixara-se estar de p, imvel, os olhos percorrendo o hall e a sala de msica, tal como eram agora, mergulhados na luz do crepsculo. O velho Jolyon teve uma 
engraada impresso. Estaria a moa tentando conjurar algum de entre as sombras daquelas salas, cujas paredes eram pintadas de cor de prola e prata? Ele teria 
preferido ouro. Era mais slido e vivo. Porm Jo tinha um gosto francs, de modo que as paredes tinham ficado daquela cor sombria, que dava um efeito semelhante 
ao fumo dos cigarros que o rapaz estava sempre a fumar - efeito quebrado aqui e ali por uma nota azul ou carmesim. No, aquilo no era o seu sonho! Mentalmente, 
via as paredes da casa cobertas com todas aquelas obras-primas. em naturezas-mortas, emolduradas de ouro, que ele comprara nos dias em que a quantidade ainda era 
preciosa. E agora onde estavam elas? Vendidas por uma ninharia! E isso porque aquele factor ntimo que o fizera, sozinho entre os Forsyte, acompanhar a marcha do 
tempo, demovera-o de travar uma luta para as defender.

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No seu escritrio, porm, ainda estava o quadro Barcos de Pesca Holandeses ao pr-do-Sol.
- So aqui as casas de banho - disse ele. - E outras comodidades. Mandei pr azulejos em tudo. As salas das crianas vm depois. E tambm os quartos de Jo e da mulher. 
Comunicam-se entre si. Porm creio que voc se lembra de tudo.
Irene fez sinal que sim. Eles atravessaram a galeria e entraram numa ampla sala com uma pequena cama e muitas janelas.
- Este  o meu quarto. - As paredes estavam cobertas com retratos dos garotos e quadros de aguarela, e o velho disse, em ar de dvida: - So de Jo. A vista  de 
primeira ordem. Pode-se ver at o Grand Stand de Epson quando o tempo est bom.
O Sol j se pusera, por trs da casa, mas uma espcie de nevoeiro luminoso cobria tudo, como uma emanao do grande e glorioso dia. Viam-se algumas casas, para alm 
dos campos e das rvores que ainda se recortavam fracamente no vale, que parecia mais distante.
- O campo est sempre a mudar - disse ele abruptamente-, mas ainda ficar aqui quando ns todos formos embora. Olhe para aqueles tordos. Os pssaros so maravilhosos 
aqui, pelas manhs. Sinto-me satisfeito por ter lavado as mos de Londres e das suas pompas.
O rosto dela estava encostado  folha da janela, e ele sentiu-se abalado pelo seu ar tristonho. "Se eu pudesse fazer que ela parecesse contente! Um rosto lindo, 
mas triste." E, apanhando o seu jarro de gua quente, caminhou atravs da galeria.
- Este  o quarto de June - disse ele, abrindo a primeira porta e depondo o jarro. - Espero que voc encontre tudo de que precisar.
E, fechando a porta por trs de Irene, voltou para o seu quarto. Escovando os cabelos com as grandes escovas de bano e molhando a fronte em gua-de-colnia, ele 
meditava. Ela viera to estranhamente, numa espcie de visita misteriosa, at mesmo romntica, como se o seu desejo por beleza, por companhia, fosse satisfeito por 
quem quer que se ocupe em satisfazer essa espcie de coisas. E, mirando-se no espelho, endireitou o corpo ainda firme,

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alisou com a escova os grandes bigodes brancos, molhou as sobrancelhas com gua-de-colnia e tocou a campainha.
- Esqueci-me de avisar que tenho uma senhora para jantar comigo. Mande preparar qualquer coisa extra e diga a Beacon que prepare o carro s dez e meia para a levar 
de volta  cidade. Miss Holly est a dormir?
A criada achava que no. E o velho Jolyon, atravessando a galeria, penetrou na ponta dos ps na nursery, cujos trincos mandava que estivessem bem oleados, a fim 
de poder entrar l  noite sem fazer barulho.
Porm Holly realmente dormia, deitada na cama, como uma Madona em miniatura, pois pertencia quele tipo que os velhos pintores nunca puderam dar a Vnus.
Os longos clios escuros sombreavam-lhe as faces e tinha no rosto um ar de paz perfeita - evidentemente a sua doena j estava inteiramente debelada. E o velho Jolyon, 
na meia luz do quarto, deixava-se estar de p, adorando a neta. Era to encantadora, to solene e adorvel aquela carinha! Ele tirava da vida mais que o seu quinho, 
graas quela sua bendita capacidade de viver novamente nos jovens. Representavam para ele a sua vida futura. Talvez a nica vida futura que o seu sadio paganismo 
fundamental admitisse. Ali estava ela, com tudo que vivera antes dela e o sangue do av - parte dele, pelo menos - nas suas veias franzinas. L estava a sua pequenina 
companheira, destinada a ser to feliz quanto o velho pudesse contribuir para isso - a sua pequerrucha que no conhecia nada mais alm do amor. O seu corao intumesceu, 
e ele saiu do quarto pisando novamente nas pontinhas de cortia das botas. No corredor, um pensamento extravagante assaltou-o: "E pensar que esta criana pode vir 
a ser uma das criaturas que Irene diz estar a ajudar. Porque tais mulheres foram todas iguais a essa coisinha que est a dormir ali. Tenho de dar um cheque a Irene" 
continuou ele. No suportava pensar nessas mulheres! Nunca lhe haviam merecido uma meditao mais detida, pobres rebotalhos humanos, feriam profundamente de mais 
o verdadeiro refinamento do velho, escondido sob as camadas de conformismo ao sentimento de propriedade, feriam dolorosamente o que havia de mais profundo nele - 
aquele amor da beleza que, ainda hoje,

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lhe fazia palpitar o corao ante a perspectiva do sero passado em companhia de uma linda mulher. E ele desceu a escada, atravessou as portas de molas, at chegar 
s regies de baixo. L, na adega, havia um vinho de pelo menos duas libras a garrafa, um Steinberg Cabinet. melhor do que qualquer Johannsberg, um vinho de bouquet 
perfeito, doce como nctar, e realmente um nctar! Apanhou uma garrafa, segurando-a como a um recm-nascido, e ergueu-a at  luz, para lhe ver a transparncia. 
Coberta da sua veste de poeira, a garrafa de gargalo longo e cor de mel deu-lhe uma profunda sensao de prazer. Trs anos de repouso, desde que fora trazida da 
cidade - devia estar em excelentes condies! Comprara-a trinta e cinco anos atrs - graas a Deus conservava o seu paladar, e tinha portanto o direito de beber 
daquilo.
Irene apreciaria aquele vinho, nunca se apercebera o menor travo cido em toda a dzia, limpou a garrafa, desarrolhou-a com as suas prprias mos. cheirou-a, aspirou-lhe 
o perfume e subiu para a sala de msica.
Irene estava em p junto ao piano, tirara o chapu e o vu de rendas com que viera, de forma que os seus cabelos dourados estavam visveis, assim como a palidez 
da nuca. E, vestida no seu vestido cinzento, encostada ao piano de pau-rosa, realizava um lindo quadro aos olhos do velho Jolyon.
Ele ofereceu-lhe o brao e ambos caminharam solenemente para a sala de jantar - sala que, projectada para abrigar sem incmodo vinte e quatro convivas, no apresentava 
preparada seno uma pequena mesa redonda. Na sua presente solido, a grande mesa de jantar oprimia o velho Jolyon, mandara, pois, remov-la at que o filho voltasse. 
E ali, em companhia de duas excelentes cpias de Madonas de Rafael, costumava jantar sozinho. E era a nica hora triste do seu dia, durante aquele Vero. Ele nunca 
fora um grande comedor, tal como o gigantesco Swithin, ou Sylvanus Heythorp, ou Anthony Tornworthy, que haviam tido a sua crnica, em tempos passados, e jantar sozinho, 
acompanhado pelas Madonas, constitua para o velho uma penosa ocupao, de que procurava desobrigar-se rapidamente, a fim de se entregar ao entretenimento mais espiritual 
do caf e dos charutos. Porm naquela noite tudo era diferente! Os seus olhos piscaram para a moa,

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atravs da pequena mesa, e ele falou da Itlia e da Sua, contando-lhe as histrias das suas viagens por l e outras experincias que j no podia repetir ao filho 
e  neta, porque j as conheciam. Aquela audincia nova era-lhe preciosa,  que ele nunca chegara a ser um desses velhos que vivem a rondar e a escavar eternamente 
os campos das reminiscncias. Ele prprio rapidamente se fatigava, e instintivamente evitava fatigar os outros, e, alm disso, a sua natural atitude de galanteio 
para com qualquer bonita mulher protegia-o especialmente nas suas relaes com senhoras. Gostaria de se aproximar mais dela, porm, enquanto ela sorria e parecia 
divertir-se com o que ele lhe contava, o velho Jolyon no perdia a impresso de misteriosa distncia que constitua metade da fascinao de Irene. Ele no suportava 
as mulheres que se atiram para os homens e pem-se a tagarelar  toa, ou mulheres bem-falantes, que querem entender de tudo melhor do que os homens. Havia uma nica 
qualidade que o atraa nas mulheres: o encanto. Quanto mais silenciosa fosse a mulher, mais a apreciava. E Irene tinha encanto, um encanto sombreado de tristeza, 
como aquelas colinas e vales da Itlia que ele tanto amara, mal clareados pela luz da tarde. O pensamento de que ela vivia isolada, enclausurada, fazia-a mais prxima, 
uma companhia estranhamente desejvel. Quando um homem est muito velho, afastado de qualquer competio, gosta de sentir que o que ele ama est a coberto das rivalidades 
dos jovens, porque ainda quer ser o primeiro no corao da beleza. Ele bebeu pois o seu vinho, enxugou os lbios, e sentiu-se quase moo. E o co Balthasar, deitado 
aos seus ps, tambm enxugava os beios, desprezando no fundo do corao as interrupes da conversa e o tilintar daqueles copos esverdeados cheios de um lquido 
dourado cujo sabor lhe era desagradvel.
A luz estava quase consumida quando voltaram  sala de msica. Com o charuto na boca, o velho Jolyon disse:
- Toque um pouco de Chopin.
Pelos charutos que fumam e pelos compositores que amam, vs podeis compreender a contextura da alma dos homens. O velho Jolyon no podia suportar um charuto forte 
nem a msica de Wagner. Ele amava Beethoven e Mozart, Haendel e Gluck,

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Schumann, e, por qualquer obscura razo, as peras de Meyerbeer, nos ltimos anos deixara-se seduzir por Chopin, tal como em pintura sucumbira por Boticelli. E, 
condescendendo com esses gostos, compenetrara-se das suas divergncias para com o padro criado pela Idade de Ouro. A poesia dessa idade no era a de Milton, de 
Byron ou de Tennyson, de Rafael ou Ticiano, Mozart e Beethoven. Escondia-se por trs de um vu. A poesia dela no atingia ningum na face, mas deslizava os dedos 
pelas costelas e virara-se, torcia-se, derretia o corao. E o velho Jolyon, sempre incerto quanto  integridade daquilo, nunca lhe deu importncia enquanto pde 
contemplar as pinturas de um e ouvir a msica de outro.
Irene sentou-se ao piano, sob a lmpada elctrica coberta por um quebra-luz de um cinzento prola, e o velho Jolyon, numa cadeira de braos donde podia v-la, cruzou 
as pernas e acendeu lentamente o charuto. Irene ficou um momento imvel com as mos nas teclas, evidentemente procurando o que iria tocar. Depois comeou, e dentro 
do velho Jolyon cresceu uma dolorosa sensao de prazer, que realmente no se assemelhava a nada mais no mundo. E ele caiu suavemente num transe, interrompido apenas 
pelo movimento de tirar e levar o charuto  boca, em longos intervalos. Irene estava ali. e dentro dele agiam o vinho generoso e o perfume do fumo, mas estava ali 
tambm um mundo de luz do sol que aos poucos se transformava em luar, e um lago povoado de cegonhas, e rvores azuladas rodeando-o, manchadas de rosas vermelhas, 
e campos de alfazema onde vacas cor de leite pastavam. E uma mulher toda em sombras, com os olhos escuros e o pescoo branco, sorria, estendendo os braos. Atravs 
do ar, que era como msica, uma estrela caa e era apanhada nos chifres de uma das vacas. O velho abriu os olhos. Linda pea. Ela tocava bem - tinha dedos de anjo. 
Fechou novamente os olhos. Sentia-se agora miraculosamente triste e feliz, de p sob uma limeira coberta de flores cheirando a mel. No desejava mais viver a sua 
prpria vida, porm continuar apenas ali, apanhar o sorriso de uma mulher e gozar-lhe a fragrncia. Sacudiu as mos, o co Balthasar alcanara-as e lambia-as.
- Lindo! - exclamou o velho. - Por favor, mais Chopin. Irene tornou a tocar mais. Dessa vez a semelhana que havia entre ela e Chopin impressionou-o.

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A ondulao que lhe notara no andar tambm se via no seu modo de tocar, no Nocturno que ela escolhera, no castanho macio dos seus olhos, na luz que lhe irradiava 
dos cabelos, como o luar de uma Lua de ouro, sim, sedutora. Porm no havia nada de Dalila nela nem na sua msica. Uma longa espiral azul, sada do charuto, ergueu-se 
no ar e perdeu-se. "Agora chega!)' pensou ele. "Basta da beleza!" Irene parou novamente.
- O senhor quer ouvir um pouco de Gluck? Ele gostava de compor num jardim banhado de sol, com uma garrafa de vinho do Reno ao lado.
- Ah, sim. Toque o Orfeu.
Em torno dele, agora, agitavam-se campos de flores de ouro e prata, brancas formas inclinando-se ao sol, pssaros brilhantes voando em todos os sentidos. Era pleno 
Vero. Ondas luminosas de doura e saudade banharam-lhe a alma. Caiu do charuto um pouco de cinza, e, apanhando o leno de seda para a sacudir, ele inalou um cheiro 
de gua-de-colnia e rap. "Ah", pensou. "A fora do Vero- o que !" E disse:
- Voc tocou o Che faro.
Ela no respondeu, nem se moveu. Ele estava consciente de qualquer coisa - de algum estranho derramamento. De sbito viu-a erguer-se e voltar-se, e uma angstia 
de remorso feriu-o. Que estpido fora! Naturalmente ela, igual a Orfeu, estava tambm  procura do seu amor mrbido. E, perturbado no ntimo do corao, o velho 
levantou-se da poltrona. Ela caminhara para a grande sacada do fundo. Cautelosamente, seguiu-a. Irene apertava as mos sobre o peito. Ele apenas podia ver-lhe as 
faces, muito brancas. E, profundamente emocionado, falou:
- Ento, ento, minha querida!
As palavras tinham-lhe escapado mecanicamente, porque eram as que usava com Holly quando ela se magoava. Porm, o efeito, desta vez, foi instantaneamente aflitivo: 
ela levantou os braos, escondeu neles o rosto e ps-se a chorar.
O velho Jolyon ficou ali, a fit-la com os olhos que os anos haviam tornado mais profundos. Ela parecia sentir uma vergonha apaixonada pelo seu abandono, to diferente 
do seu autodomnio

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e da sua calma habituais: era como se nunca se houvesse descoberto diante de um outro ser humano.
- Ento, ento, ento! - murmurava o velho. E, erguendo reverentemente a mo, tocou-a. Ela voltou-se e encostou nele os braos onde escondia o rosto. O velho Jolyon 
continuou, muito direito, a segurar-lhe uma das mos que se lhe pousara no ombro. Deix-la chorar  vontade! Haveria de lhe fazer bem. E o co Balthasar, intrigado, 
sentou-se sobre as patas traseiras para o examinar.
A janela ainda estava aberta, as cortinas no haviam sido descidas e o resto de luz do dia misturava-se ainda  luz de dentro da sala. Havia no ar um cheiro de relva 
nova. Com a sabedoria de uma longa vida, o velho Jolyon no falava. A prpria dor consome-se a si mesma com o tempo, e s o tempo  bom para as Tristezas, o tempo 
que assiste  passagem de todo o sentimento, de toda a emoo, cada um por sua vez, o tempo, o leito do repouso. E vinham-lhe ao esprito estas palavras: "Como arqueja 
o cervo sob a linfa refrescante."
Porm elas no lhe serviam ali. Depois, sentindo um perfume de violetas, compreendeu que Irene estava a enxugar os olhos. Levantou-lhe o queixo, encostou-lhe o bigode 
 testa, e sentiu que ela estremecia, num arrepio de todo o corpo, como uma rvore que se sacode das gotas de chuva. E ela levou a mo dele aos lbios, como se dissesse: 
"Agora acabou! Desculpe!"
O beijo encheu-o de uma estranha consolao. Levou-a para onde ela estava antes. O co Balthasar, seguindo-os, abandonou nos ps da moa um osso de uma das costeletas 
que eles haviam comido.
Ansioso por apagar a lembrana daquela comoo, a melhor distraco que o velho achou, no momento, foi mostrar-lhe os seus bibelots, e, caminhando com ela lentamente, 
de armrio em armrio, tirava peas de Dresden, Lowestoft e Chelsea, volteando-as nas suas mos magras, riscadas de veias, cuja pele polvilhada de sardas tinha tambm 
um ar de velhice.
- Comprei isso no Jobson's, Custou trinta libras.  muito antigo. Este cachorro leva os ossos que ri para toda a parte. Este vaso antigo, adquiri-o no leilo do 
marqus, quando se deu o desastre dele.

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Mas voc no pode lembrar-se.  uma linda pea de Chelsea. E agora, que  que diz que isto ? - E sentia-se consolado pensando que, graas ao seu bom gosto, ela 
deveria estar a tomar um interesse real naquelas coisas. Porque, afinal de contas, no h nada que acalme melhor os nervos do que uma bela porcelana.
Quando se ouviu o rudo das rodas do carro, ele disse:
- Deve voltar outras vezes. Deve vir almoar, porque quero mostrar-lhe tudo  luz do dia, e quero que veja a minha pequerrucha.  um amor. Este cachorro parece que 
se apaixonou por si.
Porque Balthasar, sentindo que ela se preparava para partir, estava a esfregar-se contra as pernas da moa. E caminhando at  porta, a acompanh-la, o velho Jolyon 
disse ainda:
- O carro vai p-la em casa dentro de uma hora e um quarto. Tome isso para as suas protegidas. - Meteu-lhe na mo um cheque de cinquenta libras. Viu os olhos dela 
brilharem, e ouviu-a murmurar: "Oh, tio Jolyon!" E uma onda autntica de prazer possuiu-a. Aquilo significava um pouco de auxlio para umas duas ou trs pobres criaturas, 
e significava que ela voltaria ainda. Ele estendeu a mo para a janela do carro e segurou outra vez as mos de Irene. O carro partiu. O velho ficou em p, ao luar. 
entre as sombras das rvores, e pensava: "Que noite agradvel! Ela..."

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CAPTULO II.

Depois de dois dias de chuva, o Vero voltou, suave e ensolarado. O velho Jolyon passeava e conversava com Holly. A princpio sentira-se mais forte, cheio de um 
novo vigor: mas depois j se sentia cansado. Quase todas as tardes os dois entravam pelo bosque e caminhavam at ao tronco. "Bem, ela no est aqui", devia pensar 
o velho. "Naturalmente no est!. E sentia-se um pouco diminudo. Arrastava os ps at  colina onde se erguia a casa, com a mo pousada no lado esquerdo. E mais 
uma vez assaltava-o este pensamento: "Ser que ela veio realmente? Ou foi sonho meu?" E parava de vez em quando, e o co Balthasar parava junto dele. Naturalmente 
ela no voltaria! Abria com menos excitao as cartas vindas da Espanha. Eles no voltariam antes de Julho, e o velho sentia a singular sensao de que poderia muito 
bem suportar isso. Todos os dias, ao jantar, levantava os olhos e fitava longamente o lugar que Irene ocupara. Ela no estava ali. e ele acabava por afastar os olhos.
Na stima tarde, pensou: "Preciso de sair para comprar umas botinas." Deu ordens a Beacon e saiu. Passando por Putney, em direco a Hyde Park, o velho reflectiu: 
"Eu poderia ir a Chelsea. e v-la." E disse ao cocheiro:
- Leve-me at  casa daquela senhora que voc trouxe no outro dia.
O cocheiro virou o rosto vermelho e os seus grossos lbios perguntaram:

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- A senhora de cinzento, Mr. Forsyte?
- Sim, a senhora de cinzento.
Que outras senhoras tinham estado l? Sujeito idiota!
O carro parou diante de um pequeno bloco de apartamentos de trs andares, a pequena distncia do rio. Com o seu olhar entendido, o velho Jolyon viu logo que eram 
apartamentos baratos. Devem custar umas sessenta libras por ano", cogitou. E, entrando, olhou para o quadro de inquilinos, junto ao cubculo da porteira. No se 
via o nome " Forsyte w, mas junto ao primeiro andar, apartamento C, lia-se: "Mrs. Irene Heron." Ah! Ela voltara a usar o nome de solteira! E, de algum modo, aquilo 
agradou-lhe. Subiu lentamente a escada, sentindo a sua dor de lado voltar um pouco. Parou um momento, antes de tocar, para se restabelecer do resfolgar da subida. 
Ela no devia estar! E ento - as botinas. O pensamento era sombrio, para que queria ele botinas, na sua idade? No poderia sequer usar todas as que j possua.
- A sua patroa est em casa?
- Est, sim senhor.
- Diga-lhe que est aqui Mr. Jolyon Forsyte.
- Sim senhor. Quer acompanhar-me?
O velho Jolyon acompanhou a criadinha - que no teria mais de dezasseis anos - e entrou numa salinha de estar, cujas cortinas estavam ainda descidas. Havia l um 
piano, e, mesmo pequena, a sala cheirava bem e tinha um ar de bom gosto. Ele ficou em p no meio da salinha, com a cartola na mo, e pensava: "Quero crer que ela 
no est em muito boas condies."
Havia um espelho por sobre a lareira, e o visitante viu nele o seu prprio reflexo. Um pobre sujeito idoso. Ouviu um sussurro e voltou-se, ela estava to prxima 
que os seus bigodes quase lhe tocavam a fronte, bem sob os cabelos.
- Sa um pouco - disse ele. - Pensei em vir v-la e perguntar-lhe quando  que repete aquela noite de outro dia.
E, vendo-a sorrir, sentiu-se subitamente aliviado. Ela talvez sentisse prazer real em v-lo.
- Voc quer pr o chapu e ir comigo dar uma volta pelo parque?
Mas quando ela saiu para pr o chapu, ele franziu o cenho.

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O parque. James e Emily! Mrs. Nicholas ou qualquer outro membro da famlia provavelmente estariam l, rodando acima e abaixo. E naturalmente ficariam todos a dar 
 lngua, dizendo que os haviam visto, a ele e Irene. Seria melhor no ir! O velho Jolyon no queria reviver os ecos do passado na Bolsa dos Forsyte. Tirou um fio 
de cabelo branco da lapela da sua sobrecasaca abotoada alto, passou a mo pelo rosto, pelos bigodes, pelo queixo quadrado. Sentiu as faces encovadas. No estava 
a comer muito bem, ultimamente, seria talvez melhor procurar o mdico que tratara de Holly e pedir-lhe um tnico. Porm ela j voltara, e, depois de se sentarem 
no carro, ele disse:
- Que  que voc diz de irmos antes a Kensington Gardens e sentarmo-nos l? - E acrescentou, com um piscar de olhos, como se a moa estivesse no segredo dos seus 
pensamentos: - No andar ningum a passear para l e para c.
Deixando o carro, atravessaram as zonas selectas e caminharam directamente para a gua.
- Voc voltou a usar o seu nome de solteira - comentou o velho. - No me desagradou isso.
Ela enfiou-lhe a mo no brao.
- June perdoou-me, tio Jolyon? E ele respondeu gentilmente:
- Sim... sim, naturalmente, porque no?
- E o senhor?
- Eu? Eu perdoei-lhe imediatamente assim que soube de tudo. E talvez realmente isso fosse verdade. O seu instinto levava-o
sempre a perdoar a beleza.
Ela suspirou profundamente:
- Eu nunca me arrependi... No poderia. O senhor alguma vez amou profundamente, tio Jolyon?
Ante a estranha pergunta, o velho Jolyon fixou os olhos diante de si. Teria amado? No podia recordar se alguma vez isso lhe sucedera. Porm no gostaria de dizer 
aquilo  moa cuja mo tocava o seu brao e cuja vida estava suspensa da memria de um trgico amor. E pensava: "Se eu houvesse encontrado voc quando era jovem. 
eu... talvez tambm eu houvesse ficado louco..." E apoderou-se dele um ardente desejo de fugir para generalidades.

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- O amor  uma coisa singular--disse ele. - Muitas vezes uma coisa fatal. Foram os deuses, no foram?, que fizeram do amor uma deusa, tinham razo, mas eles viviam 
na Idade de Ouro.
- Phil adorava os Gregos.
Phil. A palavra abalou-o, to sbita irrompera. E, com a sua rpida percepo, o velho compreendeu depressa porque Irene lanara tal nome entre eles. Queria conversar 
a respeito do amante! Muito bem! Se isso lhe dava algum prazer! E disse:
- Ah! Suponho que havia nele um pouco de escultor.
- Sim. Ele gostava de equilbrio e simetria. Gostava da plenitude com que os Gregos se entregavam  arte.
Equilbrio! O rapaz nunca tivera nenhum equilbrio, se o recordava bem. E quanto a simetria... bom construtor, na verdade, fora ele, porm aqueles seus olhos singulares 
e as mas do rosto... Simetria?
- O senhor tambm  da Idade de Ouro, tio Jolyon.
O velho Jolyon encarou-a. Estaria a troar dele? No, os olhos dela estavam macios como veludo. Estaria a lisonje-lo? Mas porque o estaria? No havia nada a tirar 
de um velho diabo como ele.
- Phil tambm o pensava. Ele costumava dizer: "Mas nunca poderei dizer-lhe quanto o admiro."
Ah! E essa, agora. O amante morto. O desejo dela de falar nele! E o velho apertou-lhe o brao, meio ressentido por aquelas lembranas, meio grato, como se reconhecesse 
que havia um vnculo entre ela e ele. E o desejo de fortificar aquele lao. se o pudesse, f-lo dizer:
--Suponho que ele se mostrou a voc sob um aspecto que eu nunca vi. Voc deve t-lo conhecido pelo seu lado melhor. As ideias dele a respeito de arte eram um pouco 
novas... para mim. - Engolira a palavra "burlescas".
- Sim. Porm ele costumava dizer que o senhor tinha um senso real da beleza.
O velho Jolyon pensou: "Para o diabo o que ele disse!" Mas respondeu com um piscar de olhos:
- Devo ter, seno no estaria aqui ao seu lado.
Ela era fascinante quando sorria com os olhos, como agora!

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- Ele dizia que o senhor tem um desses coraes que nunca ficam velhos. Phil era realmente muito perspicaz.
Ele no se deixava apanhar por aquelas lisonjas tiradas do passado, tiradas talvez do desejo de falar no morto amado, no, nem um pouco. Mas, mesmo assim, era uma 
preciosa sensao ouvi-la, porque ela agradava-lhe aos olhos e ao corao, que, realmente, nunca ficara velho. E era por causa disso que, ao contrrio dela e do 
seu amante morto, ele nunca fora capaz de amar desesperadamente, sempre conservara o seu equilbrio, o seu senso de simetria. E ainda bem! Porque, graas a isso, 
aos oitenta e quatro anos ainda era capaz de admirar a beleza! E pensava: "Se eu fosse um pintor ou um escultor... Mas sou apenas um velho. Corta o feno enquanto 
o sol brilha!"
Um par de braos enlaados passou por eles, no relvado defronte,  margem de uma sombra que uma rvore lanava no cho. A luz do sol banhou cruelmente as plidas 
e magras faces
dos jovens.
- Casal feio! - disse subitamente o velho Jolyon. - Sempre me surpreendeu ver como o amor triunfa sobre isso!
- O amor triunfa sobre tudo!
- Os jovens assim o pensam - murmurou ele.
- O amor no tem idade, nem limite, nem morte.
Com o sangue que lhe subira  face plida, a respirao forte, os olhos grandes, escuros e meigos, ela parecia Vnus nascendo para a vida. Porm aquela extravagncia 
trouxe uma reaco instantnea, e, piscando novamente os olhos, o velho disse:
- Bem, se o amor tivesse limites, ns no teramos nascido, porque, coa breca, h muito sofrimento que suportar!
E ento, tirando a cartola, escovou-a com a manga do casaco. Aquela torre de seda aquecia-lhe a testa, e ele ultimamente andava a sentir um afluxo de sangue maior 
 cabea: a sua circulao j no era o que fora antes.
Irene ficara de p, olhando fixamente  sua frente, e subitamente murmurou:
-  realmente estranho que eu ainda esteja viva.
As palavras que Jo dissera a respeito dela, "selvagem perdida", ocorreram ao velho Jolyon.

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- Ah - falou ele. - Meu filho viu-a por um momento., naquele dia.
- Era o seu filho? Ouvi realmente uma voz no hall. E durante um segundo pensei que fosse... Phil.
O velho Jolyon viu que os lbios da moa tremiam. Ela cobriu-os com a mo, voltou a caminhar e continuou calmamente:
- Naquela noite eu fui ao Embankement, uma mulher agarrou-me pela saia e falou-me sobre a sua vida. Quando a gente v quanto os outros tambm sofrem, fica envergonhada.
- Uma daquelas mulheres?
Ela fez sinal que sim e um sentimento de horror agitou-se dentro do velho Jolyon, o horror de algum que nunca conheceu a luta contra o desespero. E, quase contra 
vontade, murmurou:
- Conte tudo, sim?
- Eu no me importava de morrer nem de viver. Mas quando a gente est nesse estado, o Destino resolve no nos matar. Aquela mulher tomou conta de mim durante trs 
dias - nem um momento me abandonou. Eu no tinha dinheiro.  por isso que, agora, fao tudo o que posso por elas.
Mas o velho Jolyon ainda estava a pensar. "Sem dinheiro! Que desgraa pode comparar-se a isso? Todas as outras desgraas esto includas nesta."
- Gostaria que me houvesse procurado - disse ele. - Porque no o fez?
Porm Irene no respondeu.
- Porque o meu nome  Forsyte, talvez? Ou foi June que a expulsou? E porque apareceu agora?
E involuntariamente percorreu-lhe o corpo com os olhos. Talvez mesmo agora ela estivesse... E na verdade ela estava magra... no, com efeito!
- Oh, com as minhas cinquenta libras por ano, eu tenho o bastante para viver.
A resposta no o tranquilizou: ele perdera a confiana. Que sujeito, aquele Soames! Porm o seu sentimento de justia deteve-lhe nos lbios a condenao. No, ela 
decerto preferiria morrer a receber um penny "dele". Por mais meiga que se mostrasse, deveria haver energia escondida nela - energia e fidelidade Tambm,

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para que diabo aquele moo Bosinney desaparecera assim, deixando-a to desamparada?
- Bem, agora deve recorrer a mim, para tudo o que precisar, ou eu ficarei desesperado - falou o velho. E, pondo o chapu, ergueu-se. - Venha comigo, vamos tomar 
um pouco de ch. Eu disse ao preguioso do meu cocheiro que fizesse os cavalos andarem uma hora e ir depois esperar-me  sua porta. Vamos tomar um cab. J no posso 
andar como andava.
Saboreava aquele passeio at ao fim do jardim - gozava o som da voz dela, o brilho dos seus olhos, a subtil beleza daquela silhueta encantadora que caminhava a seu 
lado. Apreciou extremamente tambm aquele ch tomado no Ruffel's, em High Street, e voltou de l com uma grande caixa de chocolates pendendo do dedo mnimo. Saboreou 
a volta de carro at Chelsea, enquanto fumava o seu charuto. Ela prometera tornar a aparecer no prximo domingo e tocar de novo para ele, e em pensamento ele j 
estava a colher braadas de cravos e rosas vermelhas para ela trazer de volta. Era um prazer proporcionar algum pequeno prazer a Irene - se ainda havia prazeres 
para um homem to velho como ele! A sua carruagem j estava l quando eles chegaram. Era mesmo coisa daquele sujeito, que, quando era preciso, chegava sempre atrasado! 
O velho Jolyon entrou um instante para se despedir. O pequeno hall do apartamento estava impregnado de um cheiro desagradvel de patchuli, e num banco encostado 
 parede - a sua nica moblia - ele viu um vulto. Ouviu Irene dizer baixinho: "Espere um momento." Na pequena sala de estar, depois que a porta se fechou, ele perguntou 
gravemente:
-  uma das suas protegidas?
- . Agora, graas ao senhor, posso fazer qualquer coisa em benefcio delas.
Ele ficou imvel, de p, passando a mo pelo queixo, que j perdera muito do seu aspecto enrgico. O pensamento de que ela, ainda agora, vivia em contacto com aquele 
rebotalho humano, magoava-o, assustava-o. Que podia Irene fazer por elas? Nada. S dar que falar, e atormentar-se, talvez. E o velho disse:
- Tome cuidado, minha querida! O mundo tira de tudo as piores concluses.

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- Eu sei isso.
Ele sentiu-se confundido pelo seu calmo sorriso.
- Ento... at domingo - murmurou. - Adeus. Ela estendeu-lhe a face para que ele a beijasse.
- Adeus - repetiu o velho Jolyon. - Tome cuidado.
E saiu, sem olhar para o vulto que esperava no banco. Voltou para casa pelo caminho de Hammersmith, porque queria parar em certo lugar para encomendar dzias do 
melhor Borgonha. Ela gostaria de provar qualquer coisa de vez em quando!
S em Richmond Park se lembrou de que viera  cidade para encomendar umas botinas, e surpreendeu-se por ter alimentado to mesquinha preocupao.

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CAPTULO III.

Os pequenos espritos do passado, que povoam os dias dos velhos, nunca tinham aparecido to raramente quanto apareceram ao velho Jolyon nas setenta horas que precederam 
o domingo. O esprito do futuro, com o encanto do desconhecido, apareceu em lugar dos outros. O velho Jolyon j no estava inquieto, nem fazia visitas ao tronco, 
porque ela deveria vir almoar. Era uma maravilhosa finalidade para uma refeio, removia um mundo de dvidas, porque ningum perde refeies seno por razes de 
fora maior.
E jogou vrias partidas de bola com Holly, no jardim, obrigando-a a arremetidas fortes, treinando-a para jogar com Jolly durante as frias. Porque ela no era uma 
Forsyte, e Jolly era-o, e os Forsyte nunca so batidos, nem mesmo quando j se aposentaram e atingem a idade de oitenta e cinco anos. O co Balthasar, enquanto isso, 
deitava-se sobre a bola todas as vezes que podia.
E, como o tempo ia encurtando, cada dia era mais comprido e mais ensolarado do que o anterior. Na sexta-feira  noite, o velho Jolyon tomou uma plula para o fgado, 
porque sentia maior a sua dor de lado, e, embora esse lado no fosse o do fgado, no conhecia remdio melhor que aquele. Quem quer que se atrevesse a dizer-lhe 
que ele encontrara um novo excitante na vida, e que tal excitante no lhe devia ser saudvel, poderia contar com um dos duros olhares de desafio dos seus profundos 
olhos cor de ao,


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que pareciam dizer: "Eu sei melhor da minha vida que voc." Sempre o soubera e sempre o haveria de saber.
No domingo pela manh, depois de Holly ter sado para a igreja acompanhada da governanta, ele encaminhou-se para os canteiros de morangos. L, acompanhado pelo co 
Balthasar, examinou minuciosamente as plantas e conseguiu descobrir duas dzias de morangos que na verdade estavam bem maduros. Mas no se sentia bem quando ficava 
parado muito tempo, e o sangue comeou a subir-lhe  cabea e a entontec-lo. Depois de pr os morangos num prato, na mesa de jantar, lavou as mos e banhou a testa 
com gu'a-de colnia. L, diante do espelho, verificou que estava a emagrecer. Que magricela fora quando rapaz! Era agradvel ser delgado - ele no podia suportar 
um camarada obeso: contudo, o seu rosto estava magro de mais!
Ela deveria vir pelo comboio das doze e meia, e subiria pela estrada que passava atrs do stio de Drage, entrando pelo fundo do bosque. E, depois de dar uma olhadela 
ao quarto de June, para ver se havia gua quente pronta, saiu ao encontro da amiga, vagarosamente, pois o seu corao estava a bater forte de mais. O ar era cheiroso 
e doce, as cotovias cantavam, e o Grand Stand de Epson estava visvel. Um dia maravilhoso! Num dia igual quele, seis anos atrs, Soames trouxera o jovem Bosinney 
para ver o local, antes de comearem a construo. E fora Bosinney quem fixara o lugar exacto da casa - como June muitas vezes lhe contara. O velho Jolyon andava 
a pensar muito, ultimamente, no rapaz morto, como se o esprito dele estivesse a penar realmente pelo campo do seu ltimo trabalho, na esperana de a ver. Bosinney, 
o nico homem que possura o corao dela, aquele a quem ela se dera toda, num nico impulso! Na sua idade, um homem j no pode, naturalmente, imaginar tais coisas, 
mas um vago sofrimento pungia-o, como se fosse o fantasma de um cime impessoal, e vinha-lhe tambm um outro sentimento mais generoso - d - por aquele amor que 
se perderia to depressa. Tudo acabado dentro de uns escassos meses! Bem, bem. Olhou o relgio antes de entrar no bosque - ainda tinha vinte e cinco minutos de espera! 
E ento, dando a volta ao caminho, o velho Jolyon viu-a sentada exactamente no mesmo local onde a descobrira da outra vez

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- no velho tronco. E compreendeu que ela deveria ter vindo no comboio anterior e j deveria estar sentada ali, sozinha, h umas duas horas. Duas horas da companhia 
de Irene perdidas! Que lembrana lhe tornaria to querido aquele tronco? O rosto dele traa-lhe os pensamentos, porque ela disse-lhe de repente:
- Perdoe, tio Jolyon, foi aqui que eu compreendi pela primeira vez.
- Sim, sim, e est  sua disposio todas as vezes que quiser. Voc est a parecer uma pequena londrina, creio que anda a dar lies de mais.
Espantava-o o facto de Irene ter a obrigao de dar lies. Lies a dinheiro a algumas pequenas que batucavam o piano com os seus dedos grossos!
- Onde  que d as suas lies? - perguntou ele.
- Na maioria, a famlias judias, felizmente.
O velho Jolyon estacou, para todos os Forsyte, os judeus sempre tinham parecido gente estranha e duvidosa.
- Eles gostam de msica e so muito amveis..
-  o melhor que fazem, por So Jorge! - A sua dor de lado feria-o fundamente de vez em quando.
- O senhor j viu coisa igual a estes rannculos? Parecem os mesmos que vi aqui numa outra noite.
Os olhos dela pareciam realmente voar sobre o campo, como abelhas  procura de flores e de mel.
- Eu fiz questo de que voc visse essas flores. Por isso no consenti que trouxessem para aqui as vacas, at agora,
E ento, lembrando-se de que ela viera para falar sobre Bosinney, apontou para a torre do relgio que se via sobre o estbulo:
- Creio que ele no me deixaria pr aquilo ali, se bem me lembro, no tinha noo do tempo.
Porm, Irene, apertando o brao do velho contra si, falou das flores, e ele compreendeu que ela se esforava por lhe demonstrar que no viera apenas com o fim de 
conversar a respeito do seu amante morto.
- A melhor flor que eu posso mostrar-lhe - disse ele, com uma espcie de triunfo -  a minha pequerrucha. Deve estar a chegar da igreja. H nela qualquer coisa que 
me lembra um pouco voc.

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- E no lhe pareceu singular falar assim, em vez de dizer: "H em voc qualquer coisa que me recorda ela." Ah, l vinha a pequerrucha!
Holly, seguida de perto pela sua idosa governanta francesa, cuja digesto fora arruinada para sempre, vinte e dois anos atrs, no cerco de Estrasburgo, caminhava 
em direco a eles, saindo de baixo do carvalho. Parou a uns doze metros de distncia, e ps-se a acariciar Balthasar, como se quisesse dar a entender que era aquele 
o seu nico intento. O velho Jolyon, que a conhecia muito bem, disse:
- Veja, querida, esta  a moa de cinzento que eu lhe prometi. Holly ergueu-se e olhou. Ele espiava as duas, piscando um
pouco: Irene sorria, Holly iniciava um grave inqurito, passando primeiro por um sorriso tmido, depois para outro mais profundo. A garota tinha uma grande noo 
da beleza - sabia muito bem o que era bonito. E o velho deliciou-se ao assistir  troca de beijos entre as duas.
- Mrs. Heron, Mam'selle Beauce. Ento, ManVselle, o sermo foi bom?
Porque agora, que ele j no tinha muito tempo diante de si, a nica parte do servio divino que lhe despertava interesse era a que se relacionava com as coisas 
deste mundo.
Mam'selle Beauce estendeu a mo semelhante a uma aranha calada numa luva de pele preta - ela j vivera no seio das melhores famlias - e os seus olhos doentios 
na face amarelada pareciam perguntar: "A senhora  de boa famlia?" Sempre que Holly ou Jolly faziam algo que lhe desagradava - coisa que no era rara - ela dizia-lhes: 
"Os pequenos Tayleurs nunca fazem isso. So umas crianas muito bem-educadas!" Jolly odiava os pequenos Tayleurs: Holly cismava, desolada, porque seria to diferente 
deles.
" uma pobre alminha cmica, Mam'selle Beauce", pensava o velho Jolyon.
O almoo foi um sucesso, com os cogumelos que ele mesmo apanhara na estufa, os morangos que ele escolhera, e uma outra garrafa de Steinberg encheu-o de uma espcie 
de aromtica espiritualidade e da convico de que no dia seguinte iria ter um novo ataque de eczema. Depois do almoo, sentaram-se sob o carvalho,

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tomando caf turco. Ele no poderia ofender-se com a retirada de Mademoiselle Beauce, que foi escrever a sua carta dominical  irm, cujo futuro, no passado, fora 
ameaado por um alfinete que ela engolira - acontecimento diariamente recordado para estimular as crianas a comer devagar e a digerir o que tinham comido. Nos ps 
do banco, numa almofada de carruagem, Holly e o co Balthasar brigavam e faziam as pazes, e, na sombra, o velho Jolyon, de pernas cruzadas, saboreando magnificamente 
o charuto, fitava Irene, que se sentara no balouo. Luminosa figura, ligeiramente curvada, com o vestido cinzento pintalgado de sol aqui e ali, lbios entreabertos, 
os olhos escuros e mansos sob os clios um pouco descidos. Ela parecia satisfeita. Decerto agradava-lhe ter vindo e estar ali ao seu lado! O egosmo da idade no 
lhe aferrara a sua garra, porque ele ainda podia sentir prazer no prazer dos outros, compreendendo que tudo o que ele queria, embora fosse muito, no era inteiramente 
o que importava.
- Est calmo aqui - falou. - Voc pode entrar, se est a achar montono. Porm  um prazer olh-la. A minha pequerrucha  a nica cara que me d prazer, alm da 
sua.
Pelo sorriso da moa, compreendeu que ela ainda no estava na fase da indiferena por lisonjas, e aquilo tranquilisou-o.
- No  fingimento - insistiu o velho. - Eu nunca disse a mulher nenhuma que a admirava quando isso no acontecia. Na verdade, no sei se jamais eu disse a alguma 
mulher que a admirava, excepto  minha mulher, em tempos muito remotos, e as esposas so sempre engraadas. - Ele ficou silencioso, depois concluiu abruptamente: 
- Ela costumava esperar ouvir-me dizer isso mais vezes do que eu as sentia.- O rosto de Irene parecia misteriosamente perturbado, e, receoso de ter dito qualquer 
coisa penosa, o velho Jolyon mudou de tema: - Quando a minha pequerrucha casar, espero que ela encontre algum que compreenda o que sentem as mulheres. No estarei 
aqui para assistir a isso, porm h excessivas complicaes e mal-entendidos nos casamentos, e no quero que ela lute contra essas coisas. - E, com medo de ter entrado 
em assunto pior, acrescentou: - Esse cachorro vive a coar-se.
Seguiu-se um silncio. Em que estaria a pensar aquela linda
criatura cuja vida fora frustrada?

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Que se realizara no amor e que ainda estava pronta para o amor? Algum dia, quando j houvesse ido embora, talvez, ela encontraria outro companheiro - -no to desordenadamente 
como encontrara aquele louco que se atirara  morte. Ah! E o marido?
- Soames nunca a incomoda? - perguntou ele.
Ela sacudiu a cabea. O seu rosto erguera-se subitamente. Apesar de toda a sua meiguice, havia nele algo de inconcilivel. E um raio de luz, clareando a inexorvel 
natureza das antipatias do sexo, brilhou naquele crebro, que, pertencendo  mais remota civilizao vitoriana - to mais velha que a sua prpria velhice - nunca 
pensara em coisas assim primitivas.
-  uma consolao - disse ele. - Voc, se quiser, pode ver hoje, daqui, o Grand Stand. Quer que demos uma volta?
Atravs do jardim e do pomar, em cujos muros altos se apoiavam pereiras e ameixeiras  procura do sol, atravs dos estbulos, do vinhedo, da estufa de cogumelos, 
dos canteiros de espargos, do roseiral, por toda a parte ele a conduzia, at mesmo  horta, para ver as esbeltas ervilhas verdes cujos rebentos Holly gostava de 
enrolar nos dedos e devor-los depois nas palmas das mozinhas.
Muitas outras coisas deliciosas ele lhe mostrou, com Holly e o co Balthasar a danarem  frente, ou voltando-se para trs em intervalos de ateno. Aquela era uma 
das tardes mais felizes que jamais gozara, porm cansara-o, e ele ficou contente quando se sentou na sala de msica e deixou que Irene lhe servisse o ch. Uma amiguinha 
de Holly chegara de visita, uma pequena loura de cabelos curtos como um menino. E as duas brincavam um pouco mais longe, subindo e descendo a escada e correndo pela 
galeria. O velho Jolyon pediu um pouco de Chopin. Ela tocou uns estudos, mazurcas, valsas, at que as duas crianas, que j brincavam ali perto, puseram-se em p, 
junto do piano - a cabea morena junto da cabea loura - a escutarem. O velho Jolyon olhava-as.
- Dancem um pouco, vocs duas!
Timidamente, com alguns passos em falso, as garotas comearam. Volteando com fora, sem grande prtica,

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elas passavam junto  cadeira do av nos giros da valsa. O velho vigiava-as e  moa que tocava, cujo rosto sorridente se voltava para as danarinas, fazendo-o pensar: 
"H muitos anos que no vejo quadro to encantador!" De repente uma voz exclamou:
- Oli! Mais enfin-qu'est-ce que tu fais l - danser, le dimanche! Viens donc!
As crianas chegaram-se ao velho Jolyon, pois sabiam que ele as protegeria, e fitavam a cara de "flagrante" de Mademoiselle Beauce.
- Melhor o dia, melhor a aco, Mam'selle. O culpado fui eu. Andem, garotas, vo tomar ch.
E quando elas saram, seguidas pelo co Balthasar, que tomava parte em todas as refeies, ele olhou para Irene, piscou o olho e disse:
- E ento? No so engraadinhas? Voc tem algumas alunas assim pequeninas?
- Tenho trs. Duas delas so uns amores.
- Bonitas?
- Lindas!
O velho Jolyon aprovou com a cabea, ele tinha um insacivel interesse pelos pequeninos.
- A minha pequerrucha - disse ele - adora msica. H-de ser uma musicista, mais tarde. Ser que voc poder dar-me a sua opinio sobre as aptides dela?
- Naturalmente posso.
- Ser que voc quereria... - Porm ele abafou o resto da frase: "dar-lhe lies?" Era-lhe desagradvel a ideia de que ela vivia a dar lies, mesmo quando isso 
significava que poderia v-la regularmente. Irene deixou o piano e caminhou at  cadeira dele.
- Quero muito. Porm h... June. Quando  que eles voltam.'' O velho Jolyon franziu o cenho.
- No antes do meado do ms que vem. Mas que significa isso?
- O senhor disse que June me perdoou, porm ela nunca pode esquecer, tio Jolyon.
Esquecer! Ela teria de esquecer, se ele o queria.
Mas, como se lhe respondesse, Irene sacudiu a cabea.

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- O senhor sabe muito bem que ela no o pode, ningum esquece.
Sempre aquele desgraado passado! E ele disse, numa espcie de vexada concluso:
- Bem, veremos isso.
Conversou com ela durante uma hora ou mais, acerca das crianas, de uma centena de pequenas coisas, at que o carro chegou para a levar a casa. E depois que a moa 
partiu, ele voltou  sua cadeira, sentou-se, amassando com a mo longa a face e o queixo, cismando no dia que acabara.
Naquela noite, depois do jantar, o velho Jolyon foi at ao seu escritrio e apanhou uma folha de papel. Ficou um instante a olh-la, sem escrever, depois ergueu-se 
e parou junto  obra-prima Barcos de pesca Holandeses ao pr-do-Sol. No estava a pensar no quadro, mas na sua vida. Cogitava em deixar qualquer coisa para Irene 
no seu testamento, e ideia nenhuma poderia agitar-lhe mais as profundezas do pensamento e da memria. Pensava em deixar a Irene uma parte da sua fortuna, das suas 
aspiraes, das suas aces, das suas qualidades, do seu trabalho - porque fora isso tudo que lhe produzira a fortuna, pensava em deixar-lhe tambm uma parte do 
que perdera na vida, por culpa da sua sadia e rpida procura da fortuna. Ah! Que perdera ele? "Os barcos holandeses" no lhe respondiam nada. Chegou at  sacada, 
e, puxando a cortina para um lado, abriu-a. Soprava um vento forte, e uma das ltimas folhas do ano que haviam escapado  vassoura do jardineiro ia rolando com um 
chiado seco, ao longo do terrao de pedra, na meia luz. Era o nico rumor que se ouvia l fora, aquele leve chiado da folha volante de encontro  pedra, o perfume 
dos heliotrpios, regados de pouco, chegava-lhe do jardim. Um morcego voejou junto  porta. Um pssaro murmurou num gorjeio sonolento. E exactamente por cima do 
carvalho luzia a primeira estrela. Fausto, na pera, trocara a sua alma imortal por alguns anos de juventude. Que mrbida imaginao! Tal troca no  possvel, essa 
 que  a tragdia! Ningum pode rejuvenescer, nem para a vida nem para o amor. Nada nos resta seno gozar a beleza  distncia e deixar-lhe alguma coisa em testamento. 
Porm quanto? E, como se no lhe fosse possvel fazer
tal clculo dentro da suave liberdade da noite campestre, o velho Jolyon voltou-se e caminhou em direco  lareira. L guardava os seus bronzes de estimao: uma 
Clepatra com a vbora no seio, um Scrates, uma cadela brincando com o filho, um atleta segurando pelas rdeas alguns cavalos. "Esses ho-de durar muito!", pensou 
ele, sentindo um choque no corao. Ainda teriam mil anos de vida diante de si!
"Quanto?" Bem, o suficiente, em todo o caso, para a proteger da velhice precoce, para afastar o mais possvel o aparecimento de rugas naquele lindo rosto, a chegada 
das cs naqueles cabelos luminosos. Ele ainda poderia viver uns cinco anos, ela teria ento j mais de trinta. "Quanto?" No corria nela uma gota do seu sangue! 
E, fiel ao teor de toda a sua vida - desde h mais de quarenta anos, desde realmente que se casara e fundara essa misteriosa coisa, uma famlia -, um pensamento 
preveniu-o: "No tem nada do teu sangue, no tem pois direito a nada!" Era um luxo, ento, o seu projecto. Uma extravagncia, um capricho de velho, uma dessas coisas 
absurdamente decididas. O seu real futuro estava entregue queles que tinham o seu sangue, queles em quem viveria, mesmo depois de se ter ido embora. Voltou as 
costas aos bronzes e virou-se para a velha poltrona de couro na qual se sentara sempre e onde fumara tantas centenas de charutos. E subitamente pareceu-lhe v-la 
sentada ali, no seu vestido cinzento, perfumada, macia, fitando graciosamente nele os seus olhos escuros. Porqu? Ela decerto pouco pensava nele. S pensava no seu 
amante morto. Porm sentar-se ali, quer o quisesse ou no, dando-lhe prazer com a sua beleza e a sua graa. Ningum tem direito de infligir a uma mulher a companhia 
de um velho, de lhe pedir que toque para ele, que o deixe contempl-la. E tudo isso por nada! Todo o prazer deve ser pago neste mundo. "Quanto?" Afinal de contas, 
havia dinheiro de sobra. O filho e os trs netos nunca sentiriam falta daquela migalha. Ele prprio o ganhara, praticamente cada penny, poderia deix-lo para quem 
o quisesse, conceder a si mesmo esse pequeno prazer. Voltou  secretria. "Bem. vou deix-los pensar o que quiserem."
E sentou-se.

392 - 393

Quanto? Dez mil, vinte mil - quanto? Se ao menos, com esse dinheiro, ele pudesse comprar um ano, um ms de mocidade! E, agitado por esse pensamento, escreveu rapidamente:

Meu caro Herring:

Acrescente-me um codicilo nestes termos: "Deixo  minha sobrinha Irene Forsyte, cujo nome de solteira, que igualmente usa,  Irene Heron, a quantia de quinze mil 
libras, livre de todos os impostos de herana."

Seu afeioado,

Jolyon Forsyte.

Depois de selar e lacrar o envelope, o velho Jolyon voltou  sacada e aspirou fortemente o ar. Estava escuro, porm muitas estrelas j estavam a luzir.

394


CAPTULO IV.

Acordou s duas e meia - hora que, segundo lhe ensinara uma longa experincia, dava uma intensidade de pnico a todos os pensamentos recalcados. A experincia tambm 
lhe ensinara que o ulterior e normal despertar, s oito horas da manh, mostrar-lhe-ia toda a loucura desse pnico. Naquela madrugada, o pensamento que instantaneamente 
lhe ocorreu foi que, se ficasse doente, o que na sua idade no era impossvel, no poderia v-la. Da ia apenas um passo para a ideia de que tambm se veria afastado 
dela quando o filho e June voltassem da Espanha. Como poderia justificar o seu desejo pela companhia de algum que roubara - e a luz da manh atenuou a palavra - 
que roubara o noivo de June? Esse noivo estava morto, porm June era uma coisinha extremamente teimosa, com o corao ardente. mas obstinado como ao, e, na verdade, 
no era dessas que esquecem. Nos meados do ms seguinte deveriam estar de volta. Tinha pois escassamente cinco semanas para gozar aquele novo interesse do seu final 
de vida. A escurido tornava-lhe absolutamente clara a natureza do seu sentimento. Admirao pela beleza - um desejo veemente de ver aquilo que lhe deliciava os 
olhos. Absurdo, na sua idade! E que outra razo usaria para exigir de June que recalcasse as suas penosas reminiscncias e como evitar que o filho e a nora lhe estranhassem 
aquela excentricidade?
Ver-se-ia reduzido a viajar constantemente para Londres, o que o extenuaria, e a menor indisposio impedi-lo-ia de a ver. Jazia deitado, de olhos abertos, cerrando 
os dentes ante essa perspectiva, chamando-se a si mesmo velho louco,

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enquanto o corao lhe batia ruidosamente e de repente parecia parar de todo. Viu a alvorada iluminar a janela, ouviu o gorjear dos pssaros madrugadores,, escutou 
o canto dos galos, antes de adormecer novamente, acordou fatigado, mas recomposto. Cinco semanas antes de ter de se atormentar representavam uma eternidade, na sua 
idade! Porm o pnico nocturno deixara nele a sua marca, tornara ligeiramente febril a vontade daquele homem que sempre agira ao seu falante. Haveria de v-la tantas 
vezes quantas quisesse! Porque no ir pessoalmente  cidade e entregar o codicilo ao tabelio, em vez de escrever um bilhete? Talvez Irene quisesse ir  pera? Mas 
viajaria de comboio, porque no queria ter aquele gordo e abelhudo Beacon a espi-lo. Os criados so uns idiotas, e, bem ou mal, deveriam estar a par de toda a histria 
de Irene e do jovem Bosinney - os criados sabem de tudo e suspeitam do resto. E o velho Jolyon escreveu ento um bilhete para Irene:

Minha querida Irene:

Tenho de ir  cidade amanh. Se voc quiser ir  pera, venha jantar sossegadamente comigo...
Mas onde? Havia dcadas que ele no jantava em Londres, a no ser no seu clube ou em casas particulares. Ah, aquele lugar novo, junto ao Covent Garden...
.. mande-me uma palavra, amanh de manh, ao Tiedmont Hotel, onde a esperarei, s sete horas. Afectuosamente,

jolyon Forsyte.

Irene compreenderia que ele apenas queria proporcionar-lhe um pequeno prazer, porque instintivamente lhe era desagradvel a ideia de que ela talvez adivinhasse a 
necessidade que sentia de a ver. No era comum ver-se um homem to idoso incomodar-se para olhar uma manifestao da beleza, especialmente se a beleza era mulher.

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A viagem, no dia seguinte, embora curta, e a visita ao advogado, fatigaram-no. Estava tambm muito quente, e depois de se vestir para o jantar deitou-se no sof 
do quarto para descansar um pouco. Deveria ter tido uma espcie de desmaio, porque voltou a si sentindo-se muito esquisito, e com certa dificuldade ergueu-se e tocou 
a campainha. Qu! J passava das sete! E ele ali, e ela decerto  espera! Porm de sbito as tonturas voltaram, e ele viu-se obrigado a voltar ao sof. Ouviu a voz 
da criada perguntar:
- O senhor tocou?
- Sim, venha c. - No podia v-la claramente, passava-lhe uma nuvem em frente dos olhos. - No estou a sentir-me bem, preciso de uns sais volteis.
- Sim senhor. - A voz da mulher parecia assustada. O velho Jolyon fez um esforo.
- Espere a. D este recado  "minha sobrinha... uma senhora que deve estar  espera no hall, uma senhora vestida de cinzento. Diga-lhe que Mr. Forsyte no est 
a sentir-se bem... que tem qualquer coisa na cabea. Que sente muito, e, se ele no aparecer logo, ela no o espere para jantar.
Quando a rapariga saiu, ele pensou febrilmente. "Porque disse eu que era uma senhora de cinzento? Ela pode estar vestida de outra cor. Sais volteis." No pde levantar-se 
de novo, nem teve conscincia de como Irene chegara, estava de p ao seu lado, fazia-o cheirar um frasco de sais volteis, erguia-lhe o travesseiro sob a cabea. 
E ouviu-a perguntar ansiosamente:
- Querido tio Jolyon, que foi?
Tinha a obscura conscincia do suave roar dos lbios da moa na sua mo, ento aspirou longamente os sais, descobriu subitamente novas energias em si e espirrou.
- Ah! - exclamou. - No  nada. Como  que voc veio at aqui? V jantar. Os bilhetes esto na mesa de toilette. Estarei bem dentro de um minuto.
Sentiu na testa a mo fresca da moa, cheirando a violetas, e sentou-se, dividido entre uma espcie de prazer e a determinao de melhorar.
- Ah! Voc est de cinzento! Ajude-me. - E, uma vez em p,

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sacudiu-se um pouco. - Como  que vou sair assim! - E caminhou lentamente para o espelho. - Que cara cadavrica! A voz de Irene, por trs dele, murmurou:
- O senhor no deve sair, tio Jolyon. Deve repousar.
- Qual nada! Uma taa de champanhe pr-me- bom de todo. No posso fazer que voc perca a pera.
Porm a caminhada atravs do corredor foi assustadora. Que tapetes tinham posto com aquelas instalaes novas, to grossos que faziam a gente tropear a cada passo! 
No ascensor, ele percebeu quo preocupada ela estava, e com um fantasma de sorriso disse:
- Estou um lindo hospedeiro!
Quando o elevador parou, ele agarrou-se fortemente, para evitar cair, porm depois da sopa e de uma taa de champanhe sentiu-se muito melhor e ps-se a troar da 
doena que provocara tal solicitude nos modos dela para com ele.
- Gostaria que voc fosse minha filha - disse-lhe subitamente ele. E, vendo o sorriso nos lbios dela, continuou: - Voc no deve viver enterrada no passado, na 
sua idade, deixe isso para quando estiver velha como eu.  bonito o seu vestido, gosto do estilo dele.
- Fui eu mesma que o fiz.
Ah! Uma mulher que conseguia fazer para si um lindo vestido no perdera decerto o seu interesse pela vida.
- Malhe o ferro enquanto est quente - disse ele, estendendo-lhe a taa. - E toque aqui. Gostaria de ver alguma cor no seu rosto. No devemos estragar a vida, no 
se pode fazer isso. Vamos ver hoje uma nova Margarida, esperemos que no seja gorda. E o Mefistfeles.. no creio que seja muito assustador: algum gorducho fingindo 
de Diabo.
Porm acabaram por no ir mesmo  pera, porque, quando se ergueram da mesa, as tonturas dele voltaram e Irene insistiu para que o tio repousasse e fosse deitar-se 
cedo. Quando ele se separou dela,  porta do hotel, depois de pagar ao cocheiro que a levaria at Chelsea, sentou-se durante um instante, para gozar de novo as palavras 
que Irene dissera: "Quero-lhe tanto, tio Jolyon!" Porqu? No podia ser! Ele gostaria de se levantar no dia seguinte,

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para a levar ao jardim zoolgico, porm dois dias da sua companhia poderiam enjo-la mortalmente. No, tinha de esperar at ao prximo domingo. Ela prometera aparecer 
ento. Combinariam as lies de Holly, pelo menos por um ms. J era alguma coisa, Mam'selle Beauce no gostaria muito, porm pouco importava. E, apertando contra 
o peito o seu velho chapu de pera, ele entrou no elevador.
No dia Seguinte, apanhou um carro para a estao de Waterloo, abafando o desejo de dizer: "Passe por Chelsea." Porm o seu senso de proporo era muito forte. Alm 
disso, ainda se sentia abalado, e no queria arriscar-se a outra aberrao como a da vspera, fora de casa, Holly tambm o esperava, e esperava o que ele lhe traria 
na maleta. No que o amor da sua pequerrucha fosse interesseiro - ela era toda amor. Ento, com aquele cinismo amargo dos velhos, perguntou a si prprio, durante 
um segundo, se no era o interesse que aproximava Irene de si. No, ela no era uma mulher dessa espcie. No tinha, coitadinha, a menor noo de como obter a manteiga 
para o po, nenhum senso de propriedade! Alm disso, no lhe dissera uma nica palavra a respeito do codicilo, nem a diria - bastaria que ela o conhecesse depois 
que ele se fosse.
Na estao, dentro da vitria, Holly esperava-o, segurando o co Balthasar, e as carcias dos dois alegraram-lhe a volta para casa. Durante todo o resto daquele 
dia lindo e quente, e na maior parte do dia seguinte, ele sentiu-se alegre e calmo, repousando na sombra, enquanto o sol luminoso banhava de ouro os campos e as 
flores. Porm, na quinta-feira  noite, no seu jantar solitrio, o velho comeou a contar as horas, faltavam sessenta e cinco horas at que ele pudesse ir ao seu 
encontro no bosque e caminhar ao lado dela atravs do campo. Pretendera consultar o mdico a respeito da sua dor do lado, mas decerto insistiria para mant-lo em 
repouso, e no pretendia deixar-se amarrar pela perna, no queria que lhe falassem em doenas - se lhe chegara a molstia, no tomaria conhecimento dela - agora 
que este novo interesse lhe surgira. E evitou cuidadosamente fazer qualquer referncia  doena na carta que escreveu ao filho. S conseguiria, se o fizesse, que 
eles voltassem imediatamente. E nunca cogitou em descobrir

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se o seu silncio visava poupar o prazer deles ou se visava antes proteger o seu prprio prazer.
Naquela noite, no escritrio, o velho Jolyon acabara o charuto e estava a dormitar quando ouviu o roagar de um vestido e pareceu-lhe sentir o cheiro de violetas. 
E, abrindo os olhos, viu-a, em p junto  lareira, de braos erguidos. O engraado  que os braos da moa no pareciam segurar nada, estavam curvados como se rodeassem 
o pescoo de algum, e o pescoo dela estava deitado para trs, os lbios entreabertos, os olhos fechados. Desapareceu de sbito e ficaram visveis apenas a lareira 
e os bronzes. Mas quando ela estava ali no havia nem lareira nem bronzes, apenas o fogo e a parede! Abalado, perturbado, ergueu-se. "Tenho de tomar um remdio", 
pensou. "No estou a sentir-me bem." O corao batia-lhe depressa de mais e sentia uma sufocao no peito. Caminhando para a janela, escancarou-a. Um co uivava 
l longe, decerto um dos ces da granja de Gage, para alm do bosque. Uma noite linda, mas escura. "Estive a sonhar", murmurou ele. "Mas juraria que os meus olhos 
estavam abertos." Um som, semelhante a um soluo, pareceu chegar em resposta.
-- Que  isto? - perguntou o velho asperamente. - Quem ?
Levando a mo ao peito, para deter as pancadas do corao, caminhou at ao terrao. Uma coisa macia correu na escurido. Era o grande gato cinzento. "O moo Bosinney 
parecia um gato", pensou o velho. E era ele que estava ali... quando ela estava... Ele ainda a dominava! Andou at ao fim do terrao e olhou atravs da escurido, 
mas via apenas a sombra clara das boninas no campo, sem luar que o clareasse. Estar aqui hoje, e ir embora amanh! E l vinha a Lua, que os via com tristezas! Breve 
chegaria a sua vez. Por um nico dia de mocidade daria tudo o que lhe restava. E caminhou novamente para casa. Dali podia ver as janelas do quarto de dormir das 
crianas. A sua pequerrucha deveria estar a dormir. "Espero que aquele cachorro no a acorde", pensou o av. "Que  que nos faz amar e nos faz morrer? Devo ir para 
a cama."
E tornou a atravessar o terrao, cujas pedras a luz acinzentava.

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CAPTULO V.

Como poderia um velho passar os seus dias, se no sonhasse com as coisas boas do passado? Nessas lembranas no h nenhuma agitao, nenhum calor, apenas a plida 
irradiao de um sol de Inverno. O frgil envoltrio do velho pode muito bem suportar a suave trepidao dos dnamos da memria. O presente no lhe merece confiana, 
o futuro escapa-lhe. De sob a sombra espessa fica a vigiar o brilho do sol que lhe toca os ps. E se h sol de Vero em Novembro, no o deixeis aventurar-se sob 
os seus raios, supondo que  apenas um sol de Outono! Isso f-lo desaparecer, lenta, suave, imperceptivelmente, at que a impaciente Natureza, agarrando-o pela garganta, 
o arrastasse para a morte, em plena madrugada, antes que o mundo comeasse a despertar. E gravariam na lousa da sepultura: "Na fora da idade." Sim! Um Forsyte, 
se consegue preservar os seus princpios em perfeita ordem, pode viver depois de morto.
O velho Jolyon tinha conscincia de tudo isso, e havia a mais, dentro dele,, algo que transcendia o forsytismo. Porque est escrito que um Forsyte no pode amar 
a beleza mais que a razo, nem os seus caprichos mais que a sua sade. E pulsava dentro dele, naqueles dias, qualquer coisa que lhe abalava o frgil envoltrio. 
A sua sagacidade bem o percebia, porm ela percebia tambm que no lhe estava nas foras parar aquele pulsar, nem o queria, se o pudesse. E mais ainda: se algum 
lhe dissesse que ele estava a viver do seu capital, encararia espantado esse algum.

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No, no, um homem no pode viver do seu capital. Isso no se faz!
As aluses do passado eram sempre mais reais do que as actualidades do presente. E ele, para quem a sugesto de viver do capital seria um antema, no suportaria 
a ideia de ter incorrido em antema no seu prprio caso. O prazer  sadio, a beleza  boa de olhar, e viver com a juventude dos moos - no era seno isso o que 
estava a fazer!
Metodicamente, como sempre procedera em toda a vida, arranjou agora o seu tempo. Nas teras-feiras ia at  cidade, de comboio, Irene vinha jantar com ele. Depois 
iam  pera. Nas quintas-feiras ia  cidade de carro, largava por l o gordo espio e os seus cavalos, ia encontrar a moa em Kensington Gardens. apanhando a carruagem 
depois que a deixava e voltando para casa ainda a tempo de jantar. E explicava negligentemente que tinha negcios em Londres nesses dois dias. Nas quartas e domingos 
ela vinha para dar lies de msica a Holly. E quanto maior era o prazer que ele tinha na companhia dela, tanto maior o escrupuloso cuidado que empregava em manter-se 
apenas na sua amigvel posio de velho tio. No, nem mesmo intimamente, na verdade, se imaginara mais que isso, porque, afinal de contas, l estava a sua idade 
a det-lo. E entretanto, quando a moa se atrasava, afligia-se mortalmente. Se ela deixava de vir, o que aconteceu duas vezes, os seus olhos ficavam tristes e mortios 
como os de um co velho, e punha-se a dormitar.
E assim se passou um ms, um ms de Vero nos campos e no seu corao, com o calor do Vero e a fadiga decorrente. Quem poderia acreditar algumas semanas atrs que 
ele pudesse encarar a volta do filho e da neta com tanto pavor? Era to deliciosa a liberdade, a recuperao da independncia de que um um homem goza antes de fundar 
uma famlia, naquelas semanas de temperatura adorvel e de novel companheirismo, no qual um dos companheiros no pedia nada e permanecia sempre um pouco desconhecido, 
retendo em si toda a fascinao do mistrio! Era como um trago de vinho, para ele que vinha a beber gua h tanto tempo, e j quase esquecera o estmulo para o sangue 
e o narctico para o crebro que o vinho lhe trazia. As flores tinham

um colorido mais brilhante, os perfumes, a msica e a luz do sol tinham um valor vivo - j no eram simples recordaes de prazeres remotos. Havia agora alguma coisa 
a viver, cuja previso o agitava continuamente. E o velho Jolyon vivia daquilo, no da saudade, e a diferena  considervel para algum to velho como ele. Os prazeres 
da mesa, nunca muito importantes para quem j era naturalmente abstmio, perderam de todo o valor. Comia pouco, sem reparar no que comia, e cada dia parecia mais 
magro e mais abatido. Tornara-se de novo o "magricela", e a fronte macia, com as tmporas fundas, dava mais dignidade ainda quela delgada silhueta. Ele sabia muitssimo 
bem que lhe era indispensvel consultar um mdico, porm a liberdade era to doce! E no suportava a ideia de cuidar da sua dor de lado e da dispneia em troca da 
sua liberdade. Voltar  existncia vegetativa que levara, entre os jornais de agricultura, de gravuras coloridas, tal como vivia antes que esta nova atraco lhe 
penetrasse na vida - no! Excedeu a sua dose de charutos, sempre se limitara a dois por dia. Agora fumava trs, e s vezes quatro-- o que um homem faz quando est 
cheio do esprito criador. Porm muitas vezes pensava: "Devo deixar de fumar e de tomar caf, devo acabar com essas viagens  cidade." Mas no o fazia. No havia 
pessoa alguma que pudesse ter alguma autoridade sobre ele, e isso era uma ddiva inaprecivel. As criadas talvez se espantassem, porm eram naturalmente mudas. Man'selle 
Beauce vivia muito preocupada com a sua prpria digesto e era "muito bem-educada" para fazer aluses pessoais. Holly ainda no tinha olhos para distinguir as mudanas 
de fisionomia daquele que era o seu brinquedo e o seu deus. Restava pois Irene, Irene, para lhe pedir que comesse um pouco mais, que repousasse nas horas quentes 
do dia, que tomasse um tnico, etc. Mas a moa no lhe disse que era ela prpria a causa daquela magreza, pois ningum pode enxergar os estragos que causa. Um homem 
de oitenta e cinco anos j no tem paixes, porm a Beleza que produz as paixes age  maneira de sempre, at que a morte feche os olhos que imploraram o direito 
de a contemplar.
No primeiro dia da segunda semana de Julho o velho Jolyon recebeu uma carta do filho, vinda de Paris,


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informando-o de que estariam todos de volta na sexta-feira. Aquilo sempre fora mais certo que o Destino, mas, com a pattica imprevidncia dos velhos, imprevidncia 
que devem suportar at ao fim, ele nunca admitira inteiramente essa eventualidade. Agora tinha de a admitir, e alguma coisa deveria ser feita. J no era capaz de 
imaginar a vida sem aquele novo interesse, mas aquilo que no  imaginado s vezes existe, como perpetuamente e  sua prpria custa os Forsyte estavam sempre a descobrir.
Sentou-se na sua velha cadeira de couro, dobrando a carta nas mos e apertando nos lbios o resto de um charuto apagado. Depois de amanh tinham de ser abandonadas 
as suas expedies de quarta-feira  cidade. Poderia talvez ir ainda uma vez por semana, a pretexto de ver o procurador. Mas tudo dependeria da sua sade, porque 
agora iriam todos fazer barulho ao seu redor. E as aulas de msica? As aulas teriam de acabar? Ela poderia abrir mo dos seus escrpulos, e June podia muito bem 
pr os seus sentimentos no bolso. Fizera-o uma vez, no dia da morte de Bosinney, e o que ela fizera ento poderia certamente repetir agora. J se haviam passado 
quatro anos depois que aquele insulto lhe fora infligido - e no  prprio de um cristo alimentar velhos rancores. A vontade de June era forte, porm a dele era 
mais forte ainda, porque a areia da sua ampulheta j estava quase escoada.
Irene era dcil, e decerto concordaria em fazer isso por ele, preferindo dominar os seus receios a faz-lo sofrer! As aulas deveriam continuar. Enquanto continuassem, 
ele estava seguro. E, acendendo afinal o charuto, o velho Jolyon comeou a procurar maneiras de informar os seus da estranha intimidade que se desenvolvera entre 
si e Irene. Como velar e encobrir a nua verdade - que ele no podia ser privado do espectculo da beleza? Ah! Holly! Holly ficara, louca por ela, Holly gostava muito 
das aulas. Ela  que iria salv-lo, a sua pequerrucha! E com aquele pensamento feliz acalmou-se e admirou-se de se ter assustado tanto. No devia assustar-se, porque 
depois sentia-se curiosamente fraco, como se s estivesse presente pela metade no seu corpo.
Naquela noite, depois do jantar, teve uma volta das tonturas, embora no desmaiasse. No tocou a campainha, porque sabia que
isso provocaria um alarme e tornaria mais escandalosa a sua ida a Londres no dia seguinte. Quando a gente envelhece, o mundo inteiro conspira para nos limitar a 
liberdade, e por que razo? Para nos manter o flego no peito durante um pouquinho mais de tempo. Pois ele no queria viver por tal preo. S o co Balthasar testemunhou 
a sua lenta melhora desse ataque, vigiou ansiosamente o dono, que foi at ao armrio e tomou um trago de brandy, em vez de lhe dar um biscoito. Quando afinal se 
sentiu capaz de subir as escadas, o velho Jolyon foi para a cama. E, embora ainda um pouco abalado, na manh seguinte o pensamento na tarde sustinha-o e dava-lhe 
energia. Era sempre uma alegria oferecer um bom jantar a Irene - ele desconfiava que ela se alimentava mall quando estava s-, e na pera era um prazer ver os olhos 
dela animarem-se e brilhar, ver-lhe o inconsciente sorriso nos lbios. Ela no tinha muitos divertimentos, e era aquela a ltima vez que a poderia convidar. Porm, 
quando estava a preparar a maleta, surpreendeu-se ao descobrir que preferiria no ter de enfrentar o trabalho de se vestir para o jantar e o esforo de falar a Irene 
acerca da chegada de June.
Naquela noite a pera era Carmen e ele escolheu o ltimo entreacto para lhe dar as notcias, deixando-as instintivamente para o derradeiro momento. Irene ouviu-as 
serenamente, silenciosamente. E ele no pde saber como ela recebera a comunicao, pois a orquestra comeou a tocar e o silncio imps-se. A mscara de sempre cobria-lhe 
a face, aquela mscara por trs da qual se escondia tanta coisa que ele no podia ver. Sem dvida, ela precisava de tempo para pensar! No queria apress-la, porque 
Irene deveria vir dar a sua aula no dia seguinte  tarde, quando j estivesse habituada  ideia. No carro, falou apenas na Carmen: j vira melhores, noutro tempo, 
porm aquela no era m de todo. Quando lhe segurou a mo para dizer-lhe "boa noite", ela avanou silenciosamente o rosto e beijou-lhe a fronte.
- Adeus, tio Jolyon. o senhor foi to bom para mim!
- Ento at amanh - disse ele. - Boa noite. Durma bem. Ela repetiu docemente:
- Durma bem!
E atravs da janela do cab, que j rodava, ele viu o rosto da moa,

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acompanhando-o com o olhar, e a mo agitando-se num adeus demorado.
Subiu lentamente ao quarto do hotel. Nunca lhe davam o mesmo, de maneira que ele jamais se podia habituar queles quartos de dormir novos em folha, com os mveis 
novssimos e tapetes de um verde cinzento, semeados de rosas vermelhas. Sentia-se insone e a Habanera ressoava-lhe na cabea. O seu francs nunca lhe chegara para 
apanhar todas as palavras, porm conhecia o sentido da letra - se  que tem algum sentido essa coisa de ciganos, selvagem e inexplicvel. Mas o facto  que existe 
na vida algo que derruba todos os nossos planos e cuidados - algo que faz que homens e mulheres dancem ao som da sua gaita. E ele continuava deitado, com os olhos 
fundos abertos para a escurido, donde estava suspenso o inescrutvel, aquilo. A gente pensa que deteve a vida entre as mos, no entanto, aquilo desliza-nos para 
as costas, segura-nos pela nuca, sacode-nos para l e para c, e depois, sem se saber como, espreme a vida de dentro de ns! Ele no se admiraria se aquilo ousasse 
estender a mo s prprias estrelas, esfregar-lhes o nariz, uma contra a outra, e arroj-las aos pares pelo espao! Aquilo nunca se cansava de fazer das suas. Cinco 
milhes de pessoas vivem nesta bablica cidade, e todas elas  merc dessa Fora de Vida, como um alqueire de ervilhas secas que esperam ser debulhadas. Ah, ora 
pois! Ele  que no teria de esperar muito. E um bom sono haveria de fazer-lhe bem.
Como fazia calor ali! Como fazia barulho! A fronte do velho Jolyon ardia, ela beijara-lhe a fronte exactamente onde ele sempre o desejara, era como se ela soubesse 
do lugar exacto e quisesse beij-lo ali, para varrer os maus cuidados. Mas os lbios dela haviam deixado como uma queimadura dolorosa. Ela nunca falara com aquela 
voz, nunca lhe fizera aquele gesto demorado, nem olhara para trs, para ele, quando se ia embora. Ergueu-se da cama e afastou as cortinas, o quarto dava para o rio. 
Havia pouco ar, porm a viso daquele lenol, fluente, calmo, eterno, pacificou-o. "O principal", pensou ele, " no me tornar um mal para mim mesmo. Vou tratar 
de pensar na minha pequerrucha e dormir." Mas ainda demoraria muito

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para que o calor e a trepidao nocturna de Londres morressem no curto repouso da madrugada de Vero. E o velho Jolyon mal conseguiu dormitar.
Quando chegou a casa, no dia seguinte, encaminhou-se para o jardim, e, auxiliado por Holly, que era extremamente jeitosa no trato das flores, apanhou um grande ramo 
de cravos. Destinavam-se, informou ele  pequenina, " moa de cinzento", nome que os dois davam a Irene. E ele p-los num vaso, no seu escritrio, onde esperava 
reter Irene no momento da chegada, para lhe falar a respeito de June e das futuras lies. O cheiro e a cor das flores ajudariam a conversa penosa. Depois do almoo, 
deitou-se um pouco, porque se sentia muito cansado, e a carruagem no a traria da estao antes das quatro horas. Mas comeou a ficar inquieto quando a hora se aproximou, 
e subiu  sala de aula, donde se avistava a estrada. As cortinas estavam descidas, Holly e Mademoiselle Beauce, protegidas do calor abafante daquele dia de Julho, 
cuidavam dos bichos-de-seda. O velho Jolyon tinha uma antipatia especial por aqueles bichos metdicos, cuja cabea e cuja cor lhe lembravam minsculos elefantes, 
que esburacavam impiedosamente as lindas folhas verdes e desprendiam um cheiro insuportvel. Sentou-se num banco forrado de cretone, junto  janela, donde podia 
avistar a estrada e gozar a frescura. O co Balthasar, que gostava daquele banco, nos dias quentes, pulou-lhe ao lado. Sobre o pequeno piano, coberto com um pano 
violeta, que de to desbotado j parecia cinzento, espalhavam-se as primeiras flores de alfazema, cujo cheiro enchia a sala toda.
E apesar do fresco, ou talvez por causa dele. a pulsao da vida impressionava-lhe veementemente os sentidos abatidos. Cada raio de sol que penetrava at ali tinha 
um brilho incmodo, o prprio cachorro tinha um cheiro forte, o perfume da alfazema era insuportvel, os bichos-de-seda, coreoveando o dorso esverdeado, pareciam 
terrivelmente vivos, e a cabea escura de Holly, curvada sobre eles, tinha um admirvel brilho sedoso. Coisa maravilhosamente forte e cruel  a vida, quando se  
velho e fraco, parece troar de ns, com a sua multiplicidade de formas, a sua vitalidade palpitante. Nunca lhe ocorrera, at quelas ltimas semanas, essa curiosa 
sensao de estar com metade de si mesmo arrastada na correnteza da vida, e a outra metade, na margem, assistindo quela corrida desenfreada.

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E s quando Irene estava presente perdia essa impresso de desdobramento.
Holly volveu a cabea, apontou o dedinho moreno para o piano - embora apontar com o dedo no fosse prprio de meninas "bem-educadas" -e disse timidamente:
- Olhe a "moa de cinzento)), av, no est bonita hoje? O corao do velho Jolyon deu um salto, e durante um segundo
a sala pareceu-lhe enevoada, depois clareou, e ele disse, com um piscar de olhos,  pequenina:
- Quem a enfeitou?
- Mam'selle.
- Oh! No diga tolices!
Aquela francesa, que mulherzinha tola! Ela ainda no se conformara com a ideia de lhe terem tirado as aulas de msica. Ela que no o ajudaria. A pequerrucha era 
a nica amiga que eles tinham. Mas, afinal, as aulas eram para ela. E ele  que no iria ter cerimnias- cerimnias por coisa alguma. Fez festas no plo quente de 
Balthasar e ouviu Holly dizer:
- Quando a mam chegar, no vai haver mudanas, pois no? O av sabe que ela no gosta de gente estranha.
As palavras da criana pareceram renovar a fria atmosfera de oposio em torno do velho Jolyon e revelar as ameaas existentes  sua recente liberdade. Ah, s lhe 
restava resignar-se a ser um velho,  merc da tirania do amor e do cuidado dos seus. ou ento lutar pela sua nova e preciosa camaradagem. E a luta cansava-o mortalmente. 
Porm aquele rosto magro e gasto endurecia-se na sua determinao, parecendo transformar-se todo na obstinada maxila. Estava na sua casa, tratava dos seus assuntos. 
No faria cerimnias! Olhou para o relgio, magro e velho como ele prprio: possua-o h cinquenta anos. J passava das quatro! E, beijando de passagem o altto da 
cabea de Holly, caminhou para a entrada. Queria apanh-la antes que ela subisse para a lio. Ao primeiro som das rodas, parou, e viu imediatamente que a vitria 
estava vazia.
- O comboio passou, sir. Mas a senhora no veio nele.
O velho Jolyon ergueu para o gordo cocheiro um olhar acerado, como se quisesse enxotar-lhe a curiosidade e desafi-lo a descobrir o amargo desapontamento que sentia.

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Dirigiu-se ao escritrio e sentou-se, trmulo como uma folha. Que significaria aquilo? Ela poderia ter perdido o comboio, porm ele sabia muito bem que isso no 
acontecera. "Adeus, querido tio Jolyon." Porqu "adeus , e no "boa noite..? E aquele adeus dela, demorando-lhe a mo no ar. E o beijo. Que significaria tudo aquilo? 
Apoderou-se dele um alarme veemente e irritante. Ergueu-se e ps-se a andar sobre o tapete turco, entre a janela e a parede. Ela tratava de afast-lo - ele sentia-o 
- e via-se indefeso. Um velho a querer gozar da contemplao de uma beleza! Era ridculo! A idade fechava-lhe a boca, paralisava-lhe a faculdade de lutar. No tinha 
direito a nada que significasse calor e vida. No tinha direito a nada, seno a saudade e tristeza. No poderia fazer splicas a Irene, pois at um velho tem a sua 
dignidade. Indefeso! Durante uma hora, esquecido da fadiga fsica, passeou de l para c. em torno do vaso de cravos que colhera e cujo perfume parecia um escrnio. 
Entre todas as coisas difceis de suportar, o abatimento da fora de vontade  uma das mais difceis, para algum que sempre agiu como entendia. A Natureza prendera-o 
na sua rede, e, como um peixe apanhado, ele debatia-se entre as malhas, aqui e ali, sem encontrar uma sada, um ponto fraco. s cinco horas trouxeram-lhe o ch e 
uma carta. Durante um momento a esperana possuiu-o: cortou o envelope com a faca da manteiga e leu:

Querido tio Jolyon,

-me insuportvel a ideia de que estou a escrever qualquer coisa que o vai desapontar, mas ontem  noite no tive coragem para lhe falar francamente. Sinto que no 
posso mais ir a, e dar aulas a Holly, agora que June est de volta. Certas coisas so profundas de mais para ser possvel esquec-las. Era-me uma alegria to grande 
v-lo e  Holly. Talvez eu ainda possa v-la, algumas vezes, quando o senhor vier at aqui. embora tenha a certeza de que as viagens lhe fazem mal, tenho verificado 
que o fatigam muito. Creio que o senhor deve manter-se no maior repouso possvel,

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durante este tempo de Vero, e agora, que tem de volta o seu filho e June, h-de sentir-se feliz. Obrigada um milho de vezes por todo o afecto que me tem proporcionado.

Carinhosamente,

Irene.

Ento era isso! No fazia bem, a ele, sentir-se feliz e gozar daquilo a que dava o maior valor, no lhe fazia bem a tentativa de afastar o pensamento do inevitvel 
fim de todas as coisas, da aproximao da morte nos seus furtivos e silenciosos passos. No lhe fazia bem! Nunca ela compreendera, ento, que era o seu ltimo interesse 
na vida, a encarnao de toda a beleza, que sentia fugir de si!
O ch esfriou, o charuto ficou apagado, e ele continuava a passear, acima e abaixo, girando em torno da sua dignidade e do seu agarramento  vida. Era intolervel 
sentir-se lentamente abafado, sem poder dizer uma palavra, continuar a viver quando a nossa vontade est nas mos dos outros, dobrando-nos ao peso de cuidados e 
de amor. Intolervel! Ele queria ver o que aconteceria se dissesse a verdade a Irene - a verdade: que preferia continuar a v-la do que continuar a viver. Sentou-se 
 sua velha secretria e agarrou a caneta. Porm no podia escrever. Havia algo de revoltante em ter de suplicar tal coisa, suplicar que ela continuasse a aquecer-lhe 
o olhar com o espectculo da sua beleza. Seria o mesmo que confessar uma demncia. No podia realmente fazer isso. E escreveu pois:

Eu esperava que a lembrana de velhos desgostos no viesse antepor-se ao que representava uma alegria e um benefcio para mim e para a minha netinha. Mas os velhos 
devem aprender a recalcar a sua vontade, so obrigados a isso, e at mesmo a vontade de viver tem de ser recalcada, cedo ou tarde. E, talvez, quanto mais cedo, melhor.

Com grande carinho,

Jolyon Forsyte.

"Muito amargo", pensou. "Mas no posso evit-lo. Estou cansado." Selou um envelope e p-lo na caixa, para apanhar o correio da tarde, e, ouvindo a carta cair, pensou: 
"L vai tudo o que eu mais queria!)
Nessa noite, depois do jantar, em que mal tocou, e do charuto, que deixou meio queimado, porque lhe provocava tonturas, subiu vagarosamente a escada e entrou como 
um ladro na nursery. Sentou-se junto  janela. Uma lamparina estava acesa, e ele mal podia ver o rostinho de Holly, com uma das mos sob a face Um bezouro zumbia 
no papel japons com que tinham coberto a gelosia e um dos cavalos na cocheira pateava inquieto. Ah, dormir como aquela criana! Afastou um pouco duas pregas da 
cortina e olhou para fora. A Lua ia subindo, cor de sangue. Jamais vira uma Lua to rubra. Os bosques e os campos tambm estavam a dormir, nos ltimos e apagados 
clares de Vero. E a beleza povoava-os, tal como um esprito. "Tive uma longa vida", pensou ele. "Tive o melhor de quase tudo. Sou um ingrato, vi muita beleza enquanto 
vivi. O pobre Bosinney disse que eu tinha o sentimento da beleza. L est um homem na Lua!" Veio uma mariposa, outra, mais outra. "Moas de cinzento!" Fechou os 
olhos. Acometeu-o o sentimento de que nunca mais os abriria: e deixou-se ir, deixou-se afundar, ento, com um arrepio, ergueu as plpebras. Qualquer coisa devia 
estar a funcionar mal dentro dele. decerto, profundamente mal: devia ter consultado o mdico, afinal de contas. J agora, no importava muito! L no bosque, o luar 
j se devia ter insinuado, haveria sombras, e essas sombras seriam as nicas coisas despertas. Nem pssaros, nem animais, nem flores, nem insectos: s as sombras 
se moveriam. "Moas de cinzento!" Deslizariam por sobre o tronco cado, e, juntas, trocariam murmrios. Ela e Bosinney! Pensamento cmico! E os sapos haveriam de 
sussurrar tambm, tal como o relgio sussurrava ali dentro.

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Era tudo fantstico - l fora,  luz daquela Lua vermelha: e aqui dentro, com a pequena luz firme da lamparina, o tiquetaque do relgio, o avental da ama, pendente 
do ngulo do biombo, alto, igual a um vulto de mulher. "Moas de cinzento!" E um singularssimo pensamento apossou-se dele: "Ser que ela existe? Ser que ela realmente 
apareceu?" Ou seria apenas uma emanao de toda
a beleza que ele amara e que deveria abandonar to depressa? Um esprito vestido de lils e cinzento, de olhos escuros e coroado de cabelos cor de mbar, que vagueava 
por ali, pela madrugada e nas noites de luar, no tempo das campnulas? Que era ela, quem era ela, se realmente existia? O velho ergueu-se e ficou de p um momento, 
agarrando-se  umbreira da janela, para manter ainda um certo sentido da realidade, depois caminhou na ponta dos ps em direco  porta. Parou junto  cabeceira 
da cama, e Holly, como se tivesse conscincia dos olhares do av fixos em si, mexeu-se, suspirou e enroscou-se mais, como defendendo-se. Ele continuou na ponta dos 
ps, e atravessou a entrada escura, atingiu o seu quarto, despiu-se logo, e parou, defronte a um espelho, vestido na camisa de dormir. Que espantalho - que tmporas 
fundas, que pernas finas! Mas os olhos resistiram-lhe  prpria imagem, e um olhar de orgulho iluminou-lhe o rosto. Tudo estava coligado para o abater, at mesmo 
o seu prprio reflexo no espelho, porm ele ainda no estava cado, ainda no! Dirigiu-se  cama, e ficou deitado um tempo enorme, sem dormir, procurando encontrar 
resignao. Mas apenas sentia a conscincia de que aquela aflio, aquele desapontamento, lhe faziam muito mal.
Levantou-se no dia seguinte to descorado e sem foras que mandou chamar o mdico. Depois de o auscultar, de cara sombria, o doutor ordenou-lhe que ficasse de cama 
e suspendesse o fumo Aquilo no era difcil. J no tinha nada a deixar, e, quando se sentia doente, o charuto perdia o sabor. Passou languidamente a manh, com 
os estores descidos, revirando nas mos o Times, sem ler quase nada,, com o co Balthasar deitado aos ps da cama. Junto  bandeja do almoo trouxeram-lhe um telegrama 
com estes dizeres:

Recebi a sua carta, espere-me hoje  tarde s quatro e meia.

Irene.

Esper-la! Depois de tudo! Ento ela existia -e ele no fora abandonado? Ela vinha! Um novo ardor animou-lhe o corpo, as faces e a testa aqueceram-se-lhe. Comeu 
a sopa. empurrou a mesinha,

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e ficou deitado, silencioso, at que removeram o almoo e o deixaram s: mas os seus olhos j piscavam animadamente de novo. Ela vinha! O corao batia-lhe mais 
depressa, e s vezes parecia no bater de todo. s trs e meia levantou-se e vestiu-se decidida e silenciosamente. Holly e Mam'seille deviam estar na sala de aula, 
e as criadas deveriam na certa estar a dormitar a sua sesta. Abriu cuidadosamente a porta e desceu para o andar trreo. No hall, o co Balthasar estirava-se ao cho, 
solitrio, e, acompanhado por ele, o velho Jolyon atravessou o seu escritrio e saiu para a tarde ensolarada. Tencionava ir at l fora e encontr-la no bosque, 
mas sentiu logo que no lhe seria possvel tal esforo com o calor que fazia. Sentou-se sob o carvalho, junto ao balouo, e o co Balthasar, que tambm sentia calor, 
deitou-se-lhe aos ps. O velho Jolyon ficou sentado, sorridente. Que minutos resplandecentes! Quantos zumbidos de insectos e arrulhos de pombos! Era como a quinta-essncia 
de um dia de Vero. Adorvel! E ele sentia-se feliz. Feliz como um menino.
Ela vinha, no o abandonara! Ele tinha tudo o que quisera na vida, excepto um pouco mais de flego, um pouco menos de peso no peito - s um pouco! Queria v-la quando 
ela emergisse da ternery, caminhando um pouquinho inclinada - um vulto de cinzento-lils, passando por entre as margaridas e os dentes-de-leo do campo, entre as 
plantas com as suas corolas floridas. Ele no se moveria, porm ela chegaria at ele e diria: "Querido tio Jolyon, sinto muito!" E sentar-se-ia no balouo e deix-lo-ia 
ajudh-la e dizer-lhe que no passara muito bem, mas que agora se sentia esplndido, e que o cachorro queria lamber-lhe a mo. O cachorro sabia que o dono a adorava, 
era um bom cachorro.
J estava inteiramente sombrio sob a rvore, o sol no podia chegar at ele, podia apenas fazer que o resto do mundo ficasse to brilhante a ponto de deix-lo enxergar 
o Grand Stand de Epson l alm, muito longe, e as vacas pastando e tangendo as moscas com a cauda. Aspirou o cheiro dos limoeiros e da alfazema. Ah, era por isso 
que havia ali uma tal quantidade de abelhas. Estavam excitadas, ocupadas, tal como o seu corao estava ocupado e excitado. Sonolentas tambm,, sonolentas e embriagadas 
de mel e de felicidade, tambm o seu corao estava embriagado e sonolento.

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"Vero,
Vero", pareciam dizer as grandes abelhas, as abelhas pequeninas, at as moscas!
O relgio do estbulo bateu quatro horas, dentro de meia hora ela estaria ali. Ele iria dormitar s um pouquinho, j que dormira to pouco durante a noite, e depois 
ficaria repousado para v-la, repousado para a juventude e para a beleza que o vinha procurar atravs do campo ensolarado - a moa de cinzento! Encostando-se  cadeira, 
fechou os olhos. Um floco de paina veio voando e pousou-lhe nos bigodes, mais brancos do que ele prprio. O velho Jolyon no o notou, mas o seu sopro aspirou-o e 
deteve-o ali. Um raio de sol atingiu-lhe os ps.  Uma vespa ps-se a percorrer a copa do seu chapu panam. E uma deliciosa onda de sono atingiu o crebro que estava 
sob o chapu, a cabea inclinou-se para a frente e pousou sobre o peito. "Vero, Vero.", parecia dizer o zumbido.
O relgio do estbulo bateu quatro e um quarto. O co Balthasar estirou-se e olhou para o dono. O floco de paina no se movia mais. O co deps o focinho sobre a 
botina banhada de sol. O p no se moveu. O co recolheu o focinho rapidamente, saltou para o colo do velho Jolyon, fitou-lhe o rosto, ganiu, saltou depois para 
o cho, sentou-se sobre as patas traseiras, ficou a olh-lo. E de sbito soltou um longo e desolado uivo.
Mas o floco de paina continuava como morto, to morto quanto o rosto do seu velho dono.
Vero, Vero, Vero! Passos silenciosos sobre a relva!


FIM DO PRIMEIRO VOLUME


Data da Digitalizao


Amadora, Junho de 2005
